Tireoidites: diferentes tipos e tratamentos

O que é uma tireoidite ou tiroidite?

Tireoidites ou tiroidites é o termo geral utilizado para dar nome ao grupo de doenças que cursam com “inflamação da tireoide”.

As tireoidites podem se apresentar de diferentes maneiras. Por exemplo, a tireoidite de Hashimoto é a causa mais comum de hipotiroidismo; já a tireoidite pós-parto pode surgir com um quadro de tireotoxicose (altos níveis de hormônios tireoidianos no sangue), seguido por hipotireoidismo  temporário; por outro lado, a tireoidite subaguda é o nome que se dá para a inflamação com sintomas locais, sendo a principal causa de dor na glândula. A tireoidite pós-parto é semelhante à tireoidite subaguda na sua evolução clínica.

Quadros de tireoidite podem se manifestar também em pacientes em uso de certos medicamentos, tais como interferon, lítio e amiodarona.

Detalhes sobre as diversas formas de tireoidite serão comentadas nesse post. 

Quais são os sintomas das tireoidites?

As tireoidites podem se apresentar com quadros clínicos diversos, dependendo da rapidez em que ocorreu a inflamação da glândula.  

Quando a destruição da glândula é lenta e progressiva, por exemplo, na tireoidite de Hashimoto, o quadro inicial é frequentemente o de hipotireoidismo, caracterizado por cansaço, ganho de peso, queda de cabelo, unhas quebradiças, constipação, intolerância ao frio, entre outros.

Se a destruição da tireoide é mais rápida, como acontece na tireoidite subaguda, indolor e pós-parto, pode haver sintomas decorrentes da elevação dos níveis de hormônios tireoidianos circulantes (chamamos de tireotoxicose a “intoxicação” por hormônios que acontece nestes casos). Esses sintomas podem ser ansiedade, insônia, palpitação, perda de peso, tremores, fadiga etc. À medida que a inflamação progride, há queda dos níveis hormonais e surgimento do hipotiroidismo.

As tireoidites são comumente de causa autoimune. Anticorpos atacam a glândula e a levam à sua própria destruição. Não se sabe bem por que há produção desses autoanticorpos, mas é comum haver uma concentração de casos na mesma família e em mulheres o que pode apontar para causas genéticas..

Como as tireoidites são diagnosticadas?

O diagnóstico é feito basicamente pela história clínica e exames laboratoriais de função tireoidiana (TSH e T4 livre) e dosagem de anticorpos. Em alguns casos, exames complementares para avaliar processo inflamatório ou infeccioso são úteis (vide quadro comparativo).

Como já foi comentado anteriormente, a tireotoxicose é resultante de (1) aumento dos níveis circulantes de hormônio tireoidiano por aumento da produção de hormônio, ao qual damos o nome de hipertireoidismo ou (2) da destruição da glândula – que causa liberação do hormônio pré-estocado nas suas células.

Para diferenciar essas duas situações – tireotoxicose da tireoidite da tireotoxicose do hipertireoidismo –  o método diagnóstico utilizado é a cintilografia de tiroide marcada com iodo radioativo (I131 ou I123 ou tecnécio). Quando há hiperfuncionamento da tireoide (hipertireoidismo), há paralelamente aumento da captação desses marcadores pela glândula e aparecimento da imagem da tireoide de forma mais intensa que o normal de forma difusa ou localizada. Ao contrário, na destruição da glândula (tireoidite), a captação de iodo radioativo está reduzida (Fig1).

cintilografia_tireoide

Fig 1. Cintilografias de tiroide com captação normal, aumentada (Doença de Graves) ou diminuída (tireoidite)

A ultrassonografia é um exame comumente solicitado quando há disfunção tireoidiana. Não deve ser solicitada como rotina, como em programas de check-up, por exemplo. O achado mais característico do ultrassom nas tireoidites é a alteração da ecogenicidade do parênquima (tecido) da tireoide. A ecogenicidade é característica do tecido de deixar passar com maior ou menor facilidade das ondas do ultrassom, resultando em formação dm imagem hipoecogênica (mais escura) e hiperecogênica (mais clara), respectivamente.

