Arquivo da categoria: Endocrinologia Feminina

A endocrinologia femina engloba várias fases da vida da mulher. Nessa categoria, há publicações sobre processos normais e anormais do ciclo menstrual, da gravidez e também as doenças endocrinológicas mais comuns no sexo feminino.

Síndrome de Cushing: em quem investigar?

O que é Síndrome de Cushing?

A Síndrome de Cushing é causada pelos efeitos do excesso de cortisol (hipercortisolismo). Foi descrita por Harvey Cushing há mais de um século atrás. Ele chamou sua descoberta de “síndrome pluriglandular” por ter um quadro clínico exuberante de achados endocrinológicos e metabólicos.

O objetivo desse texto é comentar sobre os as alterações clínicas mais relevantes que permitam diferenciar a Síndrome de Cushing, que é rara, das outras síndromes e doenças mais corriqueiras. Os testes de triagem para hipercortisolismo são comentados no próximo post

Doenças e síndromes comuns podem simular a Síndrome de Cushing

Vamos tratar aqui dos casos em que o paciente não faz uso de corticoides e o que o excesso hormonal tem como fonte as próprias glândulas adrenais, a Síndrome de Cushing endógena, mas as complicações são comuns à Síndrome de Cushing exógena, causada pela administração dos corticoides sintéticos sistêmicos, como a dexametasona, prednisona, entre outros.

Alguns dos problemas descritos por Cushing são comuns aos quadros de obesidade com Síndrome Metabólica, Síndrome de Ovários Policísticos.

No exame físico, também podemos encontrar aumento de pelos no corpo, calvície, acne, acantose nigricante, face arredondada, giba de búfalo, estrias violáceas, entre outros achados.

O cortisol é um tipo de glicocorticoide. Os glicocorticoides levam esse nome pela sua atuação no metabolismo dos carboidratos e elevação da glicemia, mas atuam também no metabolismo de proteínas e gorduras. Quando o cortisol está alto (hipercortisolismo), também observamos quadro de resistência insulínica grave.

Mas, por que o quadro clínico do hipercortisolismo é tão diverso, com sinais de aumento de hormônios masculinos e hipertensão se há predominantemente excesso de cortisol?

Alguns hormônios, quando em excesso, começam a agir em seus próprios receptores e nos receptores dos hormônios que tenham estruturas moleculares semelhantes (fig 1). Esse fenômeno acontece com os esteroides adrenais.

Por isso, os altos níveis cortisol agem também nos receptores dos mineralocorticoides, levando a quadros de hipertensão arterial com hipocalcemia (potássio baixo), simulando o hiperaldosteronismo primário, e de excesso de hormônio masculino nas mulheres, simulando a Síndrome dos Ovários Policísticos.

Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas. O cortisol se assemelha a aldosterona, testosterona e outros esteroides.
Figura 1. Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas

Causas da Síndrome de Cushing

Sem dúvida, a causa mais comum de Síndrome de Cushing é o uso de corticoides exógenos, ou seja, é observada naquelas pessoas que fazem uso de corticóides em forma de comprimidos e injeções por longos períodos, principalmente.

Quando falamos em Síndrome de Cushing endógeno, quando a produção de cortisol é pelo próprio corpo, pode ser reflexo de:

1. da produção aumentada de hormônio adrenocorticotrófico, o ACTH, por conta de um tumor hipofisário produtor desse hormônio ou

2. em decorrência de um tumor no córtex da adrenal produtor de cortisol. 

Diagnóstico diferencial: novos e antigos desafios

Quando foi descrita há mais de um século atrás, a Síndrome de Cushing tinha o diagnóstico clínico mais fácil diferenciação, já que as doenças que a simulam, como a obesidade e a síndrome metabólica não eram tão frequentes na população com são hoje.

Na prática clínica, pode haver muita confusão se procurarmos excesso de cortisol em todos os pacientes obesos e com síndrome metabólica. Entretanto, não podemos deixar de fazer o diagnóstico da Síndrome de Cushing só pela sua raridade.  

Considerando que a obesidade aumentou muito, em grande parte devido às várias revoluções das últimas décadas, não poderíamos e nem deveríamos investigar o excesso de cortisol em toda pessoa com obesidade.

Nos dias de hoje, estima-se a prevalência da Síndrome de Cushing não diagnosticada é cerca de 75 casos por milhão de pessoas. A prevalência de síndrome metabólica em pessoas obesas é estimada em 10%. Aproximadamente de um terço da população americana é obesa.

