Na pandemia do Covid-19 muito se usou e se falou de corticoides, principalmente da dexametasona. É verdade que o corticoide bem indicado salva vidas, mas o seu uso crônico pode trazer muitas consequências metabólicas e sempre as vemos em vários capítulos na endocrinologia. Nesse texto, falaremos sobre o diabetes causada pelo uso de corticoides.
Além do ganho de peso, uma das complicações clássicas é o desencadeamento ou descompensação do diabetes. Uma metanálise demostrou que pessoas sem histórico pessoal de diabetes, 32% evoluíam com aumento da glicose e 19% com diagnóstico de diabetes.
O uso crônico de corticoide é uma das principais causas de Síndrome de Cushing, da qual já tratamos aqui nesse blog. Para aqueles pacientes que não precisam de corticoide de forma crônica para controlar suas doenças de base, o desmame desse medicamento é trabalhoso, mas vale a pena ser tentado.
Fatores de risco
Já sabemos que idade, síndrome metabólica e sobrepeso são fatores de risco para diabetes tipo 2. Para o desenvolvimento de diabetes em quem está usando corticoide, existem outros a saber:
- Potência e dose do corticoide
- Via de administração (injetável e oral têm maior risco que inalatório)
- Posologia (se contínuo ou intermitente)
- Idade avançada (> 60 anos)
- IMC alto (>25 kg/m2)
- História prévia de pré-diabetes
- HbA1c ≥6.0%
- História familiar de diabetes
- Função renal diminuída (filtração glomerular estimada <40ml/min)
- História de hipertensão arterial
- Tabagismo
- Etnia de risco
- Certos polimorfismos genéticos
- Infecção por citomegalovírus
- Uso de imunossupressores ou diuréticos
Abaixo, uma tabela já conhecida aqui do blog sobre a potência e duração dos corticoides mais utilizados.

Fisiopatologia
O corticoide mexe com muitas vias metabólicas predispondo ao aumento da glicemia. Além de aumentar o apetite, o glicocorticoide redistribui a gordura e faz com que haja maior concentração na região do tronco, a deletéria gordura abdominal. Além disso, provoca atrofia muscular. O aumento do peso, esteatose hepática e modificação da composição corporal reduzem a sensibilidade à insulina.
Paralelamente, há redução da secreção de insulina pelo pâncreas, por efeito da lipotoxicidade pancreática (já comentada no post sobre gordura ectópica). Pela alteração na secreção da insulina, classicamente temos piora da glicemia pós-prandial com uso de corticoide.
Além da osteoporose, no osso, o corticoide reduz a osteocalcina e faz com que a sensibilidade a insulina diminua. Abaixo, um esquema dos mecanismos pelos quais o corticoide aumenta a glicemia.

Tratamento do diabetes causado por glicocorticoide
Quando não é possível retirar o corticoide por qualquer motivo que seja e o paciente desenvolve ou tem piora do diabetes, várias medicações podem ser utilizadas.
Não há “receita de bolo” ou “tamanho único” para o tratamento da hiperglicemia. Por isso, o tratamento deve ser individualizado.
Abaixo, estão listadas as principais medicações utilizadas, suas vantagens e desvantagens.
HIPOGLICEMIANTES ORAIS
Sulfonilureias
Vantagens
- Início de ação imediato
Desvantagens
- Longa duração
- Risco de hipoglicemia
- Não é específica para aumento da glicose pós-prandial (pós-refeição)
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora a glicemia de jejum
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoides de duração intermediária (duas ou mais doses ao dia) ou de longa duração
- Corticoides intra-articulares
Metformina
Vantagens
- Baixo risco de hipoglicemia
- Baixo custo
Desvantagens
- Início de ação lento
- Não pode ser usada quando há disfunção renal
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora a glicose pós-prandial
- Melhora a área sob a curva durante o teste de tolerância oral à glicose (TTGO ou curva glicêmica), no jejum e níveis de HbA1c
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoides de ação intermediária
Glinidas
Vantagens
- Início de ação intermediária
- Duração do efeito curto
- Age bem na glicemia pós-prandial
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Necessário várias doses ao dia
- Custo alto
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora glicose pós-prandial e glicemia média
- Melhora HbA1c
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoides de curta ação
Análogos do receptor de GLP1
Vantagens
- Início de ação intermediária
- Age bem na glicemia pós-prandial
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Evidências científicas limitadas
- Efeitos renais e gastrointestinais
- Alto custo
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora a glicemia média e pós-prandial
- Redução da dose da dose e frequência de injeções de insulina em combinação com a terapia basal-bolus
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de ação intermediária
Inibidores da DPPIV
Vantagens
- Início de ação intermediária
- Age bem na glicemia pós-prandial
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Evidências científicas contraditórias
- Alto custo
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Glicose pós-prandial não afetada ou melhorada
- Melhora da glicemia média e HbA1c
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de ação intermediária ou de longa duração
Pioglitazona (tiazolidinedionas)
Vantagens
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Início de ação lento
- Ganho de peso (efeito colateral compartilhado com o corticoide)
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora da área sob a curva de glicemia pós-prandial na curva glicêmica em combinação com a insulina
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de ação intermediária
Inibidores do SGLT2
Vantagens
- Início de ação intermediário
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Evidências científicas limitadas
- Fraturas ósseas (canagliflozina) – efeito colateral compartilhado com o corticoide
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Sem melhora na glicemia média quando usado em adição a outros hipoglicemiantes
Adequação para o tipo de corticoide
- Dados insuficientes (não foi testado sem outros agentes hipoglicemiantes)
Acarbose (inibidor da α-glucosidase)
Vantagens
- Início de ação intermediário
- Age bem na glicemia pós-prandial
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Evidências científicas limitadas;
- Efeito hipoglicemiante fraco
Evidências científicas em pacientes com diabetes induzido por glicocorticoide
- Melhora a glicose pós-prandial em combinação com as glinidas
Adequação para o tipo de corticoide
- Dados insuficientes (não foi testado sem outros agentes hipoglicemiantes)
A área sob a curva avalia a intensidade e a duração que o paciente esteve em hiperglicemia durante a curva glicêmica. Quanto maior a área, mais exposto aos danos do aumento da glicose o paciente está.
INSULINAS
As insulinas são as medicações mais eficazes para corrigir a hiperglicemia. Como a glicemia pós-prandial é mais pronunciada, a insulina de ação intermediária (humana NPH) acopanha bem o perfil de subida da glicose induzida pelo corticoide. Pode ser necessária a combinação de insulina lenta (basal) e rápida (prandial), também chamado esquema basal-bolus.
Sobre a diferença entre os análogos de insulina e insulinas humanas, eu te convido a olhar post correspondente.
Insulinas análogas basais (detemir, glargina, degludeca)
Vantagens
- Baixo risco de hipoglicemia
Desvantagens
- Não é específica para corrigir hiperglicemia pós-prandial
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de ação intermediária (2 ou mais doses) ou de longa ação
Insulina humana basal (NPH)
Vantagens
- O perfil de ação acompanha a glicemia induzida por corticoide
Desvantagens
- Não é específica para corrigir hiperglicemia pós-prandial
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de ação intermediária
Insulina prandial
Vantagens
- Início de ação intermediária cobre a hiperglicemia pós-prandial
- Pode ser combinada com insulina basal para hiperglicemia grave
Desvantagens
- Flexibilidade limitada no tempo de administração
Adequação para o tipo de corticoide
- Corticoide de curta duração
Esquema basal-bolus
Vantagens
- Flexibilidade no ajuste da dose
- Útil para hiperglicemia grave e persistente
Desvantagens
- Múltiplas injeções diárias
Adequação para o tipo de corticoide
- O uso é baseado na gravidade da hiperglicemia (não no tipo de corticoide)
Na insulinoterapia, da mesma forma que nas medicações orais, o endocrinologista pode sugerir diferentes tipos de combinações, mesmo que se use insulinas mais antigas. Ainda é possível a combinação de comprimidos e insulinas, o esquema que for melhor para corrigir a glicemia alta.
Considerações finais
Na endocrinologia, sempre recebemos pacientes com as complicações do corticoide de outras especialidades: pacientes da pneumologia que usam corticoides continuamente por asma grave, pacientes da reumatologia que usam corticoide por conta de doenças reumatológicas autoimunes, pacientes da hematologia, com anemia hemolítica, pacientes transplantados etc.
Nesses pacientes em que o corticoide é necessário, sempre avaliamos as complicações do uso prolongado de corticoides e o diabetes é uma das primeiras a serem avaliadas.
Nas pessoas que não precisam de corticoide, mas o usam de forma indiscriminada, a ideia é fazer o desmame do corticoide e retirá-lo assim que possível. Diabetes é uma manifestação metabólica de profundas mudanças em vários órgãos e o controle em quem usa corticoide fica muito mais desafiador.
Referência
- Li JX, Cummins CL. Fresh insights into glucocorticoid-induced diabetes mellitus and new therapeutic directions. Nat Rev Endocrinol. 2022 Sep;18(9):540-557. doi: 10.1038/s41574-022-00683-6. Epub 2022 May 18. PMID: 35585199; PMCID: PMC9116713.
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Boa noite Dra. Suzana
Gostei desse comentario sobre o que acontece com um Diabetico eu sou um fato que eu tenho uma NEURO PATIA no corpo e estou fazendo a procura de fazer um (catete) para retirada de gorduras que esta mostrando nos exames, o que a senhora pode falar agradeço por tudo, eu sou Rene estou no cvtangodito@gmail.com