Nas tireoidites (Fig 3 e 4), o tecido tireoidiano (parênquima) aparece hipoecogênico, em outras palavras, mais escuro que o normal (Fig 2) e com áreas de diferentes texturas (textura heterogênea). Não é raro que a alteração na textura da glândula simule nódulos (“pseudonódulos ou áreas pseudonodulares”) com nódulos reais, correndo-se os riscos de indicar punção aspirativa por agulha fina desses nódulos inexistentes e realizar um sobretratamento. Áreas de tireoidite puncionadas são classificadas na citologia com pertencente à categoria Bethesda II.

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Fig 2. Tireoide normal
tiroreoidite
Fig 3. Tireoidite com hipoecogênicidade e alteração textural difusa
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Fig 4. Tireoidite com áreas peseudonoudulares, simulando nódulos hiperecogênicos

Qual a evolução clínica da tiroidite?

Tireoidite de Hashimoto – os pacientes apresentam hipotireoidismo ao diagnóstico.

Tireoidite indolor ou pós-parto – essas doenças são semelhantes e apresentam um quadro de tireotoxicose seguida por hipotireoidismo. A única diferença é que a tireoidite pós-parto aparece após uma gravidez; e a tireoidite indolor se manifesta em homens e em mulheres que não estiveram grávidas recentemente. Nem todos os pacientes demonstram evidência das duas fases (tireotoxicose seguido por hipotireoidismo):

  • 1/3 dos pacientes manifestam as duas fases;
  • 1/3 dos pacientes têm apenas a fase de tireotoxicose;
  • 1/3 dos pacientes tem apenas a fase de hipotireoidismo.

A fase tireotóxica dura de 1 a 3 meses, e a fase de hipotireoidismo ocorre de 1 a 3 meses após esta, podendo durar de 9 a 12 meses. A maioria dos pacientes (80%) terão os níveis hormonais normalizados no intervalo de 12 a 18 meses após o início dos sintomas (Fig 5).

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Fig 5. Possíveis fases de uma tireoidite: fase de tireotoxicose, hipotiroidismo e recuperação. A fase eutireoidea é  transitória com níveis normais de hormônios tiroidianos

Tireoidite subaguda – segue as mesmas fases da tireoidite indolor e pós-parto, mas é acompanhada por quadro de dor em região anterior do pescoço. Entretanto, nem todos os pacientes com dor em tireoide terão necessariamente tireotoxicose. Cerca de 95% dos pacientes tem resolução das anormalidades dos hormônios tireoidianos no intervalo de 12 a 18 meses.

Tireoidite induzida por drogas e radiação – tireotoxicose e hipotireoidismo podem ser vistos nesse tipo de tireoidite. A tireotoxicose é de curta duração. O hipotireoidismo geralmente é resolvido após a suspensão da droga. Um exemplo clássico é o lítio, tema abordado no post anterior. O hipotireoidismo relacionado à radiação é geralmente permanente. A amiodarona é também uma das drogas que comumente causam tireoidite.

Tireoidite aguda/infecciosa – os sintomas podem incluir dor em região de tireoide e outros gerais, compatíveis com infecção (como, por exemplo, febre, mal estar geral, perda do apetite). Os níveis de hormônios tiroidianos geralmente permanecem normais. A ultrassonografia pode evidenciar abscesso. O tratamento envolve uso de antibióticos e drenagem de abscesso, quando necessário.

Como é feito o tratamento das tireoidites?

O tratamento depende do tipo de tireoidite e da apresentação clínica (se na fase de excesso ou falta de hormônio).

