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É perigoso tomar hormônio?

A resposta é “depende”. Depende da situação, depende que tipo de hormônio. Alguns gostam (até demais) de usar hormônios, outros precisam e têm medo.  Nesse post, vamos discutir quais as principais situações em que os hormônios são indicados ou contra-indicados.

Hormônio: anjo ou demônio?

Reposição, suplementação, modulação e terapia hormonal

Reposição

Em linhas gerais, a REPOSIÇÃO HORMONAL é bem-vinda. Reposição entenda-se quando há real deficiência da produção dos hormônios das próprias glândulas. Como principais exemplos, temos a reposição de insulina no diabetes tipo 1. A insulina, nesse caso, é fundamental para sobrevivência; A reposição de hormônio tiroidiano no hipotireoidismo é importantíssima para o metabolismo.

Outros exemplos de reposição hormonal cabem bem para os hipogonadismos. O hipogonadismo masculino é a deficiência de testosterona (deficiência mesmo) e hipogonadismo feminino é a deficiência de hormônios sexuais femininos em idade reprodutiva. Para esses tipos de hipogonadismo, a a reposição dos respectivos hormônios sexuais é também muito importante.

Na endocrinopediatria, outro grande exemplo de doença com necessidade de reposição hormonal é a deficiência de hormônio de crescimento.

Dessa forma, o diabetes tipo 1, o hipotireoidismo, o hipogonadismo e a deficiência de hormônio de crescimento são exemplos nos quais a REPOSIÇÃO HORMONAL é indicada.

Suplementação

Já a SUPLEMENTAÇÃO hormonal é bastante discutida e pode ser prejudicial. Seriam os casos onde não há deficiência hormonal ou os níveis hormonais não atingem critério para indicar o tratamento. O exemplo mais popular de é a suplementação de testosterona em homens e a suposta “reposição” desse hormônio em mulheres para aumentar o desejo sexual e massa muscular.

O uso abusivo de testosterona em homens leva a uma série de complicações. Para as mulheres, nós, “endocrinologistas raiz”, não nos preocupamos com a testosterona baixa, mas sim com o excesso desse hormônio. Também recriminamos o uso de hormônio de crescimento para quem não tenha deficiência comprovada.

“Modulação hormonal”

A MODULAÇÃO HORMONAL é uma tipo de terapia que as sociedades de encrinologia não reconhecem. Na verdade, repudiamos esse tipo de prática. A Síndrome da Fadiga Adrenal para nós não existe, por exemplo. Para esse tipo de “problema” a administração de cortisol sem que haja deficiência, pode levar a quadro de Síndrome de Cushing e sem dúvida é prejudicial.

Hormonioterapia para transgêneros e Terapia Hormonal na menopausa

Há terapias hormonais para pessoas transgêneros que fogem um pouco dos exemplos dados acima. Outra terapia que vêm sempre à lembrança quando se fala em hormônio é a terapia na menopausa (não se usa mais o termo “terapia de reposição hormonal ou TRH”). No primeiro exemplo, os hormônios sexuais do sexo biológico oposto são utilizados para afirmação de gênero nos transsexuais. No segundo caso, não há uma real deficiência, já que a menopausa é um fenômeno fisiológico, mas algumas mulheres podem ter redução considerável da qualidade de vida e a administração de hormônios é indicada em situações específicas e sem fins estéticos.

A HORMONIOTERAPIA para afirmação de gênero é realizada por uma equipe multidisciplinar treinada e a TERAPIA HORMONAL (TR) na menopausa deve ter monitorização periódica de mamas e útero. Na minha prática, não faço nenhum desses dois tipos de terapia hormonal, a primeira por não estar inserida numa equipe multidisciplinar própria e a segunda por não me sentir treinada o suficiente para detectar precocemente potenciais complicações da terapia hormonalm, como é o câncer de mama e endométrio.

