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Suplementação de selênio e doenças da tireoide

O selênio é um mineral muito famoso para tratar doenças tireoide, juntamente com o iodo. Pudera, a tireoide é o órgão mais rico nesses minerais e tem diversas selenoproteínas. Essas proteínas têm em sua estrutura o selênio e são relacionadas às atividades antioxidantes e anti-inflamatórias e, talvez, por isso seu papel seja muito estudado na evolução das doenças autoimunes e outras doenças da tireoide (tireoidite de Hashimoto, Doença de Graves, tireoidite pós-parto e bócio).

Na produção dos hormônios tireoidianos são gerados radicais livres pela enzima tireoperoxidase. Esses radicais livres têm um oxigênio livre que pode danificar diversas estruturas da célula e, por isso, existem mecanismos naturais de defesa antioxidantes internos, através da família das glutationas peroxidases e outras enzimas. Nossa, bateu até uma nostalgia agora… Os mecanismos antioxidantes foram assunto da minha tese de doutorado, mas foi em diabetes. Quem quiser saber mais sobre esses mecanismos, tem um link para o texto da tese nas referências (1).

Além disso, há as selenoproteínas, chamadas de deiodinases, que participam na ativação e inativação dos hormônios. Por exemplo, a produção do T3, T3 reverso na glândula e do T3 nos tecidos periféricos tem a ação de selenoproteínas. Lembrando que o T3 é a forma ativa do hormônio tireoidiano.

Figura 1. Produção dos hormônios tireoidianos. O selênio está envolvido na produção dos hormônios tireoidianos (deiodinases) e nos mecanismos antioxidantes dos produtos da tireoperoxidase

Diante de tanta importância para tireoide, não é raro que quem tenha doença dessa glândula ou queira preveni-la suplemente selênio. Mas será que é necessário mesmo? Existe algum risco nisso?

Suplementação de selênio – a dose faz o veneno

Vamos falar um pouquinho do selênio e os problemas que podem ser causados pela sua falta e seu excesso. Na medicina, às vezes, observamos que algum componente do sangue ou alguma outra característica que a pessoa apresente se estiver em falta ou excesso é ruim para saúde. Se correlacionarmos com algum desfecho, essa característica pode desenhar uma curva em “U” ou em “J”.

A figura abaixo vai ilustrar melhor: a deficiência de selênio foi relacionada à maior mortalidade, mas o excesso também.

Figura 2. Relação entre estado nutricional do selênio e risco para doenças e mortalidade. Modificado de Winther e colaboradores.

E tem mais ainda, os níveis tóxicos do selênio podem ser muito próximos aos níveis considerados ótimos. Por isso, a frase de Paracelsus “a dose faz o veneno” pode ser aplicada para o selênio. Muito selênio pode ser remédio ou veneno (2).

Os níveis de selênio podem ser medidos no plasma e refletem o estado nutricional, levando em conta a ingestão de selênio nos poucos dias anteriores. Mais sofisticada é a avaliação do selênio nos glóbulos vermelhos. Essa modalidade reflete a função da atividade antioxidante da GPX (uma selenoproteína) nesse elemento sanguíneo e verifica o estado nutricional baseado na ingesta do selênio nos últimos três meses.  

Selênio para tireoide

Há quase uma década atrás, uma revista muito prestigiada, a Lancet, listou vários benefícios do selênio (3) pela compilação dos estudos feitos nos anos anteriores. Para tireoide, citaram a redução dos títulos de autoanticorpos e o potencial benefício do selênio na tireoidite de Hashimoto, no não desenvolvimento de tireoidite pós parto em mulheres com anticorpos positivos, no bócio e na Doença de Graves, sobretudo naqueles pacientes com oftalmopatia (quando os olhos ficam “saltados”). Os estudos que a publicação se baseou foram estudos epidemiológicos.

Vale comentar que os estudos epidemiológicos são aqueles em que se tenta correlacionar hábitos de vida, alimentação, exercício em muitas outras coisas a proteção ou maior risco de desenvolver doenças. Como o próprio nome diz, o pesquisador não faz nada ativamente, só observa e analisa as correlações que lhe interessa. Nenhuma intervenção é feita.