Tireotoxicose (excesso de hormônios circulantes)– os betabloqueadores (como, por exemplo, o propranolol) para controle da frequência cardíaca e tremores. Com a melhora dos sintomas, a dose da medicação pode ser diminuída e posteriormente suspensa. Medicações antitireoidianas (para reduzir a produção hormonal) não são utilizadas, já que não há aumento do funcionamento da glândula, como por exemplo, na Doença de Graves.

Hipotiroidismo (deficiência do hormônio)– O tratamento indicado é a reposição com hormônio tireoidiano para tireoidite de Hashimoto. Para a fase de hipotireoidismo da tireoidite subaguda, indolor e pós-parto, a reposição com hormônio tireoidiano pode ser indicada se houver sintomas. Se o hipotireoidismo é leve e o paciente apresenta poucos ou nenhum sintoma, o tratamento pode ser desnecessário. Para esses últimos tipos de tireoidite, o tratamento deve ser continuado por um período de aproximadamente 6 a 12 meses e reduzido posteriormente, conforme monitorização dos níveis hormonais no sangue.

Dor cervical – pode ser tratada com anti-inflamatórios não hormonais. Em casos de dor mais intensa, o uso de prednisona pode ser indicado.

RESUMO DAS TIREOIDITES

Tireoidite de Hashimoto (linfocítica)

Causa

Autoimune, anticorpos antitireoidianos

Quadro clínico

Hipotireoidismo, raramente tireotoxicose transitória

Diagnóstico

Testes de função tireoidiana e dosagem de anticorpos

Duração e resolução

Hipotireoidismo é usualmente permanente

Tireoidite Subaguda (de Quervain, granulomantosa, de células gigantes)

Causa

Possivelmente viral

Quadro clínico

Tireoide dolorosa, tireotoxicose seguida por hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tireoidiana, velocidade de sedimentação de hemácias, cintilografia de tiroide

Duração e resolução

Retorno a função tiroidiana normal em 12 a 18 meses. 5% evoluem para hipotireoidismo permanente

Tireoidite silente, silenciosa ou indolor

Causa

Autoimune, anticorpos antitiroidianos

Quadro clínico

Tireotoxicose seguido por hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tiroidiana e dosagem de anticorpos, cintilografia de tiroide

Duração e resolução

Retorno a função tiroidiana normal em 12 a 18meses. 20% evoluem para hipotireoidismo permanente

Tireoidite pós-parto

Causa

Autoimune, anticorpos antitiroidianos

Quadro clínico

Tireotoxicose seguido por hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tireoidiana e dosagem de anticorpos, cintilografia de tireoide (contraindicada na amamentação)

Duração e resolução

Retorno a função tiroidiana normal em 12 a 18 meses. 20% evoluem para hipotireoidismo permanente

Induzida por medicamentos

Causa

Amiodarona, lítio, interferon, citoquinas

Quadro clínico

Tireotoxicose ou hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tiroidiana e dosagem de anticorpos

Duração e resolução

Contínua à medida que a droga é usada

Induzida por radiação

Causa

Após tratamento com iodo radioativo para hipertireoidismo ou radiação externa para certos cânceres

Quadro clínico

Ocasionalmente tireotoxicose, mais frequente hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tireoidiana

Duração e resolução

Tireotoxicose é transitória, hipotireoidismo é usualmente permanente

Tireoidite aguda

Causa

Principalmente causada por bactéria,

Quadro clínico

Ocasionalmente tireotoxicose, mais frequente hipotireoidismo

Diagnóstico

Testes de função tireoidiana

Duração e resolução

Tireotoxicose é transitória, hipotireoidismo é usualmente permanente

Em resumo:

  • As tireoidites são causa comum de hipotireoidismo, principalmente a Tireoidite de Hashimoto;
  • As tireoidites subaguda, silenciosa e pós-parto cursam com recuperação da função tiroidiana na maioria das vezes;
  • A cintilografia de tireoide pode diferenciar a tireotoxicose por destruição da glândula (tireoidite) do hipertireoidismo (por exemplo, Doença de Graves ou nódulo tóxico);
  • A ultrassonografia pode evidenciar áreas que simulam nódulos (áreas pseudonodulares);
  • O tratamento, quando necessário, é feito para controle dos sintomas de tireotoxicose seguido ou de reposição dos hormônios tiroidianos, quando necessário.