Pegando o gancho no risco de câncer de mama na TR, essa CONTROVERSA complicação da terapia hormonal leva muitas mulheres a temer qualquer tipo de hormônio. Os hormônios para TR evoluíram bastante e é discutivel que as novas dosagens e novas formulações aumentem o risco de câncer. Entretanto, esse fantasma ficou no imaginário coletivo. Não é nada raro que muitas pacientes tenham receio de tomar hormônio de tireoide por acharem que é perigoso tomar ‘hormônio”, pois eles podem levar a casos de câncer. O hormônio de tireoide não tem nenhuma associação com câncer.

Hormônios “idênticos”, sintéticos e bioidênticos

Hormônios “idênticos”

Os hormônios utilizados na reposição hormonal podem ser idênticos aos produzidos pelas glândulas. As insulinas humanas, a levotiroxina, o estradiol, progesterona e o hormônio de crescimento são exemplos de hormônios iguais aos produzidos pelo pâncreas, tireoide, ovários e hipófise, respectivamente. Eles são os verdadeiros hormônios bioidênticos, mas resolvi usar o termo “idênticos” para diferenciar do que é utilizado para os hormônios manipulados, que serão comentados posteriormente.

Infelizmente, a reposição hormonal em casos de deficiência pode chegar muito próximo, mas ainda não é suficiente para simular ou mimetizar a produção endógena (a que a própria glândula faria). Em parte, isso se deve à necessidade de que os hormônios passarem por barreiras diferentes até chegar aos órgãos-alvo, ou terem excipientes que podem modificar sua ação. A insulina produzida pelo pâncreas cai diretamente na circulação sanguínea e a insulina injetada tem que passar pelo tecido subcutâneo até chegar à circulação sanguínea. A levotiroxina têm que ser tomada em jejum diariamente para que seja minimamente garantida uma quantidade fixa de hormônio tireoidiano dia a dia. A interferência dos alimentos na absorção do hormônio tireoidiano pode influir na quantidade de hormônio que chega à circulação. Isso não acontece com os hormônios produzidos pela tireoide, que de forma semelhante à insulina, caem direto na corrente sanguínea.

Hormônios análogos e sintéticos

Existem hormônios que têm estrutura diferente do hormônio “original”. Pequenas modificações na estrutura acrescentam melhorias à reposição hormonal, como o caso dos análogos de insulina. Existem os análogos de GLP1 muito utilizados no tratamento da obesidade. Modificações mais profundas das estruturas dos hormônios dão origem a outras moléculas, que são os hormônios sintéticos.

Da classe dos corticoides, temos como exemplo de hormônio sintético a dexametasona, vinte vezes mais potente que o hormônio cortisol, produzido pela adrenal. O corticóide salva vidas quando administrado na insuficiência adrenal e como anti-inflamatório em outras doenças, mas utilizados de forma indiscriminada são muito prejudiciais à saúde. Atualmente, a dexametasona vem sendo muito utilizada na infecção pelo covid, muitas vezes de forma equivocada.

As pílulas anticoncepcionais ou contraceptivos orais são exemplos de uma combinação de hormônios sintéticos da classe dos estrogênios e progestagênios. Os anticoncepcionais têm efeitos que muitas mulheres gostam na pele e cabelos (redução da oleosidade e acne) e efeitos muito temidos (ganho de peso, inchaço, trombose). Não estou aqui para falar mal desse tipo de contracepção, mas gostaria de lembrar que não é o único para quem tem medo ou não se adapta aos contraceptivos orais. Há os dispositivos intrauterinos de cobre ou prata, os métodos de barreira e os métodos contraceptivos naturais que não têm os efeitos indesejáveis dos hormônios sintéticos e são eficazes em evitar uma gravidez indesejada. Mesmo o dispositivo uterino com hormônio tem menos efeitos colaterais sistêmicos (generalizados). Ainda para o controle dos sintomas da síndrome dos ovários policísticos, pode haver alternativas terapêuticas além do anticoncepcional.

A terapia de reposição (TR) na menopausa utilizou por muito tempo hormônios sintéticos e até derivados de outra espécie animal. Ainda há formulações com hormônios sintéticos para essa finalidade, mas a tendência é utilizar hormônios naturais como o estradiol e a progesterona micronizada. Diferentes formulações desses hormônios mais modernos também foram lançadas no mercado.

