Perda de peso rápida e pedra na vesícula após cirurgia bariátrica e novas medicações para obesidade

Já é muito conhecido o fato do aparecimento de pedras na vesícula depois de uma cirurgia bariátrica. Na verdade, toda perda de peso rápida pode predispor ao aparecimento de cálculo biliar ou colelitíase, que são os termos técnicos para pedra na vesícula. Nesse texto, vamos ver sobre risco, mecanismo, profilaxia e tratamento da formação dos cálculos biliares após uma perda de peso rápida.

Cálculo biliar após cirurgia bariátrica

Estima-se 30% dos pacientes que são submetidos à cirurgia bariátrica por by pass gástrico ou Y de Roux desenvolvam doença biliar por conta da perda ponderal rápida.

O que seria a perda de peso rápida? Para cirurgia bariatria uma perda de peso de 1,5kg/semana. Uma perda de peso expressiva, que seria correspondente à redução de 25% do peso corporal inicial, também se relaciona com a formação das pedras na vesícula (Ref.1).

Mas esse fenômeno não é exclusivo da cirurgia bariátrica. A formação de cálculo biliar é descrita com dietas muito restritivas, como as dietas de muito baixa caloria ou VLCD e com as “canetinhas emagrecedoras”. Em suma, qualquer método que faça perder peso de forma rápida pode levar ao aparecimento de pedra na vesícula.

Cálculo biliar após análogos de GLP1 (“canetas emagrecedoras”)

Nos últimos tempos, com introdução de novas medicações potentes para perda de peso, temos que ficar atentos igualmente à essa complicação. Esse assunto já foi estudado com análogos de GLP1 como a liraglutida e semaglutida, o famoso Ozempic. O risco de colelitíase ou doença biliar aumenta cerca de 37% com o uso dessas medicações e é maior com doses mais altas e tempo prolongado de uso (Ref. 2).

Uma metanálise bem recente com a tirzepatida (Mounjaro) mostrou aumento em torno de 50% de doenças da vesícula e vias biliares e 67% de colelitíase em pacientes com diabetes e obesidade. Não houve aumento da frequência de colecistite e pancreatite. (Ref. 3)

Vamos entender agora por que essas pedras se desenvolvem na vesícula.

Sais biliares e circulação entero-hepática

Todo endocrinologista adora uma fisiopatologia. Problemas da vesícula e vias biliares são tratadas mais pelos gastroenterologistas e cirurgiões do trato digestivo. Mas vamos lá:

Os bile armazenada na vesícula contém os sais biliares. Eles são como detergentes e emulsificam as gorduras da alimentação para serem absorvidas no intestino (Fig 1).

Figura 1. Ação dos ácidos biliares

Formação dos sais biliares e formação de cálculos – fisiopatologia

Os ácidos biliares fazem uma volta e retornam para o mesmo lugar, ele são produzidos no fígado, armazenados na vesícula e para o fígado voltam através da circulação entero-hepática (Figura 2).

Figura 2. Circulação entero-hepática

Os ácidos biliares são sintetizados a partir do colesterol formando os sais biliares primários através de reações de hidroxilação. No fígado, os ácidos biliares primários são conjugados com aminoácidos taurina e glicina, formando os ácidos biliares conjugados, que são os sais biliares propriamente ditos (seta verde) (Figura 3).

Os sais biliares são armazenados na vesícula como bile e secretados durante uma alimentação. Cerca de 95% dos sais biliares são absorvidos no íleo terminal. Uma parte dos ácidos biliares primários não é absorvida, sofre ação de bactérias no intestino formando os ácidos biliares secundários (seta marrom), que são absorvidos no intestino (Figura 3)

Figura 3. Formação dos sais biliares.

As concentrações de colesterol, ácidos biliares e fosfolípides devem estar equilibradas na bile. Se houver concentração relativa maior de colesterol, pode haver formação de pedras dessa substância dentro da vesícula causando obstrução e inflamação da vesícula (colecistite). Aproximadamente, 80% das pedras na vesícula são compostas por colesterol.

perda de peso rápida e formação de pedras na vesícula – mecanismos

A obesidade por si só já é fator de risco para colelitíase. No emagrecimento rápido, há mobilização de grande quantidade de colesterol a partir do tecido gorduroso. Além disso, dietas muito pobres em gorduras e jejum prolongado podem não estimular a contração da vesícula. A vesícula estagnada por muito tempo, pode predispor à formação de cálculos biliares.

