Arquivo da categoria: Diabetes e hipoglicemia

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Além dos leitores, os ouvites agora têm sua vez neste blog!

Os podcasts estão se tornando cada vez mais populares. É um meio de distribuição de áudios que são similares a programas de rádio em seu formato, mas podem ser baixados e ouvidos a qualquer momento em em qualquer lugar. 

O primeiro podcast que disponibilizo aqui foi uma participação no Via Oral Heathcare Podcast, publicado no último dia 05/11/2019.

O assunto não poderia ser outro que não diabetes. 

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Círculo azul e diabetes: origem e significado do símbolo

Quem já não viu o círculo azul nas campanhas do diabetes, em pins e mesmo em tatuagens que pessoas com diabetes? No mês de novembro, o azul da luta contra o diabetes pode se confundir com o azul da prevenção do câncer de próstata. O diagnóstico precoce do câncer de próstata tem suas controvérsias, bem como o de mama e tireoide,  mas os impactos causados pelo diabetes não controlado são indubitáveis para os pessoas e para saúde pública.

Como endocrinologista, não tenho como defender um azul diferente que não o do diabetes. Na verdade, até que precisamos de um mês “transparente” (acho que o branco já foi nomeado para algum mês) para não pensarmos em doenças. Mas como médica e cidadã, não posso ignorar a doença tão prevalente que está presente no meu dia a dia por algumas horas, e pelas 24h dos meu pacientes e amigos “docinhos”. Então, resolvi aderir à essa campanha trazendo um pouco de história além de todo material já publicado nesse blog sobre o assunto.

O dia 14 de novembro foi escolhido para ‘World Diabetes Day ‘ ou Dia Mundial do Diabetes, cuja história da escolha desse dia está no postagem anterior. Agora, trago a história do círculo azul, traduzida livremente International Diabetes Federation (IDF), que diz:

“SOBRE O CÍRCULO AZUL

O círculo azul é o símbolo universal do diabetes. O objetivo principal do símbolo é fornecer ao diabetes uma identidade comum.

Tem como objetivos:

  • apoiar todos os esforços existentes para aumentar a conscientização sobre o diabetes;
  • inspirar novas atividades, chamar a atenção do público em geral para o diabetes;
  • servir como uma “marca” para o diabetes;
  • fornecer um meio de mostrar apoio à luta contra o diabetes;

O ícone foi desenvolvido originalmente para a campanha que resultou na Resolução 61/225 das Nações Unidas “Dia Mundial do Diabetes”, aprovada em 20 de dezembro de 2006.

A campanha para uma resolução das Nações Unidas sobre diabetes foi uma resposta à pandemia capaz de sobrecarregar os recursos de assistência médica em todos os lugares.

POR QUE UM CÍRCULO?

O círculo ocorre frequentemente na natureza e, portanto, tem sido amplamente empregado desde os primórdios da humanidade. O significado é fortemente positivo. Entre culturas, o círculo pode simbolizam vida e saúde. Mais significativamente para a campanha, o círculo simboliza a unidade.

A força combinada é o elemento chave que tornou essa campanha tão especial. A comunidade global do diabetes  se uniu para apoiar uma resolução das Nações Unidas sobre diabetes e precisa permanecer unido para fazer a diferença. Como todos sabemos: não fazer nada é não é mais uma opção.

POR QUE AZUL?

A borda azul do círculo reflete a cor do céu e a bandeira das Nações Unidas. As Nações Unidas são em si um símbolo de unidade entre as nações e é a única organização que pode sinalizar aos governos em todos os lugares que é hora de combater o diabetes para reverter as tendências globais que poderão impedir o desenvolvimento econômico além de poder causar sofrimento e morte prematura.”

REFLEXÕES PESSOAIS

Prevenir o diabetes tipo 2 não é só no diagnóstico precoce. Como já falado antes, precisamos de políticas públicas e também de iniciativas individuais para que a doença não se manifeste ou tenham um melhor controle. Para essas últimas iniciativas não existe mês específico, deve ser o ano todo.