Já nos ensaios clínicos, alguma intervenção é feita. A intervenção é a base do experimento científico. Vai se testando se um remédio, um suplemento, um tipo de exercício físico etc. faz mesmo diferença no resultado final, que pode ser a redução de um fator de risco ou mesmo do aparecimento de uma doença. Quem não está atento aos estudos das vacinas contra covid. A vacina é uma intervenção e tem foi comparada ao placebo no desenvolvimento da infecção pelo coronavírus para ver se há alguma eficácia.

Os ensaios clínicos tem um melhor grau de evidência científica que os estudos observacionais. Mas mesmo os estudo de intervenção têm suas falhas na metodologia e temos sempre uma frase no final do estudo “precisamos mais estudos”, “esses achados necessitam ser confirmados” etc.

Novas evidências científicas observaram a redução dos autoanticorpos, mas não houve impacto na função da tireoide. Mesmo que o anti-TPO reduzisse na tireoidite de Hashimoto, não havia mudança sobre a progressão para o hipotireoidismo (alteração do TSH). Parece que não adiantou muito dar selênio, já que seria ótimo se os anticorpos não levassem à doença. Comentei sobre os anticorpos e a tireoidite de Hashimoto no último post.

Essas evidências foram resumidas e publicadas em uma revisão de uma revista de grande credibilidade em 2020. Nesse artigo, os autores relatam que estudos epidemiológicos sugeriram que havia um aumento da frequência de doenças da tireoide em pessoas com deficiência de selênio, mas o limite entre o deficiente e o tóxico é estreito, como já falado. Segue a lista dos destaques:

  • Nas doenças autoimunes da tireoide (Hashimoto e Graves) a suplementação de selênio reduz os níveis de autoanticorpos, mas só que só que não diminuiu a porcentagem de pessoas que precisaram tomar medicação para tireoide em estudos de intervenção. Dar selênio não fez com que menor quantidade de pessoas precisasse usar medicação para tireoide.
  • Estudos observacionais indicaram a deficiência de selênio como fator de rico para bócio, mas esse achado tem que ser confirmado com um estudo em que se dê selênio para ver se o desenvolvimento de bócio diminui (estudo de intervenção)
  • Na Doença de Graves, a suplementação de selênio parece facilitar a normalização dos hormônios, mas esse resultado precisa ser confirmado.
  • O tratamento com selênio é largamente utilizado entre os médicos clínicos nas doenças autoimunes da tireoide, mas atualmente é apenas recomendado para o tratamento de oftalmopatia de Graves leve.

Os autores concluem que esses achados deveriam mudar as atuais condutas em relação à suplementação de selênio para tireoide e reservar apenas para os casos de oftalmopatia de Graves leve.

Recomendações diárias e fontes de selênio na dieta

Bem, é fato que a deficiência de selênio não é boa. Então, qual é a recomendação da quantidade desse mineral e onde encontrá-lo?

Encontramos diversas recomendações diferentes em relação à quantidade ingerida de selênio. A recomendação de 55mcg para homens e mulheres é adotada em alguns no Reino Unido. No Brasil, para adultos, a ANVISA sugere 34mcg/dia para adultos. Em gestantes e lactantes é de 30 e 35mcg/dia, respectivamente (4).

As fontes alimentares: carnes, frutos do mar, laticínios, grãos e castanhas (a castanha do Pará é o alimento mais rico em selênio. Uma única castanha do Pará já fornece a quantidade suficiente de selênio por dia em qualquer idade ou situação. Mas como a castanha do Pará não é um alimento comum na mesa do brasileiro e nem é para todos os bolsos, eu deixo como sugestão para consulta de fontes alimentares um artigo que fala de alimentos típicos da culinária local, que começa já pelo feijão com arroz (5).

