Incidentaloma adrenal – atualização 2023

Tem novas atualizações do manejo do incidentaloma adrenal.  A último consenso foi de 2016, comentado em um post anterior e as novas recomendações são de 2023.

Relembrando que os incidentalomas adrenais são lesões encontradas por acaso na investigação de outro sintoma não relacionado aos hormônios das adrenais. Ex: a pessoa faz uma tomografia para investigar uma cólica renal e descobre um tumor na adrenal. Não vale usar essa nomenclatura se estamos pesquisando um paciente com quadro clínico compatível com Síndrome de Cushing, por exemplo.

Os incidentalomas adrenais podem ser unilaterais ou bilaterais. O mais comum é que seja unilateral. Se bilateral, geralmente há outros desdobramentos e investigação e condutas são individualizadas.

A investigação é sugerida para lesões adrenais ≥ 1 cm, a menos que sinais e sintomas de excesso hormonal estejam presentes.

AVALIAÇÃO INCIAL DO INCIDENTALOMA ADRENAL

Já que é uma imagem descoberta por acaso, a primeira coisa que temos em mãos é geralmente uma tomografia. A gente avalia a tomografia e pede os exames hormonais. Diante desses dois parâmetros, decidimos como melhor conduzir o restante da investigação e tratamento.

Se a tomografia de adrenal sugerir uma lesão benigna, independentemente do tamanho dela, e não houver sinais ou sintomas de excesso hormonal, a investigação acaba aí, segundo autores do consenso. (Fig 1). Na prática, a gente acompanha o paciente por um tempo.

Em pacientes com hipertensão deve-se investigar excesso de aldosterona, o hiperaldosteronismo primário e em qualquer pacientes em que a imagem não seja típica de adenoma (TC UH> 10) deve-se excluir o paraganglioma adrenal (feocromocitoma).

Os andrógenos adrenais devem ser solicitados se a imagem for sugestiva de câncer adrenal.

Mas se houver um quadro diferente, a equipe médica que cuida do caso deve ser acionada para decidir a melhor conduta.

Mas atenção! Crianças, adolescentes, grávidas e adultos jovens (< 40 anos) com tumor adrenal devem ser avaliados com urgência para realização de cirurgia, devido ao risco maior de malignidade nessas populações.

diagnóstico por imagem do incidentaloma adrenal

Os pesquisadores consideraram uma nova categoria intermediária em relação à suspeita de malignidade pela tomografia (TC) sem contraste. Há 3 possibilidades conforme a densidade pelas unidades Hounsfield, se menor que 10, que indica benignidade, entre 10 -20, que é indeterminado e > 20 UH, que seria uma lesão suspeita.

Eles consagram a tomografia sem contraste como exame de eleição para a avaliação dos incidentaloma adrenais, mas não descartam outros tipos de imagem dependendo do resultado inicial da TC (Fig 2.)

Fluxograma dos exames de imagem em paciente com incidentaloma adrenal

Avaliação da secreção de cortisol

Se o tumor adrenal for secretor, o que é mais comum é que a secreção seja do cortisol. Dessa forma, também há novidades nesse quesito. Na investigação, o teste da supressão do cortisol com dexametasona deve ser realizado.

Pacientes que não tem o cortisol suprimido após 1mg de dexametasona, ou seja, o cortisol é > 1,8 µg/dL, e que não tenham o quadro clínico típico de Síndrome de Cushing, são agora chamados como tendo “secreção autônoma de cortisol leve”. Mais uma vez reforçam o desuso do termo Cushing pré-clínico ou subclínico, já que a maioria dos pacientes não evoluem para Síndrome de Cushing clínica.

Deve-se discutir a opção de cirurgia para o paciente com secreção autônoma de cortisol leve, tumor unilateral e comorbidades relevantes relacionadas ao excesso de cortisol (hipercortisolismo), tais como diabetes, hipertensão, dislipidemia e osteoporose (Fig 3).

