Arquivo da categoria: Hipófise

Hipófise secretando seus vários hormônios e seus respectivos locais de ação
Hormônios secretados pela hipófise anterior e posterior e seus respectivos locais de ação

A hipófise é pequena glândula, mas de uma importância enorme para endocrinologia. Os hormônos produzidos pela hipófise estimulam diversas outras glândulas e tecidos do corpo. Os textos dessa categoria descrevem as alterações dos hormônios produzidos pela hipófise, principalmente a  prolactina.

Problemas endocrinológicos do tratamento do câncer

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inibidores de checkpoint imunológicos e endocrinopatias

Endocrinologia e oncologia têm uma nova interface: as complicações endocrinológicas dos inibidores de checkpoint. Essas medicações revolucionaram a oncologia nas últimas duas décadas, aumentando a sobrevida de muitos pacientes com câncer.

Os inibidores de checkpoint liberam o sistema imunológico a atacarem as células cancerígenas combatendo o tumor, mas também liberam autoimunidade e inflamação contra o sistema endócrino.

Os eventos adversos mais comuns sobre as glândulas são corriqueiros da prática dos endocrinologistas, tais como a tireoidite autoimune (tireoidite de Hashimoto) e o diabetes tipo 1, mas outras são muito raras, como a hipofisite e insuficiência adrenal primária. Esses eventos adversos podem ser leves a gravíssimos.

A ideia desse texto é conversar acerca da toxicidade dos inibidores de checkpoints sobre as glândulas endócrinas, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento. Os links que aparecerem durante o texto levam aos posts específicos de cada complicação endócrina.  

O que são os inibidores dos checkpoints?

Os inibidores de checkpoint são anticorpos monoclonais amplamente utilizados no tratamento de diversos tipos de câncer na atualidade.

Para quem não está familiarizado com essa classe de droga, os inibidores de checkpoint agem em duas vias de sinalização relacionadas à ativação da célula T do sistema imunológico: o CTLA-4, PD-1 e seu ligante, PD-L1. 

O CTLA-4 (cytotoxic T lymphocyte antigen-4) naturalmente bloqueia a ativação e proliferação das células T do sistema imunológico; O PD-1 (programmed cell death-1) e seu ligante PD-L1 sinergicamente com o CTLA-4 reduzem a proliferação e funcionamento das células T além da produção de citocinas. Essas moléculas são pontos de controle ou verificação (checkpoints) promovem a tolerância imunológica e previnem a autoimunidade.

O bloqueio do CTLA-4 em conjunto ou não com bloqueio do PD-1 e PD-L1 destravam esse controle imunológico e permitem o ataque autoimune contra as células cancerígenas. Só que a inibição desse sistema destrava também a autoimunidade e a inflamação contra outras células não cancerígenas como pele, intestino, fígado e glândulas endócrinas.

Os mecanismos de ação dos inibidores de checkpoint estão representados na Figura 1.

Figura 1. Mecanismos de ação dos inibidores de checkpoint

O ipilimumab foi primeiro inibidor de checkpoint aprovado para o tratamento de melanoma em 2011. Esse tipo de tratamento melhorou substancialmente a sobrevida dos pacientes. Os inibidores de PD-1 e PD-L1 demostraram eficácia maior que a primeira classe e hoje é aprovado em cerca de 17 diferentes tipos de câncer, incluindo pele, rim, pulmão, bexiga, trato digestivo alto e cabeça e pescoço.

Em alguns tipos de câncer, é feita a combinação do inibidor de CTLA-4 e PD-1/PDL-1, o que aumenta a eficácia, mas também os efeitos colaterais.

As principais medicações de cada classe estão descritas na Tabela 1.

DrogaClasse
IpilimumabeAnti-CTLA-4
Nivolumabe
Pembrolizumabe
Cemiplimabe
Anti-PD-1
Atezolizumabe
Avelumabe
Durvalumabe
Anti-PD-L1
Tabela 1. Representantes dos inibidores de checkpoint e suas respectivas classes

Toxicidade sobre o sistema endócrino dos inibidores de checkpoint

Os efeitos adversos que recaem sobre o sistema endócrino são diferentes em comparação aos outros sistemas. A seguir, algumas diferenças:

Primeiro, eles resultam em dano permanente e irreversível sobre as glândulas;

Segundo, para o tratamento dos efeitos colaterais, os dois principais pilares do tratamento (descontinuação da medicação ou corticoides em altas doses) não revertem o quadro autoimune.

