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Hipertireoidismo na gestação – TSH baixo

A gravidez é um momento de uma revolução hormonal e mudanças significativas no corpo da mulher. A tireoide aumenta em tamanho e em sua produção hormonal. Muitas vezes, essas mudanças se confundem com doenças da tireoide que podem ser detectadas na gestação. Esse texto vai falar sobre o hipertireoidismo e gestação. O hipertireoidismo na gestação também pode ser encontrado nesse e em outros textos como “tireotoxicose na gestação”.

Vamos comentar sobre duas situações:

1. Quando a paciente não tem hipertireoidismo antes da gestação, mas há alterações dos hormônios de tireoide detectadas na gravidez;

2. Quando a paciente já tem um hipertireoidismo e quer engravidar ou engravida sem planejamento.

Vamos para o primeiro tópico?

Tireotoxicose descoberta na gravidez sem hipertireoidismo prévio

É normal e esperado que a tireoide se modifique para atender às novas demandas da mãe e do feto. Podemos destacar as seguintes modificações:

  • A tireoide aumenta de tamanho em 10% nas áreas de suficiência de iodo;
  • A produção do hormônio tireoidiano aumenta a necessidade de iodo aumentam em 50%;
  • Há aumento da proteína que transporta os hormônios – TBG – aumento da fração ligada (T4 total).

Por conta desse aumento da produção dos hormônios da tireoide, maior quantidade de iodo é necessária nessa fase.

Suplementação de iodo na gestação

No nosso meio, a gravidez talvez seja a única situação em que a suplementação de iodo é recomendada. A ingestão total diária deve ser de 250mcg para gestante e deve-se suplementar pelo menos 150mcg na forma de iodeto de potássio. Quem já trata hipotireoidismo ou hipertireoidismo com reposição de levotiroxina ou medicação antitireoidiana, respectivamente, não há necessidade de suplementação. Não é necessário suplementar selênio, mesmo se houver anticorpos antitireoidianos positivos.

Por conta da importância dos hormônios de tireoide no desenvolvimento fetal e por todas as alterações deles durante a gravidez, o ideal é pedir os exames de função tireoidiana no período pré-natal para detectar alguma disfunção prévia, pois já no início da gestação vemos algumas mudanças nos exames, começando pelo TSH.

O TSH é menor na gestação por conta do estímulo da gonadotrofina coriônica humana (hCG), produzida pela placenta, sobre a tireoide. Só relembrando: o hCG tem semelhança molecular com o TSH e estimula a tireoide como se assim o fosse. Por conta disso, há aumento proporcional da produção do T3 e T4 e redução da secreção de TSH pela hipófise como consequência.

Ilustração com os hormônios glicoproteicos
Figura 1. Hormônios glicoproteicos se diferenciam entre si pela subunidade beta

Vemos então que o TSH reduz em média 0,4mU/L, que pode ser deduzido do limite inferior da normalidade para pacientes adultas não grávidas durante toda gestação. Esta é a recomendação da Associação Americana de Tireoide. Pode-se ainda usar os valores de referência sugeridos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM), conforme exemplo abaixo:

Figura 2. Exemplo de resultado de TSH e valores de referência na gravidez
Figura 3. Valores de referência de TSH na gravidez com redução de 0,4mUI/L no primeiro trimestre

Em uma pequena parcela das mulheres grávidas, o TSH pode ser indetectável (<0,01 mU/L) e ainda assim representar uma gravidez normal; este quadro que pode ocorrer em até 5% das gestações. O T4 livre permanece dentro dos valores de referência. O T4 total pode estar acima do valor de referência por conta do aumento da TBG. O hipertireoidismo subclínico (TSH baixo e T4 livre normal) não é associado a problemas na gestação.

Esse excesso de hormônios circulantes na gravidez pode dar origem ao quadro de tireotoxicose. A gente usa esse termo, tireotoxicose, para falar que há excesso de hormônios circulantes quando ainda não determinamos a causa.

