Hipotireoidismo subclínico: TSH alto e T4 livre normal

O que é o hipotireoidismo subclínico?

Quem não se sente desconfortável diante de um exame anormal, seja médico ou paciente? Isso acontece com frequência nos casos de hipotireoidismo subclínico.

Quando o assunto é tireoide, é extremamente comum recebermos pacientes que trazem exames mostrando um aumento discreto do hormônio tireoestimulante (TSH) e hormônios tireoidianos normais (entenda-se aqui dosagem do T4 livre). Em outras palavras, o hipotireoidismo subclínico é caracterizado pelo TSH alto e T4 livre normal.

Daí nos perguntamos: tratar ou não tratar o paciente (não o exame)? Eis uma questão controversa.

Diagnóstico do hipotireoidismo subclínico

O hipotireoidismo subclínico é um diagnóstico puramente laboratorial. De forma semelhante ao hipertireoidismo subclínico, assunto do último post, o hipotireoidismo subclínico trata-se também de uma disfunção tireoidiana leve e nem todos os pacientes se beneficiam do tratamento.

A maioria das diretrizes não recomenda a realização de exame de ultrassonografia de forma rotineira para a avaliação do hipotireoidismo subclínico. Na prática, a ultrassonografia é solicitada na investigação das doenças da tireoide. Achados de alteração na textura e ecogenicidade (brilho) da glândula ao ultrassom pode indicar doença autoimune da tireoide, como tireoidite de Hashimoto. O critério ultrassonográfico é utilizado em alguns textos para indicar a reposição com o hormônio tireoidiano (levotiroxina)

É importante salientar que a discussão que trazemos nesse post não contempla os casos de hipotireoidismo subclínico na gravidez e na infância.

Sintomas do hipotireoidismo subclínico

Os sintomas do hipotireoidismo subclínico estão presentes em uma minoria dos casos e são semelhantes, embora mais leves, aos relatados por pacientes com hipotireoidismo clínico. São eles:

  • depressão
  • redução da qualidade de vida
  • disfunção cognitiva
  • déficit de memória
  • fadiga
  • ganho de peso
  • fraqueza muscular
  • intolerância ao frio
  • constipação

São necessários mais exames antes de tratar o hipotireoidismo subclínico

Para descartar as alterações hormonais transitórias, é indicado repetir as dosagens de TSH e T4 livre juntamente com os anticorpos antitireoidianos em um intervalo de 2 a 3 meses. Essa orientação muitas vezes é ignorada e o tratamento de reposição de hormonal é instituído imediatamente diante do primeiro exame anormal. Os exames solicitados com maior intervalo de tempo permitem que outras situações que cursam com aumento do TSH sejam excluídas. Exemplos na tabela 1.

Causas de aumento transitório com TSH não relacionada à disfunção leve da tireoide
Causas de aumento transitório de TSH com T4 livre normal

– recuperação de enfermidade não-tireoidiana
– fase de recuperação de vários tipos de tireoidite
– medicação, tais como amiodarona e lítio
Causas de aumento persistente de TSH com T4 livre normal

– adaptação fisiológica ao envelhecimento
– interferências na mensuração dos hormônios
– obesidade
– insuficiência adrenal (muito raro)
– resistência ao hormônio tireoestimulante (TSH) ou liberador do hormônio tireoestimulante (TRH) (extremamente raro)
Tabela 1. Causas de aumento transitório e persistente do TSH

O que pode acontecer se o hipotireoidismo subclínico não for tratado?

O risco de progressão para o hipotireoidismo clínico (TSH alto associado a T4 livre baixo) é da ordem de 2 a 6% ao ano, sendo maior entre mulheres, pessoas com altos níveis de anticorpos antitireoidianos e os que têm níveis de T4 livre próximo ao limite inferior da referência laboratorial.

Ao longo das últimas décadas, estudos observacionais mostraram uma associação do hipotireoidismo subclínico com alguns desfechos, como por exemplo, a progressão para o hipotireoidismo clínico, sintomas de hipotireoidismo e aumento de marcadores em exames complementares que aumentam o risco de doença cardiovascular.

Os marcadores da doença cardiovascular modificados no hipotireoidismo subclínico podem ser: elevação do colesterol total e LDL, aumento da espessura da camada íntima-média da artéria carótida e redução da função cardíaca.