A título de curiosidade, como era ANTES:

Avaliação da secreção autônoma de cortisol - anterior
Avaliação da secreção autônoma de cortisol – teste de supressão com 1mg de dexametasona

Se a cirurgia for indicada para um nódulo adrenal benigno, que ela seja minimamente invasiva por um cirurgião experiente.

Se optado por cirurgia, o paciente deve ser acompanhado no pós-operatório por um endocrinologista até recuperação do eixo hipotálamo-hipófise adrenal.

Biópsia das lesões adrenais não se faz, muito menos se a lesão for suspeita de ser um câncer. Uma situação em que se pode fazer biópsia é na suspeita de que as lesões adrenais sejam metástases de outro câncer que o paciente esteja tratando e se o resultado dessa biópsia fará alguma diferença no tratamento do paciente.

Considerações finais

Os incidentalomas adrenais são lesões cada vez mais frequente no cotidiano do médico endocrinologista por conta do aumento do número de exames realizados nos últimos tempos.

Para a maioria dos casos, os fluxogramas aqui apresentados são um bom ponto de partida. Claro que existem casos que não se encaixam nesses fluxogramas ou que se encaixam, mas podem receber um tratamento diferenciado conforme o julgamento do médico e a preferência do paciente.

Abaixo, como de costume, a referência do artigo em que esse texto foi baseado.
Na descoberta de um incidentaloma adrenal, consulte um endocrinologista!

Referência

Martin Fassnacht, Stylianos Tsagarakis, Massimo Terzolo, Antoine Tabarin, Anju Sahdev, John Newell-Price, Iris Pelsma, Ljiljana Marina, Kerstin Lorenz, Irina Bancos, Wiebke Arlt, Olaf M Dekkers, European Society of Endocrinology clinical practice guidelines on the management of adrenal incidentalomas, in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors, European Journal of Endocrinology, Volume 189, Issue 1, July 2023, Pages G1–G42, https://doi.org/10.1093/ejendo/lvad066

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Vídeo Youtube – tumor adrenal descoberto ao acaso
Post instagram incidentaloma
Post Instagram – atualização

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Fenótipos da obesidade: comer emocional, saciação, saciedade e metabolismo lento

Vídeo do YouTube

Esses conceitos foram lançados há poucos anos e nomeia os diferentes perfis de pessoas com obesidade. Sabendo o(s) fenótipo(s) de determinado paciente, a terapia é melhor direcionada.

Antes, é importante saber qual a diferença entre saciação e saciedade

SACIAÇÃO: sensação de sentir-se satisfeito. Está relacionada com a quantidade de calorias que a pessoa necessita para terminar a refeição.

SACIEDADE: está relacionada ao tempo que a pessoa leva entre terminar uma refeição e sentir fome novamente.

FENÓTIPOS DA OBESIDADE

Os pesquisadores dividiram em quatro grupos de pacientes: cérebro faminto, intestino faminto, comer emocional e baixa queima calórica.

  1. COMER EMOCIONAL – relacionado ao apetite hedônico, no qual a comida é uma fonte de prazer, mesmo se a pessoa não estiver com fome fisiológica. É a vontade de comer, mesmo sem fome.
  2. CÉREBRO FAMINTO – há um problema de saciação. A pessoa precisa de mais calorias para terminar uma refeição.
  3. INTESTINO FAMINTO – o problema está na saciedade. Após o término de uma refeição, em pouco tempo a pessoa volta a sentir fome novamente.
  4. METABOLISMO LENTO – a pessoa não queima bem as calorias consumidas e tende a ganhar peso.

Em 15% das 450 pessoas estudadas, os pesquisadores não conseguiram distinguir um fenótipo que coubesse nos critérios que eles delinearam. Interessante ver que o mesmo paciente pode combinar mais de um tipo de fenótipo, que aconteceu em 27% dos participantes. Quem teve o tratamento delineado para o seu fenótipo, conseguiu perder mais peso no tempo de estudo.

Fenótipos da obesidade

Tratamento direcionado

Considerando os fenótipos, os pesquisadores direcionaram a terapia não medicamentosa e medicamentosa em um grupo e no outro, não houve esse tipo de critério para escolha do tratamento.