A oxandrolona e o estanozolol são exemplos de anabolizantes sintéticos derivados da testosterona. Não há indicação para o uso desses compostos quando se fala em reposição hormonal. São atualmente utilizados para fins estéticos apenas e certamente trazem malefícios à saúde.

Hormônios bioidênticos

Os hormônios bioidênticos, como o próprio nome já fala, seriam aqueles iguaizinhos aos produzidos pelas glândulas.  O termo poderia ser utilizado para a insulina, hormônio de crescimento, levotiroxina etc. mas é sinônimo hoje em dia de terapia no mínimo duvidosa.

Quem prescreve hormônio bioidêntico tem que orientar para que o paciente o encomende nas farmácias de manipulação. Em outras palavras, são fórmulas magistrais, algo que durante a minha residência na USP fui desencorajada a prescrever. Se já com toda a tecnologia e estudos da indústria farmacêutica para o desenvolvimento de medicamentos temos alguma dificuldade em fazer terapia de reposição hormonal com os produtos comercialmente disponíveis, imaginem com formulações que não foram adequadamente testadas (fase 1, fase 2 e fase 3 de ensaios clínicos…), e que não tenham regulação da ANVISA? Um pouco perigoso, não acham?

O termo “terapia com hormônios bioidênticos” causa arrepios nos endocrinologista tradicionais tanto quanto o termo “modulação hormonal”. Eles podem bagunçar os eixos hormonais que estavam antes equilibrados. Sem ressentimentos ou rixas, quem geralmente prescreve hormônios bioidênticos são médicos ortomoleculares e médicos nutrólogos focados em doenças que não reconhecemos e terapias antienvelhecimento. Os hormônios bioidênticos também são utilizados na terapia hormonal na menopausa.  

As sociedades médicas de endocrinologia e ginecologia e obstetrícia sugerem cautela ao utilizar os hormônios bioidênticos. Se eu tivesse que sugerir algo, diria para ter muita, mas muita atenção para os profissionais que prescrevem esse tipo de terapia. Verifiquem se eles realmente têm a especialidade que declaram e busquem informações sobre as terapias propostas. Em relação aos profissionais, você pode consultar no site do Conselho Federal de Medicina (https://portal.cfm.org.br/busca-medicos/) se eles realmente são especialistas. Já para as terapias hormonais, você pode buscar informação, por exemplo, nas páginas das sociedades científicas e nos blogs profissionais que mostrem boas referências científicas sobre tema que estão falando. Com uma pesquisa cuidadosa espero que você possa separar o joio do trigo.

Exemplo de resultado de pesquisa por profissionais no portal do Conselho Federal de Medicina
Exibição do meu perfil no portal do Conselho Federal de Medicina (CFM). Posso divulgar duas especialidades.

Considerações finais

A resposta para a pergunta inicial do texto se é ou não perigoso tomar hormônio não é tão simples. Há hormônios e hormônios e diferentes situações em que eles podem ser utilizados, algumas em que a terapia hormonal é vital e outras em que é prejudicial.

A endocrinologia é a especialidade que estuda os hormônios. É uma área complexa e fascinante. Estudamos hormônios de vários tipos, várias glândulas, as interações entre elas e a atuação dos hormônios nos diversos órgãos. Sabemos da responsabilidade de prescrever hormônios e por isso somos tão cautelosos.

Para a tristeza dos endocrinologistas, o uso indiscriminado e abusivo dos hormônios na promessa de beleza e saúde eternas faz muito sucesso. Encontram um público que não tem medo dos hormônios, parte dele são pessoas imprudentes e a outra, pessoas desavisadas.

No outro extremo, há pessoas que têm verdadeiro pavor de utilizar hormônios, pensando apenas nos seus efeitos colaterais, alguns já superados por novos medicamentos. São pessoas que precisam de tratamento, mas não utilizam hormônio achando que é perigoso.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra…

Se você tem ainda dúvida sobre a utilização de hormônios, procure o seu médico e, se preciso for, um endocrinologista.