Fazendo as contas com todas essas prevalências da população americana, a chance de encontrar um paciente com Síndrome de Cushing no universo de pessoas com obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia e hirsutismo é cerca de 1 para 500.

Desta forma, uma pequena porcentagem de pacientes obesos com síndrome metabólica pode ter a Síndrome de Cushing. Para complicar um pouco mais, os testes para o diagnóstico do excesso de cortisol (hipercortisolismo) podem ser falsamente positivos na obesidade, na depressão e no alcoolismo, situações que denominamos pseudocushing. Inclusive esses pacientes com pseudocushing apresentam várias semelhanças físicas com a Síndrome de Cushing.

O diagnóstico incorreto pode levar a procedimentos diagnósticos e até cirurgias desnecessários.

Quando suspeitar da Síndrome de Cushing?

Existem alguns achados clínicos mais específicos de Síndrome de Cushing que podem ajudar a diferenciá-la das outras doenças já mencionadas.

Em 2018, o consenso americano para diagnóstico da Síndrome de Cushing elencou os achados clínicos mais e menos específicos (1). Eles estão resumidos na tabela abaixo.

Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas. A fratura óssea, pletora facial, miopatia proxima, estrias violácesas e obesiade com redução da velocidade de crescimento nas criaças são fatores que mais discriminam a SC de outras doenças.
Tabela 1. Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas.

Um artigo muito interessante de Lynn Loriaux, publicado na revista New England Journal of Medicine (2), focou no diagnóstico diferencial da síndrome de Cushing procurando os achados que seriam mais específicos do hipercortisolismo. Para esse desafio, ele cita o pesquisador Fuller Albright, que em 1947 descreveu as ações do cortisol no osso como sendo mais antianabólicos que catabólicas. 

Na tentativa de diferenciar a Síndrome de Cushing da síndrome metabólica se tomarmos em consideração apenas o anabolismo do tecido gorduroso (obesidade central) não teríamos muito sucesso, já que o aumento da gordura é um achado comum às duas situações. O tecido ósseo, muscular, cutâneo e vascular podem dar melhores pistas. Para saber mais sobre a diferença de anabolismo e catabolismo, tem um post sobre o tema.

Impacto do hipercortisolismo nos ossos

Sabemos que o tecido ósseo está sempre em processo de formação e de reabsorção, fenômeno esse chamado de remodelação óssea.

Pelo aumento do estímulo mecânico do peso corporal, pacientes obesos raramente têm osteoporose. Na osteoporose decorrente do excesso de cortisol haveria predominantemente a inibição na formação (efeito antianabólico).

Uma densitometria óssea com osteoporose ou baixa massa óssea (índice Z < -2) em um paciente com obesidade por excesso de cortisol é 11 vezes mais comum que em um paciente obeso com osteoporose sem hipercortisolismo.

Exemplo de laudo de densitometria ósseae descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduos de mesma faixa etária e sexo. No exemplo axima, a densitometria é normal.
Figura 2. Exemplo de densitometria e descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduo de mesma faixa etária e sexo. No exemplo acima, a densitometria é normal.

Efeitos do hipercortisolismo em outros tecidos

Não só na osteoporose, mas também nos achados de fraqueza muscular, pele fina e equimoses espontâneas o efeito antianabólico causado pelo excesso de cortisol seria preponderante.

Em relação à pele, uma espessura menor que 2mm é 116 vezes mais encontrada em pacientes com Síndrome de Cushing em relação aos pacientes obesos com síndrome metabólica, mas sem Síndrome de Cushing. 

Figura 3.. Avaliação da espessura da pele. No exemplo acima, a espessura da pele foi de 3mm.

Considerando uma prevalência estimada de síndrome de Cushing de 0,2%, se encontrarmos em um paciente obeso com síndrome metabólica, osteoporose, pele fina e equimose, temos uma chance de 95% desse paciente ter síndrome de Cushing. Um teste positivo de cortisol livre urinário nesse paciente elevaria essa probabilidade a 100%.

Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos: osteoporose, pele fina, fraquza muscular proximal, estrias violáceas e pletora facial
Figura 4. Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos (em verde)

Diagnóstico laboratorial da Síndrome de Cushing

Para iniciar essa conversa, é importante frisar que não existe um teste laboratorial perfeito para todas as situações em que há suspeita de Síndrome de Cushing. Cada um dos testes utilizados tem suas limitações dependendo do perfil de cada paciente. Mais de uma amostra do mesmo tipo de exame, ou ainda associação de exames diferentes são necessários para confirmar o hipercortisolismo. 

