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Amiodarona e tireoide – hipotireoidismo

Efeito da amiodarona e do excesso de iodo sobre o funcionamento da tireoide

A amiodarona é um medicamento usado desde longa data para arritmias cardíacas. Atualmente, vem sendo substituída por medicamentos mais modernos. A importância para a endocrinologia consiste no potencial dessa medicação de modificar a função da glândula tireoide para mais ou para menos.

As disfunções tireoidianas causadas pela amiodarona são explicadas pelo fato dessa medicação ter em sua composição uma grande quantidade de iodo. Em torno de 3 mg (3000 µg) de iodo são liberados na circulação por cada 100 mg de amiodarona ingerida. Para se ter uma ideia da dimensão desses números, o requerimento médio diário de iodo é 150µg para adultos, ou seja, um comprimido de 100 mg de amiodarona tem 20 vezes a quantidade de diária de iodo necessária para para o adequando funcionamento do organismo. 

Estrutura química da amiodarona

O iodo é captado ativamente pela tireoide e serve como matéria prima para produção dos hormônios tireoidianos tireoidianos principais: triiodotironina (T3) e tetraiodotironina (T4). Portanto, tanto a deficiência quanto o excesso de iodo podem afetar função da tireoide e produção desses hormônios.

Hipotireoidismo ou hipertireoidismo pode ser a resultante do uso da amiodarona, embora a maioria dos pacientes que usem essa medicação permaneçam com função da tireoide normal. Estima-se que, aproximadamente, 15 a 20% dos pacientes tratados com amiodarona terão disfunção tireoidiana. Nas áreas em que há suficiência de iodo, o primeiro é mais frequente, já nas regiões geográficas deficientes em iodo, o segundo é mais frequente.

No Brasil, um estudo mostrou que cerca de 90% dos indivíduos estão protegidos da deficiência de iodo. No mesmo estudo, ficou demonstrado que 44,6% da população pode estar submetida, na verdade, ao excesso do consumo desse mineral. No mundo, as áreas de deficiência de iodo estão ficando mais raras, em parte por conta da suplementação de iodo no sal. Como resultado evolução de deficiência para suficiência de iodo de forma global, a tireoidite com hipotireoidismo decorrente do uso de amiodarona vem se crescendo em número de casos ao longo do tempo. 

Não pode ser esquecida a menção de um efeito no mínimo curioso e aparentemente paradoxal: a grande quantidade de iodo contido na amiodarona faz com que a tireoide se adapte à esta sobrecarga reduzindo a produção de hormônio tireoidiano. Esse fenômeno é conhecido como Efeito Wolff-Chaikoff, que resulta em diminuição dos níveis dos hormônios tireoidianos e  consequente aumento do hormônio estimulante da tireoide (TSH).

Em alguns dias, a tireoide “escapa” do efeito Wolff-Chaikoff com consequente normalização do T4 e TSH. O Efeito Wolff-Chaikoff explica porque o iodeto (iodeto de potássio e solução de Lugol) é utilizado nas emergências clínicas do hipertireoidismo. Infelizmente, em nosso meio, a solução de Lugol é  largamente utilizada de forma irresponsável para melhorar a função da tireoide e até com promessas para emagrecimento. Cada gota de solução de Lugol a 5% têm 2,5 g de iodo, acima de 10 vezes a necessidade diária. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia lançou um alerta para o uso indiscriminado do Lugol.

Variações no TSH, T4 total e livre, T3 total e livre e T3 reverso são vistas até que um estado de equilíbrio seja alcançado.

Hipotireoidismo secundário ao uso de amiodarona

Embora o hipotireoidismo possa ocorrer na ausência de autoimunidade (presença de auto-anticorpos) e com a glândula tireoide aparentemente normal ao exame de ultrassonografia, é mais frequente que a disfunção ocorra na tireoidite crônica autoimune (tireoidite de Hashimoto), com maior prevalência em mulheres e em áreas carentes em iodo.