Figura 3. Alimentos ricos em selênio

Considerações finais

Para os pacientes, eu diria que mesmo que você esteja convencido que o selênio faz bem para sua saúde, tenha cuidado com os excessos. Suplemente apenas se a deficiência em selênio seja realmente comprovada, já que muito selênio pode fazer mal. A menos que você tenha alguma uma dieta extremamente restrita ou que tenha alguma condição que leve à deficiência de absorção de minerais, como é a cirurgia bariátrica, a deficiência de selênio é coisa rara. Procure ajuda profissional, não faça suplementação por conta própria.

Para os colegas médicos e demais profissionais de saúde que mexem com suplementação, também deixo o recado de cautela na suplementação de selênio. Não há evidências científicas que ele faça diferença na maioria dos problemas de tireoide conforme as últimas publicações.

Referências

  1. VIEIRA, Suzana Maria de Souza. Estudo da associação entre polimorfismo em genes relacionados ao metabolismo da glutationa e a suscetibilidade a complicações microvasculares no diabete melito tipo 1 [doi:10.11606/T.5.2009.tde-22062009-194802]. São Paulo : Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 2009. Tese de Doutorado em Endocrinologia.
  2. Winther KH, Rayman MP, Bonnema SJ, Hegedüs L. Selenium in thyroid disorders – essential knowledge for clinicians. Nat Rev Endocrinol. 2020 Mar;16(3):165-176. doi: 10.1038/s41574-019-0311-6. Epub 2020 Jan 30. PMID: 32001830.
  3. Margaret P Rayman,Selenium and human health,The Lancet. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(11)61452-9.
  4. REGULAMENTO TÉCNICO SOBRE A INGESTÃO DIÁRIA RECOMENDADA (IDR) DE PROTEÍNA, VITAMINAS E MINERAIS”http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2005/rdc0269_22_09_2005.html
  5. Concentrações de selênio em alimentos consumidos no Brasil

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Bócio – aumento da tireoide

Esse texto é uma pequena introdução conceitual sobre um problema muito comum nos consultórios dos endocrinologistas: o bócio.

Tipos de bócio

Ao aumento da glândula tireoide chamamos de bócio. E como acontece esse aumento do volume da tireoide? Há basicamente três possibilidades de aumento da glândula:

  • que o aumento seja uniforme de toda tireoide, o que tecnicamente chamamos de bócio difuso;
  • que o aumento seja por conta de um único nódulo, o que seria o bócio uninodular;
  • que haja mais de um nódulo incrementando o volume da tireoide, conhecido por bócio multinodular.

Essa classificação não tem a ver com a função da tireoide, seria só uma classificação anatômica.

Se considerarmos que a função da tireoide, o bócio pode ser atóxico (não há aumento da produção de hormônios tireoidianos) ou tóxico (quando a tireoide produz muito hormônio e resulta em um quadro clínico e/ou laboratorial de hipertireoidismo subclínico ou clínico.

Combinando as possibilidades de alterações anatômicas e de função, teríamos os seguintes tipos de bócio:

Se não produz muito hormônio:

Se produz muito hormônio:

  • difuso tóxico
  • uninodular tóxico
  • multinodular tóxico

Sintomas do Bócio

O volume normal da tireoide até 15cm3. Pequenos aumentos da glândula não costumam causar nenhum sintoma. Se o bócio for MUITO grande, o que significa um volume de 80 cm3 de toda tireoide ou 40 cm3 de um dos lobos (cerca de 5 vezes o tamanho normal da tireoide ou do lobo, respectivamente), ele pode dar sintomas que resultam da compressão de estruturas vizinhas do aparelho respiratório (traqueia) e digestivo (esôfago).

Os sintomas compressivos resultantes do bócio VOLUMOSO podem incluir dificuldade para respirar ou engolir e sensação de aperto na garganta. Dor na região do pescoço não é típico de qualquer tipo de bócio, apenas em casos de tireoidite subaguda.

Em poucos casos, a tireoide pode crescer para baixo, para a região dentro do tórax. A essa situação chamamos de bócio mergulhante. Esse tipo de bócio frequentemente dá sintomas compressivos.