Terceiro, o tratamento de reposição hormonal é o tratamento padrão e costuma ser definitivo.

Agora, vamos ver com mais detalhes principais as glândulas atingidas por essas novas medicações.

Tireoide

A tireoide é a glândula mais afetada. Efeitos colaterais acontecem em 10% dos pacientes tratados com inibidores do PD-1/PD-L1 em monoterapia até 15-20% daqueles tratados com combinação de anti-PD-1/CTLA-4. O hipotireoidismo acontece quase sempre e pode ser precedido de uma fase de tireoidite em 30-40% dos casos. Doença de Graves raramente acontece.

Pacientes com autoimunidade prévia são mais suscetíveis ao hipotireoidismo.

O diagnóstico é geralmente feito após o início da terapia com os inibidores de checkpoints, mas pode acontecer a qualquer momento do tratamento. Necessita de alto grau de suspeita clínica, já que os sintomas podem se confundir com os do tratamento do câncer em si.

O diagnóstico laboratorial de hipotireoidismo primário é feito mediante um TSH alto e T4 livre baixo. Entretanto, se houve um T4 livre baixo associado a um TSH baixo ou inapropriadamente normal, o diagnóstico de hipotireoidismo secundário (central) deve ser pensado e a hipófise, investigada.

O TSH e o T4 livre (necessariamente os dois) devem ser avaliados a cada 8 semanas do início do tratamento com essas drogas e a qualquer momento se houver sintomas sugestivos de disfunção tireoidiana.

O tratamento é o padrão para tireoidite e o hipotireoidismo, com sintomáticos na fase de tireotoxicose, se houver, seguidos por reposição com levotiroxina.

Hipófise

A inflamação da hipófise, ou hipofisite, é uma condição muito rara fora do contexto dos inibidores de checkpoints. Entretanto, hipofisite ou hipopituitarismo ocorrem em até 10% dos pacientes que receberam anti-CTLA-4 isolado ou combinado com o bloqueio do PD-1.  Raramente acontece com anti-PD-1/PD-L1 em monoterapia (0,5 – 1,0%). Sexo masculino e idade mais avançada parecem ser fatores de risco para essa complicação.

Em modelos animais tratados com anti-CTLA-4 há infiltração de linfócitos e produção de autoanticorpos específicos contra as células que produzem ACTH, TSH e gonadotrofinas).

A maioria dos pacientes com hipofisite apresentam sintomas. Para o tratamento com ipilimumabe, os sintomas aparecem mais entre 9-12 semanas e em 6 meses para os anti-PD-1/PD-L1.

Fadiga e náusea são comuns e podem acontecer por conta de insuficiência adrenal secundária. Dor de cabeça, náuseas, vômitos, visão dupla e defeitos do campo visual são relacionados à neurocompressão de estruturas circunvizinhas à hipófise.

Além da insuficiência adrenal, hipotireoidismo e hipogonadismo centrais ou secundários, também são bastante comuns.

O diagnóstico da hipofisite é feito com a dosagem dos basais hormonais dos diferentes setores (ACTH/cortisol, TSH/T4 livre, FSH/LH e estradiol ou testosterona etc.). Qualquer dose de corticoide recente pode confundir o diagnóstico de insuficiência adrenal e o endocrinologista deve ser consultado já que podem ser necessários testes hormonais dinâmicos, como o teste do ACTH para confirmação diagnóstica da insuficiência adrenal.  

Os pacientes que apresentarem dor de cabeça devem ser investigados com ressonância magnética com atenção especial para área da hipófise. A imagem encontrada na sela túrcica pode ser de uma hipófise aumentada, que pode ser descrita como um “adenoma de hipófise” ou sela vazia. Contudo, uma imagem normal da hipófise não afasta o diagnóstico.