Referências:

  1. Página da American Thyroid Association sobre tiroidite (em inglês): https://www.thyroid.org/thyroiditis/
  2. Shrestha RT, Hennessey J. Acute and Subacute, and Riedel’s Thyroiditis. [Updated 2015 Dec 8]. In: Feingold KR, Anawalt B, Boyce A, et al., editors. Endotext [Internet]. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; 2000-. Capítulo de livro (em inglês).  Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK285553/

O Vírus e o Zepelim

Foi necessário que um vírus entrasse dentro das nossas fronteiras para que víssemos a importância do Sistema Único de Saúde e da Universidade Pública.

A Universidade Pública e o SUS

Sei que sou uma privilegiada em ter tido a oportunidade de estudar em uma Universidade Pública de Pernambuco, a UFPE. Foi nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) de Recife que ocorreram os meus primeiros contatos com pacientes de enfermarias e ambulatórios.

Naquele tempo, não existiam tantas universidades como agora, principalmente universidade particulares de medicina. A minha graduação foi em 1998. O aprendizado continuou em São Paulo nas residências dentro de outro serviço do SUS, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Depois das residências e paralelamente à minha pós-graduação na FMUSP, estudando complicações do diabetes em pacientes do HC, eu fui médica concursada desse e de outro hospital público. Bons tempos aqueles em que existiam concursos…

Transformação das relações de trabalho

Ainda por volta de 2004, ao término da residência médica já se falava na necessidade de que todos profissionais de saúde terem uma pessoa jurídica, seja para receber o pagamento dos serviços prestados na forma de plantões em hospitais privados ou de consultas médicas de convênios, entre outras atividades.

Os “prestadores” médicos são remunerados através das suas pessoas jurídicas e o “salário” passa a ser a “prestação de serviço” mediante emissão de nota fiscal. Muitos fazem seguros profissionais para manter uma renda mínima caso não consigam trabalhar. Se não trabalham, não ganham. Ainda que concursada, mesmo não necessitando de CNPJ para receber a maior parte dos meus rendimentos, eu não achava prudente ficar de fora dessa tendência e entrei numa sociedade médica.

Saúde suplementar

Nem todo tempo de trabalho como médica foi no serviço público, experimentei atendimento em clínicas e hospitais privados. Entendo um pouco como é a dinâmica das relações pessoais e financeiras.

Tenho uma visão que as relações entre os três atores envolvidos na saúde suplementar (paciente, médico e plano de saúde) são permeadas por insatisfações: de um lado, o paciente ou “cliente” que paga uma mensalidade cara para o plano de saúde e quer usufruir o máximo da consulta com o médico com frases: ˜peça tudo que eu tenho direito, doutora!” . Do outro lado da mesa do consutório, está o médico ou “prestador” que é mal remunerado pelo intermediário (plano de saúde) e com atraso de pelo menos dois meses entre realização da consulta e o seu pagamento.

Comumente, os prestadores de serviço (leia-se médicos) trabalham com maior número de consultas e procedimentos para obter uma remuneração que lhe pareça razoável. Entendo, em parte, as demandas de pacientes e médicos nessa relação intermediada pelos planos de saúde.

Passagem pelo mundo corporativo

“Mas será que o mundo corporativo não é melhor?˜ Eu tinha essa pergunta na cabeça. Uma oportunidade surgiu para eu ir trabalhar em uma empresa do ramo farmacêutico em 2012, e eu conto um pouco dessa história em um podcast. A experiencia foi muito interessante para eu ver que a “grama do vizinho é mais verde” não se aplicava ao mundo corporativo, principalmente se a pessoa tem um cargo gerencial.