Além da perda de peso rápida, os análogos de GLP1 (liraglutida e semaglutida) e duais (tirzepatida) podem estar associados à formação de cálculos biliares pois inibem também a motilidade e retardam o esvaziamento da vesícula por suprimirem a secreção de colecistoquinina, hormônio intestinal liberado após uma refeição que estimula a contração da vesícula.

Perda de peso rápida e formação de pedras na vesícula – complicações

A pedra pode ficar na vesícula e inflamá-la (colecistite crônica ou aguda). Pode ainda migrar pelas vias biliares e obstruir o ducto que transporta a bile (coledocolitíase) ou o ducto em comum que leva bile e suco pancreático, podendo causar, respectivamente, problemas graves como inflamações vias biliares (colangite) e pancreatite pelo refluxo dos sais biliares causado pela obstrução da pedra. Todas essas complicações são graves e tratadas como emergências médicas, muitas vezes cirurgicamente (Figura 4).

Figura 4. Complicações dos cálculos biliares.

Para prevenção de formação de cálculos biliares após cirurgia bariátrica, usa-se o ácido ursodesoxicólico ou ursodiol (UDCA). Essa substância foi primeiro identificada na bile de ursos polares, mas é também produzida por humanos através da ação de bactérias do intestino (ácido biliar secundário).

A ingestão de ursodiol reduz a absorção do colesterol no intestino e a saturação de colesterol na bile. Na prática clínica é usado como método não-cirúrgico para dissolução de cálculos biliares de colesterol.

Profilaxia e tratamento dos cálculos biliares após cirurgia bariátrica

Uma das práticas é fazer ao mesmo tempo a cirurgia bariátrica e retirar a vesícula de forma profilática, mesmo sem haver pedra no seu interior. Outro método é ficar vigilante quanto ao aparecimento dessa complicação e agir posteriormente se houver aparecimento das pedras ou sintomas sugestivos.

Se o paciente já tem pedra na vesícula ou tem muito risco de tê-la, a vesícula é geralmente retirada no mesmo tempo cirúrgico da cirurgia bariátrica.

Uso do ursodiol

Na bula, para dissolução de cálculos não radiopacos (de colesterol) e bile espessa (lama biliar) a posologia média é de 5 a 10 mg/kg/dia de ursodiol por via oral. Já para profilaxia da formação dos cálculos biliares, a posologia média de ursodiol fica entre 300 e 600 mg (após e durante as refeições e à noite) por um período de 4 a 6 meses, podendo chegar a 1 ano ou mais. Diarreia é o principal efeito colateral (Ref.4).

Abaixo, um diagrama de sugestão de manejo dos cálculos biliares após cirurgia bariátrica.

Sugestão de manejo dos cálculos biliares na cirurgia bariátrica (Modificado de Ref 1).

Considerações finais

A formação de pedra na vesícula pode ocorrer com qualquer método de emagrecimento que leve à perda de peso rápida. Com a cirurgia bariátrica, essa complicação é já bem conhecida e existe a recomendação de profilaxia desses cálculos na fase nos primeiros meses do pós-cirúrgico.

Os análogos de GLP1 e, principalmente, os análogos duais de GLP1/GIP levam à perda de peso significativa, semelhante ao que promove a cirurgia bariátrica. Pergunto-me se não seria o caso de adotarmos a profilaxia para formação de cálculos na vesícula semelhante ao que é feito na cirurgia bariátrica.

Qual a opinião de vocês?