Tireotoxicose transitória da gestação

A tireotoxicose na gestação é um quadro de hipermetabolismo e hiperatividade decorrentes do excesso de hormônios tireoidianos. É caracterizada por palpitações, tremores, ansiedade e intolerância ao calor. Pode vir acompanhada por quadro excesso de náuseas e vômitos e hiperêmese gravídica, já que está relacionada ao pico de hCG.

Sem ser pelas alterações fisiológicas, a causa mais comum de tireotoxicose na gestação é pelo hipertireoidismo autoimune (Doença de Graves), que acomete 0,4% a 1,0% das gestantes. Causas menos comuns são o bócio nodular tóxico e tireoidite subaguda.

Avaliação do TSH baixo no primeiro trimestre da gravidez

Quando o excesso de hormônio tireoidiano é por conta do estímulo excessivo do hCG, vemos as seguintes características:

  • Ausência de estigmas (características físicas de Doença de Graves);
  • Sinais e sintomas de hipertireoidismo leves e autolimitados associados a sintomas de náuseas e vômitos (emesis);
  • Se outra causa for suspeitada, deve-se dosar o TRAb para diagnóstico de Doença de Graves
  • Se o TRAb for negativo: palpar tireoide e se houver nódulo, recomenda-se solicitar USG para confirmar nódulo;
  • Dosar T3 na Doença de Graves ou bócio nodular tóxico, pois pode haver uma produção maior desse hormônio quando comparado à tireotoxicose fisiológica;
  • Não se deve fazer cintilografia, já que é realizada com material radioativo.

Tratamento da tireotoxicose transitória da gestação

Na tireotoxicose transitória gestacional, o tratamento deve ser sintomático até o seu desaparecimento, que ocorre até a 18ª semana da gravidez. Temos como principais medidas:

  • Tratar hiperêmese gravídica com medicações para náuseas e vômitos (antieméticos) e hidratação adequada;
  • Controle dos sintomas beta-adrenérgicos, tais como de palpitação e tremores pelo uso de betabloqueadores. A sugestão é o uso propranolol 20mg de 8/8h;
  • Não usar drogas antitireoidianas.
Figura 5. Diagnóstico da hipertireoidismo na gestação. Modificado de Ref 1.

Para as pacientes com hipertireoidismo por Doença de Graves descoberto na gestação, o uso de medicação antitireoidiana pode ser necessária. Vamos comentar sobre esse cenário juntamente com a situação em que a mulher tem hipertireoidismo antes da gestação e deseja engravidar ou engravida sem planejamento.

Hipertireoidismo e gravidez

Se a mulher já tem hipertireoidismo e deseja engravidar, o melhor seria controlar o excesso hormonal antes da gestação. Isso porque o hipertireoidismo não controlado pode levar a uma série de complicações, as quais podemos listar:

  • perda fetal
  • hipertensão materna
  • crise tireotóxica
  • insuficiência cardíaca
  • morte perinatal

Pensando na doença mais comum que atinge a faixa etária de mulheres da fase reprodutiva, o mais provável (quando encontramos um hipertireoidismo em uma grávida) é que seja uma Doença de Graves. Tentar o eutireoidismo, ou seja, a normalização dos hormônios, é muito importante. Antes de engravidar, as pacientes podem ser submetidas ao tratamento definitivo do hipertiroidismo, que é a iodoterapia ou cirurgia.

Se os títulos do anticorpo contra a tireoide (TRAb) forem muito elevados, a cirurgia é preferida. A iodoterapia pode aumentar mais ainda os níveis de anticorpo e produzir hipertireoidismo fetal. Se optado pela iodotoerapia, deve-se postergar a gravidez em 6 – 12 meses.