A meritocracia, a competitividade, a prontidão do empregado para as estratégias da empresa comprometiam as relações entre os colegas e a disponibiliade de tempo para vida pessoal. A carga horária de trabalho era estendida além do que aparentemente fora contratado (na minha impressão). Não era raro que o trabalho se estendesse pela noite, pelos fins de semana e feriados. Sem dúvida, foi uma experiência interessante de grandes aprendizados e que não me arrependo de ter passado por ela.

De volta às origens

Em 2015, quando eu decidi sair da empresa que trabalhava, adivinhem onde voltei a trabalhar? A resposta é: no SUS! Só que não era mais o SUS que havia deixado há três anos antes por ocasião da minha entrada no mundo corporativo.

Ha cinco anos atrás, eu não ouvia mais notícias de concursos médicos para minha especialidade e nem para outras áreas. No lugar de concursos, havia contratações pelas Organizações Sociais (OS) para trabalhar em serviços médicos da Prefeitura e do Estado de São Paulo. Confesso que eu nem sabia bem o que era uma OS… Pelo menos, que bom que eu havia garantido pelo menos um trabalho com carteira assinada! Eu sempre achei e ainda acho bom.

Na verdade, a contratação por CLT está ficando mais escassa para trabalhar no serviço público à medida que o tempo passa. Não tinha ciência da “pejotização” e privatização dos equipamentos públicos de saúde em curso há já algum tempo.

Da minha formação e especialização para cá, vários médicos foram sendo formados por universidades privadas e o “exército de reserva” na área de medicina está cada vez maior. Fica mais fácil repor um profissional médico, principalmente se ele não tem especialização.

Muitos colegas se sujeitam às condições insalubres e assédios morais no trabalho para não perder os seus empregos formais ainda e ser prontamente substituidos. Se desistirem dos empregos formais, ainda correm o risco de “saltar da frigideira para o fogo” como empreendedores, já que muitos médicos não têm o dom de gerir uma empresa.

Alternativas ao SUS

Sim, há muitos problemas no SUS. Filas para consultas, para exames, dificuldade para diversos tratamentos e medicações. Eu não quero nem tenho condições de analisar em profundidade as causas desse problema, mas certamente passa pela má gestão dos recursos financeiros. Quais são as alternativas ao SUS?

A olhos vistos, o SUS estava sendo sucateado e planos populares vinham surgindo como uma alternativa aos atendimentos gratuitos pelo SUS para aquelas pessoas que não tinham plano de saúde.

Os planos populares atendem até certo ponto às necessidades dos pacientes. Consultas e exames mais baratos podem ser pagos por uma parcela da população para os planos populares num primeiro momento, mas esses mesmos pacientes terminam voltando ao SUS quando há indicação de de exames de maior complexidade, tratamentos de alto custo, internações e cirurgias.

Na minha visão, o sucateamento da saúde pública reflete a escassez de investimentos nesse setor. Na universidade pública, o cenário não tem sido diferente.

O Vírus e o Zepelim

Agora, em 2020, na crise do coronavirus no Brasil, o SUS parece ressurgir como a personagem Geni, da canção Geni e o Zepelin, diante da ameaça do capitão para toda uma determinada população.

Depois de tanta pedra atirada no SUS, ele surge como o salvador da pátria amada, juntamente com os centros de pesquisa públicos. Ambos, SUS e universidades públicas são convocados, respectivamente, para minimizar mortes pelo covid-19 através da assistência à população e desenvolvimento de uma vacina contra esse vírus em menor tempo possível.

Não podemos esquecer que na universidade pública foi dado o primeiro passo na batalha contra o coronavírus, com o sequenciamento do código genético viral por cientistas mulheres. Quanto orgulho delas!

O SUS pode nos salvar e a chegada do vírus indesejado pode redimir dos erros feitos até agora contra a saúde, demais serviços públicos e políticas sociais. A pandemia do covid-19 veio colocar o modelo econômico atual em xeque e expor a nossa fragilidade humana.