Outro ponto FUNDAMENTAL é que o cortisol medido no sangue na manhã sem preparo prévio NÃO deve ser utilizado para diagnóstico de excesso de cortisol. Desculpem-me as letras garrafais, é que a solicitação desse exame é extremamente comum e fora de contexto clínico, ou seja, de forma indiscriminada e inapropriada.

Os diversos testes e demais exames utilizados para o diagnóstico de Síndrome de Cushing está no próximo post.

Referências

1. The Diagnosis of Cushing’s Syndrome: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. doi: 10.1210/jc.2008-01

2. Loriaux, D. L. Diagnosis and Differential Diagnosis of Cushing’s Syndrome. N Engl J Med. 2017. doi: 10.1056/NEJMc1705984

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Um forte abraço,

Suzana

Hormônios na gravidez

Certamente, é um grande desafio resumir ou eleger quais os eventos hormonais mais importantes antes, durante e após a gestação. A ideia do texto é dar um apanhado geral sobre os principais hormônios na gravidez, esse fascinante processo.  De forma simplificada, partirei do ciclo menstrual até a lactação. Espero que me acompanhe até o final dessa bela jornada.

CICLO MENSTRUAL

Antes da gravidez propriamente dita, acho bem interessante falar sobre o ciclo menstrual. Lembrando que primeiro dia da menstruação é o primeiro dia de sangramento, quando um novo ciclo se inicia para preparar o útero na acolhida do embrião, caso haja fecundação.  O ciclo menstrual é dividido em três fases, que veremos a seguir.

Fase folicular

A primeira fase do ciclo menstrual se chama fase folicular, caracterizada pelo recrutamento de um ou mais dos vários folículos ovarianos. O folículo é um grupo de células que contém o óvulo e fonte de produção hormonal. Na maioria das vezes, há o recrutamento de apenas um folículo por ciclo.

O processo de maturação do folículo é iniciado pela secreção da hipófise do FSH, ou hormônio folículo estimulante – como o próprio nome diz, estimula o desenvolvimento do folículo ovariano.

O FSH e LH são chamados de gonadotrofinas, por estimularem as gônadas (ovários e testículos) a produzirem seus respectivos hormônios e gametas (Fig1).

Ilustração com os hormônios hipofisários e seus órgãos alvo
Figura 1. FSH – hormônio folículo estimulante, LH – hormônio luteinizante, GH – hormônio do crescimento, MSH – hormônio estimulador de melanócitos, PRL – prolactina, ACTH – hormônio adrenocorticotrófico, TSH – hormônio tireoestimulante, ADH – hormônio antidiurético

À medida que o folículo se desenvolve, as células que circulam o óvulo produzem os hormônios denominados esteroides sexuais, sendo os principais representantes o estrógeno e a progesterona.

Na fase folicular, o estrógeno predomina em relação à progesterona e promove a proliferação do endométrio, camada mais interna do útero (Fig 2).

Fase ovulatória

Por questões didáticas, o ciclo menstrual é representado em 28 dias, estando dessa forma a fase ovulatória entre o 12o e o 16o dia após a menstruação (média 14o dia). Cerca de 24h antes da ovulação, ocorre o pico do LH – hormônio luteinizante. Problemas nessa fase são característicos da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP).

Após a saída do óvulo, as células que o circundavam formam agora uma estrutura muito importante para que a gestação progrida: o corpo lúteo, que também dá nome a próxima fase. 

Os testes de ovulação  disponíveis comercialmente, detectam a presença no LH ajudam a predizer o período fértil.

Fase lútea ou secretória

O corpo lúteo leva esse nome por conter o pigmento amarelo (luteína), mas a substância mais importante a saber dessa fase é a progesterona, que “promove” o estabelecimento e progressão a gestação. A progesterona é o hormônio predominante nessa fase.  Essa fase dura aproximadamente 14 dias e é relativamente fixa para todas as mulheres.

No endométrio, a progesterona desencadeia a mudança da fase proliferativa para a fase secretória: as glândulas se tornam mais complexas, os vasos se tornam mais espiralados, havendo aumento da sua espessura e acúmulo de energia para receber o concepto. Durante a gravidez, a progesterona inibe as contrações uterinas.