O rastreamento da insuficiência adrenal com cortisol sérico basal é controverso no tratamento dos inibidores de checkpoint.

O tratamento da insuficiência adrenal é padrão, já descrito em outro post, com prednisona ou hidrocortisona.

Se houver o diagnostico de hipotireoidismo concomitante, há dois pontos de atenção:

  1. nunca deve ser feita a reposição da levotiroxina antes de descartar e iniciar o tratamento da insuficiência adrenal com corticoide (isso vale para o hipotireoidismo primário e central) ;
  2. devemos nos basear no T4 livre e não no TSH para definir a dose de reposição de levotiroxina no hipotireoidismo central.

A reposição com esteroides sexuais nos homens e mulheres pode ser realizada, desde que não haja contraindicação ao seu uso.

Pacientes com sintomas de neurocompressão graves (dor de cabeça intensa, visão dupla, alteração do campo visual) podem receber prednisona 1-2mg/kg com rápido desmame (em 1-2 semanas) para não atrapalhar o tratamento oncológico. É possível que o corticoide continue como dose de reposição de insuficiência adrenal, mas não como dose anti-inflamatória.

Insuficiência adrenal primária

A insuficiência adrenal primária é uma complicação rara do tratamento com inibidores de checkpoint.  Os sintomas comuns aos da insuficiência adrenal secundária são cansaço, fadiga e náusea e os sintomas exclusivos da insuficiência primária são escurecimento da pele, hipotensão com ou sem desidratação. No laboratório, temos cortisol baixo com ACTH alto e aumento do potássio como marcadores da insuficiência adrenal primária.

A crise adrenal é mais comum na insuficiência adrenal primária, mas pode acontecer também na secundária. Como a crise adrenal é uma complicação potencialmente fatal, o tratamento com hidrocortisona e reposição volêmica devem ser iniciados mesmo sem a confirmação de qual seria o tipo de insuficiência adrenal. Não esquecer da carta ou cartão de orientação nos casos de emergência na alta do paciente!

De uso contínu, na insuficiência adrenal primária, é necessário um glicocorticoide (prednisona ou hidrocortisona) associado à um mineralocorticoide (fludrocortiosona).

Diabetes mellitus (DM)

É um diabetes mellitus causado pelos inibidores do checkpoint cursam com deficiência grave de insulina. Parece um tipo 1, mas tem algumas particularidades.

É provável que seja um diabetes autoimune, mas os anticorpos contra o pâncreas só estão presentes em 40-50% dos pacientes versus 90% dos pacientes com diabetes tipo 1.

Há uma destruição mais rápida e grave das células beta das ilhotas pancreáticas. Diferentemente da hipofisite, o diabetes mellitus é mais comum em usuários dos inibidores de anti-PD-1/PD-L1 isolado ou em combinação e raro nos que usam CTLA-4 em monoterapia.

Frequentemente, o DM pode vir associado à pancreatite (pâncreas exócrino), tireoidite e colite.

O diagnóstico não é difícil, pois os sintomas são clássicos do diabetes descompensando e da cetoacidose diabética. A glicemia está alta ao diagnóstico, mas a Hb glicada pode não estar elevada, já que a glicemia pode subir de forma rápida e não dar tempo de glicar a hemoglobina.

Mais comumente, o diabetes aparece entre 7-17 semanas do início da terapia com os inibidores do checkpoint, mas pode surgir vários anos depois.

A monitorização da glicemia a cada ciclo da medicação oncológica pode ser útil. Amilase e lipase elevadas suportam o diagnóstico do diabetes induzido pela droga, mas podem vir normais.

O tratamento é feito como no diabetes tipo 1, com reposição de dois tipos de insulinas de forma permanente.

Considerações finais

As complicações endocrinológicas das novas medicações contra o câncer abrem um novo capítulo na endocrinologia e mais um ponto de trabalho em conjunto entre o oncologista e endocrinologista.

A primeira vez que eu ouvi uma colega falar de hipofisite em um dos pacientes dela usando inibidores de checkpoint eu fiquei assustada e curiosa, até o momento em que eu tive um paciente no consultório com insuficiência adrenal secundária ao uso dessas medicações. Percebi, naquele momento, que esse tipo de paciente pode chegar em qualquer consultório de endocrinologia.