A doença coronariana, insuficiência cardíaca congestiva, o derrame e o declínio cognitivo foram também associados ao hipotireoidismo subclínico em alguns estudos.

O tratamento com levotiroxina reduz de forma moderada o colesterol total e LDL, mas não está claro se essa intervenção resulta na redução dos eventos cardiovasculares. De forma semelhante, ainda há poucos estudos de grau de evidência científica superior demonstrando que o tratamento do hipotireoidismo subclínico pode reduzir o risco destas complicações, principalmente para as doenças cardiovasculares e para o declínio cognitivo.

A associação desses desfechos é mais forte no hipotireoidismo subclínico mais grave, conforme descrito na tabela 2.

Associação do hipotireoidismo subclínico e desfechos clínicos
Tabela 2. Associação do hipotireoidismo subclínico e desfechos clínicos

Hipotireoidismo subclínico e obesidade

Dosagens de TSH elevadas são associadas ao aumento do índice de massa corporal (IMC) e da circunferência abdominal. Entretanto, a perda de peso tipicamente provoca redução do TSH, o que sugere que o hipotireoidismo subclínico não é a causa do ganho de peso. As doenças tireoidianas podem causar variações no peso, mas a contribuição pode ser bastante variável e modesta.

Tratamento do hipotireoidismo subclínico

Há grandes controvérsias nesse ponto. Existem diferenças de recomendações entre as diretrizes de europeia e americana quanto à recomendação de tratamento de pessoas mais idosas.

O departamento de tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) considera ainda diferentes condutas médicas conforme cada faixa etária. Um ponto em comum para todas as idades é a recomendação de tratamento em todos os pacientes com TSH ≥ 10 mU/L, conforme tabela abaixo.

ParâmetroTSH >4,5 e <10mUI/LTSH ≥ 10mUI/L
Idade ≤ 65 anos
– sem comorbidadesnãosim
– risco de progressão para hipotireoidismo clínicoconsiderar tratarsim
– doença cardiovascular preexistente
ou risco cardiovascular aumentado
considerar tratar
se TSH ≥ 7mU/L
sim
– sintomas de hipotireoidismo considerar teste
terapêutico
sim
Idade > 65 anos não sim
Tabela 3. Recomendações para o tratamento do hipotireoidismo subclínico de acordo com a SBEM

Quando o TSH está acima do valor de referência e <10 mUI/L, a decisão de tratar vai depender da presença de sintomas de hipotireoidismo, níveis de anti-TPO elevado, presença de bócio, de doença cardiovascular, de insuficiência cardíaca ou fatores de risco cardiovasculares.

É bastante comum considerar os sintomas de hipotireoidismo para o início da terapia. Cansaço, fadiga e ganho de peso (que são queixas super comuns no consultório, também resultante do estilo de vida inadequado) são motivos para começar a administração da levotiroxina.

Um teste terapêutico na medicina é feito utilizando uma medicação em que se há dúvida do seu benefício para ver se há melhora do quadro clínico geral do paciente. No caso do hipotireoidismo, o teste terapêutico consiste na administração da levotiroxina e reavaliação dos sintomas após um período de 3 a 6 meses de tratamento. A reposição hormonal deve ser mantida apenas se houver melhora dos sintomas. Do contrário, deve-se suspender o tratamento.

Hipotireoidismo subclínico em idosos

O aumento do TSH com a idade parece ser uma adaptação ao envelhecimento. Por esse motivo, tem se sugerido que elevações de TSH modestas não sejam tratadas em pacientes acima dos 70 anos, como valores até 7,0 mUI/L em pessoas que tenham vivido em regiões com suficiência de iodo. O ideal seria que os níveis de TSH tivessem diversos valores de referência de acordo com as várias faixas etárias.

Esse texto é baseado em grande parte em um artigo mais recente que considerou, preferencialmente, as orientações europeias, que são mais conservadoras em relação ao tratamento para maiores de 70 anos. Nessa diretriz, o tratamento seria apenas recomendado na presença de sintomas ou fatores de risco cardiovascular mesmo com dosagens de TSH ≥ 10 mUI/L. Vale a pena relembrar que o T4 livre deve estar dentro da faixa de normalidade.