Em relação ao grupo para o qual a terapia foi direcionada, foram utilizadas as seguintes estratégias:

  1. Fome emocional – combinação de bupropiona com naltrexone
  2. Cérebro faminto – saciação anormal: combinação de fentermina com topiramato. Lorcaserina, inicialmente, foi uma opção, porém ela foi retirada foi retirada do mercado.
  3. Intestino faminto – saciedade anormal: liraglutide
  4. Metabolismo lento: fentermina associada à atividade física resistida

Resultados

No estudo, quando o tratamento foi direcionado para o fenótipo, houve 75% mais chance de perda de peso em 1 ano quando comparado ao grupo onde não se aplicou a estratégia de direcionamento

A média de perda peso no grupo em que o tratamento foi direcionado para o fenótipo foi de 15,9% do peso corporal, comparado a 9,0% para o grupo em que o tratamento padrão.

A perda de peso > 10% foi observada em 76% do grupo do tratamento direcionado para o fenótipo quando comparados a 34% do grupo do tratamento não guiado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que esse estudo acrescenta? Na prática, pouca coisa, pois já perguntamos de forma não sistemática como é o padrão alimentar do paciente e tentamos colocar uma ou mais medicações que caibam melhor no contexto, além das orientações de mudança de estilo de vida. Tem aqueles que “beliscam”, os que têm são “bons de prato” ou hiperfágicos, os que tem metabolismo lento, os que comem mais à noite etc. De certa forma, esses conceitos são alinhados aos fenótipos descritos por Acosta e colaboradores.

Para todos esses “fenótipos”, “padrões alimentares”, tem um termo técnico correspondente fora ou dentro dos transtornos alimentares da psiquiatria (tem um post sobre o tema). Boa parte deles eles presentes no consultório do endocrinologista quando o assunto é obesidade.

Na teoria esse estudo acrescenta bastante, pois é uma forma de demostrar cientificamente que cada padrão alimentar, cada organismo pode responder melhor a um determinado tipo de abordagem de mudança de estilo de vida, tipo de psicoterapia, medicações antiobesidade isoladas e suas combinação.

Como saber seu fenótipo? O endocrinologista pode ajudar a entender o seu e direcionar o tratamento.

Referência

Acosta e col (2021), Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss: A Pragmatic Trial in an Obesity Clinic. Obesity, 29: 662-671. https://doi.org/10.1002/oby.23120

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Diabetes por uso de corticoide

Na pandemia do Covid-19 muito se usou e se falou de corticoides, principalmente da dexametasona. É verdade que o corticoide bem indicado salva vidas, mas o seu uso crônico pode trazer muitas consequências metabólicas e sempre as vemos em vários capítulos na endocrinologia. Nesse texto, falaremos sobre o diabetes causada pelo uso de corticoides.

Além do ganho de peso, uma das complicações clássicas é o desencadeamento ou descompensação do diabetes. Uma metanálise demostrou que pessoas sem histórico pessoal de diabetes, 32% evoluíam com aumento da glicose e 19% com diagnóstico de diabetes.

O uso crônico de corticoide é uma das principais causas de Síndrome de Cushing, da qual já tratamos aqui nesse blog. Para aqueles pacientes que não precisam de corticoide de forma crônica para controlar suas doenças de base, o desmame desse medicamento é trabalhoso, mas vale a pena ser tentado.

Fatores de risco

Já sabemos que idade, síndrome metabólica e sobrepeso são fatores de risco para diabetes tipo 2. Para o desenvolvimento de diabetes em quem está usando corticoide, existem outros a saber:

  • Potência e dose do corticoide
  • Via de administração (injetável e oral têm maior risco que inalatório)
  • Posologia (se contínuo ou intermitente)  
  • Idade avançada (> 60 anos)
  • IMC alto (>25 kg/m2)
  • História prévia de pré-diabetes
  • HbA1c ≥6.0%
  • História familiar de diabetes
  • Função renal diminuída (filtração glomerular estimada <40ml/min)
  • História de hipertensão arterial
  • Tabagismo
  • Etnia de risco
  • Certos polimorfismos genéticos
  • Infecção por citomegalovírus
  • Uso de imunossupressores ou diuréticos

Abaixo, uma tabela já conhecida aqui do blog sobre a potência e duração dos corticoides mais utilizados.

