Ferritina alta: causas, interpretação e tratamento

Ferritina alta: quando se preocupar?

Atualizado em 04/02/2020

Você já teve sua ferritina dosada? Provavelmente sim e por isso que está lendo esse texto. Nós, endocrinologistas, temos visto muitos pacientes com a dosagem da ferritina elevada e, de certa forma, desesperados para normalizar o exame sem se atentar para causa.

Atualmente, esse exame está presente muitas vezes na listagem dos exames complementares solicitados como rotineiros por alguns médicos. Por conta do aumento da prevalência de obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doença gordurosa hepática (esteatose) é muito comum que observemos o aumento dos níveis de ferritina nos exames de sangue dos nossos pacientes.

A palavra de ordem é cautela na interpretação do exame e focar no tratamento de base, isto é, no problema ou doença que está causando o aumento da ferritina, que na grande maioria dos casos não é o excesso de ferro.

A ferritina é uma proteína que serve como reservatório de moléculas de ferro no organismo. Está presente em grande quantidade em órgãos como fígado, baço, medula óssea e músculo cardíaco. Uma molécula de ferritina guarda cerca de 4500 átomos de ferro.

Poderíamos pensar inicialmente que o excesso de ferritina poderia ser um caso de hemocromatose, que é uma doença (de base genética ou não) que provoca aumento da absorção de ferro pelo intestino. Nessa doença mais rara, o excesso de ferro se deposita ao longo do tempo em diversos tecidos causando danos em diversos órgãos, tais como: fígado (cirrose), pâncreas (diabetes), coração (arritmias), hipófise, testículos (hipogonadismo masculino), além de escurecimento na pele e problemas nas articulações.

Quando a ferritina está baixa, provavelmente não há excesso de depósito de ferro no organismo, porém, quando está alta, não quer dizer que a pessoa tem problemas com excesso de ferro. A ferritina é uma alteração inicial num quadro de anemia.

O aumento da ferritina SEM excesso de ferro no organismo pode acontecer em até 90% dos casos, ou seja, a grande maioria dos pacientes NÃO apresentam hemocromatose. Pode ser apenas um reflexo de outras doenças e lesão nos órgãos por outro mecanismo que não depósito de ferro.

Mas qual o motivo da ferritina estar elevada sem aumento do ferro no organismo?

O que pode causar tal confusão é que a ferritina também é uma proteína que se eleva em diversas condições como infecções (proteína de fase aguda) , processos inflamatórios e alguns cânceres.

A obesidade e síndrome metabólica são reconhecidamente doenças que cursam com aumento da atividade inflamatória no organismo, por isso é comum que tais pacientes tenham aumento da ferritina em seus exames. Como quase metade da população está acima do peso, explica-se em parte essa “epidemia” de ferritina alta.

Valores de referência

Níveis de ferritina em jejum

Normais:
<200 ng/mL para mulheres na pré menopausa
ou < 300 ng/mL para homens

Limite superior da normalidade
200 – 300 ng/mL para mulheres na pós menopausa

Nos casos de ferritina > 1000 ng/mL: encaminhar para especialista (hematologista ou gastroenterologista). Quadro 1.

Causas de ferritina elevada sem sobrecarga de ferro

Comuns

Menos comuns

  • Tireotoxicose (excesso de hormônio tiroidiano)
  • Infarto agudo do miocárdio

Nos casos de ferritina elevada, a avaliação da saturação da transferrina (grau de ocupação de ferro na proteína que o transporta no sangue) deve ser avaliada. Os resultados da saturação da transferrina podem ser assim interpretados:

  • Saturação baixa – pode haver deficiência de ferro no organismo;
  • Saturação normal – não há sobrecarga de ferro no organismo, e pode não ser necessário o encaminhamento para especialista;
  • Saturação alta – um especialista na área (hematologista ou gastroenterologista) deve ser consultado para realizar testes adicionais de sobrecarga de ferro;

A determinação de outros marcadores inflamatórios e proteínas de fase aguda, como a proteína C reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS), podem ajudar a confirmar que o aumento da ferrtina é secundário a infeção ou inflamação.

ferritina alta
Fluxograma para investigação de aumento de ferritina

Nos casos de ferritina e saturação de transferrina elevados, deve-se considerar a avaliação de um especialista para se descartar hemocromatose ou outras doenças que levam à sobrecarga de ferro no organismo. Exames genéticos podem ser necessários.

É importante destacar que o exame não deve ser solicitado como rotina, a menos que seja para investigação nos casos de anemia ou, raramente, quando há suspeita clínica de hemocromatose.

Tratamento

O tratamento vai depender da causa. Na maioria dos casos NÃO é necessária sangria. Esse tratamento é reservado para os casos de hemocromatose, que como vimos, é a minoria dos casos. Perda de peso, redução do consumo de álcool e outros tratamento da condição de base devem ser considerados.

O importante é que o paciente seja visto como um todo, que se descubra e se trate a causa que leva a alteração do exame e não os números em si. Em outras palavras, na maioria do caso, esse exame é só uma pista do que está errado e não o próprio problema.

Se você está com um exame de que mostra excesso de ferritina, converse com seu médico para definir a causa e traçar estratégias para o tratamento. No caso da obesidade, sem dúvida, o tratamento passa pela perda de peso.

Referências:

6 comentários em “Ferritina alta: causas, interpretação e tratamento”

  1. minha ferrentina esta em 1.400 todas as minhas taxas estao normais fiz ultra tudo ok peso 81kl.59 anos se fizer sagria volta ao normal em poucos meses .ou o que devo fazer.estou de dieta corro 5 mil metros manha e tarde parei de beber ..quero baxar pra tomar minha caninha finaln de semana
    meu nome osmar de sousa paiva http://www.osmar sp10@hotimail;com

  2. Prezada doutora,
    Minha ferratina está em 811. Colesterol e triglicérides estão dentro da normalidade. Quando diz que uma condição de inflamação pode elevar a ferritina, poderia considerar uma gastrite como condição de inflamação? Tenho gastrite. Obrigado por esclarecer.
    Marcelo

    1. Prezado Marcelo,
      As condições inflamatórias citadas são as que chamamos sistêmicas, isto é, suas substâncias estão presentes na circulação sanguínea.
      Entendo que a gastrite é uma inflamação muito localizado para induzir tal aumento de ferritina. O ideal é questionar ao seu médico o que estava investigando quando solicitou seu exame.
      Atenciosamente,
      Suzana

  3. Doutora, Minha Ferritina deu 449,7 ng/mL e o ferro sérico 125,00 ug/dl é preocupante? estou com alguem problema serio? no meu laudo de exame os valores referencias é 23,9 a 336,2 ng, ml ferritina, e ferro serico 25 anos idade 40 a 155 ug/dl eu tenho 28 anos de idade, estou preocupado, tenho algum problema serio?

    1. Paulo, boa tarde!
      Desculpe a demora na resposta.
      Como escrito no texto, a ferritina pode aumentar em resposta a várias condições.
      O que seria mais adequado é você questionar ao médico que lhe solicitou o exame em que ele o que ele estava procurando investigar quando solicitou a ferritina.
      Sem passar numa consulta médica, não posso fazer considerações sobre o resultado de um exame isolado sem analisar dentro de uma visão mais ampla da sua condição de saúde.
      Atenciosamente,
      Suzana

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