Considerações finais

Ainda são necessários estudos de melhor qualidade científica para que se “bata o martelo” na eleição do perfil de paciente com hipotireoidismo subclínico que se beneficia do tratamento. Desta forma, ficamos com a possibilidade de seguir uma ou outra diretriz, mas sempre usando o bom senso na hora da decisão de tratar ou não. Tratar demasiadamente é perigoso, já que sobretratamento tem também seus riscos. Primum non nocere!

Referências

  1. PEETERS, R. P. Subclinical Hypothyroidism. N Engl J Med, v. 377, n. 14, p. 1404, 10 2017. ISSN 1533-4406.
  2. SGARBI, J. A.  et al. The Brazilian consensus for the clinical approach and treatment of subclinical hypothyroidism in adults: recommendations of the thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arq Bras Endocrinol Metabol, v. 57, n. 3, p. 166-83, Apr 2013. ISSN 1677-9487.

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Hipertireoidismo Subclínico: TSH baixo e T4 livre normal

Disfunções subclínicas da tireoide e hipertireoidismo subclínico

As disfunções hormonais muito leves são aquelas que não atingem os critérios diagnósticos da forma completa são denominadas formas subclínicas. Elas podem ser assintomáticas e evoluir ou não para a formas clínicas, quando o quadro clínico da disfunção é mais evidente e a vantagem em se tratar é evidente.

Nas formas clínicas das doenças da tireoide, os critérios diagnósticos e indicação de tratamento são bem estabelecidos, mas já não são assim tão claros nas disfunções subclínicas.

Neste texto, o enfoque será sobre o hipertireoidismo subclínico, que é caracterizado por TSH baixo e T4 livre normal.

Sinais e sintomas das doenças tireoidianas
Figura 1. Sinais e sintomas das doenças tireoidianas na forma clínica

A decisão de tratar o hipertireoidismo subclínico vem sendo revista nos últimos anos. Não existem estudos clínicos bem desenhados para indicar com segurança quais os pacientes que se beneficiam de tratamento quando a doença tireoidiana é muito leve.

As recomendações das grandes organizações profissionais são baseadas em estudos não randomizados ou opinião de especialistas. Esses dois tipos de estudo têm menor valor na escala de evidência científica e a recomendação que deriva deles é fraca.

Complicações do hipertireoidismo subclínico

O hipertireoidismo subclínico pode estar associado com uma série de problemas potenciais, principalmente em pessoas acima dos 65 anos e mulheres na pós-menopausa:

  • Doenças cardiovasculares (fibrilação arterial, insuficiência cardíaca, doença coronariana)
  • Perda óssea e fraturas
  • Demência

Nem todos os pacientes precisam ser tratados. Estudos observaram que o risco desenvolvimento dessas complicações também a progressão para a forma completa da doença é maior nos pacientes que apresentam o TSH menor que 0,1mU/L em qualquer idade quando comparado aos pacientes que tem os valores de TSH entre 0,1 e 0,4 um/L ou em pessoas de mais idade. Dessa forma, o artigo de revisão utilizado aqui como referência resumiu as recomendações sobre o tratamento que serão vistas mais adiante.

Causas do hipertireoidismo subclínico

O hipertireoidismo subclínico pode ser causado por doenças da tireoide (endógeno) – as mesmas que levam à forma clínica – ou pela ingestão maiores quantidades de hormônio tireoidianos (exógeno).

O hipertireoidismo subclínico exógeno é muito mais comum que o endógeno e é resultado do sobretratamento de forma inadvertida ou também intencional para suprimir os níveis de TSH em alguns casos de seguimento de câncer de tireoide. Ainda pode ser causada de forma iatrogênica (que causam mais dano que benefício) pela ingestão de hormônio tireoidiano contido em fórmulas magistrais para emagrecimento.

Antes de dar o diagnóstico de hipertireoidismo subclínico, outras causas de redução de TSH devem ser afastadas:

Diagnóstico e classificação do hipertireoidismo subclínico

Pacientes mais idosos podem ser assintomáticos. Já os pacientes mais jovens podem ter sintomas de hipertiroidismo como palpitações e tremores além de achados compatíveis com doença tireoidiana como aumento da glândula (bócio) e protusão dos olhos (exoftalmo).

O diagnóstico laboratorial é realizado com a dosagem de TSH, T4 e T3 livres.