Referências

  1. Ribeiro MA Jr, Tebar GK, Niero HB, Pacheco LS. Biliary complications associated with weight loss, cholelithiasis and choledocholithiasis. World J Gastrointest Pharmacol Ther. 2024 Jul 5;15(4):95647. doi: 10.4292/wjgpt.v15.i4.95647. PMID: 38983103; PMCID: PMC11229836.
  2. He L, Wang J, Ping F, Yang N, Huang J, Li Y, Xu L, Li W, Zhang H. Association of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA Intern Med. 2022 May 1;182(5):513-519. doi: 10.1001/jamainternmed.2022.0338. PMID: 35344001; PMCID: PMC8961394.
  3. Gong J, Gao F, Jiang K, Xie Q, Zhao X, Lei Z. Risk of biliary diseases in patients with type 2 diabetes or obesity treated with tirzepatide: A meta-analysis. J Diabetes Investig. 2025 Jan;16(1):83-92. doi: 10.1111/jdi.14340. Epub 2024 Nov 21. PMID: 39569606; PMCID: PMC11693576.
  4. Bula ursodiol (ursacol®)

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Lipodistrofias e diabetes – quando a falta de gordura é um problema

As lipodistrofias são um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por falta total ou parcial de tecido gorduroso subcutâneo e depleção da capacidade de armazenamento de gordura. Podem ser congênitas ou adquiridas, totais ou parciais.

O tecido adiposo é um órgão endócrino. Isso já ouvimos algumas vezes. Ele produz diversas citocinas e mediadores bioativos, tais como leptina, adiponectina, citocinas inflamatórias, das quais já falamos no post obesidade e inflamação.

As duas principais adipocinas a serem relembradas aqui nesse texto é a adiponectina e leptina. A adiponectina melhora a sensibilidade à insulina. A leptina produzida pelo tecido gorduroso regula o apetite, gordura corporal, metabolismo da glicose, sensibilidade à insulina, função reprodutiva e neuroendócrina. A falta de leptina aumenta muito o apetite e induz resistência insulínica. A deficiência dessas duas substâncias explica muito do quadro das lipodistrofias, principalmente a falta da leptina.

Já vimos também que a gordura ectópica é o resultado do transbordamento de gordura para órgãos com fígado e pâncreas quando os depósitos de gordura subcutânea são esgotados. Isso resulta no aumento da resistência insulínica.

Vamos ver em seguida os principais grupos de lipodistrofias.

Lipodistrofia congênita generalizada – LCG

Essa síndrome leva os nomes dos seus descobridores – Síndrome de Berardinelli-Seip. Caracteriza-se pela ausência completa do tecido gorduroso desde o nascimento. No Brasil, temos uma grande população de pacientes com essa doença no Estado do Rio Grande do Norte. Esse fenômeno que se explica pelo grande número de casamentos consanguíneos naquela região. O tipo de herança genética dessa doença é autossômica recessiva.

Lipodistrofia parcial familiar – LDFP

Na lipodistrofia parcial familiar, há perda de gordura nos membros, nádegas e quadril. Há acúmulo de gordura em certas regiões (variável conforme o subtipo) e pode resultar em uma aparência semelhante à Síndrome de Cushing (cushingóide). A distribuição de gordura é normal na infância, com a perda de gordura começando na puberdade. A hipertrofia muscular é comum.

Existem vários subtipos da LDFP. O tipo 1 ou lipodistrofia variedade Köbberling tem herança poligênica. O tipo 2, ou lipodistrofia variedade Dunnigan, é a forma mais comum e tem herança autossômica dominante. Outros tipos são descritos e podem ser consultados nos textos de referência.

Complicações metabólicas são comuns na vida adulta com aumento do risco de doença coronária e cardiomiopatia precoce.

Lipodistrofia adquirida generalizada – LAG

A Síndrome de Lawrence ou lipodistrofia adquirida generalizada é mais comum em mulheres (3 mulheres:1 homem). Aparece geralmente antes da adolescência, mas pode ser em qualquer fase da vida. A perda progressiva de gordura afeta todo o corpo, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés, mas algum acúmulo de gordura pode aparecer na face, pescoço e axila.

Complicações metabólicas são frequentes e geralmente é esse tipo de lipodistrofia é associada a doenças autoimunes (tireoidite de Hashimoto, artrite reumatoide, hepatite autoimune etc.).

Lipodistrofia adquirida parcial – LAP

Conhecida também com Síndrome de Barraquer- Simons. Uma das formas mais comuns de lipodistrofia. Predomina em mulheres (4 mulheres:1 homem) e tem seu início na infância e adolescência. Há perda de gordura que se inicia na face e desce para o tronco. O acúmulo de gordura pode aparecer nos quadris, nádegas e pernas.