Uma das motivações que me fazem escrever nesse blog é aprender mais sobre assuntos novos e esse, certamente, esse é essencial. Espero que essas informações tenham sido úteis para pacientes em tratamento oncológico, aos que trabalham ou convivem com pessoas em tratamento de câncer e colegas de profissão.

Referências

Wright JJ, Powers AC, Johnson DB. Endocrine toxicities of immune checkpoint inhibitors. Nat Rev Endocrinol. 2021 Jul;17(7):389-399. doi: 10.1038/s41574-021-00484-3. Epub 2021 Apr 19. PMID: 33875857; PMCID: PMC8769055.

Percik R, Shoenfeld Y. Check point inhibitors and autoimmunity: Why endocrinopathies and who is prone to? Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2020 Jan;34(1):101411. doi: 10.1016/j.beem.2020.101411. Epub 2020 Mar 5. PMID: 32278687.

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Diabetes insipidus – deficiência do hormônio antidiurético (AVP)

O Diabetes Insipidus (DI) é uma doença rara, na qual há deficiência ou resistência do hormônio antidiurético e impossibilitando a concentração de urina.  A pessoa com essa doença urina litros e mais litros de urina diluída, quase água pura mesmo. Aqui, a gente vai chamar aqui de poliúria hipotônica e, nesse texto, vamos discutir a causa do diabetes insipidus e as doenças que podem simulá-la. O parágrafo sobre tratamento será mais direcionado para quando há deficiência hormonal, o diabetes insipidus central.

A hipófise posterior libera o hormônio antidiurético (do inglês antidiuretic hormone ou ADH) que é produzido no hipotálamo, conforme Fig. 1. O ADH também é conhecido como vasopressina ou arginina-vasopressina (AVP).  

Importante destacar que nos últimos anos há uma sugestão de mudança de nomenclatura para “Deficiência de AVP” em lugar de diabetes insipidus central.

Aqui nesse texto, você ainda vai encotrar muito a nomenclatura antiga.

Figura 1. Hipófise com destaque à hipófise posterior onde é liberado o ADH produzido pelos núcleos hipotalâmicos.

O hormônio antidiurético age no seu receptor no rim trazendo de volta para circulação sanguínea parte da água que seria eliminada na urina. Esse transporte se dá através do aumento dos canais de água chamadas de aquaporinas 2 na superfície do túbulo renal.

Figura 2. Ação do ADH no rim pela mobilização das vesículas de aquaporinas 2 para superfície da célula do túbulo renal e posterior reabsorção da água.

Diagnóstico diferencial da poliúria e polidipsia

A urina hipotônica é considerada quando a osmolalidade é < 300 mOsm/Kg. Com esse valor, completamos o critério de urina hipotônica.

Depois desse ponto, devemos saber se o problema da concentração de urina se deve a uma das três causas:

– Deficiência da produção do hormônio diurético pelo hipotálamo-hipófise posterior ou deficiência de AVP (DI central)

– Resistência à ação do hormônio antidiurético no rim ou resistência ao AVP (DI nefrogênico)

– Decorrente do hábito, mania ou necessidade de beber muita água (polidipsia primária ou psicogênica). O beber muita água é o problema principal, enquanto no DI, urinar muito é o problema primário e beber muita água é decorrente (secundário) desse primeiro aspecto.

Relatos que falam contra o DI e a favor da polidipsia primária

  1. o paciente consegue dormir a noite toda se se levantar para ir urinar
  2. o paciente se levanta à noite para beber água ao invés de urinar
  3. existe uma doença psiquiátrica associada, como esquizofrenia

Há ainda o diabetes insipidus gestacional por aumento da produção da enzima vasopressinase pela placenta (dá uma olhada no post do Instagram no final desse texto).

Causas de polidipsia

A história do paciente já pode dar pistas da causa do diabetes, como o relato de cirurgia na região da hipófise-hipotálamo. Uso de lítio é uma causa comum para DI nefrogênico nos dias de hoje.