Figura 2. Fases do endométrio e relação com a secreção hormonal

FERTILIZAÇÃO

A união do óvulo com o espermatozoide acontece, na maioria das vezes, na região inicial e mais larga da trompa uterina. Até se implantar no endométrio, o concepto já vai sofrendo suas várias transformações.  Na fase final desse caminho, o estágio do concepto chama-se blastocisto (Fig 4).

A camada mais externa do blastocisto invade o endométrio e inicia a formação da placenta nessa região. A implantação ocorre cerca de 8 a 10 dias após a ovulação e fertilização.

Figura 3. Estágios do desenvolvimento embrionário desde a fecundação até implantação

HORMÔNIOS DA GRAVIDEZ À LACTAÇÃO

A placenta é uma grande fonte de hormônios durante toda gravidez. Vamos conhecer alguns deles com mais detalhes.

HORMÔNIOS PLACENTÁRIOS

Mais do que um órgão de trocas respiratórias e nutritivas entre mãe e feto, a placenta é um importante órgão endócrino. Juntamente com o feto, a placenta é fonte de hormônios esteroides comuns ao ovário (estrógeno e progesterona) e mais outros hormônios por ela produzidos de forma exclusiva.

Dos hormônios exclusivos produzidos pela placenta, destacam-se a gonadotrofina coriônica humana e hormônio lactogênio placentário.

Figura 4. Hormônios produzidos durante a gestação pela placenta

hCG – gonadotrofina coriônica humana

Dos hormônios da gravidez, talvez o mais conhecido seja o hCG ou a gonadotrofina coriônica humana. O hCG é produzido pela camada de células (córion) do blastocisto que, juntamente com outras estruturas, formará a placenta madura.

Após 24h da implantação, já é possível detectar esse hormônio no sague. Isso permite que a gravidez seja diagnosticada mesmo antes do aparecimento dos seus sintomas típicos e atraso menstrual. A partir da 6a semana, há um aumento exponencial do hCG até seu pico por volta da 10a semana de gravidez.

E de onde vem o “beta” para falar do hCG do teste de gravidez? Vale a pena um parêntesis para explicar essa história. 

O hCG é formado por duas subunidades: a alfa e a beta. A subunidade alfa do hCG é muito parecida às subunidades alfa hormônios hipofisários TSH, FSH e LH (Fig 5). Dito isso, essa família de hormônios se diferencia entre si principalmente pela subunidade beta. Por essa razão, o ensaio laboratorial dosa apenas a subunidade beta do hCG, ou β-hCG, para garantir que não seja dosado outro tido de hormônio.  

Figura 5. Família dos hormônios glicoproteicos, que têm comum subunidade alfa.

Outro fato curioso é que, devido à semelhança com TSH, o hCG  pode estimular de forma cruzada a tireoide, mimetizando um quadro de hipertiroidismo e até fazendo aparecer um discreto bócio.

Mas não é só para anunciar a gravidez que o hCG é importante. Ele estimula o corpo lúteo a continuar secretar a progesterona até a sua produção ser assumida pela placenta. Sem esse estímulo, o corpo lúteo duraria apenas 14 dias.

Hormônio Lactogênio Placentário (hLP)

O lactogênio placentário humano é um hormônio bem menos falado. Tem ação mista, parte semelhante ao hormônio de crescimento (GH), parte semelhante à prolactina, da qual falaremos mais adiante. O hLP   estimula o desenvolvimento da mama e lactação. Esse hormônio também causa resistência à ação da insulina, reduzindo a captação de glicose pelos tecidos maternos a fim de disponibilizar mais energia para o feto.

É pela resistência à ação da insulina, acentuada pelo pico de hLP no segundo trimestre de gestação, que há elevação do risco de diabetes gestacional em algumas mulheres.

HORMÔNIOS DO PARTO

A ocitocina é o hormônio de destaque nessa fase. Produzida pelo lobo posterior da hipófise, a ocitocina promove a contração uterina. Infusão de ocitocina é utilizada (de forma controversa) para induzir e ou acelerar o trabalho de parto.

Vale ressaltar que o aumento da ocitocina não é o único fator importante para o início do trabalho de parto, fatores como redução da progesterona e aumento das prostaglandinas são observados de forma orquestrada.

HORMÔNIOS DA LACTAÇÃO

O hormônio mais importante para produção de leite materno é a prolactina, produzida de forma crescente durante a gravidez pelo lobo anterior da hipófise (Fig 1).