A LAP é associada a doença autoimune, principalmente glomerolunefrite membranoproliferativa em aproximadamente 20% dos pacientes. A maioria tem complemento 3 sérico baixo. Complicações metabólicas são incomuns.

A. Homem brasileiro de 15 anos com lipodistrofia generalizada congênita tipo 2. B. Criança 8 anos com lipodistrofia generalizada adquirida. Ele teve paniculite aos 3 anos de idade e perda progressiva da gordura corporal. C. Mulher de 29 anos com lipodistrofia parcial familiar variedade Dunnigan. Ela tem perda da gordura em extremidades e em região glútea, mas acúmulo de gordura em face, pescoço, tórax e dorso superior. D. Mulher com 59 anos de idade, com lipodistrofia parcial adquirida (Barraquer-Simons). Ela tem perda de gordura em hemicorpo superior e acúmulo de gordura no hemicorpo inferior. Ref 3.
Tipo de herançaSubtipoFenótipoGenes envolvidos
Autossômica recessivaLCG – congênita generalizadaAusência quase total de gordura corporal, musculatura proeminente, complicações metabólicasAGPAT2, BSCL2, CAV1,
PTRF, PCYT1A, PPAR
Síndromes progeróidesAusência parcial ou generalizada de gordura corpora, características progeróides, complicações metabólicas variáveisLMNA, ZMPSTE24, SPRTN,
WRN, BANF1
LDFP – parcial familialAusência de gordura nos membros, complicações metabólicasCIDEC, LIPE, PCYT1A
Auto inflamatórioAusência de gordura e complicações metabólicas variáveisPSMB8
Autossômica dominanteLDFP – parcial familialAusência de gordura a partir dos membros, complicações metabólicasLMNA, FBN1, CAV1,
POLD1, KCNJ6
Síndromes progeróidesAusência parcial ou generalizada de gordura corpora, características progeróides, complicações metabólicas variáveisLMNA, FBN1, CAV1,
POLD1, KCNJ6
Síndrome SHORTPerda de gordura corporal variável, baixa estatura, complicações metabólicasPIK3R1
AdquiridaLAG – adquirida generalizadaAusência quase total de gordura corporal, complicações metabólicasNenhuma
LPA – adquirida parcialAusência de gordura na metade superior do corpo com aumento da gordura na metade inferior; pouca ou nenhuma complicação metabólicaNenhuma
Tabela 1. Tipo de lipodistrofias conforme herança genética, fenótipos e genes envolvidos.
Prógeria – doença rara com envelhecimento precoce. Foto Wikipedia.

Diagnóstico das lipodistrofias

Vamos ver agora as principais características clínicas das síndromes lipodistróficas:

Achado essencial

  • Falta de gordura generalizada ou em algumas regiões do corpo

Achados físicos

  • Déficit de crescimento em crianças
  • Musculatura proeminente – por aumento da insulina e de hormônios masculinos (hiperandrogenismo)
  • Veias proeminentes (flebomegalia)
  • Proeminência umbilical ou hérnia umbilical
  • Acantose nigricante grave
  • Xantomas eruptivos
  • Hirsutismo leve, critoromegalia – na lipodistrofia generalizada
  • Aparência cushingoide – alguns tipos de lipodistrofia parcial
  • Aparência acromegálica – na lipodistrofia generalizada
  • Envelhecimento precoce (aparência progeróide) nas síndromes relacionadas
Tipos de lipodistrofias. Modificado de Ref. 2.

Comorbidades

  • Diabetes mellitus com necessidade de altas doses de insulina
    • 200UI ao dia
    • 2UI/kg/dia
    • Necessidade de insulina concentrada (ex. U300)
    • Cetose é rara
  • Hipertrigliceridemia grave
    • ≥500 mg/dL com ou sem tratamento
    • ≥250 mg/dL a despeito da dieta e medicação
    • Pancreatite de repetição e xantomas eruptivos
  • Doença hepática gordurosa não-alcoólica
  • Cardiomiopatia prematura
  • Síndrome dos Ovários Policísticos

Outras informações da história médica

  • Padrão autossômico dominante ou recessivo de achados clínicos ou complicações metabólicas similares;
  • Hiperfagia significativa (apetite voraz) – manifesto como irritabilidade/agressividade em crianças.