Em post futuro, vale a pena esmiuçar a polidipsia primária, pois pode ser mais frequente do que se imagina por conta do “estilo de vida saudável” persseguido por algumas pessoas, na tabela descritas como “entusiastas da saúde”.

DefeitoCausas adquiridas
Deficiência de AVP (DI Central)
Deficiência na síntese ou secreção do ADH-Trauma (cirurgia ou lesão por desaceleração)
-Neoplasia (craniofaringioma, meningioma, germinoma e metástases)
-Granulomatose (histiocitose e sarcoidose)
-Infecção (meningite, encefalite e tuberculose)
-Inflamatório ou autoimune (infundíbulo-neurohipofisite linfocítica e neurohipofisite)
-Exposição a drogas ou toxinas Disfunção do osmorreceptor (DI adípsica)
-Outros (hidrocéfalo, cisto ventricular ou suprasselar e doença neurodegenerativa)
-Idiopático
Resistência ao AVP (DI Nefrogênico)
Redução da sensibilidade renal ao efeito dos níveis fisiológicos do h. antidiurético-Drogas (lítio demeclociclina, cisplatina etc.)
-Hipercalcemia ou redução do potássio no sangue (hipocalemia)
-Lesões infiltrativas (sarcoidose, amiloidose, mieloma múltiplo) –
-Mecânico (rins policísticos, obstrução ureteral)
Polidipsia primária
Ingesta excessiva de água-Dipsogênico (idiopático ou com lesões centrais semelhante ao que acontece no DI central)
-Síndrome da psicose com hiponatremia e polidipsia psicogênica intermitente
-Consumo compulsivo de água
-Entusiastas da saúde
Diabetes insipidus gestacional 
Aumento do metabolismo enzimático do ADH circulante-Gravidez
Tabela 1. Defeitos e causas do excesso de consumo de água e aumento da diurese.

Quadro clínico da poliúria hipotônica (diabetes insipidus)

Além de urinar muito, no diabetes insipidus (agora sugerido que se fale em poliúria hipotônica) a pessoa também tem muita sede e bebe muita água (polidipsia). A quantidade de água ingerida excede três litros por dia. A diferença para o diabetes mellitus é que esse mesmo quadro de urinar muito e beber muita água é causado pelo aumento da glicose no sangue que extravasa para urina (diurese osmótica).

Pode ser que a pessoa urine muitas vezes, mas não quer dizer que seja em grande volume. Se considera um volume de urina em excesso quando, em adulto, o volume urinário ultrapassa 50ml/kg/24h. Uma pessoa com 80 kg, por exemplo, teria que urinar mais de 4 litros por dia. Se esse volume não é confirmado, devemos pensar em problemas geniturinários como bexiga hiperativa, por exemplo.

Diagnóstico laboratorial da poliúria hipotônica (diabetes insipidus)

Depois de confirmada a poliúria, o passo seguinte é saber se a urina é diluída. Para isso, pede-se o exame de osmolalidade ou osmolaridade urinária, que mede a quantidade de solutos no líquido analisado, sendo o primeiro avaliado em quilos e o outro em litros de um determinado solvente.

A avaliação laboratorial inicial deve ser descartado o diabetes mellitus, o aumento do cálcio (como acontece no hiperparatireoidismo primário) e a redução do potássio. Esses últimos são causa de diabetes insipidus nefrogênico.

Se a pessoa com diabetes insipidus não tem problemas de acesso à água, não há desidratação e ela consegue compensar o que ela perde na urina e equilibrar os eletrólitos no sangue.

Em condições normais, quando há redução da ingesta de água, a urina fica concentrada. Para você perceber esse fenômeno, note a urina da manhã é mais amarelada (concentrada) depois de uma longa noite de sono. O retorno da água da urina para o sangue impede que ele, o sangue, fique muito concentrado.

Eletrólitos como o sódio podem aumentar no sangue no diabetes insipidus e causar muitos problemas. Ele e outros solutos aumentam a osmolalidade do sangue. Na prática, nos preocupamos mais com o sódio.