P.S. Para as referências, siga os links no texto.

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Suzana

Bócio – aumento da tireoide

Esse texto é uma pequena introdução conceitual sobre um problema muito comum nos consultórios dos endocrinologistas: o bócio.

Tipos de bócio

Ao aumento da glândula tireoide chamamos de bócio. E como acontece esse aumento do volume da tireoide? Há basicamente três possibilidades de aumento da glândula:

  • que o aumento seja uniforme de toda tireoide, o que tecnicamente chamamos de bócio difuso;
  • que o aumento seja por conta de um único nódulo, o que seria o bócio uninodular;
  • que haja mais de um nódulo incrementando o volume da tireoide, conhecido por bócio multinodular.

Essa classificação não tem a ver com a função da tireoide, seria só uma classificação anatômica.

Se considerarmos que a função da tireoide, o bócio pode ser atóxico (não há aumento da produção de hormônios tireoidianos) ou tóxico (quando a tireoide produz muito hormônio e resulta em um quadro clínico e/ou laboratorial de hipertireoidismo subclínico ou clínico.

Combinando as possibilidades de alterações anatômicas e de função, teríamos os seguintes tipos de bócio:

Se não produz muito hormônio:

Se produz muito hormônio:

  • difuso tóxico
  • uninodular tóxico
  • multinodular tóxico

Sintomas do Bócio

O volume normal da tireoide até 15cm3. Pequenos aumentos da glândula não costumam causar nenhum sintoma. Se o bócio for MUITO grande, o que significa um volume de 80 cm3 de toda tireoide ou 40 cm3 de um dos lobos (cerca de 5 vezes o tamanho normal da tireoide ou do lobo, respectivamente), ele pode dar sintomas que resultam da compressão de estruturas vizinhas do aparelho respiratório (traqueia) e digestivo (esôfago).

Os sintomas compressivos resultantes do bócio VOLUMOSO podem incluir dificuldade para respirar ou engolir e sensação de aperto na garganta. Dor na região do pescoço não é típico de qualquer tipo de bócio, apenas em casos de tireoidite subaguda.

Em poucos casos, a tireoide pode crescer para baixo, para a região dentro do tórax. A essa situação chamamos de bócio mergulhante. Esse tipo de bócio frequentemente dá sintomas compressivos.

Visualmente pode ser visto um aumento variável do volume do pescoço. Antigamente, um bócio muito volumoso era chamando de “papo”. Hoje não vemos tantas tireoides volumosas como antigamente, pois temos raras áreas de deficiência de iodo e as cirurgias são realizadas de forma mais precoce.

Bócio volumoso (papo)

Além dos sinais e sintomas locais, podemos ter os sintomas típicos das disfunções da tireoide quando há hipotireoidismo ou hipertireoidismo.

Causas de bócio

O bócio difuso pode ser resultante de doenças autoimunes da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto (bócio difuso atóxico) ou Doença de Graves (bócio difuso tóxico).

Um ou mais nódulos de tireoide podem ser resultantes de uma combinação de fatores bociogênicos genéticos com fatores ambientais. Parece haver uma heterogeneidade genética das células da tireoide que podem se propagar ou não dentro de uma mesma família.  Dos fatores ambientais, a deficiência de iodo é uma das mais importantes. No Brasil, onde o sal é iodado, e a deficiência de iodo é rara.

Exames complementares

Exames laboratoriais

Diante de um aumento da tireoide, os exames laboratoriais para avaliar a função da tireoide são fundamentais.

Lembrando que o TSH é o hormônio da hipófise que estimula a função e o crescimento do tecido da tireoide e de eventuais nódulos nela contidos.

Os hormônios avaliados nos casos de aumento da tireoide são o TSH e o T4 livre, como já descrito em um post anterior. Os anticorpos antitireoidianos são importantes para definir a causa das alterações hormonais se elas forem detectadas.