O hipotireoidismo é facilmente tratado com a reposição de levotiroxina e não há necessidade de suspender o uso da amiodarona. O tratamento do hipotireoidismo subclínico (TSH entre o limite superior do valor de referência e 10mU/L com T4 livre normal) pode não ser necessário em alguns casos, principalmente em pacientes idosos pela possibilidade do aumento do risco de eventos cardiovasculares como arritmias cardíacas. Testes laboratoriais para avaliação da função tireoidiana devem ser realizados a cada 4 a 6 meses para avaliar o risco de progressão do hipotireoidismo. 

Se o uso da amiodarona for suspenso, pode ser necessário reduzir ou descontinuar o uso do hormônio tireoidiano.

A Diretriz da Associação Europeia de Tireoide sobre disfunção tireoidiana por amiodarona sugere com algoritmo para o manejo do hipotireoidismo induzido por amiodarona.

Algoritmo do manejo do hipotireoidimos induzido por amidorona
Algoritmo do manejo do hipotireoidimos induzido por amidorona

A amiodarona também pode resultar em hipertireoidismo, assunto do post seguinte.

Até a próxima!

Referência bibliográfica

Diretriz da Associação Europeia de Tireoide sobre disfunção tireoidiana secundária ao uso da amiodarona

Tireoide e peso: qual a relação?

Atire a primeira pedra quem nunca procurou ou acha que o ganho de peso é culpa da tireoide. Sabe-se que há uma relação entre doença tiroidiana, peso corporal e metabolismo. Alguns pacientes perguntam se o problema deles é a “tireoide que engorda ou emagrece”. Vamos conversar brevemente sobre o assunto.

Baixos níveis de hormônio tiroidiano já foram associados com diminuição do metabolismo e ganho de peso altos níveis com metabolismo mais acelerado e consequente perda de peso.

Quando se fala em ganho de peso, nem toda variação de peso é problema de tireoide… na verdade, a maioria das pessoas não ganham peso por conta da redução do hormônio tireoidiano.

Porém, existem outras substâncias no organismo além dos hormônios tiroidianos que participam do gasto metabólico e não se pode predizer qual a parcela de contribuição da variação apenas  do peso em consequência apenas das variações desses hormônios.

HIPOTIROIDISMO E GANHO PESO 

Algum ganho de peso é associado com o hipotireoidismo. A causa do ganho de peso pode ser complexa e nem sempre relacionada a aumento de gordura, mas muito é devido ao acúmulo de sódio e água que propriamente gordura. Um ganho de peso expressivo é raramente associado ao hipotireoidismo. Em geral, 2,5 a 5,0 kg podem ser atribuídos ao hipotireoidismo, dependendo da gravidade do caso.

Se o ganho de peso é o único sintoma do hipotireoidismo, é pouco provável que esse aumento de peso se deva unicamente a deficiência do hormônio tiroidiano. Outros fatores como excesso de ingesta calórica – dou destaque aos alimentos ultraprocessados – de física devem ser sempre lembrados.

Já que grande parte do ganho de peso com hipotireoidismo é devido ao acúmulo de sal e água, é esperada uma pequena diminuição do peso (cerca de 10%) com o tratamento do hipotireoidismo com a reposição do hormônio tiroidiano. O peso geralmente volta aos patamares antes do início da doença.

TIREOTOXICOSE E PERDA DE PESO

De forma inversa ao hipotireoidismo, o excesso de hormônio tiroidiano, a tireotoxicose, seja na tireoidite no hipertiroidismo pode levar à perda de peso se o paciente não consegue consumir a quantidade de calorias para compensar o aumento do metabolismo. A perda de peso pode ocorrer também por dose excessiva de reposição do hormônio tiroidiano no hipotireoidismo. Uma vez que o hipertiroidismo aumenta o apetite, se a ingesta calórica suplantar o gasto metabólico (mesmo que elevado), alguns pacientes podem ganhar peso ao invés de perdê-lo.

Quando a tireotoxicose é resolvida, há recuperação do peso aos valores antes da doença. Isto é, se a pessoa emagreceu sem dieta, ela recupera o peso mesmo comendo de forma semelhante da época em que estava emagrecendo ou mantendo o peso sem grandes esforços.

Lembrando sempre que o uso de hormônio tiroidiano exclusivamente para perda de peso ou tratamento do hipotireoidismo com doses maiores que as recomendadas podem levar à perda de peso, porém a um preço perigoso para saúde. Não caia nessa cilada!

Referência

Thyroid and weight