Só espero que o final seja diferente para o SUS se comparado ao fim da Geni da famosa canção. Muito pelo contrário, espero que o SUS saia dessa crise muito fortalecido, reconhecido, e que Governo e população acordem para o risco do Estado mínimo e do limite de gastos para área da saúde.

Por que tantas pessoas têm nódulo na tireoide?

Um desconforto na garganta ou no pescoço pode ser motivo para que muitos médicos peçam um exame de ultrassonografia de tireoide. Mesmo sem que o paciente tenha queixas, é também comum que esse exame seja solicitado rotineiramente por profissionais das mais diversas especialidades. Se a ultrassonografia detectar um nódulo, não se desespere! Frequentemente, não é necessário fazer nada.

O que é um nódulo de tireoide?

O nódulo tireoidiano é uma lesão dentro da glândula tireoide que é radiologicamente diferente do restante do tecido que a envolve. O nódulo de tireoide pode ser palpável ao exame físico ou não. E nem todo nódulo no pescoço é da tireoide. Alguns podem estar relacionados a outras estruturas, como, por exemplo, os gânglios linfáticos, muito comuns durante uma infecção de garganta.

Por que aumentou o número de pessoas com nódulo de tireoide?

A descoberta é maior por conta do exagero de exames. Por isso, não devemos estimular a procura do nódulo na população geral e essa tem sido uma prática comum. Os nódulos podem ser palpáveis em aproximadamente 5% das mulheres e 1% dos homens nas áreas geográficas em que não há deficiência de iodo. Entretanto, os nódulos de tireoide podem ser detectados por ultrassonografia em 19% a 68% dos pacientes examinados aleatoriamente, com maiores frequências em mulheres e pessoas mais idosas. Em outras palavras, o ultrassom aumentou e muito a frequência dessas lesões que passariam despercebidas.

Ao investigar algum problema não relacionado à tireoide em exames de imagem, podemos nos deparar com um nódulo de tireoide. Ou seja: alguns nódulos são descobertos totalmente ao  acaso (ou incidentalmente). A estes nódulos descobertos “sem querer” damos o nome de incidentalomas. Encontrar incidentalomas é cada vez mais comum em programas de “check up” de diversos médicos.

Os incidentalomas de tireoide são bastante comuns quando, por exemplo, o ultrassom foi direcionado para as artérias carótidas e acabou por visualizar (ao acaso) um nódulo na tireoide. Nesse exemplo, um ultrassom próprio para a glândula tireoide deve ser solicitado para definir melhor a estrutura do nódulo.

Descobri um nódulo de tireoide, e agora?

Todo nódulo deve ser puncionado? A resposta é não. A importância da avaliação do nódulo de tireoide recai sobre a possibilidade de câncer, embora a grande maioria dos nódulos sejam de baixo risco e muitos cânceres de tireoide tem um risco mínimo sobre a saúde e podem ser facilmente tratados.

O excesso de diagnóstico ao ultrassom (que chamamos de sobrediagnóstico), quando comparado ao exame físico, tem causado um excesso paralelo do aumento da descoberta de nódulos de tireoide e, consequentemente, do diagnóstico de câncer.

Entretanto, o aumento do diagnóstico de câncer de tireoide não é acompanhado de aumento da mortalidade e muito tem se discutido sobre o real benefício do rastreamento dos nódulos de tireoide. Em outras palavras, a detecção e o tratamento precoces do câncer de tireoide não fazem a pessoa viver mais.

