Hormônios na gravidez

Certamente, é um grande desafio resumir ou eleger quais os eventos hormonais mais importantes antes, durante e após a gestação. A ideia do texto é dar um apanhado geral sobre os principais hormônios envolvidos nesse fascinante processo. De forma simplificada, partirei do ciclo menstrual até a lactação. Espero que me acompanhe até o final nessa jornada.

CICLO MENSTRUAL

Antes da gravidez propriamente dita, acho bem interessante falar sobre o ciclo mentrual. Lembrando que primeiro dia da menstruação é o primeiro dia de sangramento, quando um novo ciclo se inicia para preparar o útero na acolhida do embrião, caso haja fecundação. O ciclo menstrual é dividido em três fases, que veremos a seguir.

Fase folicular

A primeira fase do ciclo menstrual se chama fase folicular, caracterizada pelo recrutamento de um ou mais dos vários folículos ovarianos. O folículo é um grupo de células que contém o óvulo e fonte de produção hormonal. Na maioria das vezes, há o recrutamento de apenas um folículo por ciclo.

O processo de maturação do folículo é iniciado pela secreção da hipófise do FSH, ou hormônio folículo estimulante – como o próprio nome diz, estimula o desenvolvimento do folículo ovariano.

O FSH e LH são chamados de gonadotrofinas, por estimularem as gônadas (ovários e testículos) a produzirem seus respectivos hormônios e gametas (Fig1).

Ilustração com os hormônios hipofisários e seus órgãos alvo
Figura 1. FSH – hormônio folículo estimulante, LH – hormônio luteinizante, GH – hormônio do crescimento, MSH – hormônio estimulador de melanócitos, PRL – prolactina, ACTH – hormônio adrenocorticotrófico, TSH – hormônio tireoestimulante, ADH – hormônio antidiurético

À medida que o folículo se desenvolve, as células que circulam o óvulo produzem os hormônios denominados esteroides sexuais, sendo os principais representantes o estrógeno e a progesterona.

Na fase folicular, o estrógeno predomina em relação à progesterona e promove a proliferação do endométrio, camada mais interna do útero (Fig 2 e 3) .

Fase ovulatória

Por questões didáticas, o ciclo menstrual é representado em 28 dias, estando então a fase ovulatória entre o 12o e o 16o dia após a menstruação (média 14o dia). Cerca de 24h antes da ovulação, ocorre o pico do LH – hormônio luteinizante. Problemas nessa fase são característicos da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP).

Após a saída do óvulo, as células que o circundavam formam agora uma estrutura muito importante para que a gestação progrida: o corpo lúteo, que também dá nome a próxima fase.

Os testes de ovulação disponíveis comercialmente, detectam a presença no LH ajudam a predizer o período fértil.

Ilustração com o comportamento dos hormônios do ciclo menstrual e os respectivos eventos ovarianos - formação do folículo, ovulação e menstruação
Figura 2. Ciclo menstrual com as suas diversas fases

Fase lútea ou secretória

O corpo lúteo leva esse nome por conter o pigmento amarelo (luteína), mas a substância mais importante a saber dessa fase é a progesterona, que “promove” o estabelecimento e progressão a gestação. A progesterorna é o hormônio predominante nessa fase. Essa fase dura aproximadamente 14 dias e é relativamente fixa para todas as mulheres.

No endométrio, a progesterona desencadeia a mudança da fase proliferativa para a fase secretória: as glândulas se tornam mais complexas, os vasos se tornam mais espiralados, havendo aumento da sua espessura e acúmulo de energia para receber o concepto. Durante a gravidez, a progesterona inibe as contrações uterinas.

Figura 3. Fases do endométrio e relação com a secreção hormonal

FERTILIZAÇÃO

A união do óvulo com o espermatozoide acontece, na maioria das vezes, na região inicial e mais larga da trompa uterina. Até se implantar no endométrio, o concepto já vai sofrendo suas várias transformações. Na fase final desse caminho, o estágio do concepto chama-se blastocisto (Fig 4).

A camada mais externa do blastocisto invade o endométrio e inicia a formação da placenta nessa região. A implantação ocorre cerca de 8 a 10 dias após a ovulação e fertilização.

Figura 4. Estágios do desenvolvimento embrionário desde a fecundação até implantação

HORMÔNIOS DA GRAVIDEZ

A placenta é uma grande fonte de hormônios durante toda gravidez. Vamos conhecer alguns deles com mais detalhes.

HORMÔNIOS PLACENTÁRIOS

Mais do que um órgão de trocas respiratórias e nutritivas entre mãe e feto, a placenta é um importante órgão endócrino. Juntamente com o feto, a placenta é fonte de hormônios esteroides comuns ao ovário (estrógeno e progesterona) e mais outros hormônios por ela produzidos de forma exclusiva.