Na lactação, sua secreção é desencadeada por uma variedade de estímulos, incluindo sucção da mama e outros estímulos não mecânicos, como observado na Figura 7 . Existe também bloqueio da inibição da secreção de prolactina, pela redução da liberação de dopamina nos neurônios hipotalâmicos (é um bloqueio do bloqueio que leva a uma liberação).

A relação entre dopamina e prolactina foi objeto de uma publicação anterior.  Para ejeção do leite, a ocitocina volta a entrar em ação.

E por que a mulher não menstrua enquanto está amamentando? A resposta está também na prolactina, que inibe a secreção das gonadotrofinas (FSH e LH) e, portanto, a ovulação, menstruação e seus produtos hormonais associados.

A secreção patológica de prolactina é um tema muito comum na endocrinologia, seja por efeitos colaterais de algumas medicações ou tumores das células hipofisárias produtoras de prolactina (prolactinomas).

Nas mulheres que não amamentam há queda da prolactina em 7 a 14 dias e a ovulação pode ocorrer novamente cerca de 3 meses após o parto.

Figura 6. Controle da lactação e sua relação com diversos tipos de estímulos

Chegamos ao final do breve apanhado de alguns hormônios envolvidos no processo da geração de uma nova vida. Algumas dessas substâncias são mais faladas, outras nem tanto, mas que têm sua importância na prática clínica de obstetras e demais especialistas que lidam com endocrinologia feminina.

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Suzana

Uma visão feminina sobre a endocrinologia

Atualizado em 07/03/2021

Mulheres na medicina e na especialidade

A endocrinologia tem alma feminina. De profissionais a pacientes, nós somos maioria. Só que há muito mais além desses dois tipos de atores (ou atrizes) nessa história.

Segundo dados da pesquisa sobre demografia médica feito pela Universidade de São Paulo e Conselho Federal de Medicina, publicada no final de 2020, dos quase 6.000 endocrinologistas, 70,6% são do sexo feminino. Nesse mesmo levantamento, as mulheres representam 46,6% do total de médicos no Brasil. No total, não ainda somos maioria. “Ainda” porque, na última década, as mulheres são maioria entre os novos médicos registrados nos Conselhos de Medicina, consolidando a tendência de feminização da Medicina no Brasil.

Em 1910, os homens eram 77,7% e as mulheres, 22,3%. A presença masculina se amplia até 1960, quando chegou a 87%, e as mulheres se limitavam a 13%. A partir dos anos 1970, com a abertura de grande número de escolas médicas, as mulheres ampliam sua participação e passam de 15,8% em 1970 para 46,6% em 2020.

Entre as mulheres, 40% têm um ou dois vínculos, e entre os homenssão 37,1%.

Trechos retirados de Demografia Médica no Brasil – 2020

Trabalhamos bastante e temos ao nosso lado outras profissionais de saúde como ginecologistas, pediatras, nutricionistas, enfermeiras, psicólogas na prevenção, tratamento e reabilitação. Também esses profissionais são na sua maioria mulheres, salvo engano. Os serviços de cuidado com outras pessoas são essencialmente feito por mulheres.

Mesmo com algumas dificuldades, o número de mulheres empreendendo no Brasil cresce a cada ano, e essa tendência deve se manter elevada pelos próximos anos, conforme levantamento do IPGS.

As minhas e as nossas pacientes

O sexo feminino também representa a maior parte dos nossos pacientes.

Dos meus pacientes, 73% são mulheres.

Levantamento feito até março de 2021

Atendemos mulheres que trabalham (e muito) apenas dentro das suas casas e outras que trabalham dentro e fora de casa. Durante a pandemia, as multiplas jornadas do feminino se intensificaram demasiadamente. Elas têm múltiplas jornadas diárias de trabalho enquanto tentam equilibrar o que é necessário para o cuidado próprio e dos outros que delas dependem, seja financeiramente e/ou afetivamente. Vemos pontualmente ou acompanhamos essas mulheres em vários momentos de vida.

Fases da vida, gênero e endocrinologia

Mudanças hormonais e do metabolismo são uma constante na vida da mulher. Nessa travessia, podemos citar alguns exemplos em onde a endocrinologia é evocada: nos problemas de puberdade, nas alterações menstruais, processo da menopausa (que não é exatamente uma doença) e nos problemas de tireoide, mais prevalentes no sexo feminino.

Mesmo nas condições médicas que não atingem preferencialmente ou são exclusivas das mulheres, elas – mais que os homens – procuram ajuda médica mais precocemente e frequentemente. Podemos citar como exemplos quadros de diabetes, sobrepeso e obesidade.