Ultrassonografia de tireoide

Para determinar se o bócio é difuso, uni ou multinodular, a ultrassonografia pode ajudar. Há casos em que a ultrassonografia demonstra estruturas semelhantes a nódulos no bócio difuso, não são nódulos de verdade (pseudonódulos), mas sim áreas de mais ou menos infiltrado inflamatório. Esse achado é muito comum nas tireoidites autoimunes.

Tireoidite com áreas pseudonoudulares

Cintilografia de tireoide

Nos casos de bócio tóxicos, a cintilografia pode auxiliar a definir se toda tireoide está funcionando demais (hiperfuncionante) ou se o excesso de hormônio é produzido por um único nódulo ou mais de um. A cintilografia é feita com iodo radioativo ou tecnécio. Ambos são captados de forma mais intensa pelas células que estão produzindo muito hormônio e são “revelados” na imagem como área mais escuras.

Na doença de Graves, temos o bócio difuso hipercaptante, ou seja, toda tireoide está trabalhando muito de forma homogênea. Já se um ou mais nódulos produzem muito hormônio, esse tipo de nódulo é chamado “nódulo quente”. O bócio multinodular tóxico é também conhecido por Doença de Plummer.

Cintilografia de tireoide
Cintilografias de tireoide com captação normal, captação aumentada em um bócio difuso tóxico (Doença de Graves) e captação reduzida (tireoidite subaguda).

Devemos recordar que o TSH está reduzido no caso de bócio nodular tóxico, pois a hipófise responde normalmente ao excesso de hormônio tireoidiano circulante. Dessa forma, as áreas circunvizinhas ao nódulo tóxico captam menos iodo por não estarem estimuladas pelo TSH. Nos casos de bócio tóxico, seja ele difuso ou nodular, a tireoide funciona de forma autônoma, descontrolada, independente da estimulação do TSH.

Os nódulos que não aparecem na cintilografia são chamados “nódulos frios”. Antigamente, a cintilografia era utilizada para avaliar o risco de malignidade dos nódulos de tireoide e os nódulos frios eram considerados como mais suspeitos. Hoje, não consideramos mais essa característica para definir se vale a pena fazer punção do nódulo.

Cintilografia de tireoide com evidência de um nódulo quente.
Cortesia do Dr Arshdeep Sidhu, Radiopaedia.org. Do caso rID: 21950
Cintilografia de tireoide de um bócio multinodular tóxico.
Cortesia do Dr Henry Knipe, Radiopaedia.org. Do caso rID: 32230

Punção aspirativa por agulha fina (PAAF)

Os nódulos suspeitos ao ultrassom devem ser puncionados nos pacientes com bócio multinodular. Em pacientes com bócio uninodular tóxico, a PAAF não é geralmente recomendada, pois o risco desse único nódulo autônomo ser câncer é virtualmente nulo (<1%). As indicações de PAAF consideram o tamanho e outros aspectos do nódulo, como já comentado em um post anterior.

Tomografia de tórax

Se a ultrassonografia detectar algum componente mergulhante do bócio (que vai para dentro do tórax), a tomografia de tórax pode ajudar a definir quanto de tecido tireoidiano está dentro da caixa torácica e se está desviando ou comprimindo os órgãos vizinhos, como por exemplo vias aéreas.

Tratamento do bócio

O tratamento de cada tipo de bócio é individualizado. Nos parágrafos seguintes, comentarei em linhas gerais as terapias possíveis para cada tipo de situação.

A maioria dos casos de bócio não precisa de cirurgia! A conduta em cada caso vai depender se o bócio é tóxico ou atóxico, se algum nódulo é maligno, se o bócio está causando sintomas de compressão de estruturas vizinhas (mais uma vez, isso acontece com bócios muito volumosos) e se ele é mergulhante.

Bócios atóxicos

Bócios atóxicos vão ter tratamento cirúrgico (tireoidectomia) apenas se houver suspeita de malignidade (Bethesda IV, V e VI na PAAF), se forem muito volumosos com sintomas compressivos, por questões estéticas ou tiverem considerável componente mergulhante.