Dos hormônios exclusivos produzidos pela placenta, destacam-se a gonadotrofina coriônica humana e hormônio lactogêncio placentário.

Figura 5. Hormônios produzidos durante a gestação pela placenta

hCG – gonadotrofina coriônica humana

Dos hormônios da gravidez, talvez o mais conhecido seja o hCG ou a gonadotrofina coriônica humana, hormônio produzido pela camada de células (córion) do blastocisto que, juntamente com outras estruturas, formará a placenta madura.

Após 24h da implantação, já é possível detectar esse hormônio no sague. Isso permite que a gravidez seja diagnosticada mesmo antes do aparecimento dos seus sintomas típicos e atraso menstrual. A partir da 6a semana, há um aumento exponencial do hCG até seu pico por volta da 10a semana de gravidez.

E de onde vem o “beta” para falar do hCG do teste de gravidez? Vale a pena um parêntesis para explicar essa história.

O hCG é formado por duas subunidades: a alfa e a beta. A subunidade alfa é muito parecida às subunidades que levam o mesmo nome dos hormônios hipofisários TSH, FSH e LH (Fig 6). Sendo assim, essa família de hormônios diferencia-se entre si principalmente pela subunidade beta. Por esssa razão, o ensaio laboratorial dosa a subunidade beta do hCG, ou β-hCG, para garantir que não seja dosado outro tidpo de hormônio.

Figura 6. Família dos hormônios glicoproteicos, que em tem em comum subunidade alfa.

Outro fato curioso é que, devido à semelhança com TSH, o hCG pode estimular de forma cruzada a tireoide, mimetizando um quadro de hipertiroidismo.

Mas não é só para anunciar a gravidez que o hCG é importante. Ele estimula o corpo lúteo a continuar secretara progesterona até a sua produção ser assumida pela placenta. Sem esse estímulo, o corpo lúteo duraria apenas 14 dias.

Hormônio Lactogênio Placentário (hLP)

O lactogênio placentário humano é um hormônio bem menos falado. Tem ação mista, parte semelhante ao hormônio de crescimento (GH), parte semelhante à prolactina, da qual falaremos mais adiante. O hLP estimula o desenvolvimento da mama e lactação. Esse hormônio também causa resistência à ação da insulina, reduzindo a captação de glicose pelos tecidos maternos a fim de disponibilizar mais energia para o feto.

É pela resistência à ação da insulina, acentuada pelo pico de hLP no segundo trimestre de gestação, que há elevação do risco de diabetes gestacional em algumas mulheres.

HORMÔNIOS DO PARTO

A ocitocina é o hormônio de destaque nessa fase. Produzida pelo lobo posterior da hipófise, a ocitocina promove a contração uterina. Infusão de ocitocina é utilizada (de forma controversa) para induzir e ou acelerar o trabalho de parto.

Vale ressaltar que o aumento da ocitocina não é o único fator importante para o início do trabalho de parto, fatores como redução da progesterona e aumento das prostaglandinas são observados de forma orquestrada.

HORMÔNIOS DA LACTAÇÃO

O hormônio mais importante para produção de leite materno é a prolactina, produzida de forma crescente durante a gravidez pelo lobo anterior da hipófise (Fig 1).

Na lactação, sua secreção é desencadeada por uma variedade de estímulos, incluindo sucção da mama e outros estímulos não mecânicos, como observado na Figura 7 . Existe também bloqueio da inibição da secreção de prolactina, pela redução da liberação de dopamina nos neurônios hipotalâmicos (é um bloqueio do bloqueio).

A relação entre dopamina e prolactina foi objeto de uma publicação anterior. Para ejeção do leite, a ocitocina também entra em ação.

E por que a mulher não menstrua enquanto está amamentando? A resposta está também naprolactina, que inibe a secreção das gonadotrofinas (FSH e LH) e, portanto, a ovulação e menstruação e e seus produtos hormonais associados.

A secreção patológica de prolactina é um tema muito comum na endocrinologia, seja por efeitos colaterais de algumas medicações ou tumores das células hipofisárias produtoras de prolactina (prolactinomas).

Nas mulheres que não amamentam há queda da prolactina em 7 a 14 dias e a ovulação pode ocorrer novamente cerca de 3 meses após o parto.

Figura 7. Controle da lactação e sua relação com diversos tipos de estímulos

Chegamos ao final do breve apanhado de alguns hormônios envolvidos na processo da geração de uma nova vida. Algumas dessas substâncias mais faladas, outras nem tanto, mas que têm sua importância na prática clínica de obstetras e demais especialistas que lidam com endocrinologia feminina.

Obrigada por chegar até aqui. Espero que continue explorando o blog.
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Suzana

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