Fisiopatologia

O corticoide mexe com muitas vias metabólicas predispondo ao aumento da glicemia. Além de aumentar o apetite, o glicocorticoide redistribui a gordura e faz com que haja maior concentração na região do tronco, a deletéria gordura abdominal. Além disso, provoca atrofia muscular. O aumento do peso, esteatose hepática e modificação da composição corporal reduzem a sensibilidade à insulina.

Paralelamente, há redução da secreção de insulina pelo pâncreas, por efeito da lipotoxicidade pancreática (já comentada no post sobre gordura ectópica). Pela alteração na secreção da insulina, classicamente temos piora da glicemia pós-prandial com uso de corticoide.

Além da osteoporose, no osso, o corticoide reduz a osteocalcina e faz com que a sensibilidade a insulina diminua. Abaixo, um esquema dos mecanismos pelos quais o corticoide aumenta a glicemia.

Figura 1. Fisiopatologia do diabetes induzido por uso de glicocorticoide. Modificado de Li e col (Ref 1).

Tratamento do diabetes causado por glicocorticoide

Quando não é possível retirar o corticoide por qualquer motivo que seja e o paciente desenvolve ou tem piora do diabetes, várias medicações podem ser utilizadas.

Não há “receita de bolo” ou “tamanho único” para o tratamento da hiperglicemia. Por isso, o tratamento deve ser individualizado.

Abaixo, estão listadas as principais medicações utilizadas, suas vantagens e desvantagens.

HIPOGLICEMIANTES ORAIS

Sulfonilureias  

Vantagens

  • Início de ação imediato

Desvantagens

  • Longa duração
  • Risco de hipoglicemia
  • Não é específica para aumento da glicose pós-prandial (pós-refeição)

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora a glicemia de jejum

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoides de duração intermediária (duas ou mais doses ao dia) ou de longa duração
  • Corticoides intra-articulares

Metformina

Vantagens

  • Baixo risco de hipoglicemia
  • Baixo custo

Desvantagens

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora a glicose pós-prandial
  • Melhora a área sob a curva durante o teste de tolerância oral à glicose (TTGO ou curva glicêmica), no jejum e níveis de HbA1c

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoides de ação intermediária

Glinidas

Vantagens

  • Início de ação intermediária
  • Duração do efeito curto
  • Age bem na glicemia pós-prandial
  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Necessário várias doses ao dia
  • Custo alto

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora glicose pós-prandial e glicemia média
  • Melhora HbA1c

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoides de curta ação

Análogos do receptor de GLP1

Vantagens

  • Início de ação intermediária
  • Age bem na glicemia pós-prandial
  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Evidências científicas limitadas
  • Efeitos renais e gastrointestinais
  • Alto custo

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora a glicemia média e pós-prandial
  • Redução da dose da dose e frequência de injeções de insulina em combinação com a terapia basal-bolus

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de ação intermediária

Inibidores da DPPIV

Vantagens

  • Início de ação intermediária
  • Age bem na glicemia pós-prandial
  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Evidências científicas contraditórias
  • Alto custo

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Glicose pós-prandial não afetada ou melhorada
  • Melhora da glicemia média e HbA1c

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de ação intermediária ou de longa duração

Pioglitazona (tiazolidinedionas)

Vantagens

  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Início de ação lento
  • Ganho de peso (efeito colateral compartilhado com o corticoide)

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora da área sob a curva de glicemia pós-prandial na curva glicêmica em combinação com a insulina

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de ação intermediária

Inibidores do SGLT2

Vantagens

  • Início de ação intermediário
  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Evidências científicas limitadas
  • Fraturas ósseas (canagliflozina) – efeito colateral compartilhado com o corticoide