Osmolalidade sérica e urinária

Se a urina é em grande volume, diluída, e o sangue é muito concentrado, a gente já consegue dar o diagnóstico de diabetes insipidus avaliando apenas esses dois parâmetros.

Se o sangue e a urina são muito diluídos, estamos diante de um quadro de polidipsia psicogênica, o beber doentio de água, e de outros quadros de polidpsia primária descritos na Tabela 1.

Para diferenciar as possibilidades iniciais, podemos seguir o algoritmo da Figura 3.

Figura 3. Diagnóstico inicial para investigação de polidispia e poliúria.

Mas, como já comentado, se o paciente consegue repor a água que perde na urina, não dá para fazer esse diagnóstico tão fácil.

Caso não se consiga fazer o diagnóstico com os valores basais de osmolalidade versus osmolalidade ou sódio sérico, partimos para a realização dos testes dinâmicos para o eixo ADH-rim. Os testes dinâmicos têm como objetivo desafiar os hormônios a responderem às situações extremas, seja tentando inibi-los ou estimulá-los. No caso do DI, o objetivo é estimular a secreção ou ação do hormônio antidiurético.

Teste da restrição hídrica

A situação extrema para a liberação do hormônio diurético é provocada deixando a pessoa desidratar pelo teste da restrição hídrica, ou injetar solução de sódio concentrado no sangue (salina 3%). Ambos têm objetivo de aumentar a concentração (Na ou osmolalidade) sanguínea até um limite em que a resposta do hormônio antidiurético seria máxima. Esses dois testes devem ser feitos sobre supervisão de uma equipe médica em ambiente laboratorial monitorizado ou hospitalar.

No teste da restrição hídrica, o paciente não pode beber líquido até perder não mais que 5% do seu peso corporal prévio ao teste.  Se a urina concentrar, a situação é de polidipsia primária, ou seja, não há problema na produção e nem ação do hormônio antidiurético.

Se a urina não concentrar, podemos estar diante de deficiência ou resistência à ação do ADH. Como saber? Injetando o hormônio antidiurético sintético, o DDAVP. Se a urina concentrar, é sinal de que o problema é de falta de hormônio (DI central), e se não concentrar, é um problema de resistência renal ao ADH (DI nefrogênico).

Há casos de DI que ficam no meio do caminho – pode ser um DI central ou nefrogênico parcial. Esses critérios todos para diferenciação, você pode conferir na Figura 4.

Figura 4. Teste da restrição hídrica para diagnóstico diferencial dos casos de polidipsia e poliúria. Modificado de Ref. 1.

Teste da infusão salina com dosagem de copeptina

Você deve estar se perguntando por que não dosar o ADH para diferenciar entre DI central e nefrogênico. A resposta é que o ensaio laboratorial para dosagem do ADH não deu muito certo. Como dizem os mais jovens – o teste “flopou”, apesar das expectativas iniciais.

Já ensaio da copeptina deu mais certo e é o que há de mais moderno. A copeptina é um fragmento derivado do hormônio precursor do ADH, semelhante ao que acontece com a insulina e o peptídeo C. Para cada molécula de ADH produzida, uma molécula de copeptina é liberada na circulação. Sendo assim, sabemos “por tabela” a quantas anda a secreção de ADH (Figura 5).

Figura 5. Formação da molécula de copeptina a partir do pré-pró-AVP

Essa molécula é usada para tentar diferenciar os tipos de diabetes insipidus em outro teste dinâmico, o teste da infusão salina. Nesse teste, é administrado solução salina hipertônica, ou seja, um soro fisiológico com mais sódio. O objetivo é aumentar o sódio no sangue para estimular ao máximo o hormônio ADH, que será refletido pelo aumento da copeptina quando há secreção do ADH.

Na Figura 6, você pode ver as possibilidades diagnósticas diante do teste da infusão salina com dosagem de copeptina.

Figura 6. Teste da restrição hídrica para diagnóstico diferencial dos casos de polidipsia e poliúria. Modificado de Ref. 1.