Bócios atóxicos com eutireoidismo (função normal da tireoide)

Uma vez descartada a presença de câncer e outras indicações para cirurgia, os bócios atóxicos com função normal da tireoide podem ser apenas acompanhados.

O uso de medicação para reduzir o(s) nódulo(s) não é mais recomendada por elevar o risco de complicações do hipertireoidismo subclínico. Em outras palavras, não tratamos nódulos de tireoide com hormônio se os exames de sangue estiverem normais!

Mais detalhes sobre o tratamento desse tipo de bócio está no próximo post.

Bócio atóxico (com hipotireoidismo)

Como vimos, o TSH estimula o crescimento da tireoide. Dessa forma, na presença de bócio, há indicação de tratamento com levotiroxina nos casos de hipotireoidismo clínico ou mesmo subclínico (quando o TSH está aumentado) a fim de manter o TSH em níveis normais.

Pode haver redução do bócio com a normalização do TSH e o volume da tireoide e dos nódulos devem ser reavaliados.

Bócios tóxicos (com hipertireoidismo)

Bócios tóxicos (com hipertireoidismo clínico ou subclínico) podem ser tratados com medicações que reduzem a produção de hormônios (drogas antitireoidianas).

Alternativamente, podem ser consideradas doses variáveis de iodo radioativo para destruir parte do tecido tireoidiano que trabalha de forma excessiva e autônoma. Porém, há um risco inerente do tratamento do iodo radioativo de transformar um hipertireoidismo em hipotireoidismo. De forma geral, os hipotireoidismo são mais bem controlados que os hipertireoidismos.

O uso do iodo radioativo, antecedido ou não de TSH recombinante, ainda não é consenso. Esse tratamento pode ser uma opção para pacientes com bócios que teriam indicação de cirurgia, mas os pacientes não têm condição clínica de serem submetidos à retirada da tireoide.

Bócios multinodulares tóxicos volumosos e com sintomas compressivos também são candidatos para o tratamento cirúrgico.

Considerações finais

A tireoide é fonte de vários problemas e tem um monte de post nesse blog falando sobre as doenças que acometem essa glândula. A notícia boa é que há diversos tipos de tratamentos eficazes, mas não existe uma receita de bolo para o mesmo tipo de problema em pessoas diferentes. Mesmo com o diagnóstico de câncer de tireoide, há excelentes chances de cura. Em alguns casos cabe até a discussão de não operar (vigilância ativa).

Se você tem bócio, consulte o seu médico! Se houver necessidade de uma opinião especializada, um endocrinologista poderá ajudar a decidir a melhor conduta para o seu tipo de problema.

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Hipotireoidismo subclínico: TSH alto e T4 livre normal

O que é o hipotireoidismo subclínico?

Quem não se sente desconfortável diante de um exame anormal, seja médico ou paciente? Isso acontece com frequência nos casos de hipotireoidismo subclínico.

Quando o assunto é tireoide, é extremamente comum recebermos pacientes que trazem exames mostrando um aumento discreto do hormônio tireoestimulante (TSH) e hormônios tireoidianos normais (entenda-se aqui dosagem do T4 livre). Em outras palavras, o hipotireoidismo subclínico é caracterizado pelo TSH alto e T4 livre normal.

Daí nos perguntamos: tratar ou não tratar o paciente (não o exame)? Eis uma questão controversa.

Diagnóstico do hipotireoidismo subclínico

O hipotireoidismo subclínico é um diagnóstico puramente laboratorial. De forma semelhante ao hipertireoidismo subclínico, assunto do último post, o hipotireoidismo subclínico trata-se também de uma disfunção tireoidiana leve e nem todos os pacientes se beneficiam do tratamento.