Visualmente pode ser visto um aumento variável do volume do pescoço. Antigamente, um bócio muito volumoso era chamando de “papo”. Hoje não vemos tantas tireoides volumosas como antigamente, pois temos raras áreas de deficiência de iodo e as cirurgias são realizadas de forma mais precoce.

Bócio volumoso (papo)

Além dos sinais e sintomas locais, podemos ter os sintomas típicos das disfunções da tireoide quando há hipotireoidismo ou hipertireoidismo.

Causas de bócio

O bócio difuso pode ser resultante de doenças autoimunes da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto (bócio difuso atóxico) ou Doença de Graves (bócio difuso tóxico).

Um ou mais nódulos de tireoide podem ser resultantes de uma combinação de fatores bociogênicos genéticos com fatores ambientais. Parece haver uma heterogeneidade genética das células da tireoide que podem se propagar ou não dentro de uma mesma família.  Dos fatores ambientais, a deficiência de iodo é uma das mais importantes. No Brasil, onde o sal é iodado, e a deficiência de iodo é rara.

Exames complementares

Exames laboratoriais

Diante de um aumento da tireoide, os exames laboratoriais para avaliar a função da tireoide são fundamentais.

Lembrando que o TSH é o hormônio da hipófise que estimula a função e o crescimento do tecido da tireoide e de eventuais nódulos nela contidos.

Os hormônios avaliados nos casos de aumento da tireoide são o TSH e o T4 livre, como já descrito em um post anterior. Os anticorpos antitireoidianos são importantes para definir a causa das alterações hormonais se elas forem detectadas.

Ultrassonografia de tireoide

Para determinar se o bócio é difuso, uni ou multinodular, a ultrassonografia pode ajudar. Há casos em que a ultrassonografia demonstra estruturas semelhantes a nódulos no bócio difuso, não são nódulos de verdade (pseudonódulos), mas sim áreas de mais ou menos infiltrado inflamatório. Esse achado é muito comum nas tireoidites autoimunes.

Tireoidite com áreas pseudonoudulares

Cintilografia de tireoide

Nos casos de bócio tóxicos, a cintilografia pode auxiliar a definir se toda tireoide está funcionando demais (hiperfuncionante) ou se o excesso de hormônio é produzido por um único nódulo ou mais de um. A cintilografia é feita com iodo radioativo ou tecnécio. Ambos são captados de forma mais intensa pelas células que estão produzindo muito hormônio e são “revelados” na imagem como área mais escuras.

Na doença de Graves, temos o bócio difuso hipercaptante, ou seja, toda tireoide está trabalhando muito de forma homogênea. Já se um ou mais nódulos produzem muito hormônio, esse tipo de nódulo é chamado “nódulo quente”. O bócio multinodular tóxico é também conhecido por Doença de Plummer.

Cintilografia de tireoide
Cintilografias de tireoide com captação normal, captação aumentada em um bócio difuso tóxico (Doença de Graves) e captação reduzida (tireoidite subaguda).

Devemos recordar que o TSH está reduzido no caso de bócio nodular tóxico, pois a hipófise responde normalmente ao excesso de hormônio tireoidiano circulante. Dessa forma, as áreas circunvizinhas ao nódulo tóxico captam menos iodo por não estarem estimuladas pelo TSH. Nos casos de bócio tóxico, seja ele difuso ou nodular, a tireoide funciona de forma autônoma, descontrolada, independente da estimulação do TSH.

Os nódulos que não aparecem na cintilografia são chamados “nódulos frios”. Antigamente, a cintilografia era utilizada para avaliar o risco de malignidade dos nódulos de tireoide e os nódulos frios eram considerados como mais suspeitos. Hoje, não consideramos mais essa característica para definir se vale a pena fazer punção do nódulo.