Diabetes insipidus com adipsia  

É DI adípsico é quando o paciente não tem sede. É resultado do dano estrutural do hipotálamo anterior onde se encontram os osmorreceptores, que são estrutura que percebem o aumento da osmolalidade do sangue para liberação do ADH. É uma situação comumente relatada após clipagem de aneurisma da artéria comunicante anterior ou depois de uma cirurgia extensa de craniofaringioma. Além dos osmorreceptores, outras estruturas podem ser comprometidas, como centro da fome, da regulação de temperatura e da respiração, além de crises convulsivas.

Para diagnosticar esse tipo de diabetes insipidus, escalas de sede podem ser úteis durante os testes dinâmicos como o teste da privação hídrica ou da infusão de salina hipertônica.

Diagnóstico radiológico do diabetes insipidus

Depois de feito o diagnóstico laboratorial a gente vai avaliar se há algum problema estrutural que esteja causando o DI central. Entra em jogo o exame de ressonância magnética. É raro que um tumor na hipófise cause DI, pois a “fábrica” do ADH está não está na hipófise e, sim, no hipotálamo, como ilustrado na Figura 1. A hipófise posterior só tem os prolongamentos dos neurônios produtores de ADH e as vesículas que armazém esse hormônio. Dessa forma, as lesões mais comuns que causam DI central são as lesões acima da hipófise, como o craniofaringioma.

Pode ser que não haja tumor e a hipótese recai sobre causas autoimunes, inflamatórias e infiltrativas. Esse diagnóstico é mais difícil, pois não se pode fazer biópsia dessa região. O diagnóstico pode ser indireto, como, por exemplo, se a pessoa tem outra doença autoimune, como diabetes tipo 1, tireoidite de Hashimoto.

A neuro-hipófise tem um brilho próprio na hipófise e isso não é figura de linguagem. Ela aparece mais acesa, branca, que a hipófise anterior na ressonância magnética (Figura 7). Em textos mais antigos, um sinal sugestivo de destruição da hipófise posterior é a perda do brilho no exame de ressonância. Um estudo recente demonstrou que só 1/3 dos pacientes com DI não tem o brilho na hipófise posterior na RM (Figura 8). De forma contrária, até 20% de pessoas idosas sem DI esse brilho da neuro-hipófise é menor.

Concluindo, a falta do brilho na neuro-hipófise na ressonância não é um sinal específico do DI. O aumento da espessura da haste hipofisária > 2-3mm é considerado patológico, mas também não é específico para DI.

Tratamento da deficiência de avp (diabetes insipidus central)

Vou me deter ao tratamento do DI central por deficiência da produção do ADH nessa sessão. Os endocrinologistas são requisitados nos problemas da hipófise como o diabetes insipidus central. Já o diabetes insipidus nefrogênico e a polidipsia primária podem necessitar de ajuda de outros profissionais, como nefrologista, psiquiatra e psicólogo.

Para todos os pacientes com diabetes insipidus que tenham complicações agudas por desidratação e aumento do sódio intensos, o tratamento deve ser feito no ambiente hospitalar e devem ser feitos cálculos para corrigir o déficit de água. A correção da desidratação e do aumento do sódio devem ser feitos de forma cuidadosa e não pode ser rápida por conta do risco de edema cerebral.

Em ambiente de consultório, a medicação para o tratamento do DI central é o hormônio antidiurético sintético, a desmopressina ou também conhecida por DDAVP. O DDAVP existe na forma de comprimidos, solução nasal e injeção. A dose e o tipo da formulação do DDAVP devem ser individualizados para cada paciente.

Os comprimidos são o tipo de formulação preferida por conta da conveniência. Entretanto, iniciar com spray nasal é preferível por conta da absorção e efeito serem mais previsíveis, que depois pode ser mudado para formulação oral.

O tratamento com DDAVP controla a sede e a poliuria e permite uma boa qualidade de vida para o paciente. A dose de 0,1 a 0,2mg de DDAPVP oral pode ser dada inicialmente à noite para controlar a noctúria (a necessidade de levantar-se para ir urinar). A dose pode ser ajustada conforme a necessidade de controlar os sintomas.

A complicação do tratamento pode ser a intoxicação hídrica, caracterizada pela baixa de sódio (Na) no sangue, por isso esse exame deve ser pedido de forma rotineira no início do tratamento. Estudos indicam que 27% dos pacientes desenvolvem hiponatremia leve (Na sérico de 131 – 134 mmol/L) e 15%, hiponatremia grave (Na < 130 mmol/L) em paciente com tratamento de longa duração para DI central.

Se a hiponatremia ocorrer, o controle deve ser cuidadoso da mesma forma, pois a correção rápida pode levar a problemas neurológicos sérios, como a síndrome de desmielinização. Há estratégias para corrigir lentamente, como atrasar a dose alguns dias da semana ou suspender um comprimido eventualmente (mas não a dose uma dose diária completa).

A pergunta “Dr(a), pode beber?” deve ser respondida com cuidado, pois como o álcool não suprime os níveis circulantes de DDAVP, como faria com ADH hipofisário, o paciente tem mais risco de hiponatremia por excesso de líquido (dilucional).

Considerações finais

Apesar de ser um problema que pode assustar por conta da sintomatologia, geralmente o diabetes insipidus adequadamente tratado não causa maiores problemas e não compromete a qualidade de vida de forma significativa.

Atenção especial deve ser dada à DI central sem sede (adípsica), que pode ser mais complicada. Para esse tipo de DI, o paciente deve ter lembretes para beber água com regularidade ao longo do dia.

Hoje em dia é mais comum encontrar pessoas com polidipsia primária que antigamente, muito por conta do estímulo a beber muita água, como se fosse um dos pilares indiscutíveis do estilo de vida saudável. Por isso, é certa a afirmação que nem muita água é bom para saúde. O segredo está sempre no equilíbrio.

Referências

  1. Christ-Crain M, Bichet DG, Fenske WK, Goldman MB, Rittig S, Verbalis JG, Verkman AS. Diabetes insipidus. Nat Rev Dis Primers. 2019 Aug 8;5(1):54. doi: 10.1038/s41572-019-0103-2. PMID: 31395885.
  2. Garrahy A, Thompson CJ. Management of central diabetes insipidus. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2020 Sep;34(5):101385. doi: 10.1016/j.beem.2020.101385. Epub 2020 Jan 31. PMID: 32169331.
  3. Arima H, Bichet DG, Cheetham T, Christ-Crain M, Drummond J, Gurnell M, Levy M, McCormack A, Newell-Price J, Verbalis JG, Wass J, Cooper D. Changing the name of diabetes insipidus. Pituitary. 2022 Dec;25(6):777-779. doi: 10.1007/s11102-022-01276-2. Epub 2022 Nov 5. PMID: 36334185.

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Influência das emoções sobre os hormônios

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O hormônio do crescimento é um hormônio sentimental. Não só ele, mas outros também. O que chama a atenção para o hormônio de crescimento é que as crianças com grave privação de afeto não crescem.

A gente já viu que os hormônios estão interligados ao cérebro, quiçá à mente, através do hipotálamo.

Nas crianças que estão em situação extrema falta de amor, afeto, apresentam redução na liberação do hormônio de crescimento, o que provoca um tipo de baixa estatura psicossocial. Isso pode acontecer mesmo quando elas estão bem nutridas em termos de calorias e nutrientes.

Os estudos nessa área começaram após as guerras mundiais, quando foi observado que crianças realimentadas que viviam em famílias pouco privilegiadas cresciam menos em altura comparadas às que foram para orfanatos ou mantiveram sua estrutura familiar intacta.

A privação de afeto pode também influir em outros eixos hormonais, como o da adrenal, tireoide e hormônios sexuais, podendo causar um verdadeiro pan-hipopituitarismo, nesse caso, funcional.

Quando a situação afetiva é resolvida, não só a criança cresce, mas também os hormônios voltam a ser liberados normalmente.

Se isso acontece hoje em dia? Acredito que sim, mas muito menos documentado talvez. Estaria o elo desse efeito na epigenética?

Você já ouviu falar que criança que não é amada o suficiente não cresce? Onde você acha que esse fenômeno pode acontecer nos dias de hoje?

Sugestão de leitura – Emotional Deprivation in Children: Growth Faltering and Reversible Hypopituitarism – https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fendo.2020.596144/full

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