Arquivo da categoria: Hipófise

Hipófise secretando seus vários hormônios e seus respectivos locais de ação
Hormônios secretados pela hipófise anterior e posterior e seus respectivos locais de ação

A hipófise é pequena glândula, mas de uma importância enorme para endocrinologia. Os hormônos produzidos pela hipófise estimulam diversas outras glândulas e tecidos do corpo. Os textos dessa categoria descrevem as alterações dos hormônios produzidos pela hipófise, principalmente a  prolactina.

Síndrome de Cushing: em quem investigar?

O que é Síndrome de Cushing?

A Síndrome de Cushing é causada pelos efeitos do excesso de cortisol (hipercortisolismo). Foi descrita por Harvey Cushing há mais de um século atrás. Ele chamou sua descoberta de “síndrome pluriglandular” por ter um quadro clínico exuberante de achados endocrinológicos e metabólicos.

O objetivo desse texto é comentar sobre os as alterações clínicas mais relevantes que permitam diferenciar a Síndrome de Cushing, que é rara, das outras síndromes e doenças mais corriqueiras. Os testes de triagem para hipercortisolismo são comentados no próximo post

Doenças e síndromes comuns podem simular a Síndrome de Cushing

Vamos tratar aqui dos casos em que o paciente não faz uso de corticoides e o que o excesso hormonal tem como fonte as próprias glândulas adrenais, a Síndrome de Cushing endógena, mas as complicações são comuns à Síndrome de Cushing exógena, causada pela administração dos corticoides sintéticos sistêmicos, como a dexametasona, prednisona, entre outros.

Alguns dos problemas descritos por Cushing são comuns aos quadros de obesidade com Síndrome Metabólica, Síndrome de Ovários Policísticos.

No exame físico, também podemos encontrar aumento de pelos no corpo, calvície, acne, acantose nigricante, face arredondada, giba de búfalo, estrias violáceas, entre outros achados.

O cortisol é um tipo de glicocorticoide. Os glicocorticoides levam esse nome pela sua atuação no metabolismo dos carboidratos e elevação da glicemia, mas atuam também no metabolismo de proteínas e gorduras. Quando o cortisol está alto (hipercortisolismo), também observamos quadro de resistência insulínica grave.

Mas, por que o quadro clínico do hipercortisolismo é tão diverso, com sinais de aumento de hormônios masculinos e hipertensão se há predominantemente excesso de cortisol?

Alguns hormônios, quando em excesso, começam a agir em seus próprios receptores e nos receptores dos hormônios que tenham estruturas moleculares semelhantes (fig 1). Esse fenômeno acontece com os esteroides adrenais.

Por isso, os altos níveis cortisol agem também nos receptores dos mineralocorticoides, levando a quadros de hipertensão arterial com hipocalcemia (potássio baixo), simulando o hiperaldosteronismo primário, e de excesso de hormônio masculino nas mulheres, simulando a Síndrome dos Ovários Policísticos.

Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas. O cortisol se assemelha a aldosterona, testosterona e outros esteroides.
Figura 1. Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas

Causas da Síndrome de Cushing

Sem dúvida, a causa mais comum de Síndrome de Cushing é o uso de corticoides exógenos, ou seja, é observada naquelas pessoas que fazem uso de corticóides em forma de comprimidos e injeções por longos períodos, principalmente.

Quando falamos em Síndrome de Cushing endógeno, quando a produção de cortisol é pelo próprio corpo, pode ser reflexo de:

1. da produção aumentada de hormônio adrenocorticotrófico, o ACTH, por conta de um tumor hipofisário produtor desse hormônio ou

2. em decorrência de um tumor no córtex da adrenal produtor de cortisol. 

Diagnóstico diferencial: novos e antigos desafios

Quando foi descrita há mais de um século atrás, a Síndrome de Cushing tinha o diagnóstico clínico mais fácil diferenciação, já que as doenças que a simulam, como a obesidade e a síndrome metabólica não eram tão frequentes na população com são hoje.

Na prática clínica, pode haver muita confusão se procurarmos excesso de cortisol em todos os pacientes obesos e com síndrome metabólica. Entretanto, não podemos deixar de fazer o diagnóstico da Síndrome de Cushing só pela sua raridade.  

Considerando que a obesidade aumentou muito, em grande parte devido às várias revoluções das últimas décadas, não poderíamos e nem deveríamos investigar o excesso de cortisol em toda pessoa com obesidade.

