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Automonitoramento da glicemia em diabetes tipo 2 sem uso de insulina

Vale a pena orientar o paciente com diabetes tipo 2 sem uso de insulina a fazer o automonitoramento da glicemia? Já faz um bom tempo que essa pergunta é feita. Lembro que desde a época que fazia residência médica (no início dos anos 2000) já tínhamos essa dúvida. Naquela época, havia apenas os exames de glicemia na amostra de sangue retirada da ponta do dedo (glicemia capilar), medida da glicose na urina e estava se iniciando a monitorização contínua da glicose intersticial.

Nas últimas duas décadas, testemunhamos o desenvolvimento de aparelhos de glicemia capilar (glicosímetros) cada vez mais modernos e o aperfeiçoamento da monitorização contínua da glicose intersticial. Apesar de todo esse avanço da tecnologia em diabetes, a pergunta sobre se vale a pena usar automonitorização ou automonitoramento glicêmico em pessoas com diabetes tipo 2 que não usam insulina ainda continua sem reposta ou tem opiniões controversas.

Estudos controlados versus estudos de vida real

O que temos de estudos científicos para responder essa pergunta? Para isso, vou rapidamente comentar sobre quais tipos de evidência científica são feitas as recomendações que adotamos no dia a dia. A base para a tomada de decisões é hoje feita no que chamamos medicina baseada em evidência (MBE).

A MBE estratifica os estudos científicos quanto ao nível da qualidade de evidência científica (capacidade de responder à pergunta feita com maior efetividade). Há uma pirâmide que exemplifica a força do resultado do estudo para determinar o grau de recomendação para tomada de decisões, que pode ser para utilização de algum exame ou uso de medicação, por exemplo.

Pirâmide evidência científica

Os ensaios clínicos são muito utilizados para determinar a eficácia e segurança de e analisam um cenário em que se compara dois grupos de uma população homogênea. Um grupo é o placebo ou não intervenção e o outro grupo é o que se faz alguma intervenção (por exemplo, o automonitoramento glicêmico). Teoricamente, a resposta a desses estudos só podem ser aplicadas a uma população no mundo real igual àquela que fora estudada dentro do ensaio clínico.

As metanálises e revisões sistemáticas estão no topo da pirâmide de evidências e são realizadas através de seleção dos resultados de ensaios clínicos semelhantes, cujos resultados são compilados e processados conjuntamente. Essas metodologias são geralmente utilizadas para aprovação de uma determinada medicação ou tecnologia pelas agências regulatórias, como a ANVISA no Brasil.

No mundo real, quando aplicamos as recomendações dos ensaios clínicos e metanálises não temos o rigor de controle desses estudos. Quando aplicamos uma nova medicação ou tecnologia nos nossos pacientes, o que temos é um universo de pessoas (população) muito diferentes entre si e que, muitas vezes, não se encaixam nos critérios de eleição dos estudos científicos. O resultado é que, diversas vezes, vemos respostas diferentes para mais ou para menos daquelas que temos conhecimento dos estudos científicos.

Para tentar minimizar a diferença de resultados, há alguns anos vem sendo desenvolvidos estudos de vida real ou de mundo real para avaliar como se comporta determinada recomendação em uma população mais diversificada. A ideia é que possamos saber como uma intervenção se comporta em um cenário parecido como o que temos no nosso dia a dia. Esse tipo de modelo é muito interessante, mas ainda não totalmente aceito ou disseminado entre as instituições de ensino e agências regulatórias.

Medicina Baseada em Evidência e Medicina Baseada em Fisiopatologia

A endocrinologia é a área que estuda mais a fundo o diabetes (diabetologia), mais do que na medicina baseada em evidências, nos norteamos pela fisiopatologia da doença. Explico melhor, tentamos analisar quais os mecanismos subjacentes predominantes que levam a uma determinada doença. No caso do diabetes, tentamos verificar ou induzir se a pessoa tem mais resistência à ação da insulina ou se há uma deficiência da secreção de insulina pelo pâncreas, resultando em maior glicemia de jejum ou pós-refeição, respectivamente. A monitorização da glicose pode ajudar a entender os mecanismos problemáticos que fazem aumentar a glicemia e ajudar médico e paciente a delinear melhor estratégia de tratamento.

Os pacientes não são iguais entre si e ainda um mesmo tipo de diabetes podem ter um ou outro mecanismo predominante ou ainda os dois. Daí a máxima “cada caso é um caso” tão falada entre nós no sentido que não dá para utilizar a mesma fórmula para todo mundo.