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Sem melhora na glicemia média quando usado em adição a outros hipoglicemiantes

Adequação para o tipo de corticoide

  • Dados insuficientes (não foi testado sem outros agentes hipoglicemiantes)

Acarbose (inibidor da α-glucosidase)

Vantagens

  • Início de ação intermediário
  • Age bem na glicemia pós-prandial
  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Evidências científicas limitadas;
  • Efeito hipoglicemiante fraco

Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide

  • Melhora a glicose pós-prandial em combinação com as glinidas

Adequação para o tipo de corticoide

  • Dados insuficientes (não foi testado sem outros agentes hipoglicemiantes)

A área sob a curva avalia a intensidade e a duração que o paciente esteve em hiperglicemia durante a curva glicêmica. Quanto maior a área, mais exposto aos danos do aumento da glicose o paciente está.

INSULINAS

As insulinas são as medicações mais eficazes para corrigir a hiperglicemia. Como a glicemia pós-prandial é mais pronunciada, a insulina de ação intermediária (humana NPH) acopanha bem o perfil de subida da glicose induzida pelo corticoide. Pode ser necessária a combinação de insulina lenta (basal) e rápida (prandial), também chamado esquema basal-bolus.

Sobre a diferença entre os análogos de insulina e insulinas humanas, eu te convido a olhar post correspondente.

Insulinas análogas basais (detemir, glargina, degludeca)

Vantagens

  • Baixo risco de hipoglicemia

Desvantagens

  • Não é específica para corrigir hiperglicemia pós-prandial

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de ação intermediária (2 ou mais doses) ou de longa ação

Insulina humana basal (NPH)

Vantagens

  • O perfil de ação acompanha a glicemia induzida por corticoide

Desvantagens

  • Não é específica para corrigir hiperglicemia pós-prandial

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de ação intermediária

Insulina prandial

Vantagens

  • Início de ação intermediária cobre a hiperglicemia pós-prandial
  • Pode ser combinada com insulina basal para hiperglicemia grave

Desvantagens

  • Flexibilidade limitada no tempo de administração

Adequação para o tipo de corticoide

  • Corticoide de curta duração

Esquema basal-bolus

Vantagens

  • Flexibilidade no ajuste da dose
  • Útil para hiperglicemia grave e persistente

Desvantagens

  • Múltiplas injeções diárias

Adequação para o tipo de corticoide

  • O uso é baseado na gravidade da hiperglicemia (não no tipo de corticoide)

Na insulinoterapia, da mesma forma que nas medicações orais, o endocrinologista pode sugerir diferentes tipos de combinações, mesmo que se use insulinas mais antigas. Ainda é possível a combinação de comprimidos e insulinas, o esquema que for melhor para corrigir a glicemia alta.

Considerações finais

Na endocrinologia, sempre recebemos pacientes com as complicações do corticoide de outras especialidades: pacientes da pneumologia que usam corticoides continuamente por asma grave, pacientes da reumatologia que usam corticoide por conta de doenças reumatológicas autoimunes, pacientes da hematologia, com anemia hemolítica, pacientes transplantados etc.

Nesses pacientes em que o corticoide é necessário, sempre avaliamos as complicações do uso prolongado de corticoides e o diabetes é uma das primeiras a serem avaliadas.

Nas pessoas que não precisam de corticoide, mas o usam de forma indiscriminada, a ideia é fazer o desmame do corticoide e retirá-lo assim que possível. Diabetes é uma manifestação metabólica de profundas mudanças em vários órgãos e o controle em quem usa corticoide fica muito mais desafiador.

Referência

  1. Li JX, Cummins CL. Fresh insights into glucocorticoid-induced diabetes mellitus and new therapeutic directions. Nat Rev Endocrinol. 2022 Sep;18(9):540-557. doi: 10.1038/s41574-022-00683-6. Epub 2022 May 18. PMID: 35585199; PMCID: PMC9116713.

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Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá