Endocrinologia, Hipófise

Hiperprolactinemia, macroprolactina e prolactinoma

Como vimos no post anterior, nem sempre o aumento de prolactina é causado pelos prolactinomas (tumores da hipófise anterior produtores de prolactina) ou mesmo por um aumento da prolactina biologicamente ativa. Nesse post, veremos a diferença entre prolactina ativa e macroprolactina, e de microprolactinoma e macroprolactinoma.

Relembrando, a prolactina é um hormônio secretado em condições fisiológicas durante a amamentação. Pode estar anormalmente elevada devido a produção tumoral das células que a produzem da hipófise ou pituitária (prolactinoma), uso de medicações, hipotireoidismo, outros tumores da hipófise,  e lesões ou estimulação dos mamilos ou lesão em tórax como herpes zoster ou pequenos traumas.

SINTOMAS DA HIPERPROLACTINEMIA

Os sintomas da hiperprolactinemia estão relacionados ao hipogonadismo tanto em mulheres como em homens. Incluem alterações do ciclo menstrual, chegando a parada total da menstruação (amenorreia) em mulheres, disfunção sexual, infertilidade e perda de massa mineral óssea em ambos os sexos. A secreção de leite (galactorreia) pode ser um sinal de aumento da prolactina, mas não é exclusiva do aumento desse hormônio.

No caso dos prolactinomas, se o tumor for de grandes dimensões, pode resultar em sintomas relacionados ao efeito da massa tumoral sobre estruturas vizinhas, como dor de cabeça, alterações visuais. Tumores volumosos podem também destruir o tecido hipofisário normal e levar a deficiência de outros hormônios (disfunções hormonais secundárias).

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

Ao se deparar com aumento nos níveis de prolactina na ausência de sintomas compatíveis hiperprolactinemia, é preciso suspeitar da presença de macroprolactina A prolactina pode circular na corrente sanguínea em três formas:

  • Monomérica – forma biologicamente ativa e mais comum
  • Dimérica
  • Macroprolactina (ligada a uma imunoglogulina ou em forma agregada) – menos de 5% da prolactina circulante.
Diferentes formas da prolactina conforme seu peso molecular

Em até até 25% dos casos de hiperprolactinemia, a forma circulante principal é a macroprolactina, o que se denomina macroprolactinemia.

Para descobrir se a hiperprolactinemia se dá às custas de prolactina ou de macroprolactina, é feito um teste de rastreamento que faz com que a macroprolactina precipite em uma substância chamada polietilenoglicol (PEG). Com a macroprolactina “capturada”, pode-se medir no sobrenadante da amostra a prolactina ativa. Temos então a seguinte possibilidade

  • Hiperprolactinemia verdadeira (forma monomérica) – recuperação > 65% da quantidade de prolactina inicial
  • Resultado inconclusivo – recuperação entre 30 e 65%
  • Presença de macroprolactina – recuperação < 30% da forma monomérica, isto é, aproximadamente 70% da dosagem de prolactina inicial foi às custas da macroprolactina

O tratamento da macroprolactinemia geralmente não é necessário.

PROLACTINOMAS

É a causa mais frequente de hiperprolactinemia patológica e o tumor de hipófise mais frequente. Após o diagnóstico laboratorial com exclusão das outras causas de hiperprolactinemia (por exemplo, hipotireoidismo e uso de medicações), segue-se a investigação com o exame de ressonância magnética da hipófise.

Quanto ao tamanho, esses tumores são dividido em:

  • Microprolactinoma: até 10mm
  • Macroprolactinoma: > 10mm

Níveis séricos de prolactina até 200ng/mL são compatíveis com microprolactinomas, e maiores que isso, com macroprolactoinomas.

Caso um paciente tenha um macroprolactinoma com níveis séricos inferiores a 200ng/mL, deve-se considerar que o tumor não produz prolactina (pseudoprolactinoma), mas seu tamanho é suficiente para bloquear em parte a inibição pela dopamina sobre as células normais produtoras de prolactina (lactotrofos).

Não é infrequente o encontro de tumores de hipófise em pacientes submetidos a exames de imagem para investigação de outros sintomas não relacionados à essa glândula. São os chamados incidentalomas de hipófise. Deve-se investigar de forma reversa se há produção hormonal anormal, seguindo-se o mesmo raciocínio clínico caso fosse diagnosticada hiperprolactinemia previamente ao exame de imagem, ou seja, se esta não é de causa secundária, medicamentosa ou se há presença de macroprolactina.

Os prolactinomas respondem bem ao tratamento com medicações orais e raramente é necessário fazer cirurgia (cerca de 4% dos casos).

As medicações utilizadas para o tratamento tanto de micro como de macroprolacinoma são os agonistas dopaminérgicos (bromocriptina e cabergolina). São eficazes na grande maioria dos casos para reduzir tanto os níveis de prolactina como o tamanho do tumor. Cirurgia, radioterapia e outras drogas (como temozolomida) devem ser reservadas para casos de tumores resistente ao tratamento convencional ou agressivos.

Concluindo, o diagnóstico de prolactinoma leva em consideração a exclusão de outras causas de hiperprolactinemia, incluindo a macroprolactinemia. Embora os prolactinomas sejam a causa mais frequente de hiperprolactinemia, o tratamento desses tumores raramente necessita de cirurgia.  O diagnóstico e acompanhamento geralmente é realizado pelo endocrinologista.

Referências

Andrea Glezer, MD PhD and Marcello Bronstein, M.D. Hyperprolactinemia. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK278984/

LIPPI, G.; PLEBANI, M. Macroprolactin: searching for a needle in a haystack? Clin Chem Lab Med, v. 54, n. 4, p. 519-22, Apr 2016. ISSN 1437-4331. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26845727 >.

Gostou do conteúdo desse blog? Compartilhe com seus amigos!
  • 308
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    308
    Shares

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.