A lipodistrofia pelo tratamento do HIV é mais rara hoje em dia por conta da introdução de novos antiretrovirais, mas ainda deve ser lembrada.

Diagnóstico diferencial

Doenças que levam à perda de peso intensa podem ser confundidas com as lipodistrofias. Podemos citar como exemplos: desnutrição, anorexia nervosa, diabetes descompensado, tireotoxicose, insuficiência adrenal, caquexia por câncer, emagrecimento associado ao HIV e infecções crônicas.

Há uma dificuldade de diferenciação da lipodistrofia principalmente com diabetes descompensado, pois ambos podem ter aumento dos triglicérides. Entretanto, ao se controlar o diabetes, o paciente reganha gordura corporal.

A lipodistrofia generalizada pode ser confundida com mutação do receptor de insulina ou acromegalia/gigantismo. Já a lipodistrofia parcial pode ser confundida com Síndrome de Cushing, obesidade central e lipomatose simétrica múltipla.

Diferenciando o tipo de lipodistrofia

Avaliação da história de casos semelhantes na árvore genealógica sugere se a lipodistrofia é familiar. Pesquisar pelas fotos dos pacientes quando criança também ajuda, uma vez que a LGC é manifesta desde o nascimento.

Foto de criança com lipodistrofia generalizada congênita. Fonte – Portal G1

A presença de doença autoimune (miosite, diabetes tipo 1, hepatite autoimune e outras) aumenta a suspeita de lipodistrofia adquirida.

Testes genéticos podem ser úteis, mas um teste negativo não exclui o diagnóstico.

A avaliação da composição corporal por bioimpedância, densitometria de corpo inteiro podem contribuir para o diagnóstico.

Pesquisa de comorbidades

A lista de comorbidades metabólicas das lipodistrofias é extensa. Já falamos de muitas delas em outros posts do blog. São elas:

  • Diabetes mellitus
  • Dislipidemia aterogênica – hipertrigliceridemia, colesterol HDL baixo
  • Doença hepática gordurosa não-alcoólica
  • Síndrome dos ovários policísticos
  • Doença renal   – proteinúria é comum. Biópsia renal deve ser realizada quando clinicamente indicado. A patologia pode indicar nefropatia diabética, glomeroluoesclerose focal segmentar (especialmente na lipodistrofia congênita generalizada) ou glomerulonefrite pseudomembranosa (especialmente na lipodistrofia parcial adquirida).
  • Câncer – risco maior de linfomas.
  • Miocardiopatia hipertrófica, doença arterial coronariana
  • Retardo mental leve

Tratamento não medicamentoso das lipodistrofias

Aqui, serão tratadas as particularidades no manejo das lipodistrofias em adultos. Particularidades na infância podem ser consultadas nos textos-base das referências.

Dieta

Deve ser balanceada (50 – 60% de carboidratos, 20-30% de gordura e 20% de proteínas), restrita em calorias. Dieta do Mediterrâneo pode ser uma boa opção.

Se houver quilomicronemia, recomenda-se dieta muito pobre em gordura.

Pacientes com lipodistrofia, especialmente nas formas generalizadas, são hiperfágicos, devido à falta de leptina. A restrição calórica é importante para não piorar as complicações metabólicas, principalmente o diabetes.

Exercício físico

Pacientes devem ser encorajados a se exercitarem na ausência de contraindicação específica. Aqueles com subtipos de lipodistrofia que predisponham a cardiomiopatia devem fazer uma avaliação cardiológica antes de iniciar a prática de atividade física.

Tratamento medicamentoso das lipodistrofias

Metreleptina

É uma medicação análoga à leptina. Foi aprovado pela ANVISA em 2023.

Na lipodistrofia generalizada, a metreleptina (Myalept®) associada à dieta é a primeira linha de tratamento para as alterações endócrinas e metabólicas. Deve ser considerada nos pacientes com lipodistrofia parcial se houver alterações metabólicas graves (HBA1c > 8% e TG > 500mg/dL)

No Brasil é aprovada para as lipodistrofias generalizadas a partir dos 2 anos e nas parciais a partir dos 12 anos. A dose é proporcional ao peso e administrada uma vez ao dia por via subcutânea.

A metreleptina reduz a fome, melhora o controle glicêmico e níveis de triglicérides e outras comorbidades associadas às lipodistrofias.

Tratamento das complicações metabólicas

No tratamento do diabetes, a metformina é medicação de primeira linha. A insulina quase sempre é necessária para controle da hiperglicemia, que costuma ser grave. Para as lipodistrofias generalizadas, por conta da ausência de tecido adiposo, há necessidade de grandes doses de insulina. Nesse caso, as preparações concentradas de insulina podem ser necessárias (U-300). A via de aplicação acaba sendo muitas vezes a intramuscular.

A pioglitazona pode melhorar o perfil metabólico em pacientes com lipodistrofia parcial, mas deve ser utilizada com cautela na lipodistrofia generalizada.

Análogos de GLP1 para controle do apetite e do diabetes têm dados são limitados na literatura. Há relatos de caso de melhora clínica na lipodistrofia parcial

Os fibratos são as medicações de eleição para hipertrigliceridemia. Óleo de peixe (ômega 3) pode adicionado aos fibratos se houver hipertrigliceridemia persistente. Deve-se evitar a niacina pelo aumento de resistência insulínica. Novas medicações para a hipertrigliceridemia associada à lipodistrofia parcial também estão disponíveis no Brasil, como é a volanesorsena (Waylivra®).

Tratamentos cosméticos de preenchimento das áreas sem gordura tem impacto positivo sobre autoestima e fatores psicológicos.

Em relação à contracepção, se necessária, deve-se evitar estrógenos orais. Preferir contraceptivos orais a base de progestógenos. Na terapia hormonal da menopausa, preferir a via transdérmica do estradiol.  

Considerações finais

As lipodistrofias generalizadas são raras, mas no Brasil nem tanto. Eu tive oportunidade de ver um caso na minha residência médica no Hospital das Clínicas da USP e o aspecto físico dela, a quantidade de insulina que usava nunca me saiu da memória. Infelizmente, naquela época não havia tratamento específico como temos hoje.

Os endocrinologistas e qualquer médico que atenda pacientes com diabetes tem mais chance de se deparar com as lipodistrofias parciais no dia a dia, que são muito semelhantes aos pacientes com diabetes tipo 2. Reconhecer esses pacientes e saber direcionar o tratamento é necessário. Nos casos graves, temos as novas medicações que são a metreleptina e a volanesorsena.

A ausência de gordura pelas lipodistrofias causa um problemão metabólico. Algumas vezes, acho que se cria um problema semelhante em relação aos pacientes com síndrome metabólica ou aqueles que têm maior risco de desenvolvê-las quando são submetidos a cirurgias plásticas com retirada de toda camada de gordura subcutânea em uma área extensa do corpo. Guardadas as devidas proporções, se o paciente volta a engordar depois da cirurgia, pode ser que eles fiquem parecidos metabolicamente com os pacientes com lipodistrofias parciais. Essa situação aparece no consultório. Será que estamos diante de uma lipodistrofia provocada?

Referências

  1. Brown RJ, Araujo-Vilar D, Cheung PT, Dunger D, Garg A, Jack M, Mungai L, Oral EA, Patni N, Rother KI, von Schnurbein J, Sorkina E, Stanley T, Vigouroux C, Wabitsch M, Williams R, Yorifuji T. The Diagnosis and Management of Lipodystrophy Syndromes: A Multi-Society Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016 Dec;101(12):4500-4511. doi: 10.1210/jc.2016-2466. Epub 2016 Oct 6. PMID: 27710244; PMCID: PMC5155679.
  2. Angelidi AM, Filippaios A, Mantzoros CS. Severe insulin resistance syndromes. J Clin Invest. 2021 Feb 15;131(4):e142245. doi: 10.1172/JCI142245. PMID: 33586681; PMCID: PMC7880309.
  3. Patni N, Garg A. Lipodystrophy for the Diabetologist-What to Look For. Curr Diab Rep. 2022 Sep;22(9):461-470. doi: 10.1007/s11892-022-01485-w. Epub 2022 Jul 11. PMID: 35821558; PMCID: PMC10704567.
  4. de Azevedo Medeiros, L.B., Cândido Dantas, V.K., Craveiro Sarmento, A.S. et al. High prevalence of Berardinelli-Seip Congenital Lipodystrophy in Rio Grande do Norte State, Northeast Brazil. Diabetol Metab Syndr 9, 80 (2017). https://doi.org/10.1186/s13098-017-0280-7