Quanto ao diabetes tipo 1, que não tem ainda prevenção, a luta inclui o acesso ao tratamento adequado para todos os pacientes, educação em diabetes e todo apoio necessário como aces a equipe multidisciplinar em linhas cuidado especificas, dentre tantas outras coisas que aqui talvez não consiga listar por não ser o meu lugar de fala como de uma pessoa com diabetes tipo 1 ou de seu familiar.

Por fim, não sei exatamente quando foi que comecei a me interessar pela doença. Pode ser que seja por ter visto e ainda ver alguns familiares com a doença, ou a ache tão intrigante que a escolhi como tema para o meu doutorado pesquisas em diabetes tipo 1 – embora a genética não seja única resposta no desenvolvimento das complicações. Pode ser ainda que o interesse se mantenha pelas novidades terapêuticas e tecnológicas constantes que envolve o manejo do diabetes… quem sabe? Mas uma dúvida eu não tenho: ao longo desses anos, encontrei muitas pessoas com diabetes que lutam pela causa e pelas quais eu tenho profundo admiração e que espero contribuir com a minha visão de profissional a popularização do conhecimento através desse blog.

Descoberta da Insulina: intrigas e controvérsias

NOVEMBRO AZUL E DIA MUNDIAL DO DIABETES

Você sabe por que o mês de novembro foi escolhido para representar o diabetes, e especificamente o dia 14 para ser o Dia Mundial do Diabetes? A resposta é que foi o dia do nascimento do cirurgião Frederick Grant Banting (14 de novembro de 1891), um dos responsáveis pela descoberta da insulina.

Essa extraordinária descoberta é amplamente atribuída a Frederick Banting e seu colega de trabalho, Charles Best, em 1921 (a dupla Banting e Best). Mas houve mais gente (e intriga) envolvida nessa jornada para a descoberta que mudou a vida de milhares de pessoas com diabetes. Vamos conhecer um pouco dos outros pesquisadores?

ANTES DA DESCOBERTA

Alguns anos antes da descoberta da insulina, o estudante de medicina, Paul Langerhans identificou que alguns conglomerados de células anteriormente despercebidos no estudo do pâncreas ao microscópio, mas ele não sugeriu nenhuma função para tais conglomerados, que posteriormente foram batizados de ilhotas de Langerhans. Atualmente, sabemos que as células beta da ilhota pancreática são responsáveis pela produção da insulina.

Ilhota de Langerhans circundada por tecido pancreático exógeno
Ilhota de Langerhans circundada por tecido pancreático exógeno

Em 1900, mais uma peça do quebra cabeça é juntada Eugene Lindsay Opie, que observou degeneração das ilhotas nos casos de diabetes. Hoje, sabemos que a destruição da ilhota por anticorpos causa o diabetes tipo 1 e há deposição de proteína chamada amiloide nos casos mais avançados do diabetes tipo 2. Cinco anos depois, Ernest Henry Starling cunhou o termo “hormônio” que vem do grego: hormaein (por em movimento) para os mensageiros que são secretados diretamente no sangue pelas glândulas endócrinas, cujos transtornos são objeto de estudo de nós, endocrinologistas.

O termo insulina, do Latin: insula (ilha) foi usado pela primeira vez por Jean de Meyer 1909, considerando que essa substância era produzida nas ilhotas de Langerhans. Outro termo que aparece nos textos da descoberta foi “isletin”.

Na década anterior à descoberta, muitas tentativas por inúmeros pesquisadores foram realizadas antes dos experimentos de Banting e Best para que os extratos pancreáticos fossem utilizados na reversão da hiperglicemia e glicosúria em animais diabéticos. Os efeitos da administração desses extratos causavam muitos efeitos colaterais, como febre e abscessos dolorosos, de modo que eles foram abandonados.

PROTAGONISTAS

Agora vamos falar das quatro figuras importantes na descoberta, isolamento e purificação da insulina: Banting, Best, Macleod e Collip.

Iniciando por Frederick Banting (1891-1941), um cirurgião canadense que serviu como militar na primeira guerra mundial na França. Após a guerra, retornou ao Canadá e se interessou pelo estudo do isolamento da tal substância pancreática para o tratamento do diabetes.