Nos dias de hoje, estima-se a prevalência da Síndrome de Cushing não diagnosticada é cerca de 75 casos por milhão de pessoas. A prevalência de síndrome metabólica em pessoas obesas é estimada em 10%. Aproximadamente de um terço da população americana é obesa.

Fazendo as contas com todas essas prevalências da população americana, a chance de encontrar um paciente com Síndrome de Cushing no universo de pessoas com obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia e hirsutismo é cerca de 1 para 500.

Desta forma, uma pequena porcentagem de pacientes obesos com síndrome metabólica pode ter a Síndrome de Cushing. Para complicar um pouco mais, os testes para o diagnóstico do excesso de cortisol (hipercortisolismo) podem ser falsamente positivos na obesidade, na depressão e no alcoolismo, situações que denominamos pseudocushing. Inclusive esses pacientes com pseudocushing apresentam várias semelhanças físicas com a Síndrome de Cushing.

O diagnóstico incorreto pode levar a procedimentos diagnósticos e até cirurgias desnecessários.

Quando suspeitar da Síndrome de Cushing?

Existem alguns achados clínicos mais específicos de Síndrome de Cushing que podem ajudar a diferenciá-la das outras doenças já mencionadas.

Em 2018, o consenso americano para diagnóstico da Síndrome de Cushing elencou os achados clínicos mais e menos específicos (1). Eles estão resumidos na tabela abaixo.

Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas. A fratura óssea, pletora facial, miopatia proxima, estrias violácesas e obesiade com redução da velocidade de crescimento nas criaças são fatores que mais discriminam a SC de outras doenças.
Tabela 1. Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas.

Um artigo muito interessante de Lynn Loriaux, publicado na revista New England Journal of Medicine (2), focou no diagnóstico diferencial da síndrome de Cushing procurando os achados que seriam mais específicos do hipercortisolismo. Para esse desafio, ele cita o pesquisador Fuller Albright, que em 1947 descreveu as ações do cortisol no osso como sendo mais antianabólicos que catabólicas. 

Na tentativa de diferenciar a Síndrome de Cushing da síndrome metabólica se tomarmos em consideração apenas o anabolismo do tecido gorduroso (obesidade central) não teríamos muito sucesso, já que o aumento da gordura é um achado comum às duas situações. O tecido ósseo, muscular, cutâneo e vascular podem dar melhores pistas. Para saber mais sobre a diferença de anabolismo e catabolismo, tem um post sobre o tema.

Impacto do hipercortisolismo nos ossos

Sabemos que o tecido ósseo está sempre em processo de formação e de reabsorção, fenômeno esse chamado de remodelação óssea.

Pelo aumento do estímulo mecânico do peso corporal, pacientes obesos raramente têm osteoporose. Na osteoporose decorrente do excesso de cortisol haveria predominantemente a inibição na formação (efeito antianabólico).

Uma densitometria óssea com osteoporose ou baixa massa óssea (índice Z < -2) em um paciente com obesidade por excesso de cortisol é 11 vezes mais comum que em um paciente obeso com osteoporose sem hipercortisolismo.

Exemplo de laudo de densitometria ósseae descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduos de mesma faixa etária e sexo. No exemplo axima, a densitometria é normal.
Figura 2. Exemplo de densitometria e descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduo de mesma faixa etária e sexo. No exemplo acima, a densitometria é normal.

Efeitos do hipercortisolismo em outros tecidos

Não só na osteoporose, mas também nos achados de fraqueza muscular, pele fina e equimoses espontâneas o efeito antianabólico causado pelo excesso de cortisol seria preponderante.

Em relação à pele, uma espessura menor que 2mm é 116 vezes mais encontrada em pacientes com Síndrome de Cushing em relação aos pacientes obesos com síndrome metabólica, mas sem Síndrome de Cushing. 

Figura 3.. Avaliação da espessura da pele. No exemplo acima, a espessura da pele foi de 3mm.

Considerando uma prevalência estimada de síndrome de Cushing de 0,2%, se encontrarmos em um paciente obeso com síndrome metabólica, osteoporose, pele fina e equimose, temos uma chance de 95% desse paciente ter síndrome de Cushing. Um teste positivo de cortisol livre urinário nesse paciente elevaria essa probabilidade a 100%.

Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos: osteoporose, pele fina, fraquza muscular proximal, estrias violáceas e pletora facial
Figura 4. Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos (em verde)

Diagnóstico laboratorial da Síndrome de Cushing

Para iniciar essa conversa, é importante frisar que não existe um teste laboratorial perfeito para todas as situações em que há suspeita de Síndrome de Cushing. Cada um dos testes utilizados tem suas limitações dependendo do perfil de cada paciente. Mais de uma amostra do mesmo tipo de exame, ou ainda associação de exames diferentes são necessários para confirmar o hipercortisolismo. 

Outro ponto FUNDAMENTAL é que o cortisol medido no sangue na manhã sem preparo prévio NÃO deve ser utilizado para diagnóstico de excesso de cortisol. Desculpem-me as letras garrafais, é que a solicitação desse exame é extremamente comum e fora de contexto clínico, ou seja, de forma indiscriminada e inapropriada.

Os diversos testes e demais exames utilizados para o diagnóstico de Síndrome de Cushing está no próximo post.

Referências

1. The Diagnosis of Cushing’s Syndrome: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. doi: 10.1210/jc.2008-01

2. Loriaux, D. L. Diagnosis and Differential Diagnosis of Cushing’s Syndrome. N Engl J Med. 2017. doi: 10.1056/NEJMc1705984

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Hiperprolactinemia, macroprolactina e prolactinoma – prolactina alta

Atualizados em 10/05/21

Como vimos no post anterior, nem sempre a prolactina alta é sinônimo de prolactinomas (tumores da hipófise anterior produtores de prolactina) ou mesmo por um aumento da prolactina biologicamente ativa. Nesse post, veremos a diferença entre prolactina ativa e macroprolactina, de microprolactinoma e macroprolactinoma.

Relembrando, a prolactina é um hormônio secretado em condições fisiológicas durante a amamentação. Pode estar anormalmente elevada devido a produção tumoral das células que a produzem da hipófise ou pituitária (prolactinoma), uso de medicações psicotrópicas, hipotireoidismo, outros tumores da hipófise,  e lesões ou estimulação dos mamilos ou lesão em tórax como herpes zoster ou pequenos traumas.

SINTOMAS DA PROLACTINA ALTA

Os sintomas da hiperprolactinemia estão relacionados ao hipogonadismo tanto em mulheres como em homens. Incluem alterações do ciclo menstrual, chegando a parada total da menstruação (amenorreia) em mulheres, disfunção sexual, infertilidade e perda de massa mineral óssea em ambos os sexos. A secreção de leite (galactorreia) pode ser um sinal de aumento da prolactina, mas não é exclusiva do aumento desse hormônio.

No caso dos prolactinomas, se o tumor for de grandes dimensões, pode resultar em sintomas relacionados ao efeito da massa tumoral sobre estruturas vizinhas, como dor de cabeça, alterações visuais. Tumores volumosos podem também destruir o tecido hipofisário normal e levar a deficiência de outros hormônios (disfunções hormonais secundárias).

PROLACTINA VERDADEIRA MACROPROLACTINA

Ao se deparar com aumento nos níveis de prolactina na ausência de sintomas compatíveis hiperprolactinemia, é preciso suspeitar da presença de macroprolactina A prolactina pode circular na corrente sanguínea em três formas:

  • Monomérica – forma biologicamente ativa e mais comum
  • Dimérica
  • Macroprolactina (ligada a uma imunoglogulina ou em forma agregada) – menos de 5% da prolactina circulante.
Diferentes formas da prolactina conforme seu peso molecular

Em até até 25% dos casos de hiperprolactinemia, a forma circulante principal é a macroprolactina, o que se denomina macroprolactinemia.

Para descobrir se a hiperprolactinemia se dá às custas de prolactina ou de macroprolactina, é feito um teste de rastreamento que faz com que a macroprolactina precipite em uma substância chamada polietilenoglicol (PEG). Com a macroprolactina “capturada”, pode-se medir no sobrenadante da amostra a prolactina ativa. Temos então a seguinte possibilidade

  • Hiperprolactinemia verdadeira (forma monomérica) – recuperação > 65% da quantidade de prolactina inicial
  • Resultado inconclusivo – recuperação entre 30 e 65%
  • Presença de macroprolactina – recuperação < 30% da forma monomérica, isto é, aproximadamente 70% da dosagem de prolactina inicial foi às custas da macroprolactina

O tratamento da macroprolactinemia geralmente não é necessário.

Não é infrequente o encontro de tumores de hipófise em pacientes submetidos a exames de imagem para investigação de outros sintomas não relacionados à essa glândula. São os chamados incidentalomas de hipófise. Deve-se investigar de forma reversa se há produção hormonal anormal, seguindo-se o mesmo raciocínio clínico caso fosse diagnosticada hiperprolactinemia previamente ao exame de imagem, ou seja, se esta não é de causa secundária, medicamentosa ou se há presença de macroprolactina.