Tratamento do hipertireoidismo por Doença de Graves na gestação

Se a paciente tem um hipertiroidismo leve, controlado com equivalente a 5-10mg de tiamazol por pelo menos 6 meses, pode-se suspender medicação e liberar para a paciente engravide. Entretanto, se a dose for maior e a paciente engravidar, o recomendado é que se troque o tiamazol (ou metimazol) para propiltiouracila, na relação 1:20mg (5mg de tiamazol = 100mg de propiltiouracila divididas em duas doses ao dia).

As duas medicações têm risco de má formação fetal, sendo que com propiltiouracila é cerca de 2-3% e com tiamazol é por volta de 3-4% dos nascidos vivos. A principal complicação reportada é a aplasia cutis, em que há formação incompleta da pele.

O tratamento medicamentoso deve ser com a mínima dose necessária para manter o T4 livre no limite superior do método e o T4 total em 1,5 vezes o valor de referência para mulheres não grávidas. As medicações passam também para o feto e, se em excesso, podem causar hipotireoidismo fetal.

Dosagem do TRAb na gestação

Na Doença de Graves, mesmo se a paciente tiver feito o tratamento definitivo com cirurgia ou iodoterapia, o TRAb deve ser dosado. Se os níveis desse anticorpo forem muito altos, cerca de 3 vezes o valor do limite superior de referência, a gestante deve ser acompanhada muito de perto por uma equipe multidisciplinar especializada (gravidez de alto risco).

Considerações finais

As doenças da tireoide são muito frequentes em mulheres. Em outro post, muito acessado, comentei sobre o hipotireoidismo subclínico na gestação.

Antes, durante e depois da gestação, os hormônios tireoidianos devem ser solicitados pelos médicos que estão acompanhando a mulher nessa jornada.

Mesmo se aparentemente o assunto do hipertireoidismo autoimune (Doença de Graves) tenha sido resolvido no passado, não se deve esquecer do risco do hipertireoidismo no feto se a gestante ainda tiver muitos anticorpos circulantes. Essa informação eu realmente queria frisar novamente.

O endocrinologista pode ser acionado se houver dúvidas antes e durante a gestação. Mesmo após o parto, as doenças da tireoide são também comuns, mas isso é comentado em outro capítulo, no post de disfunções da tireoide no pós-parto.

Espero que tenham gostado da leitura.

Até a próxima!

Referências

  1. Rastreio, diagnóstico e manejo do hipertireoidismo na gestação. Posicionamento da Febrasgo e SBEM, 2022.
  2. Alexander EK, Pearce EN, Brent GA, Brown RS, Chen H, Dosiou C, Grobman WA, Laurberg P, Lazarus JH, Mandel SJ, Peeters RP, Sullivan S. 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. Thyroid. 2017 Mar;27(3):315-389. doi: 10.1089/thy.2016.0457. Erratum in: Thyroid. 2017 Sep;27(9):1212. PMID: 28056690.
Curso de tireoide

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Disfunções da tireoide no pós-parto: princípios do diagnóstico e tratamento

Alguns dilemas a gente enfrenta dia a dia. Eles não são só nossos, mas das pacientes também. As escolhas se tornam difíceis quando a situação é especial, como diagnosticar e tratar as disfunções da tireoide na amamentação.

A situação é a seguinte: chega uma mulher no puerpério, amamentando e quer saber se o cansaço extremo, irritabilidade e variação de peso pode ser problema da tireoide, pois já ouviu falar que esses sintomas podem corresponder às disfunções dessa glândula.

O que pode ser quando o TSH está alto no puerpério?

Pode ser sim, uma tireoidite pós-parto e, quando a gente vê o TSH alto, a gente pode dar o diagnóstico de forma mais segura e o tratamento com a reposição do hormônio da tireoide, quando inidicado, não oferece risco.

Figura 1. TSH alto no pós-parto

O que pode ser quando o TSH está baixo no pós-parto?