Questões de gênero também permeiam a endocrinologia. As equipes que atuam no cuidado com mulheres transexuais devem ter esses especialistas no seu quadro para o manejo hormonal que se faz necessário.

Visão mais ampla

Depois dessa breve introdução sobre a endocrinologia, saio pouco da especialidade para ampliar o olhar sobre as demais mulheres do cotidiano profissional e pessoal. Dessa forma, presto uma pequena homenagem às mulheres admiráveis que interagem umas com as outras e tornam a vida mais leve e o trabalho mais fácil.

Do meu lugar é que eu posso falar sem errar muito (eu acho), por isso vou listar algumas personagens importantes que me influenciam, inspiram e apoiam.

Dentro e fora da saúde

Fico feliz e grata em ver e contar com o apoio de outras mulheres da mesma especialidade em diversas necessidades, seja nos desabafos, opiniões, incentivos, discussões de casos, compartilhamento de angústias profissionais, troca de informação e conhecimentos.

Não posso esquecer de citar a importância das mulheres na área da saúde e outra áreas de conhecimento que ampliam o nosso olhar sobre o ser humano, objeto do nosso trabalho. São advogadas, educadoras físicas, professoras, assistentes sociais, artistas, jornalistas, blogueiras, líderes religiosas etc etc etc… a lista é grande.

Meus seguidores

A mulherada também é maioria entre os seguidores das minhas redes sociais. No instagram, nesse momento, elas representam quase 82% do total de seguidores.

Distribuição por gênero dos seguidores do instagram

Na página do Facebook, também não é diferente: 84% dos seguidores são do sexo feminino.

Equipe de suporte

Por último, mas não menos importante, gostaria de lembrar e agradecer às mulheres cujo trabalho é fundamental para o nosso. Para que eu ou qualquer mulher e desempenhe seus diversos papéis na sociedade, houve, há e haverá suporte de outras mulheres – disso eu não tenho dúvidas. Quem não se lembra da sua própria mãe nesse dia? Não sei como a minha mãe com nove filhos deu conta do recado.

No meu caso, uma equipe feminina está ao meu lado: a secretária, as recepcionistas, a ajudante dos serviços domésticos, minha irmã, amigas, outras mães (ai, que medo de esquecer alguém). Elas me dão do apoio corriqueiro ao excepcional para a “Suzana endocrinologista” e a “mãe da Helena”, por exemplo.

Desigualdades? Sim, nós temos!

Admiro toda e qualquer mulher que faz diferença com seu trabalho, seja formal ou informal, socialmente reconhecido ou não. Imagino sua rotina e dificuldades.

Para as que estão no mercado de trabalho historicamente desigual, minha solidadariedade e desejo de dias melhores para nós. Esse é um fenômeno que atinge inclusive a medicina. Na nossa profissão, quase 80% das mulheres estão concentradas nas três categorias de menor remuneração.

Fonte – Jornal da USP 2019 (ref 2)

Além disso, os homens ainda são maioria em 36 das 55 especialidades médicas, conforme o estudo Demografia Médica mais recente.

Limitações e desejos

Como deu para você perceber, mesmo que eu quisesse falar só apenas da especialidade ou da parte profissional, correria o risco de ser demasiadamente injusta. Não sei se isso foi uma limitação ou não para o texto, mas acontece que muitas mulheres são de importantes a fudamentais, sendo que algumas são mais visíveis, outras nem tanto.

Durante a produção do texto, muitos rostos femininos me vieram à mente. Espero que algumas dessas mulheres se reconheçam nas minhas palavras. Muito obrigada em dividir seus dons e talentos; compartilhar comigo seus conhecimentos; oferecer seus cuidados e amizade; confiar-me seus problemas de saúde e prestigiar o meu trabalho.

Para todas as mulheres, desejo que tenham um excelente dia internacional da mulher. Que seja um dia de descanso, reflexão, ação, reinvidicação ou do jeitinho que mais desejarem. Para os homens, desejo que sejam nossos parceiros na luta pela igualdade de gênero.

Feliz Dia Intenacional da Mulher!

Referências

  1. Demografia Médica no Brasil 2020
  2. Estudo quantifica abismo salarial entre homens e mulheres na medicina – Jornal da USP 2019
  3. Mainardi GM, Cassenote AJF, Guilloux AGA, et alWhat explains wage differences between male and female Brazilian physicians? A cross-sectional nationwide studyBMJ Open 2019;9:e023811. doi: 10.1136/bmjopen-2018-023811

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