Frederick Banting
Frederick Banting

Banting precisava de um local apropriado para levar a cabo suas ideias e experimentos e foi incentivado a conversar com John Macleod (1875 – 1935), bioquímico e fisiologista, chefe de um laboratório de metabolismo dos carboidratos na Universidade de Toronto. Dizem que Macleod recebeu as ideias de Banting com descrédito, já que esse tinha uma formação e produção acadêmica modesta, mas posteriormente mudou de ideia e resolveu apostar em Banting.

John Macleod
John Macleod

Para ajudá-lo nos trabalhos, Macleod apresentou a Banting ao estudante de Charles Best (1899 – 1978). Best posteriormente sucedeu Macleod como professor de fisiologia na Universidade de Toronto.

Charles Best

Os dois, Banting e Best, trabalharam juntos nos experimentos com cães, com muitos acertos e erros, como em qualquer pesquisa.

Best e Banting
Best e Banting no trabalho com câes

Vendo que os experimentos de Banting e Best tinham evoluído muito, mas que os extratos pancreáticos ainda estavam impuros, Macleod convidou para o time o bioquímico James Collip (1892-1965), que foi responsável pela purificação da insulina.

James Collip
James Collip

Os trabalhos de Collip permitiram a retomada do experimento com a insulina no tratamento do primeiro paciente, Leonard Thompson (1908 – 1935), fosse retomado em janeiro de 1922, já que alguns dias antes ele tinha tido uma grave reação alérgica pelo extrato pouco purificado. O resultado foi impactante, como podemos ver abaixo na figura abaixo :Leonard aos 14 anos antes de receber insulina e alguns meses após as injeções diárias do hormônio .

Leonard Thompson – primeiro paciente com diabetes a receber insulina

Macleod era o orientador da turma num laboratório conturbado. O papel dele na descoberta da insulina não aparece muito, mas foi atribuída a ele a interpretação de dados, a condução dos estudos clínicos e apresentação pública dos dados de Banting e Best, cruciais para o sucesso da descoberta.

Primeira insulina
Primeira insulina

PRÊMIO NOBEL

Pela descoberta da insulina, Banting e Macleod ganharam o Prêmio Nobel em 1923. Indignado com o fato de Macleod ter sido escolhido para compartilhar o prêmio com ele, Banting imediatamente anunciou que dividiria seus ganhos com Best. Macload, por sua vez, disse que dividiria o prêmio com Collip. As brigas de ego e personalidades fortes não são novidade no meio acadêmico… essa história que o diga.

No fim de 1923, a insulina foi produzida e comercializada pelos laboratórios Eli Lilly em Indianápolis.

FIM

Um artigo que fala essa história tim tim por tim tim, com as versões e visões diferentes dos protagonistas foi publicado em 2002, por Louis Rosenfeld, cujo título do artigo é “Insulin: Discovery and Controversy” (insulina: descoberta e controvérsias). O autor conclui que:

“Retrospectivamente, os quatro pesquisadores: Banting, Best, Macloeod e Collip fizeram significativas contribuições. A despeito da grande rivalidade e conflitos de personalidades, eles acharam o fator até então não identificado produzidos nas ilhotas de Langehans – a insulina – que o hormônio poderia ser extraído e purificado. Essa descoberta deu uma nova perspectiva de vida para os pacientes com diabetes tipo 1”

Intrigas e controvérsias à parte, me parece que temos que lembrar não só de Banting, mas também de Best, Macleod e Collip como descobridores da insulina. Cada um, do seu jeito, fizeram contribuições para que Leonard Thompson também entrasse para história como primeiro paciente a usar insulina. Essa descoberta mudou a vida de Leonard e de milhares de pessoas com diabetes, além da própria Endocrinologia.

Referências

ROSENFELD, L. Insulin: discovery and controversy. Clin Chem, v. 48, n. 12, p. 2270-88, Dec 2002. ISSN 0009-9147.

The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1923