Cintilografia de tireoide com evidência de um nódulo quente.
Cortesia do Dr Arshdeep Sidhu, Radiopaedia.org. Do caso rID: 21950
Cintilografia de tireoide de um bócio multinodular tóxico.
Cortesia do Dr Henry Knipe, Radiopaedia.org. Do caso rID: 32230

Punção aspirativa por agulha fina (PAAF)

Os nódulos suspeitos ao ultrassom devem ser puncionados nos pacientes com bócio multinodular. Em pacientes com bócio uninodular tóxico, a PAAF não é geralmente recomendada, pois o risco desse único nódulo autônomo ser câncer é virtualmente nulo (<1%). As indicações de PAAF consideram o tamanho e outros aspectos do nódulo, como já comentado em um post anterior.

Tomografia de tórax

Se a ultrassonografia detectar algum componente mergulhante do bócio (que vai para dentro do tórax), a tomografia de tórax pode ajudar a definir quanto de tecido tireoidiano está dentro da caixa torácica e se está desviando ou comprimindo os órgãos vizinhos, como por exemplo vias aéreas.

Tratamento do bócio

O tratamento de cada tipo de bócio é individualizado. Nos parágrafos seguintes, comentarei em linhas gerais as terapias possíveis para cada tipo de situação.

A maioria dos casos de bócio não precisa de cirurgia! A conduta em cada caso vai depender se o bócio é tóxico ou atóxico, se algum nódulo é maligno, se o bócio está causando sintomas de compressão de estruturas vizinhas (mais uma vez, isso acontece com bócios muito volumosos) e se ele é mergulhante.

Bócios atóxicos

Bócios atóxicos vão ter tratamento cirúrgico (tireoidectomia) apenas se houver suspeita de malignidade (Bethesda IV, V e VI na PAAF), se forem muito volumosos com sintomas compressivos, por questões estéticas ou tiverem considerável componente mergulhante.

Bócios atóxicos com eutireoidismo (função normal da tireoide)

Uma vez descartada a presença de câncer e outras indicações para cirurgia, os bócios atóxicos com função normal da tireoide podem ser apenas acompanhados.

O uso de medicação para reduzir o(s) nódulo(s) não é mais recomendada por elevar o risco de complicações do hipertireoidismo subclínico. Em outras palavras, não tratamos nódulos de tireoide com hormônio se os exames de sangue estiverem normais!

Mais detalhes sobre o tratamento desse tipo de bócio está no próximo post.

Bócio atóxico (com hipotireoidismo)

Como vimos, o TSH estimula o crescimento da tireoide. Dessa forma, na presença de bócio, há indicação de tratamento com levotiroxina nos casos de hipotireoidismo clínico ou mesmo subclínico (quando o TSH está aumentado) a fim de manter o TSH em níveis normais.

Pode haver redução do bócio com a normalização do TSH e o volume da tireoide e dos nódulos devem ser reavaliados.

Bócios tóxicos (com hipertireoidismo)

Bócios tóxicos (com hipertireoidismo clínico ou subclínico) podem ser tratados com medicações que reduzem a produção de hormônios (drogas antitireoidianas).

Alternativamente, podem ser consideradas doses variáveis de iodo radioativo para destruir parte do tecido tireoidiano que trabalha de forma excessiva e autônoma. Porém, há um risco inerente do tratamento do iodo radioativo de transformar um hipertireoidismo em hipotireoidismo. De forma geral, os hipotireoidismo são mais bem controlados que os hipertireoidismos.

O uso do iodo radioativo, antecedido ou não de TSH recombinante, ainda não é consenso. Esse tratamento pode ser uma opção para pacientes com bócios que teriam indicação de cirurgia, mas os pacientes não têm condição clínica de serem submetidos à retirada da tireoide.

Bócios multinodulares tóxicos volumosos e com sintomas compressivos também são candidatos para o tratamento cirúrgico.

Considerações finais

A tireoide é fonte de vários problemas e tem um monte de post nesse blog falando sobre as doenças que acometem essa glândula. A notícia boa é que há diversos tipos de tratamentos eficazes, mas não existe uma receita de bolo para o mesmo tipo de problema em pessoas diferentes. Mesmo com o diagnóstico de câncer de tireoide, há excelentes chances de cura. Em alguns casos cabe até a discussão de não operar (vigilância ativa).