A maioria das diretrizes não recomenda a realização de exame de ultrassonografia de forma rotineira para a avaliação do hipotireoidismo subclínico. Na prática, a ultrassonografia é solicitada na investigação das doenças da tireoide. Achados de alteração na textura e ecogenicidade (brilho) da glândula ao ultrassom pode indicar doença autoimune da tireoide, como tireoidite de Hashimoto. O critério ultrassonográfico é utilizado em alguns textos para indicar a reposição com o hormônio tireoidiano (levotiroxina)

É importante salientar que a discussão que trazemos nesse post não contempla os casos de hipotireoidismo subclínico na gravidez e na infância.

Sintomas do hipotireoidismo subclínico

Os sintomas do hipotireoidismo subclínico estão presentes em uma minoria dos casos e são semelhantes, embora mais leves, aos relatados por pacientes com hipotireoidismo clínico. São eles:

  • depressão
  • redução da qualidade de vida
  • disfunção cognitiva
  • déficit de memória
  • fadiga
  • ganho de peso
  • fraqueza muscular
  • intolerância ao frio
  • constipação

São necessários mais exames antes de tratar o hipotireoidismo subclínico

Para descartar as alterações hormonais transitórias, é indicado repetir as dosagens de TSH e T4 livre juntamente com os anticorpos antitireoidianos em um intervalo de 2 a 3 meses. Essa orientação muitas vezes é ignorada e o tratamento de reposição de hormonal é instituído imediatamente diante do primeiro exame anormal. Os exames solicitados com maior intervalo de tempo permitem que outras situações que cursam com aumento do TSH sejam excluídas. Exemplos na tabela 1.

Causas de aumento transitório com TSH não relacionada à disfunção leve da tireoide
Causas de aumento transitório de TSH com T4 livre normal

– recuperação de enfermidade não-tireoidiana
– fase de recuperação de vários tipos de tireoidite
– medicação, tais como amiodarona e lítio
Causas de aumento persistente de TSH com T4 livre normal

– adaptação fisiológica ao envelhecimento
– interferências na mensuração dos hormônios
– obesidade
– insuficiência adrenal (muito raro)
– resistência ao hormônio tireoestimulante (TSH) ou liberador do hormônio tireoestimulante (TRH) (extremamente raro)
Tabela 1. Causas de aumento transitório e persistente do TSH

O que pode acontecer se o hipotireoidismo subclínico não for tratado?

O risco de progressão para o hipotireoidismo clínico (TSH alto associado a T4 livre baixo) é da ordem de 2 a 6% ao ano, sendo maior entre mulheres, pessoas com altos níveis de anticorpos antitireoidianos e os que têm níveis de T4 livre próximo ao limite inferior da referência laboratorial.

Ao longo das últimas décadas, estudos observacionais mostraram uma associação do hipotireoidismo subclínico com alguns desfechos, como por exemplo, a progressão para o hipotireoidismo clínico, sintomas de hipotireoidismo e aumento de marcadores em exames complementares que aumentam o risco de doença cardiovascular.

Os marcadores da doença cardiovascular modificados no hipotireoidismo subclínico podem ser: elevação do colesterol total e LDL, aumento da espessura da camada íntima-média da artéria carótida e redução da função cardíaca.

A doença coronariana, insuficiência cardíaca congestiva, o derrame e o declínio cognitivo foram também associados ao hipotireoidismo subclínico em alguns estudos.

O tratamento com levotiroxina reduz de forma moderada o colesterol total e LDL, mas não está claro se essa intervenção resulta na redução dos eventos cardiovasculares. De forma semelhante, ainda há poucos estudos de grau de evidência científica superior demonstrando que o tratamento do hipotireoidismo subclínico pode reduzir o risco destas complicações, principalmente para as doenças cardiovasculares e para o declínio cognitivo.

A associação desses desfechos é mais forte no hipotireoidismo subclínico mais grave, conforme descrito na tabela 2.

Associação do hipotireoidismo subclínico e desfechos clínicos
Tabela 2. Associação do hipotireoidismo subclínico e desfechos clínicos

Hipotireoidismo subclínico e obesidade

Dosagens de TSH elevadas são associadas ao aumento do índice de massa corporal (IMC) e da circunferência abdominal. Entretanto, a perda de peso tipicamente provoca redução do TSH, o que sugere que o hipotireoidismo subclínico não é a causa do ganho de peso. As doenças tireoidianas podem causar variações no peso, mas a contribuição pode ser bastante variável e modesta.