Hipertireoidismo subclínico leve

  • TSH entre o limite inferior do método e ≥ 0,1mU/L
  • T3 e T4 livres normais

Hipertiroidismo subclínico grave

  • TSH < 0,1mU/L
  • T3 e T4 livres normais

É aconselhável repetir os exames hormonais em três meses, já que os valores anormais podem ser transitórios em até metade dos pacientes e no diagnóstico diferencial das tireoidites. Se confirmados, exames adicionais para determinar a causa, como anticorpos antitireoidianos e exames de imagem devem ser solicitados. As doenças mais comuns são Doença de Graves e presença de nódulos de tiroide funcionantes.

Avaliação das complicações

Além dos exames para avaliar a tireoide, outros para avaliar o risco associado de doença cardiovascular, tais como eletrocardiograma, holter, ecocardiograma em pacientes com sintomas, especialmente os acima de 65 anos.

Em pacientes que já têm o diagnóstico de fibrilação atrial, deve-se avaliar o risco de tromboembolismo. Uma das formas é o cálculo do escore CHADDS – VASc AVC  para definir necessidade de terapia anticoagulante.

A saúde óssea deve ser avaliada através da densitometria em:

  • Mulheres na pós-menopausa
  • Homens > 65 anos
  • Pacientes com fatores de risco para baixa massa óssea

Tratamento do hipertireoidismo subclínico

Como já comentado, nem todos os casos precisam de tratamento. De acordo com o nível de TSH, idade e fatores de risco, há maior ou menor recomendação de tratar.

A figura abaixo resume algumas recomendações para o tratamento do hipertireoidismo subclínico:

  • nos pacientes com mais de 65 anos e TSH menor que 0,1mU/L , a recomendação é tratar sempre;
  • nos pacientes com mais de 65 anos e TSH entre 0,1mU/L e o limite inferior do método e ainda nos pacientes mais jovens com TSH <0,1mU/L, a recomendação de tratar é menos forte (possivelmente tratar);
  • nos pacientes com idade inferior a 65 anos e com TSH entre 0,1mU/L e o limite inferior do método, a recomendação é observar
tratamento do hipertireoidismo subclínico
Figura 2. Diagrama para decisão de tratamento no hipertireoidismo subclínico conforme nível de TSH e idade.

A conduta vai também depender da causa do hipertireoidismo subclínico.

Hipertireoidismo subclínico exógeno

A fonte do hormônio é externa. Pode acontecer em pacientes com hipotireoidismo em reposição excessiva da levotiroxina. Se for observado TSH baixo, a dose do hormônio deve ser reduzida. O mesmo deve ser feito em pacientes com câncer de tireoide de baixo risco sem evidência de doença. Em pacientes com câncer de tiroide que ainda tenham evidência da doença, os benefícios da supressão do TSH para o controle da doença devem ser sempre pesados em relação ao risco do excesso de hormônio (tireotoxicose).

Fórmulas para emagrecimento que contenham hormônio tireoidiano devem ser interrompidas. A prescrição de hormônios tireoidianos em fórmulas magistrais para esse fim não constitui uma boa prática médica. Inclusive, esse tipo “tratamento” nem é citado nos textos científicos, mas é muito realizado em nosso meio. 

Hipertireoidismo subclínico endógeno

A fonte do excesso hormonal interna, da tireoide ou de tumores (raro). Os medicamentos que diminuem a produção excessiva de hormônio podem ser utilizados, como o tiamazol e o propiltiouracil, ou ainda a radioiodoterapia.

A cirurgia pode ser aventada em casos de bócios volumosos.

A terapia antitireoidiana pode ser associada a medicamentos que controlam os sintomas, tais como betabloqueadores, que controlam os sintomas de palpitação e tremores das extremidades.

Considerações finais

Diante de diversas possibilidades de tratamento, a avaliação individual, considerando as preferências dos pacientes, é fundamental. Finalizando, espero que essa publicação tenha sido esclarecedora, mas se restou alguma dúvida, não deixe de perguntar ao seu médico.

Referência

HADDAD, J. D. Subclinical Hyperthyroidism. N Engl J Med, v. 379, n. 15, p. 1484-5, 10 2018. ISSN 1533-4406.

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Faces do diabetes

Minha participação no Nosso Programa da RIT TV,quando abordei os diferentes tipos de diabetes, como Diabetes Duplo, LADA fatores que contribuiem para o desenvolvimento da doença e como obesidade, e a visão do endocrinologista em relação aos diferentes tipos de diabetes.

Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá