Diabetes tipo 5: a reclassificação do diabetes ligado à desnutrição

O diabetes tipo 5 é novidade, mas nem tanto assim. Esse ano é que veio essa nova nomenclatura, proposta durante um encontro de consenso em Vellore, Índia, em janeiro de 2025, e formalizada pela Federação Internacional de Diabetes (IDF) em seu Congresso Mundial de Diabetes em abril de 2025.

Historicamente, esta condição era referida como diabetes relacionado à desnutrição, tendo sido formalmente classificada pela OMS em 1985, embora essa classificação tenha sido removida em 1999, entretanto, essa classificação ainda persiste na Classificação Internacional de Doenças (CID) sob o código E12.

Esta classificação descreve uma forma distinta de diabetes observada em indivíduos magros com um histórico de subnutrição

Os critérios diagnósticos e as características clínicas do DM5 são fundamentais para diferenciá-lo do diabetes tipo 1 (DM1) e do diabetes tipo 2 (DM2), especialmente em países de baixa e média renda onde a prevalência é significativa. Estima-se que 25 milhões de pessoas tenham essa forma de diabetes globalmente.

Apesar do Brasil estar atualmente fora do mapa da fome mundial, sabemos que nos rincões do país, ou não tão longe, temos mães e crianças subnutridas.

Para esse tipo de diabetes, a fisiopatologia é multifatorial e não totalmente conhecida.

Agora, vamos ver os principais pontos da recente publicação no Lancet sobre esse tema.

Diagnóstico

Embora não sejam universalmente presentes em todos os pacientes, as seguintes características ajudam a distinguir o DM5 e apoiam o diagnóstico, sendo frequentemente relatadas:

Características Comumente Reportadas

  1. IMC (Índice de Massa Corporal) inferior a <18,5 kg/m2 para adultos*
  2. Hiperglicemia moderada a grave
  3. Baixas concentrações de peptídeo C em jejum ou em estado aleatório, ou baixa insulina sérica
  4. Resistência à cetose
  5. Negativo para sinais clínicos de resistência à insulina (ex: acantosis nigricans/acantose nigricante)
  6. Negativo para o anticorpo GAD-65 (e anticorpos IA-2 e ZnT8, se disponíveis)

Características Ocasionalmente Reportadas

1.Histórico de subnutrição na vida precoce, evidenciado por um ou mais dos seguintes:

  • Histórico de baixo peso ao nascer
  • Histórico de subnutrição na infância
  • Histórico de nanismo/atraso de crescimento na infância

2.Um histórico de subnutrição na vida precoce (intrauterina, infância, primeira e segunda infância, e adolescência), conforme demonstrado por:

  • IMC inferior a -3 DP para a idade de 5 a 19 anos*
  • IMC inferior a -3 DP para a idade de 5 a 19 anos*

3. Pâncreas normal em exames de imagem pancreática abrangentes (ultrassonografia ou, preferencialmente, tomografia computadorizada)

4. Baixa porcentagem de gordura corporal total densitometria de corpo inteiro ou análise de bioimpedância

5. Estudos monogênicos de células beta negativos para variantes genéticas

6. Baixo nível socioeconômico

7. Origem rural

*Embora esta declaração de consenso proponha pontos de corte para IMCs e o diagnóstico de subnutrição, mais pesquisas são necessárias para estabelecer valores de corte específicos para o diagnóstico de subnutrição associada ao diabetes tipo 5.

Implicações e Necessidade de Diferenciação

O reconhecimento destas características é crucial. O fenótipo do DM5 deve ser diferenciado de outras formas atípicas, como DM1 com autoanticorpos negativos ou DM2} em indivíduos que perderam peso devido à hiperglicemia descontrolada. O diagnóstico incorreto, especialmente como DM1, pode levar à hipoglicemia iatrogênica grave devido à administração de grandes quantidades de insulina que o paciente magro subnutrido pode não necessitar.

Os indivíduos com DM5 podem precisar apenas de quantidades mínimas de insulina ou abordagens alternativas para estimular a secreção de insulina para o controle da glicemia.

Nos pacientes que ganharam muito peso posteriormente na vida adulta, a resistência à insulina pode surgir e o tratamento será semelhante ao diabetes tipo 2. (Fig 1)

Figura 1. Desenvolvimento do diabetes tipo 5 e evolução na vida adulta conforme oferta de calorias. Modificado de Ref 1.

Considerações finais

Esse novo tipo de diabetes já é um velho conhecido dos médicos de algumas décadas de atendimento. A medicina e a endocrinologia haviam deixado, aparentemente, esse tipo de diabetes de lado, mas ele sempre esteve presente. A partir de agora, é importante reconhecê-lo para um tratamento adequado.

Possivelmente, os endocrinologistas de adulto deverão perguntar mais ativamente sobre as condições de nascimento e primeira infância do paciente com diabetes.

Em relação ao tratamento, não tem medicações novas. Já falando da prevenção, esse é mais um desafio de governos locais e globais para erradicação da fome no mundo. Tarefa nada fácil, não é?

Referência

1.            Wadivkar P, Jebasingh F, Thomas N, Yajnik CS, Vaag AA, Kibirige D, et al. Classifying a distinct form of diabetes in lean individuals with a history of undernutrition: an international consensus statement. The Lancet Global Health. 2025;13(10):e1771–e6.

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