Tratamento do hipotireoidismo subclínico

Há grandes controvérsias nesse ponto. Existem diferenças de recomendações entre as diretrizes de europeia e americana quanto à recomendação de tratamento de pessoas mais idosas.

O departamento de tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) considera ainda diferentes condutas médicas conforme cada faixa etária. Um ponto em comum para todas as idades é a recomendação de tratamento em todos os pacientes com TSH ≥ 10 mU/L, conforme tabela abaixo.

ParâmetroTSH >4,5 e <10mUI/LTSH ≥ 10mUI/L
Idade ≤ 65 anos
– sem comorbidadesnãosim
– risco de progressão para hipotireoidismo clínicoconsiderar tratarsim
– doença cardiovascular preexistente
ou risco cardiovascular aumentado
considerar tratar
se TSH ≥ 7mU/L
sim
– sintomas de hipotireoidismo considerar teste
terapêutico
sim
Idade > 65 anos não sim
Tabela 3. Recomendações para o tratamento do hipotireoidismo subclínico de acordo com a SBEM

Quando o TSH está acima do valor de referência e <10 mUI/L, a decisão de tratar vai depender da presença de sintomas de hipotireoidismo, níveis de anti-TPO elevado, presença de bócio, de doença cardiovascular, de insuficiência cardíaca ou fatores de risco cardiovasculares.

É bastante comum considerar os sintomas de hipotireoidismo para o início da terapia. Cansaço, fadiga e ganho de peso (que são queixas super comuns no consultório, também resultante do estilo de vida inadequado) são motivos para começar a administração da levotiroxina.

Um teste terapêutico na medicina é feito utilizando uma medicação em que se há dúvida do seu benefício para ver se há melhora do quadro clínico geral do paciente. No caso do hipotireoidismo, o teste terapêutico consiste na administração da levotiroxina e reavaliação dos sintomas após um período de 3 a 6 meses de tratamento. A reposição hormonal deve ser mantida apenas se houver melhora dos sintomas. Do contrário, deve-se suspender o tratamento.

Hipotireoidismo subclínico em idosos

O aumento do TSH com a idade parece ser uma adaptação ao envelhecimento. Por esse motivo, tem se sugerido que elevações de TSH modestas não sejam tratadas em pacientes acima dos 70 anos, como valores até 7,0 mUI/L em pessoas que tenham vivido em regiões com suficiência de iodo. O ideal seria que os níveis de TSH tivessem diversos valores de referência de acordo com as várias faixas etárias.

Esse texto é baseado em grande parte em um artigo mais recente que considerou, preferencialmente, as orientações europeias, que são mais conservadoras em relação ao tratamento para maiores de 70 anos. Nessa diretriz, o tratamento seria apenas recomendado na presença de sintomas ou fatores de risco cardiovascular mesmo com dosagens de TSH ≥ 10 mUI/L. Vale a pena relembrar que o T4 livre deve estar dentro da faixa de normalidade.

Considerações finais

Ainda são necessários estudos de melhor qualidade científica para que se “bata o martelo” na eleição do perfil de paciente com hipotireoidismo subclínico que se beneficia do tratamento. Desta forma, ficamos com a possibilidade de seguir uma ou outra diretriz, mas sempre usando o bom senso na hora da decisão de tratar ou não. Tratar demasiadamente é perigoso, já que sobretratamento tem também seus riscos. Primum non nocere!

Referências

  1. PEETERS, R. P. Subclinical Hypothyroidism. N Engl J Med, v. 377, n. 14, p. 1404, 10 2017. ISSN 1533-4406.
  2. SGARBI, J. A.  et al. The Brazilian consensus for the clinical approach and treatment of subclinical hypothyroidism in adults: recommendations of the thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arq Bras Endocrinol Metabol, v. 57, n. 3, p. 166-83, Apr 2013. ISSN 1677-9487.

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