O que fazer antes de decidir pela punção

Em adultos, ao se diagnosticar um nódulo de tireoide, deve ser avaliada a função da glândula, isto é, se os níveis de hormônios tireoidianos no sangue estão normais. Como visto num post anterior, o hormônio tireoestimulante (TSH) é o primeiro a se alterar quando há alteração nos níveis de hormônio produzidos pela tireoide (T3 e T4).  Se os níveis do hormônio TSH estiverem normais ou elevados (que sugere hipotireoidismo), o segundo passo é avaliar as características do nódulo à ultrassonografia para prosseguir ou não a investigação de câncer de tireoide através da punção do nódulo. Um nódulo que produz muito hormônio e reduz a quantidade de TSH no sangue, não precisa ser puncionado.

“Lesões inocentes” e lesões suspeitas

Algumas características são ligadas ao maior risco de que o nódulo seja um carcionoma. Ao ultrassom, características anatômicas devem ser consideradas para realizar a punção aspirativa por agulha fina (PAAF), tais como: presença de microcalcificaçõescontornos do nódulo, ecogenicidade (brilho em relação ao tecido tireoidiano normal), tamanho etc.

Por exemplo, os cistos, que são as lesões que têm apenas líquido no seu interior, são benignos por natureza e não devem ser puncionados para investigação de câncer, ainda que possam ser puncionados para esvaziar o líquido.

Já nódulos mais escuros do que o restante do tecido tireoidiano (hipoecoicos) com uma ou mais de outra característica (tais como contornos irregulares, contendo microcalcificações, entre outras), são considerados de alta suspeita para câncer e, a depender do tamanho, devem ser puncionados.

Qual nódulo que deve ser puncionado?

De uma forma geral, apenas nódulos maiores do que 1,0 cm (um centímetro) são candidatos para punção. Porém, nem todos os nódulos desse tamanho precisam ser puncionados.

Conforme o grau de suspeita, os limites de tamanho do nódulo para indicar punção podem variar, podendo chegar até 2,5 cm (dois centímetros e meio).

Existem duas principais classificações para orientar quais nódulos devem ser submetidos à punção (PAAF), que também colocam limites um pouco diferentes para indicação da punção. A classificação da Associação Americana de Tireoide (ATA) e o Thyroid Imaging Reporting and Data System [TI-RADS]. Veja no post relacionado como essas classificações ajudam a guiar a decisão de solicitar a punção dos nódulos.

Referência

 HAUGEN, B. R. et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer: The American Thyroid Association Guidelines Task Force on Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, v. 26, n. 1, p. 1-133, Jan 2016. ISSN 1557-907 (em inglês). doi: 10.1089/thy.2015.0020

Uma visão feminina sobre a endocrinologia

A especialidade

A endocrinologia tem alma feminina. De profissionais a pacientes, nós somos maioria. Só que há muito mais além desses dois tipos de atores (ou atrizes) nessa história.

Segundo dados da pesquisa sobre demografia médica feito pela Associação Médica Brasileira, em 2018, dos quase 5.000 endocrinologistas, 70,4% eram do sexo feminino. Nesse mesmo levantamento, as mulheres representam 45,6% do total de médicos no Brasil. No total, não ainda somos maioria.

Trabalhamos lado a lado de outras profissionais de saúde como ginecologistas, pediatras, nutricionistas, enfermeiras, psicólogas na prevenção, tratamento e reabilitação. Também esses profissionais são na sua maioria mulheres, salvo engano.

As nossas pacientes

O sexo feminino também representa a maior parte dos nossos pacientes.

Atendemos mulheres que trabalham (e muito) apenas dentro das suas casas e outras que trabalham dentro e fora de casa. Elas têm múltiplas jornadas diárias de trabalho enquanto tentam equilibrar o que é necessário para o cuidado próprio e dos outros que delas dependem, seja financeiramente e/ou afetivamente. Vemos pontualmente ou acompanhamos essas mulheres em vários momentos de vida.

Fases da vida, gênero e endocrinologia

Mudanças hormonais e do metabolismo são uma constante na vida da mulher. Nessa travessia, podemos citar algum exemplos em onde a endocrinologia é evocada: nos problemas de puberdade, nas alterações menstruais, processo da menopausa (que não é exatamente uma doença) e nos problemas de tireoide, mais prevalentes no sexo feminino.