INVESTIGAÇÃO DA PROLACTINA ALTA

PROLACTINOMAS

É a causa mais frequente de hiperprolactinemia patológica, causada por um tumor dos lactotrofos. Representa cerca de 60% de todos tumores hipofiários e mais de 75% dos adenoma hipofisários em mulheres. As mulheres têm vinte vezes mais desses tumores que os homens, mas nos homens. Entretanto, os tumores maiores constumam ser mais frequente nos homens.

Cerca de 50% das mulheres e 35% dos homens têm galactorreia (saída de leite do peito. Ambos os sexos tem redução da densidade óssea por redução dos hormônios sexuais (testosterona e estrógeno) com aumento do risco de fraturas ósseas), como já falado anteriormente.

Diante de um quadro clínico sugestivo e após o diagnóstico laboratorial com exclusão das outras causas de hiperprolactinemia (por exemplo, gravidez, hipotireoidismo e uso de medicações), segue-se a investigação com o exame de ressonância magnética da hipófise. Outras causas são listadas na figura abaixo.

Quanto ao tamanho, esses tumores são dividido em:

  • Microprolactinoma: menor que 10mm
  • Macroprolactinoma: igual ou acima de 10mm

Níveis séricos de prolactina até 250ng/mL são compatíveis com microprolactinomas, e maiores que isso, sugerem macroprolactinomas. Os níveis de prolactina correlacionam-se com o tamanho do tumor.

Caso um paciente tenha um macroprolactinoma com níveis séricos inferiores a 200ng/mL, deve-se considerar que o tumor não produz prolactina (pseudoprolactinoma ou tumor não funcionante), mas seu tamanho é suficiente para bloquear em parte a inibição pela dopamina que vêm do hipotálamo sobre as células normais produtoras de prolactina (lactotrofos) através da haste hipofisária. Dessa forma, existe uma desconexão do sinal inibidor da prolactina pela compressão da haste hipofisária.

Efeito da compressão da no aumento da prolactina

TRATAMENTO DO PROLACTINOMA

Os prolactinomas respondem bem ao tratamento com medicações orais e raramente é necessário fazer cirurgia (cerca de 4% dos casos).

As medicações utilizadas para o tratamento tanto de micro como de macroprolacinoma são os agonistas dopaminérgicos (bromocriptina e cabergolina) Os agonistas são medicações que têm ação semelhante à dopamina. São eficazes na grande maioria dos casos para reduzir tanto os níveis de prolactina como o tamanho do tumor. Cirurgia, radioterapia e outras drogas (como temozolomida) devem ser reservadas para casos de tumores resistente ao tratamento convencional ou agressivos.

A hiperprolactinemia remite em cerca de 20% dos pacientes após redução da dose e suspensão da cabergolina. Isto pode ser tentando após mais de doisa anos de tratamento e quando se descarta que o tumor não tenha invadido extruturas vizinhas da hipófise.

Durante a gravidez, o aumento do tumor pode ocorrer. No caso dos macroprolactinomas, uma cirurgia profilática pode ser considerada para não correr o risco de perda de visão se o tumor crescer. Assim que a gravidez é confirmada o agonista dopaminérgico deve ser descontinuado.

Concluindo, o diagnóstico de prolactinoma leva em consideração a exclusão de outras causas de hiperprolactinemia, incluindo a macroprolactinemia. Embora os prolactinomas sejam a causa mais frequente de hiperprolactinemia, o tratamento desses tumores raramente necessita de cirurgia.  O diagnóstico e acompanhamento geralmente é realizado pelo endocrinologista.

Referências

Andrea Glezer, MD PhD and Marcello Bronstein, M.D. Hyperprolactinemia. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK278984/

LIPPI, G.; PLEBANI, M. Macroprolactin: searching for a needle in a haystack? Clin Chem Lab Med, v. 54, n. 4, p. 519-22, Apr 2016. ISSN 1437-4331. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26845727 >.

Melmed S. Pituitary-Tumor Endocrinopathies. N Engl J Med. 2020 Mar 5;382(10):937-950. doi: 10.1056/NEJMra1810772. PMID: 32130815.

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Prolactina, dopamina e impulsividade: conexões

Prolactina e dopamina

A prolactina é um hormônio produzido na hipófise e responsável pela estimulação da mama para produção de leite na gravidez. Após o parto, os níveis de prolactina diminuem a menos que a mãe amamente.  A prolactina é inibida pela dopamina secretada por neurônios do hipotálamo.

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Além do controle da prolactina, a dopamina é um neurotransmissor importante para função motora, motivação e aprendizagem de reforço, agindo por diferentes vias neuronais.

O aumento patológico da prolactina leva à deficiência dos hormônios sexuais (hipogonadismo) no homem e na mulher.

A prolactina pode estar anormalmente alta devido à produção tumoral das células que a produzem da hipófise (prolactinoma), uso de medicações, hipotireoidismo, outros tumores da hipófise, lesões ou estimulação dos mamilos ou ainda lesão em tórax (como herpes zoster) ou pequenos traumas nessa região.

Nesse post, será abordada principalmente a influência dos medicamentos sobre a prolactina e os potenciais efeitos adversos dos agonistas dopaminérgicos, classe de medicações utilizadas para tratamento do prolactinoma, entre outras doenças.

Hiperprolactinemia induzida por medicamentos

Primeiramente, acerca do efeito das medicações sobre a prolactina, temos uma lista relativamente grande.

As medicações que bloqueiam os efeitos da dopamina na hipófise ou esgotam os estoques de dopamina cerebrais podem inibir essa supressão da dopamina sobre a prolactina. Essas medicações incluem os antipsicóticos, que são medicamentos usados para esquizofrenia e alguns tipos de depressão.

Como resultado final, os antagonistas da dopamina podem causar o aumento da secreção de prolactina pela hipófise. Essas medicações incluem os antipsicóticos, que são medicamentos usados para esquizofrenia, alguns tipos de depressão e utilizadas ainda no transtorno do controle dos impulsos.

Prolactina e antipsicóticos

Os antipsicóticos de primeira geração, mais antigos, tais como o  haloperidol, trifluoperazina têm o risco consideravelmente maior de aumentar a prolactina, enquanto os antipsicóticos mais modernos como a clozapina, olanzapina, aripiprazol, ziprasidona e zotepina não aumentam ou aumentam em menor grau esse hormônio. Essa diferença deve-se a maior ou menor estimulação do receptor D2 presente nas células que produzem a prolactina na hipófise, os lactotrofos.

A risperidona, embora seja um antipsicótico de segunda geração, aumenta consideravelmente a prolactina.

Essa diferença entre os antipsicóticos no aumento da prolactina se deve a maior ou menor estimulação do receptor D2 presente nas células que produzem a prolactina na hipófise, chamadas de lactotrofos.

Prolactina e antidepressivos

Ao contrário da dopamina, a serotonina pode estimular a produção de prolactina. Os antidepressivos que inibem a recaptura da serotonina (SSRI), principalmente os mais antigos, podem também aumentar a prolactina.

A lista de medicamentos que aumentam a prolactina não se limita às medicações usadas na psiquiatria.

Os opioides e derivados são principalmente usados para dor e podem também aumentar a prolactina.

Tabela 1. Medicamentos que causam aumento persistente da prolactina

Sobre o aumento da prolactina secundário ao uso de medicações, de acordo com as Diretrizes da Endocrine Society, a suspensão ou troca da medicação por outra que não aumente ou aumente menos a prolactina é recomendada nesses casos.

Na impossibilidade de suspender ou trocar a medicação que aumenta a prolactina, deve ser feita a reposição de hormônio sexual nos casos de hipogonadismo de longa data.

Como o uso de agonistas dopaminérgicos pode piorar o quadro psiquiátrico, deve se ter muita cautela em se prescrever essa medicação em pacientes que estejam em tratamento com antidepressivos e/ou antipsicóticos. O alinhamento com o psiquiatra sobre qualquer a prescrição de qualquer medicação que possa afetar o quadro psiquiátrico é fundamental.

Aumento de prolactina e hipotireoidismo

O hipotireoidismo primário pode aumentar a prolactina via aumento do hormônio TRH (hormônio liberador da tireotrofina). O TRH por sua vez estimula primariamente as células que produzem o hormônio o TSH (tireotrofos), mas também a prolactina.

Diante de um aumento da prolactina é mandatório excluir o hipotireoidismo.

Agonistas dopaminérgicos : no caminho inverso

Os agonistas são medicações que estimulam determinado receptor, em contraste com os antagonistas.

Uso terapêutico dos agonistas dopaminérgicos

Os agonistas dopaminérgicos estimulam o receptor da dopamina e com isso diminuem a secreção da prolactina. São utilizados não só na endocrinologia para o tratamento de prolactinomas (o tipo mais comum de tumor hipofisário), para supressão da lactação na obstetrícia, mas também é uma das medicações possíveis para no tratamento de Doença de Parkinson e síndrome das pernas inquietas. Relembrando que não são utilizados no tratamento da hiperprolactinemia farmacológica causada pelos antipsicóticos.

Agonistas dopaminérgicos e prolactinomas

Para o tratamento dos prolactinomas, são utilizadas medicações derivadas do ergot (ergolínicos): a carbergolina e bromocriptina. Essas medicações apresentam semelhanças com neurotransmissores como a serotonina, dopamina e adrenalina.

A ação estimulatória da cabergolina e da bromocriptina sobre os receptores da dopamina é o efeito desejado para suprimir a secreção tumoral da prolactina.Pela ação nos receptores de serotonina, as duas medicações produzem efeitos colaterais como mais comuns, como náuseas e vômitos.

Pelo potencial efeito serotoninérgico nas válvulas cardíacas, altas doses dos agonistas dopaminérgicos podem levar a valvulopatias. Esse efeito colateral é raramente observado e não é recomendado o exame de ecocardiograma de rotina.

Agonistas dopaminérgicos e Doença de Parkinson

Atualmente, no tratamento da Doença de Parkinson, os agonistas dopaminérgicos utilizados são os não-ergolínicos: pramipexol e ropinirol e piribedil.

A bromocriptina e a cabergolina já foram utilizadas para Doença de Parkinson, mas as doses chegam até 10 vezes maiores que as utilizadas para o tratamento dos prolactinomas.

Agonistas dopaminérgicos e Transtorno de Controle dos Impulsos

Alguns efeitos colaterais desses agonistas dopaminérgicos incluem alucinações, insônia, comportamentos impulsivos, tais como hipersexualidade, jogo patológico, comer compulsivo, cleptomania, compulsão por compras, comportamento agressivo, variações do transtornos de controle dos impulsos.

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O transtorno do controle dos impulsos já foi relatado em estudos de caso-controle em pacientes usando doses altas de agonistas dopaminérgicos para o tratamento de tumores hipofisários (1). 

Há de se levar em consideração que o tratamento da hiperprolactinemia reverte o hipogonadismo (baixos níveis de hormônios sexuais). Se após o tratamento for observado o desenvolvimento da hipersexualidade, pode ser que o(a) paciente volte ao seu padrão “normal” e não que esteja desenvolvendo um transtorno de controle de impulso.

Recentemente, uma artigo de revisão francês avaliou a relação entre os agonistas dopaminérgicos utilizados para o tratamento da Doença de Parkinson, síndrome das pernas inquietas e prolactinomas com o transtorno de controle dos impulsos e encontrou uma associação complexa (2). Os principais achados que conferiram risco para o  dese nvolvimento desse transtorno com o uso dessas medicações está relacionado ao tipo de agonista (principalmente utilizados na Doença de Parkinson), doses altas, sexo masculino (principalmente para hipersexualidade e jogo patológico), pacientes jovens (abaixo de 65 anos), estado civil (não casados) e história preexistente de sintomas ou transtornos psiquiátricos.

Considerações finais

O tratamento da hiperprolactinemia causada pelos medicamentos, principalmente os antipsicóticos, é uma situação muito complexa para o endocrinologista. O alinhamento da terapia com o psiquiatra ou médico que prescritor da medicação causadora do aumento da prolactina é fundamental.  Por outro lado, o endocrinologista e outros profissionais que prescrevam agonistas dopaminérgicos, devem estar atentos ao aumento da impulsividade nos seus pacientes. A mensagem  que fica para as pessoas que vão iniciar ou estão em tratamento para prolactinoma é que não há motivo para alarme pois esses efeitos colaterais são raros e mais estudos ainda são necessários.  Na dúvida, converse com o seu médico.

Referências

BANCOS, I.  et al. Impulse control disorders in patients with dopamine agonist-treated prolactinomas and nonfunctioning pituitary adenomas: a case-control study. Clin Endocrinol (Oxf), v. 80, n. 6, p. 863-8, Jun 2014. ISSN 1365-2265.

2  GRALL-BRONNEC, M.  et al. Dopamine Agonists and Impulse Control Disorders: A Complex Association. Drug Saf, v. 41, n. 1, p. 19-75, Jan 2018. ISSN 1179-1942.

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