Estamos diante de um sinal de que há excesso de hormônio de tireoide no sangue. A gente chama esse sinal de tireotoxicose, mas não é raro que a gente fale no termo hipertireoidismo para facilitar o entendimento. O T4 livre pode estar normal ou alto com o TSH baixo, em outras palavras, um hipertireoidismo subclínico ou pleno.

Quais são as causas do excesso de hormônio de tireoide no puerpério?

A causa mais comum de tireotoxicose no puerpério é a tireoidite pós-parto, que pode ter aumento dos hormônios de tireoide circulantes em cerca de 4% dos casos. Vou trazer de volta uma figura que eu adoro para exemplificar a montanha russa dos hormônios na tireoidite.

Figura 2. Evolução da tireoidite pós-parto com fase de tireotoxicose

No puerpério há um de 3 a 4 vezes na incidência de novos casos de Doença de Graves.

É importante a gente diferenciar tireoidite pós-parto da Doença de Graves, porque no primeiro caso, os hormônios estão aumentados por destruição da glândula e liberação do hormônio pré-estocado e, no segundo caso, é por aumento da produção de hormônio, que tecnicamente falando é o hipertireoidismo mesmo. Vocês já devem imaginar que o tratamento é diferente.  

Como diferenciar a tireoidite pós-parto da Doença de Graves no pós-parto?

Algumas vezes, os autoanticorpos podem dar uma pista, mas não uma garantia do diagnóstico.  A tireoidite pós-parto geralmente tem os anticorpos contra a tireoide positivos, que são os relacionados à tireoidite de Hashimoto também: o anti-TPO e o antitireoglobulina. Na Doença de Graves, o anticorpo contra o receptor de TSH, o TRAB, é o marcador da doença. O que pode confundir um pouco é que existem os casos mistos, em que as pacientes têm todos os anticorpos e a doença (hipo ou hiper) que vai predominar pode ser ora um ora outra, o tal do Hashi-Graves.

Se não houvesse o fator amamentação, a gente pediria uma cintilografia de tireoide. Mesmo assim, temos que considerar que é recomendado que depois desse exame, a pessoa que recebeu o iodo radioativo fique muito próximo às crianças e mulheres grávidas. Meio complicado, não é?

Na tireotoxicose por destruição da glândula, a cintilografia não vai captar o iodo radioativo do exame, pois o maquinário para fabricação dos hormônios está avariado nesse instante. Na tireotoxicose por hipertireoidismo, a fabricação dos hormônios de tireoide está aumentada e a gente vai ver a tireoide trabalhando mais pela captação do iodo radioativo.

Cintilografia de tireoide
Figura 3. Exemplos de resultado de cintilografia (1) captação na tireoide com funcionamento normal; (2) captação aumentada na Doença de Graves, (3_captação diminuída na tireoidite por destruição da glândula.

A radiação não combina com gravidez e nem amamentação. Se for mesmo necessário fazer esse exame, há algumas recomendações práticas. A lactante deve bombear e descartar o seu leite por vários dias, até o iodo radioativo ser eliminado do corpo. Quanto tempo, o texto consultado não fala.

Na tireotoxicose por tireoidite pós-parto, apenas prescrevemos sintomáticos, como é o caso de medicamentos que controlam os batimentos cardíacos acelerados, chamados de betabloqueadores até esses sintomas melhorarem e a gente suspende posteriormente.

Figura 4. Algoritmo de investigação e manejo diante de TSH baixo no puerpério

Se a tireotoxicose é mais tardia no pós-parto, mais prolongada e com TRAB positivo, há uma probabilidade maior de ser Doença de Graves. Outra pista é se o paciente tem estigmas da Doença de Graves, como os olhos saltados, ou exoftalmo. Se esse for o diagnóstico dado, temos um outro dilema, já que as duas medicações para o tratamento dessa doença têm contraindicação na bula, pois elas são excretadas no leite. Uma pergunta que paira no ar é:

Posso usar tiamazol ou propiltiouracil na amamentação?

Na bula, tanto o tiamazol como o propiltiouracil têm contraindicação para uso em mulheres que estão amamentando. Contudo, a Associação Americana de Tireoide, na sua última diretriz, avaliou os estudos sobre os impactos dessas medicações na saúde do bebê.

O que passa no leite é uma fração muito pequena da medicação. Para vocês terem uma ideia, o propiltiouracil (PTU) contido no leite após 4h após sua ingestão é de menor que 0,08%. Dessa forma, se a mãe recebe 200mg três vezes ao dia, vai oferecer no ao bebê apenas 0,149mg em seu leite.

O tiamazol, mais conhecido pelo nome comercial de tapazol®, passa mais facilmente para o leite, cerca de 0,1 a 0,2% da dose tomada.

Um estudo foi mais além, pois avaliou o desenvolvimento intelectual de crianças cujas mãe tomaram essas medicações na amamentação. O resultado é que não houve nenhum impacto negativo do uso dessas medicações sobre a cognição dessas crianças.

Tomando em conjunto todos esses dados, os pesquisadores consideram que essas medicações são seguras. Dentro do perfil dos estudos realizados, sugere-se usar a menor dose necessária para controlar a doença, limitando a 20mg de tiamazol ou 450mg de propiltiouracil ao dia.

Considerações finais

Na medicina, a gente tem sempre que avaliar o risco-benefício de tudo que a gente recomenda. Muitas vezes, a gente usa medicações que não têm indicação em bula para determinada doença, mas que tem todo sentido usar. Esse é o que chamamos de uso “off-label”.  A espironolactona é uma delas.

Em outros casos, há uma contraindicação em bula. Ai, a coisa complica um pouco. Se a medicação passa pela placenta na gravidez ou pelo leite materno na amamentação, geralmente ela não é recomendada. Se for ver direitinho, quase nenhuma medicação é segura em bula nessas situações.

Uma coisa é passar pela placenta ou pelo leite outra coisa é se a medicação efetivamente fez mal para o bebê que está sendo gestado ou amamentado.

As medicações para tireoide são bastante antigas e eu presumo que estudos mais aprofundados não foram realizados durante a gestação ou amamentação. A categoria farmacológica delas é considerada D, em que há evidência de risco para o feto, mas considera o seu uso se for mais benéfico que maléfico e se não houver alternativas terapêuticas. Os dados em humanos são de estudos menores em que inadvertidamente ou de forma consentida e aprovada eticamente as mulheres estavam usando essas medicações durante a gravidez ou puerpério.

Resumo da história: há realmente contraindicação em bula para o uso das medicações para o hipertireoidismo na amamentação, mas há estudos posteriores evidenciam sua segurança. Se for seguir a bula mesmo, teríamos que pedir para a mulher parar de amamentar…sugestão complicada e decisão difícil. Por outro lado, se não formos seguir a bula, o risco-benefício deve discutido e acordado entre médico e paciente.  

Por último, vou deixar o quadro completo de investigação e tratamento das disfunções tireoidianas no puerpério.

Figura 5. Algoritmo de investigação e tratamento das disfunções da tireoide no pós-parto

Referências

Alexander EK, Pearce EN, Brent GA, Brown RS, Chen H, Dosiou C, Grobman WA, Laurberg P, Lazarus JH, Mandel SJ, Peeters RP, Sullivan S. 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. Thyroid. 2017 Mar;27(3):315-389. doi: 10.1089/thy.2016.0457. Erratum in: Thyroid. 2017 Sep;27(9):1212. PMID: 28056690.

Peng CC, Pearce EN. An update on thyroid disorders in the postpartum period. J Endocrinol Invest. 2022 Aug;45(8):1497-1506. doi: 10.1007/s40618-022-01762-1. Epub 2022 Feb 18. PMID: 35181848.

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Variação circadiana do TSH

Quem tem um resultado de TSH (hormônio tireotrófico) levemente alterado precisa repetir o exame, isso é fato! Já falamos sobre essa necessidade nos posts sobre hipotiroidismo subclínico e hipertireoidismo subclínico. Outro fato é que quase nunca um resultado desse exame é um número próximo ao do outro exame. Muitos pacientes ficam intrigados com essa variação de um exame para exame e podem até achar que estão desenvolvendo um problema de tireoide. E por que isso?

O TSH, como vários outros hormônios, é secretado de forma pulsátil e possui um ritmo circadiano.

Em humanos, o TSH é secretado em pulsos de baixa amplitude, com uma subida e descida a cada 1 a 2h. A baixa amplitude do TSH, juntamente com a meia-vida (o tempo que o hormônio circula) relativamente longa de aproximadamente 50 min resulta em pequena variação do TSH circulante se formos comparamos com hormônios como o hormônio de crescimento, que tem um pulsatilidade de cerca de 20 min ou cortisol e testosterona que têm uma amplitude maior de variação ao longo do dia. Dessa forma, A secreção do TSH é considerada parcialmente pulsátil e parcialmente basal.

Normalmente, os menores níveis de TSH são observados durante a tarde, vão aumentando durante a noite até chegar ao máximo por volta das 3h da madrugada, variando da meia-noite até 5h30min da manhã. Essa queda do TSH ajuda a pessoa a manter o sono. Depois, os níveis de TSH começam a baixar. Esse padrão é de pessoa que não troca a noite pelo dia.

Variação do TSH conforme sexo

As mulheres têm muito mais doença da tireoide que os homens, mas não foi observada diferença significativa na secreção de TSH em indivíduos não doentes de ambos os sexos, como demostrado na figura abaixo.

Variação do TSH conforme jejum

O jejum prolongado também modifica a secreção de TSH, O jejum prolongado também altera a secreção do TSH pela redução da amplitude dos ciclos diurnos e minimiza o aumento desse hormônio durante a noite.

Após iniciado o sono, o TSH reduz, como já falado anteriormente. Uma reversão do ciclo sono-vigília (trocar o dia pela noite), provoca uma mudança do ritmo de TSH, com um aumento da amplitude dos pulsos durante a primeira noite acordada e redução da amplitude durante a segunda noite de sono. Em outro estudo, o efeito da privação de sono em indivíduos que ficaram 64h acordados, foi verificado que as primeiras 24h do ritmo do TSH foi mantido, mas os picos ficam mais largos e, de novo, o TSH reduziu após o sono. Na figura abaixo, o período de sono está representado pela barra preta no terceiro dia de observação.

Variação do TSH conforme privação de sono

Existem muitas outras situações em que há alteração da secreção de TSH, como a obesidade, gravidez, idade e presença de doenças graves.

A ideia do texto, foi tentar esclarecer o porquê de tanta variação do TSH com o simples fato de perder uma noite de sono ou ficar mais tempo em jejum em pessoas sem doença da tireoide. Mesmo que esses eventos não aconteçam, pode haver alterações da dosagem do TSH conforme o período do dia em que o exame foi colhido.

A maioria dos laboratórios de análises clínicas solicitam um preparo de 3-4h de jejum para coleta desse hormônio. Nunca devemos esquecer de suspender o uso de algumas vitaminas ricas em biotina 72h antes da coleta. Essa vitamina altera a leitura do exame que dosa o TSH.

Assim sendo, na prática clínica, os endocrinologistas frequentemente veem se há uma queda ou aumento progressivo do TSH antes de concluir se há doença em curso, já que não sabemos se estamos vendo um pico, um vale ou mesmo um ponto fora da curva da dosagem do TSH.

Referência

Ferdinand Roelfsema, Johannes D. Veldhuis, Thyrotropin Secretion Patterns in Health and Disease, Endocrine Reviews, Volume 34, Issue 5, 1 October 2013, Pages 619–657, https://doi.org/10.1210/er.2012-1076

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