Se você tem bócio, consulte o seu médico! Se houver necessidade de uma opinião especializada, um endocrinologista poderá ajudar a decidir a melhor conduta para o seu tipo de problema.

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Hipertireoidismo Subclínico: TSH baixo e T4 livre normal

Disfunções subclínicas da tireoide e hipertireoidismo subclínico

As disfunções hormonais muito leves são aquelas que não atingem os critérios diagnósticos da forma completa são denominadas formas subclínicas. Elas podem ser assintomáticas e evoluir ou não para a formas clínicas, quando o quadro clínico da disfunção é mais evidente e a vantagem em se tratar é evidente.

Nas formas clínicas das doenças da tireoide, os critérios diagnósticos e indicação de tratamento são bem estabelecidos, mas já não são assim tão claros nas disfunções subclínicas.

Neste texto, o enfoque será sobre o hipertireoidismo subclínico, que é caracterizado por TSH baixo e T4 livre normal.

Sinais e sintomas das doenças tireoidianas
Figura 1. Sinais e sintomas das doenças tireoidianas na forma clínica

A decisão de tratar o hipertireoidismo subclínico vem sendo revista nos últimos anos. Não existem estudos clínicos bem desenhados para indicar com segurança quais os pacientes que se beneficiam de tratamento quando a doença tireoidiana é muito leve.

As recomendações das grandes organizações profissionais são baseadas em estudos não randomizados ou opinião de especialistas. Esses dois tipos de estudo têm menor valor na escala de evidência científica e a recomendação que deriva deles é fraca.

Complicações do hipertireoidismo subclínico

O hipertireoidismo subclínico pode estar associado com uma série de problemas potenciais, principalmente em pessoas acima dos 65 anos e mulheres na pós-menopausa:

  • Doenças cardiovasculares (fibrilação arterial, insuficiência cardíaca, doença coronariana)
  • Perda óssea e fraturas
  • Demência

Nem todos os pacientes precisam ser tratados. Estudos observaram que o risco desenvolvimento dessas complicações também a progressão para a forma completa da doença é maior nos pacientes que apresentam o TSH menor que 0,1mU/L em qualquer idade quando comparado aos pacientes que tem os valores de TSH entre 0,1 e 0,4 um/L ou em pessoas de mais idade. Dessa forma, o artigo de revisão utilizado aqui como referência resumiu as recomendações sobre o tratamento que serão vistas mais adiante.

Causas do hipertireoidismo subclínico

O hipertireoidismo subclínico pode ser causado por doenças da tireoide (endógeno) – as mesmas que levam à forma clínica – ou pela ingestão maiores quantidades de hormônio tireoidianos (exógeno).

O hipertireoidismo subclínico exógeno é muito mais comum que o endógeno e é resultado do sobretratamento de forma inadvertida ou também intencional para suprimir os níveis de TSH em alguns casos de seguimento de câncer de tireoide. Ainda pode ser causada de forma iatrogênica (que causam mais dano que benefício) pela ingestão de hormônio tireoidiano contido em fórmulas magistrais para emagrecimento.

Antes de dar o diagnóstico de hipertireoidismo subclínico, outras causas de redução de TSH devem ser afastadas:

Diagnóstico e classificação do hipertireoidismo subclínico

Pacientes mais idosos podem ser assintomáticos. Já os pacientes mais jovens podem ter sintomas de hipertiroidismo como palpitações e tremores além de achados compatíveis com doença tireoidiana como aumento da glândula (bócio) e protusão dos olhos (exoftalmo).

O diagnóstico laboratorial é realizado com a dosagem de TSH, T4 e T3 livres.

Hipertireoidismo subclínico leve

  • TSH entre o limite inferior do método e ≥ 0,1mU/L
  • T3 e T4 livres normais

Hipertiroidismo subclínico grave

  • TSH < 0,1mU/L
  • T3 e T4 livres normais

É aconselhável repetir os exames hormonais em três meses, já que os valores anormais podem ser transitórios em até metade dos pacientes e no diagnóstico diferencial das tireoidites. Se confirmados, exames adicionais para determinar a causa, como anticorpos antitireoidianos e exames de imagem devem ser solicitados. As doenças mais comuns são Doença de Graves e presença de nódulos de tiroide funcionantes.

Avaliação das complicações

Além dos exames para avaliar a tireoide, outros para avaliar o risco associado de doença cardiovascular, tais como eletrocardiograma, holter, ecocardiograma em pacientes com sintomas, especialmente os acima de 65 anos.

Em pacientes que já têm o diagnóstico de fibrilação atrial, deve-se avaliar o risco de tromboembolismo. Uma das formas é o cálculo do escore CHADDS – VASc AVC  para definir necessidade de terapia anticoagulante.

A saúde óssea deve ser avaliada através da densitometria em:

  • Mulheres na pós-menopausa
  • Homens > 65 anos
  • Pacientes com fatores de risco para baixa massa óssea

Tratamento do hipertireoidismo subclínico

Como já comentado, nem todos os casos precisam de tratamento. De acordo com o nível de TSH, idade e fatores de risco, há maior ou menor recomendação de tratar.

A figura abaixo resume algumas recomendações para o tratamento do hipertireoidismo subclínico:

  • nos pacientes com mais de 65 anos e TSH menor que 0,1mU/L , a recomendação é tratar sempre;
  • nos pacientes com mais de 65 anos e TSH entre 0,1mU/L e o limite inferior do método e ainda nos pacientes mais jovens com TSH <0,1mU/L, a recomendação de tratar é menos forte (possivelmente tratar);
  • nos pacientes com idade inferior a 65 anos e com TSH entre 0,1mU/L e o limite inferior do método, a recomendação é observar
tratamento do hipertireoidismo subclínico
Figura 2. Diagrama para decisão de tratamento no hipertireoidismo subclínico conforme nível de TSH e idade.

A conduta vai também depender da causa do hipertireoidismo subclínico.

Hipertireoidismo subclínico exógeno

A fonte do hormônio é externa. Pode acontecer em pacientes com hipotireoidismo em reposição excessiva da levotiroxina. Se for observado TSH baixo, a dose do hormônio deve ser reduzida. O mesmo deve ser feito em pacientes com câncer de tireoide de baixo risco sem evidência de doença. Em pacientes com câncer de tiroide que ainda tenham evidência da doença, os benefícios da supressão do TSH para o controle da doença devem ser sempre pesados em relação ao risco do excesso de hormônio (tireotoxicose).

Fórmulas para emagrecimento que contenham hormônio tireoidiano devem ser interrompidas. A prescrição de hormônios tireoidianos em fórmulas magistrais para esse fim não constitui uma boa prática médica. Inclusive, esse tipo “tratamento” nem é citado nos textos científicos, mas é muito realizado em nosso meio. 

Hipertireoidismo subclínico endógeno

A fonte do excesso hormonal interna, da tireoide ou de tumores (raro). Os medicamentos que diminuem a produção excessiva de hormônio podem ser utilizados, como o tiamazol e o propiltiouracil, ou ainda a radioiodoterapia.

A cirurgia pode ser aventada em casos de bócios volumosos.

A terapia antitireoidiana pode ser associada a medicamentos que controlam os sintomas, tais como betabloqueadores, que controlam os sintomas de palpitação e tremores das extremidades.

Considerações finais

Diante de diversas possibilidades de tratamento, a avaliação individual, considerando as preferências dos pacientes, é fundamental. Finalizando, espero que essa publicação tenha sido esclarecedora, mas se restou alguma dúvida, não deixe de perguntar ao seu médico.

Referência

HADDAD, J. D. Subclinical Hyperthyroidism. N Engl J Med, v. 379, n. 15, p. 1484-5, 10 2018. ISSN 1533-4406.

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