Mesmo nas condições médicas que não atingem preferencialmente ou são exclusivas das mulheres, elas – mais que os homens – procuram ajuda médica mais precocemente e frequentemente. Podemos citar como exemplos quadros de diabetes, sobrepeso e obesidade.

Questões de gênero também permeiam a endocrinologia. As equipes que atuam no cuidado com mulheres transexuais devem ter esses especialistas no seu quadro para o manejo hormonal que se faz necessário.

Visão mais ampla

Depois dessa breve introdução sobre a endocrinologia, saio pouco da especialidade para ampliar o olhar sobre as demais mulheres do cotidiano profissional e pessoal. Dessa forma, presto uma pequena homenagem às mulheres admiráveis que interagem umas com as outras e tornam a vida mais leve e o trabalho mais fácil.

Do meu lugar é que eu posso falar sem errar muito (eu acho), por isso vou listar algumas personagens importantes que me influenciam, inspiram e apoiam.

Dentro e fora da saúde

Fico feliz e grata em ver e contar com o apoio de outras mulheres da mesma especialidade em diversas necessidades, seja nos desabafos, opiniões, incentivos, discussões de casos, compartilhamento de angústias profissionais, troca de informação e conhecimentos.

Não posso esquecer de citar a importância das mulheres na área da saúde e outra áreas de conhecimento que ampliam o nosso olhar sobre o ser humano, objeto do nosso trabalho. São advogadas, educadoras físicas, professoras, assistentes sociais, artistas, jornalistas, blogueiras, líderes religiosas etc etc etc… a lista é grande.

Equipe de suporte

Por último, mas não menos importante, gostaria de lembrar e agradecer às mulheres cujo trabalho é fundamental para o nosso. Para que eu ou qualquer mulher e desempenhe seus diversos papéis na sociedade, houve, há e haverá suporte de outras mulheres – disso eu não tenho dúvidas. Quem não se lembra da sua própria mãe nesse dia? Não sei como a minha mãe com nove filhos deu conta do recado.

No meu caso, uma equipe feminina está ao meu lado: a secretária, as recepcionistas, a ajudante dos serviços domésticos, minha irmã, amigas, outras mães (ai, que medo de esquecer alguem). Elas me dão do apoio corriqueiro ao excepcional para a “Suzana endocrinologista” e a “mãe da Helena”, por exemplo.

Desigualdades? Sim, nós temos!

Admiro toda e qualquer mulher que faz diferença com seu trabalho, seja formal ou informal, socialmente reconhecido ou não. Imagino sua rotina e dificuldades.

Para as que estão no mercado de trabalho historicamente desigual, minha solidadariedade e desejo de dias melhores para nós. Esse é um fenômeno que atinge inclusive a medicina. Na nossa profissão, quase 80% das mulheres estão concentradas nas três categorias de menor remuneração.

Limitações e desejos

Como deu para você perceber, mesmo que eu quisesse falar só apenas da especialidade ou da parte profissional, correria o risco de ser demasiadamente injusta. Não sei se isso foi uma limitação ou não para o texto, mas acontece que muitas mulheres são de importantes a fudamentais, sendo que algumas são mais visíveis, outras nem tanto.

Durante a produção do texto, muitos rostos femininos me vieram à mente. Espero que algumas dessas mulheres se reconheçam nas minhas palavras. Muito obrigada em dividir seus dons e talentos; compartilhar comigo seus conhecimentos; oferecer seus cuidados e amizade; confiar-me seus problemas de saúde e prestigiar o meu trabalho.

Para todas as mulheres, desejo que tenham um excelente dia internacional da mulher. Que seja um dia de descanso, reflexão, ação, reinvidicação de direitos ou do jeitinho que mais desejarem.

Feliz Dia Intenacional da Mulher!

Especialista em Endocrinologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Colaboradora do Slow Medicine Brasil

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