Por que estamos falando de estudos e de fisiopatologia antes do assunto em si? Porque a maioria dos estudos controlados falam que não há benefício em monitorizar a glicemia em pessoas com diabetes tipo 2 que não usam insulina ou o benefício é muito pequeno e limitado a um determinado número de medidas. 

Estudos de automonitoramento glicêmico em diabetes tipo 2 sem uso de insulina

Frequentemente ouvíamos dizer que a monitorização em pacientes com diabetes que não usavam insulina além de não melhorar o controle glicêmico, poderia ainda piorar a qualidade de vida desses pacientes. Entreatanto, a Associação Americana de Diabetes considera que o automonitoramento glicêmico por ponta de dedo reduz a HbA1c de 0,25 a 0,3% em 6 meses. O que falam estudos recentes?

Um ensaio clínico realizado nos Estados Unidos na atenção primária avaliou 450 pacientes com diabetes tipo 2 com hemoglobina glicada entre 6,5% e 9,0% quanto ao impacto do automonitoramento da glicemia capilar sobre a redução da hemoglobina glicada e qualidade de vida. Foram comparados três grupos para diferentes intervenções: um grupo que não fazia testes de glicemia capilar, um grupo que fazia testes uma vez ao dia e outro que fazia testes e recebia uma mensagem personalizada pelo glicosímetro (aparelho de medir a glicose). A conclusão desse estudo foi que em pacientes com diabetes tipo 2 sem uso de insulina não houve diferença significativa em relação à melhora da hemoglobina glicada, qualidade de vida e hipoglicemia entre os pacientes que fizeram e os que não fizeram controle glicêmico por ponta de dedo.

Ainda sobre o automonitoramento da glicemia capilar, uma revisão sistemática e metanálise de doze ensaios clínicos publicada em 2018, avaliou o impacto do automonitoramento glicêmico por glicemia capilar em pacientes com diabetes tipo 2 que não usavam insulina. Os dados de 3350 pacientes dos 12 estudos foram analisados com o objetivo de determinar o número adequado de picadas de dedo por semana que traria algum benefício. Esse estudo demostrou que o número entre 8 a 14 medidas por semana foi associado com melhora da HbA1c (hemoglobina glicada) em média de 0,45% em 6 meses e 0,2% em 12 meses. OUtro resultado observado foi que até sete medidas de glicemia por semana trouxe benefício algum para o controle glicêmico nos pacientes avaliados.

Avaliação contínua da glicose

A hemoglobina glicada é o parâmetro de eleição para avaliar o risco de complicações do diabetes na literatura científica e na prática diária. Como aliado ao controle da diabetes, o uso da monitorização contínua da glicose nos traz informações adicionais que podem ser úteis para personalizar o tratamento e ações dos pacientes frente aos resultados obtidos.

Parâmetros obtidos pelo sistema de avaliação contínua da glicose como tempo no alvo e porcentagem de hipoglicemias e variabilidade glicêmica são atualmente considerados como parâmetro de bom controle glicêmico em complemento à dosagem de hemoglobina glicada. Entretanto, os estudos com monitorização contínua da glicose em diabetes tipo 2 foram realizados preferencialmente em pacientes com diabetes tipo 2 em uso de insulina.

Monitorização contínua da glicose

A glicemia capilar é dolorosa e cara. A avaliação contínua da glicose pelo sistema de monitorização contínua ( em inglês :continuous-glucose-monitoring – CGM) resolveu em parte o problema das picadas, mas não é uma tecnologia coberta pelo sistema público de saúde e é inacessível para a maior parte da população.

Monitorização para DM2 no SUS e na Saúde Suplementar

A advogada Débora Aligieri traz nos próximos parágrafos a situação da cobertura na saúde pública e privada das tecnologias para o automonitoramento glicêmico.

No mercado há diversas opções de compra de equipamentos médicos para monitorar a glicemia, desde glicosímetros até sensores de glicose intersticial, associados ou não a bomba de insulina. E no Sistema Único de Saúde (SUS), quais são as opções oferecidas às pessoas com diabetes tipo 2 para a monitorização da glicemia? E os planos de saúde, cobrem a monitorização de glicemia desses pacientes?

Conforme a Lei Federal nº 11.347/2006, os diabéticos deverão receber os materiais necessários ao monitoramento da glicemia capilar gratuitamente pelo SUS, estabelecendo a Portaria nº 2.583/2007 o fornecimento de tiras reagentes e lancetas  (artigo 1º, inciso II, letras “b” e “c”). Todavia o artigo 2º dessa Portaria restringe o acesso aos usuários insulinodependentes. Portanto, pessoas com diabetes tipo 2 só tem direito ao recebimento de glicosímetro, fitas medidoras e lancetas pelo SUS caso usem insulina.  Mas, ainda que não recebam o aparelho e materiais para a monitorização, os DM2 que não usam insulina podem realizar o teste de glicemia na unidade de saúde onde são atendidos. Conforme Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para DM2 proposto pelo Ministério da Saúde, a glicemia capilar desses pacientes pode ser realizada na unidade de saúde por ocasião das consultas com os profissionais de saúde, de acordo com a definição da equipe  que os acompanha.

Sensores de glicose intersticial (associados ou não a bomba de insulina) ainda não integram o protocolo do SUS para o tratamento de qualquer tipo de diabetes. Mesmo assim, é possível o paciente DM2 acessar estes insumos através de um pedido administrativo à Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde. Mas a concessão fica a critério da gestão local.

Já os planos de saúde, em regra, não cobrem qualquer tipo de monitorização glicêmica, seja qual for o tipo de diabetes, pois a Lei nº 9.656/98 (Lei dos Planos de Saúde) exclui o fornecimento de medicamentos e insumos para tratamento domiciliar de suas responsabilidades perante os associados. Mas também neste caso é possível a realização de um pedido administrativo, cuja concessão é igualmente discricionária, portanto depende da boa vontade da operadora.

Considerações finais

O automonitoramento glicêmico tem pouco ou nenhum benefício em relação à hemoglobina glicada quando a avaliação é feita pelos ensaios clínicos e metanálises. No mundo real, tanto a glicemia capilar quanto a monitorização da glicose intersticial em tempo real (CGM) são utilizadas em pacientes com diabetes tipo 2 com ou sem uso de insulina. Além de ajudarem os médicos na conduta terapêutica, os pacientes acabam entendendo o impacto dos alimentos que consomem e da atividade física na sua glicemia e a tomarem ações frente aos resultados obtidos. Em pacientes com diabetes tipo 2 recém-diagnosticada essas informações são valiosas para o controle da doença.

Sabemos que a decisão de se implantar ou não uma tecnologia no SUS e na saúde suplementar é regida pela medicina baseada em evidências. Os processos administrativos são burocráticos e desgastantes para médicos e pacientes. Considerando as particularidades de cada caso, o automonitoramento glicêmico poderia ser utilizado para pacientes com diabetes tipo 2 recém-diagnosticados ou em qualquer momento quando estiverem com sintomas de hipoglicemias ou com evidências de descompensação do diabetes.

Em lugar de seguirmos protocolos engessados, a decisão ou não de lançar mão ou não do automonitoramento para controle da glicemia pacientes com diabetes tipo 2 poderia ser do médico compartilhada com o paciente e devidamente coberta pelo sistema público ou suplementar de saúde. O automonitoramente poderia ser devidamente justificado e reavaliado caso a caso após 3 ou 6 meses de testes, e seu impacto observado no níveis de glicemia e qualidade de vida dos pacientes. Mais que medicina baseada em evidências, cabe aqui considerar o que vemos no mundo real.

Cabe a nós, pessoas envolvidas no cuidado do diabetes (próprio ou de alguém próximo, seja familiar ou paciente) fazer esse debate nos espaços – on-line e off-line – que frequentamos, visando a melhoria da qualidade de vida das pessoas com diabetes através da atualização constante da política de diabetes no Brasil, e da sustentabilidade do SUS através do uso racional de tecnologias destinadas ao cuidado de pessoa com diabetes.

Referências

  1. Xu Y, Tan DHY, Lee JY. Evaluating the impact of self-monitoring of blood glucose frequencies on glucose control in patients with type 2 diabetes who do not use insulin: A systematic review and meta-analysis. Int J Clin Pract. 2019;73(7):e13357. doi:10.1111/ijcp.13357
  2. Young LA, Buse JB, Weaver MA, et al. Glucose Self-monitoring in Non-Insulin-Treated Patients With Type 2 Diabetes in Primary Care Settings: A Randomized Trial. JAMA Intern Med. 2017;177(7):920-929. doi:10.1001/jamainternmed.2017.1233
  3. Carlson AL, Mullen DM, Bergenstal RM. Clinical Use of Continuous Glucose Monitoring in Adults with Type 2 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2017;19(S2):S4-S11. doi:10.1089/dia.2017.0024
  4. BRASIL. Lei nº 11.347, de 27 de setembro 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11347.htm>
  5. BRASIL, Ministério da Saúde. Portaria nº 2.583, de 10 de outubro 2007. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2007/prt2583_10_10_2007.html>
  6. BRASIL. Lei nº 9.656, de 03 de junho de 1998. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9656compilado.htm>

Observação: Agradecemos a contribuição de Karla Melo para as reflexões do texto através do compartilhamento de artigos sobre estudos acerca da eficácia da monitorização para DM2.

Débora Aligieri

Advogada, blogueira, ativista e conselheira de saúde, mestranda em Saúde Pública pela FSP/USP, integrante do Departamento de Saúde Pública, Epidemiologia, Economia em Saúde e Advocacy da SBD. Editora do blog Diabetes e Democracia.

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Investigação da Síndrome de Cushing – cortisol alto

No post anterior, vimos são quais os achados clínicos que sugerem a presença do excesso de cortisol e de corticóides sínteticos (dexametasona, por exemplo) que culminam no dramático quadro da Síndrome de Cushing.

Após a exclusão do uso de qualquer uso prolongado de corticoides, nos pacientes com suspeita de Síndrome de Cushing, devemos prosseguir com a investigação laboratorial e confirmar se há real aumento da produção de cortisol pelas adrenais.

A confirmação do hipercortisolismo (que é o termo técnico para o excesso de cortisol) por mais de um teste laboratorial é fundamental antes de qualquer método de imagem da adrenal ou hipófise.

Os testes para confirmação do aumento do cortisol levam em consideração (1) o excesso de sua produção, (2) a perda do padrão circadiano de sua secreção ou (3) a perda dos mecanismos de sua regulação.

Princípios dos testes para detecção do hipercortisolismo

O cortisol é um dos hormônio que tem uma variação circadiana, tendo o seu pico de concentração durante a manhã e o seu nadir por volta da meia-noite, conforme a figura abaixo.

Variação do cortisol conforme fases do dia.

A produção de cortisol feita pelas adrenais é estimulada pelo hormônio chamado adrenocorticotrófico (ACTH), produzido pela hipófise. Para a secreção de ACTH, a hipófise, por sua vez, é estimulada pelo hormônio hipotalâmico liberador da corticotrofina (CRH).

eixo hipotálamo-hipófise-adrenal

Pelo modelo de feedback ou retroalimentação hormonal, baixos níveis de cortisol estimulam a secreção do ACTH hipofisário, e altos níveis de cortisol (hipercortisolismo) inibem a secreção do ACTH. É como se os níveis baixos de cortisol dessem um aviso para hipófise que a adrenal precisa de mais estímulo para subir a produção e normalizar os níveis dos hormônios esteroides adrenais.

O hipercortisolismo é associado com perda do seu padrão circadiano e perda da regulação pelo ACTH. Sobre essas características da doença foram desenvolvidos os testes de laboratoriais para detecção da Síndrome de Cushing endógena (quando o excesso de produção vem das adrenais e não da ingestão de medicamentos contendo corticoides).

Parece, mas não é!

Não existe um teste ou exame perfeito para todas as pessoas. Cada um dos três métodos mais utilizados tem suas limitações dependendo do perfil de cada paciente. Mais de uma amostra de sangue ou urina para o mesmo tipo de exame, ou ainda associação de exames diferentes são necessários para confirmar o diagnóstico, já que existem muitas condições que podem simular clinicamente a Síndrome de Cushing ou levar ao aumento do cortisol, conforme tabela abaixo. Esse quadro se chama pseudocushing.

Condições associadas com aumento do cortisol na ausência de Síndrome de Cushing. 
Algumas características da S. de Cushing podem estar presentes
Gravidez
Depressão e outras condições psiquiátricas 
Dependência de álcool 
Obesidade grave 
Síndrome dos ovários policísticos
Diabetes mellitus descompensado 
Qualquer característica clínica de Síndrome de Cushing é improvável 
Estresse físico (hospitalização, cirurgia, dor) 
Desnutrição, anorexia nervosa 
Exercício intenso de forma contínua
Amenorreia hipotalâmica 
Tabela com as condições clínicas que cursam com aumento de cortisol sem ser Síndrome de Cushing (pseudocushing)

Outro ponto FUNDAMENTAL é que o cortisol medido no sangue na manhã e sem preparo prévio NÃO deve ser utilizado para diagnóstico de excesso desse hormônio. Desculpem-me as letras garrafais, é que a solicitação desse exame é extremamente comum e fora de contexto clínico, ou seja, é solicitado de forma incorreta e indiscriminada.

A dosagem do cortisol sérico é útil para avaliar deficiência de cortisol. Se for para avaliar o hipercortisolismo, o cortisol deve ser colhido após um preparo que consiste na ingestão de dexametasona na noite anterior ou em pequenas doses nas 48h antes da coleta.

A simples picada da agulha para coleta da amostra de sangue pode elevar o cortisol. Alguns medicamentos como pílulas anticoncepcionais aumentam a proteína carreadora do cortisol, a CBG, elevando os níveis séricos desse hormônio. A diferença entre os hormônios ligados e livres estão no post: hormônios ligados e livres.

Quais são os exames e testes para avaliar o aumento do cortisol? 

Existem diversos tipos de ensaios (métodos) laboratoriais para o mesmo tipo de exame. A cromatografia líquida de alta performance e a espectrometria de massa são as mais recomendadas, já que a estrutura química dos hormônios produzidos no córtex adrenal são muito semelhantes e esses médodos conseguem melhor diferenciá-los. 

Cortisol livre urinário de 24h

É a dosagem da fração livre (não ligada) na urina. Esse exame tira o problema dos exames falso-positivos por aumento da proteína carreadora. O cortisol livre urinário reflete diretamente a fração bioativa do hormônio no sangue, ou seja, a fração que realmente promove as ações celulares do cortisol. 

O complicado dessa metodologia é que pode haver coleta inadequada do volume de amostra de urina. O mais frequente não se consiga coletar no frasco toda quantidade de urina das 24h.

Esse método é adequado em pacientes que têm a função renal normal e deve-se ser assegurado que todo volume das 24h foi coletado. Para saber se a coleta foi adequada, é aconselhável a dosagem de creatinina na urina de 24h. Valores de creatinina menores que 1,5g por dia em homens e 1,0g por dia em mulheres indicam coleta incompleta da urina nas 24h. 

Cortisol salivar à meia-noite 

O cortisol salivar também representa a fração livre e bioativa do hormônio. Esse teste detecta a perda da ciclicidade da secreção do cortisol, com detecção de maiores níveis do hormônio na saliva à meia-noite na Síndrome de Cushing. Como vimos, o esperado é que os níveis de cortisol sejam menores à noite.

A coleta do cortisol salivar é realizada no domicílio e amostra é levada ao laboratório no dia seguinte. Deve-se também estar atento ao preparo da coleta. O contato prévio com o laboratório é recomendado para obter as informações sobre o exame.

Teste de supressão com 1mg de dexametasona overnight

A dosagem do cortisol no sangue é feita no período da manhã após a ingestão de dexametasona 1,0 a 2,0 mg, por via oral, entre 23h a noite anterior ou à meia-noite. 

Em condições normais, a resposta esperada após a administração da dexametasona é que esse potente corticoide iniba a secreção do ACTH e, em efeito cascata, reduza a produção de cortisol pelas adrenais. Dessa forma, esperamos valores baixos (ou suprimidos) de cortisol sérico pela manhã após a ingestão de dexametasona em indivíduos saudáveis. Para alguns pacientes desavisados, o resultado do cortisol pós-dexametasona abaixo do valor de referência do método pode assustar.

Na Síndrome de Cushing, há perda do feedback negativo (pelo menos pacialmente) do eixo, e a administração de dexametasona não é capaz de suprimir a secreção de cortisol pelas adrenais. Portanto, nessa síndrome, temos valores não suprimidos do cortisol e maiores do que o esperado em condições normais. O valor de corte para determinar o hipercortisolismo nesse teste é dosagem de cortisol maior ou igual a 1,8mg/dL após a supressão com dexametasona.

Esse teste tem muitos problemas. Como o cortisol medido no sangue dosa também a sua fração ligada, a elevação da concentração da proteína carreadora (CBG) resulta em valores maiores de cortisol total, mesmo que não haja aumento da sua fração livre. Além das condições fisiológicas como a gravidez, o uso de anticoncepcional hormonal oral (pílulas contraceptivas) e terapia hormonal na menopausa aumentam os níveis de CBG. Se esse teste for considerado, deve-se suspender a ingestão de hormônios de quatro a seis semanas antes do teste, se possível. 

Há também uma série de medicamentos que aceleram ou inibem o metabolismo da dexametasona e podem levar a resultados falso-positivos ou falso-negativos.

Confirmação do hipercortisolismo

Uma sugestão de investigação para a Síndrome de Cushing está esquematizada no quadro abaixo. A escolha do melhor teste depende das condições de cada paciente. Percebam que é preciso mais de um teste ou modificações do mesmo teste para cada situação.

Sugestão de investigação do excesso de cortisol pela adrenal. 
Mais de um teste deve ser realizado. Os principais são o cortisol urinário de 24h, a supressão do cortisol após a ingestão de 1mg de dexametasona e o cortisol salivar à meia-noite. Semais de um exame vier normal, a Síndrome de Cushing é improvável.
Algoritmo de investigação do hipercortisolismo. Modificado da ref 1.

O endocrinologista pode ser consultado logo no ínicio para investigação da Síndrome de Cushing ou mais adiante após um teste positivo para hipercortisolismo. O papel do endocrinologista é confirmar o excesso de cortisol por mais um teste, sempre de acordo com as características do paciente, e assim prosseguir a investigação por exames de imagem para determinar onde está a fonte do excesso hormonal.

Procurando a fonte do problema

Mais adiante no fluxograma de investigação, o passo seguinte é determinar se a Síndrome de Cushing é dependente da ação de ACTH ou independente da ação do ACTH. No primeiro caso, na Síndrome de Cushing ACTH-dependente, o problema em geral está na hipófise, onde haveria produção do ACTH por tumores nessa glândula e com consequente hiperestímulo das adrenais.

A Síndrome de Cushing ACTH-dependente de origem hipofisária é também conhecida por Doença de Cushing. Raramente, o ACTH é produzido por tumores fora da hipófise.

Se a Síndrome de Cushing ACTH-independente, ou seja, quando a adrenal não está sob o estímulo do ACTH, o problema é na própria adrenal. Esse é um exemplo do que chamamos produção autônoma da glândula, que pode ser consequência de tumores ou outras doenças que levam ao aumento da produção do cortisol pelo córtex adrenal.

Devemos investigar Síndrome de Cushing nos casos de incidentalomas adrenais, que são tumores descobertos ao acaso em exames que não miraram problemas na adrenal (uma tomografia na procura de cálculo renal, por exemplo).

Tratamento da Síndrome de Cushing

A retirada do tumor produtor de ACTH ou cortisol é o objetivo principal do tratamento para Síndrome de Cushing endógena. Para quem faz uso de corticóide, o natural seria retirar a medicação se for possível – nem sempre o é!

Quando a retirada do tumor ou suspensão do uso de corticoide é factível, complicações como diabetes, hipertensão e obesidade podem ter resolução total ou parcial. Apesar da notícia da cirurgia assustar, os benefícios do procedimento podem ser enormes.

Considerações finais

Como vimos, para chegar ao parágrafo do tratamento da Síndrome de Cushing, um longo percurso desde a suspeita até confirmação do diagnóstico é percorrido. Mesmo para os endocrinologistas, isso não é tarefa fácil. Incidentalomas hipofisários e adrenais, condições que simulam a síndrome de Cushing (pseudocushing), testes e exames solicitados de forma inadequada são algumas armadilhas e obstáculos.

Se você teve um resultado de cortisol alto, não se assuste e converse com o seu médico. Se preciso, peça a ajuda de um endocrinologista.

Referência

  1. The Diagnosis of Cushing’s Syndrome: An Endocrine
    Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Volume 93, Issue 5, 1 May 2008, Pages 1526–1540, https://doi.org/10.1210/jc.2008-0125. Diretriz Americana para o Diagnóstico da Síndrome de Cushing (em inglês)

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Síndrome de Cushing: em quem investigar?

O que é Síndrome de Cushing?

A Síndrome de Cushing é causada pelos efeitos do excesso de cortisol (hipercortisolismo). Foi descrita por Harvey Cushing há mais de um século atrás. Ele chamou sua descoberta de “síndrome pluriglandular” por ter um quadro clínico exuberante de achados endocrinológicos e metabólicos.

O objetivo desse texto é comentar sobre os as alterações clínicas mais relevantes que permitam diferenciar a Síndrome de Cushing, que é rara, das outras síndromes e doenças mais corriqueiras. Os testes de triagem para hipercortisolismo são comentados no próximo post. 

Doenças e síndromes comuns podem simular a Síndrome de Cushing

Vamos tratar aqui dos casos em que o paciente não faz uso de corticoides e o que o excesso hormonal tem como fonte as próprias glândulas adrenais, a Síndrome de Cushing endógena, mas as complicações são comuns à Síndrome de Cushing exógena, causada pela administração dos corticoides sintéticos sistêmicos, como a dexametasona, prednisona, entre outros.

Alguns dos problemas descritos por Cushing são comuns aos quadros de obesidade com Síndrome Metabólica, Síndrome de Ovários Policísticos.

No exame físico, também podemos encontrar aumento de pelos no corpo, calvície, acne, acantose nigricante, face arredondada, giba de búfalo, estrias violáceas, entre outros achados.

O cortisol é um tipo de glicocorticoide. Os glicocorticoides levam esse nome pela sua atuação no metabolismo dos carboidratos e elevação da glicemia, mas atuam também no metabolismo de proteínas e gorduras. Quando o cortisol está alto (hipercortisolismo), também observamos quadro de resistência insulínica grave.

Mas, por que o quadro clínico do hipercortisolismo é tão diverso, com sinais de aumento de hormônios masculinos e hipertensão se há predominantemente excesso de cortisol?

Alguns hormônios, quando em excesso, começam a agir em seus próprios receptores e nos receptores dos hormônios que tenham estruturas moleculares semelhantes (fig 1). Esse fenômeno acontece com os esteroides adrenais.

Por isso, os altos níveis cortisol agem também nos receptores dos mineralocorticoides, levando a quadros de hipertensão arterial com hipocalcemia (potássio baixo), simulando o hiperaldosteronismo primário, e de excesso de hormônio masculino nas mulheres, simulando a Síndrome dos Ovários Policísticos.

Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas. O cortisol se assemelha a aldosterona, testosterona e outros esteroides.
Figura 1. Hormônios esteroides produzidos pela adrenal e esteroides sexuais produzidos pela conversão periférica ou nas gônadas

Causas da Síndrome de Cushing

Sem dúvida, a causa mais comum de Síndrome de Cushing é o uso de corticoides exógenos, ou seja, é observada naquelas pessoas que fazem uso de corticóides em forma de comprimidos e injeções por longos períodos, principalmente.

Quando falamos em Síndrome de Cushing endógeno, quando a produção de cortisol é pelo próprio corpo, pode ser reflexo de:

1. da produção aumentada de hormônio adrenocorticotrófico, o ACTH, por conta de um tumor hipofisário produtor desse hormônio ou

2. em decorrência de um tumor no córtex da adrenal produtor de cortisol. 

Diagnóstico diferencial: novos e antigos desafios

Quando foi descrita há mais de um século atrás, a Síndrome de Cushing tinha o diagnóstico clínico mais fácil diferenciação, já que as doenças que a simulam, como a obesidade e a síndrome metabólica não eram tão frequentes na população com são hoje.

Na prática clínica, pode haver muita confusão se procurarmos excesso de cortisol em todos os pacientes obesos e com síndrome metabólica. Entretanto, não podemos deixar de fazer o diagnóstico da Síndrome de Cushing só pela sua raridade.  

Considerando que a obesidade aumentou muito, em grande parte devido às várias revoluções das últimas décadas, não poderíamos e nem deveríamos investigar o excesso de cortisol em toda pessoa com obesidade.

Nos dias de hoje, estima-se a prevalência da Síndrome de Cushing não diagnosticada é cerca de 75 casos por milhão de pessoas. A prevalência de síndrome metabólica em pessoas obesas é estimada em 10%. Aproximadamente de um terço da população americana é obesa.

Fazendo as contas com todas essas prevalências da população americana, a chance de encontrar um paciente com Síndrome de Cushing no universo de pessoas com obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia e hirsutismo é cerca de 1 para 500.

Desta forma, uma pequena porcentagem de pacientes obesos com síndrome metabólica pode ter a Síndrome de Cushing. Para complicar um pouco mais, os testes para o diagnóstico do excesso de cortisol (hipercortisolismo) podem ser falsamente positivos na obesidade, na depressão e no alcoolismo, situações que denominamos pseudocushing. Inclusive esses pacientes com pseudocushing apresentam várias semelhanças físicas com a Síndrome de Cushing.

O diagnóstico incorreto pode levar a procedimentos diagnósticos e até cirurgias desnecessários.

Quando suspeitar da Síndrome de Cushing?

Existem alguns achados clínicos mais específicos de Síndrome de Cushing que podem ajudar a diferenciá-la das outras doenças já mencionadas.

Em 2018, o consenso americano para diagnóstico da Síndrome de Cushing elencou os achados clínicos mais e menos específicos (1). Eles estão resumidos na tabela abaixo.

Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas. A fratura óssea, pletora facial, miopatia proxima, estrias violácesas e obesiade com redução da velocidade de crescimento nas criaças são fatores que mais discriminam a SC de outras doenças.
Tabela 1. Condições e achados clínicos comuns na Síndrome de Cushing e em outras condições médicas.

Um artigo muito interessante de Lynn Loriaux, publicado na revista New England Journal of Medicine (2), focou no diagnóstico diferencial da síndrome de Cushing procurando os achados que seriam mais específicos do hipercortisolismo. Para esse desafio, ele cita o pesquisador Fuller Albright, que em 1947 descreveu as ações do cortisol no osso como sendo mais antianabólicos que catabólicas. 

Na tentativa de diferenciar a Síndrome de Cushing da síndrome metabólica se tomarmos em consideração apenas o anabolismo do tecido gorduroso (obesidade central) não teríamos muito sucesso, já que o aumento da gordura é um achado comum às duas situações. O tecido ósseo, muscular, cutâneo e vascular podem dar melhores pistas. Para saber mais sobre a diferença de anabolismo e catabolismo, tem um post sobre o tema.

Impacto do hipercortisolismo nos ossos

Sabemos que o tecido ósseo está sempre em processo de formação e de reabsorção, fenômeno esse chamado de remodelação óssea.

Pelo aumento do estímulo mecânico do peso corporal, pacientes obesos raramente têm osteoporose. Na osteoporose decorrente do excesso de cortisol haveria predominantemente a inibição na formação (efeito antianabólico).

Uma densitometria óssea com osteoporose ou baixa massa óssea (índice Z < -2) em um paciente com obesidade por excesso de cortisol é 11 vezes mais comum que em um paciente obeso com osteoporose sem hipercortisolismo.

Exemplo de laudo de densitometria ósseae descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduos de mesma faixa etária e sexo. No exemplo axima, a densitometria é normal.
Figura 2. Exemplo de densitometria e descrição do índice T e Z. O índice Z compara a densidade mineral óssea de um paciente comparado ao indivíduo de mesma faixa etária e sexo. No exemplo acima, a densitometria é normal.

Efeitos do hipercortisolismo em outros tecidos

Não só na osteoporose, mas também nos achados de fraqueza muscular, pele fina e equimoses espontâneas o efeito antianabólico causado pelo excesso de cortisol seria preponderante.

Em relação à pele, uma espessura menor que 2mm é 116 vezes mais encontrada em pacientes com Síndrome de Cushing em relação aos pacientes obesos com síndrome metabólica, mas sem Síndrome de Cushing. 

Figura 3.. Avaliação da espessura da pele. No exemplo acima, a espessura da pele foi de 3mm.

Considerando uma prevalência estimada de síndrome de Cushing de 0,2%, se encontrarmos em um paciente obeso com síndrome metabólica, osteoporose, pele fina e equimose, temos uma chance de 95% desse paciente ter síndrome de Cushing. Um teste positivo de cortisol livre urinário nesse paciente elevaria essa probabilidade a 100%.

Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos: osteoporose, pele fina, fraquza muscular proximal, estrias violáceas e pletora facial
Figura 4. Quadro clínico da Síndrome de Cushing e seus achados mais específicos (em verde)

Diagnóstico laboratorial da Síndrome de Cushing

Para iniciar essa conversa, é importante frisar que não existe um teste laboratorial perfeito para todas as situações em que há suspeita de Síndrome de Cushing. Cada um dos testes utilizados tem suas limitações dependendo do perfil de cada paciente. Mais de uma amostra do mesmo tipo de exame, ou ainda associação de exames diferentes são necessários para confirmar o hipercortisolismo. 

Outro ponto FUNDAMENTAL é que o cortisol medido no sangue na manhã sem preparo prévio NÃO deve ser utilizado para diagnóstico de excesso de cortisol. Desculpem-me as letras garrafais, é que a solicitação desse exame é extremamente comum e fora de contexto clínico, ou seja, de forma indiscriminada e inapropriada.

Os diversos testes e demais exames utilizados para o diagnóstico de Síndrome de Cushing está no próximo post.

Referências

1. The Diagnosis of Cushing’s Syndrome: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. doi: 10.1210/jc.2008-01

2. Loriaux, D. L. Diagnosis and Differential Diagnosis of Cushing’s Syndrome. N Engl J Med. 2017. doi: 10.1056/NEJMc1705984

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