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Testosterona baixa em mulher: quando investigar e quando repor

Esse é um assunto muito importante, já bastante falado pelos endocrinologistas, mas não deixaria de comentar sobre ele aqui no blog. Quando dosar e repor testosterona na mulher?

Nos nossos consultórios, é super frequente que chegue uma mulher dizendo que tem problema de testosterona baixa. Se ela não está na menopausa, a testosterona baixa não é um problema médico, aos olhos do endocrinologista. Se ela já entrou na menopausa e está sofrendo com redução da libido, podemos ponderar o uso da testosterona se, e somente se, não houver contraindicação ao seu uso.

Os níveis de testosterona nas mulheres vão reduzindo ao longo da vida reprodutiva, mas os seus valores permanecem relativamente estáveis até os 65 anos de idade. Se essa sobrevida da testosterona é uma vantagem, ainda não está bem definido na literatura científica.

Quando dosar testosterona na mulher?

Os endocrinologistas se preocupam apenas se a testosterona está alta (e não baixa), como já comentado. Em mulheres com queixa de excesso de pelo, acne, queda de cabelo, que são sinais de excesso de testosterona, muito frequentes na Síndrome dos Ovários Policísticos, na Hiperplasia Adrenal Congênita e outros problemas que têm aumento dos “hormônios masculinos”, dosamos a testosterona no sangue.  

Mulheres sem queixas e sem sinais de excesso de hormônio masculino, a testosterona não deve ser dosada. Entretanto, chegam a nós resultados de dosagens de testosterona em mulheres que não têm queixas compatíveis com excesso desse hormônio, solicitados por outros colegas médicos. Se a testosterona está “baixa” temos ainda que ponderar que a medida laboratorial da testosterona tem suas dificuldades.

Como aqui nesse blog chegam muitos colegas da área de saúde, vale a pena comentar sobre essa limitação técnica a da dosagem da testosterona em níveis mais baixos, como acontece nas mulheres.

Métodos laboratoriais para determinação da testosterona

Nos métodos baseados em imunoensaio, quando temos a dosagem com a utilização de anticorpos, pode haver uma falta de especificidade e de precisão em valores mais baixos de testosterona, ou seja, um outro esteroide pode ser medido no lugar da testosterona, já que são moléculas muito parecidas.

Os imunoensaios para a testosterona foram padronizados principalmente para homens e eles não têm uma boa sensibilidade quando a dosagem de testosterona é baixa. Sabendo disso, alguns laboratórios colocam como referência da testosterona para mulheres “até x”, como na Figura 1. Isso quer dizer que abaixo disso é normal, mas não determinam um limite inferior para o valor de referência.

Figura 1. Exemplo de resultado e valor de referência da dosagem de testosterona na mulher.

Esse obstáculo da falta de especificidade seria superado com a separação das diferentes moléculas de forma mais precisa por sua massa no método laboratorial chamado de espectrometria acoplada à cromatografia, considerado como “padrão-ouro”. Infelizmente, não temos essa última metodologia amplamente disponível nos laboratórios comerciais. O que se analisa são os esteroides por imunoensaio e, portanto, sujeito a erros de leitura.

A figura abaixo mostra as diferentes técnicas para determinação dos hormônios esteroides: os imunoensaios, espectrometria de massa e a cromatografia líquida em tandem.

Figura 2. Comparação entre os métodos imunométricos e por espectometria-cromatografia dos hormônios esteroides.

Avaliação clínica, transtorno do desejo sexual hipoativo e reposição de testosterona na mulher

A testosterona é tida por muitos como um hormônio de vitalidade e nas mulheres com queixa de falta de energia, desejo sexual. Sendo assim, a “testosterona baixa” é sempre uma culpada por essas queixas.

Se temos uma mulher em fase reprodutiva (menacme) com queixa de falta de libido sexual, muito antes de pensar na testosterona, é necessário avaliar se não há outros interferentes que possam prejudicar o desejo sexual como: distúrbios hormonais, como aumento da prolactina, problemas psicológicos e de relacionamento com parceiro(a), efeito colateral de medicações como alguns antidepressivos, estilo de vida inadequado etc.

Vale a pena lembrar que uma das causas comuns de “testosterona baixa” fora da menopausa é a pílula combinada (anticoncepcional oral). A pílula combinada sabidamente reduz a testosterona livre por aumento da SHBG, como já vimos em outro post nesse blog.

Nas mulheres na pós-menopausa com queixa de redução da libido, temos que ver se elas têm o que se chama transtorno desejo sexual hipoativo (TDSH). Da mesma forma, antes de pensar na reposição da testosterona, podemos avaliar se não há doenças crônicas e uso de medicações que possam reduzir a libido, como fazemos com as mulheres em fase reprodutiva.

Na menopausa, caso haja outros sintomas dessa fase, como fogachos, ressecamento vaginal e não haja contraindicação à terapia hormonal estrogênica, a reposição de estradiol associada ou não à progesterona já pode resolver várias questões, inclusive da libido sexual. Esse tratamento, mesmo sem a testosterona, pode melhorar a qualidade de vida, a qualidade do sono, a lubrificação vaginal e, como consequência, o desejo e ato sexual ficam mais satisfatórios.

Se mesmo com terapia hormonal estrogênica adequada, caso a mulher na pós-menopausa atenda aos critérios de TDSH, podemos pensar na terapia com testosterona associada ao tratamento hormonal padrão.

O TDSH é uma redução ou ausência de desejo ou motivação para a atividade sexual. E quais são esses critérios para o transtorno do desejo sexual hipoativo?

  1. Redução ou ausência de desejo sexual (pensamentos ou fantasias);
  2. Redução ou ausência de responder a sinais e estimulação eróticos;
  3. Incapacidade de manter o desejo ou interesse na atividade sexual quando já iniciada.

Esses sintomas devem ser persistentes, durarem mais de seis meses, e devem causar sofrimento significativo para mulher. Esse último ponto em negrito é realmente de destaque, pois seria a condição para se pensar em repor testosterona. Se a mulher tem redução do desejo sexual e não está mal por conta disso, está “de boa”, a testosterona não é indicada.

Passadas todas as etapas de avaliação de fatores interferentes, terapia hormonal estrogênica adequada, se o diagnóstico de TDSH for feito, a terapia com testosterona pode ser indicada.

Como fazer a prescrição e acompanhamento do uso da testosterona em mulheres

O problema agora é que aqui no Brasil não temos formulações de testosterona em baixas doses, considerando que a dose recomendada para início de tratamento de mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo é de apenas 300μg de testosterona ao dia por via transdérmica em adesivo.

Já que não temos produtos com essa dose, temos que solicitar que a paciente obtenha o hormônio na farmácia de manipulação. No nosso meio, o mais comum é que a testosterona seja manipulada em gel, que pode ter uma absorção e biodisponibilidade variável. Na Tabela 1 temos uma sugestão de formulação da testosterona.

DoseVeículoAbsorçãoExemplo de prescrição
Testosterona base 1-5 mgVeículo de alta performance (Pentravan® )50% a 63%Testosterona base 2,0 mg Pentravan® q.s.p……1,0 ml
Veículo alcóolico9% a 14%Testosterona base 5,0 mg veículo alcóolico q.s.p…1,0 ml
Tabela 1. Exemplo de prescrição para testosterona manipulada (Ref. 3).

Os implantes de testosterona não são recomendados para essa finalidade.

É aconselhável que se tenha uma dosagem de testosterona antes do início da terapia e depois de 3 a 4 semanas após seu início para ajuste de dose. Uma vez a dose mínima necessária para melhora dos sintomas seja atingida, deve-se reavaliar os níveis de testosterona após 3 meses.

Não há estudos que comprovem a segurança da testosterona em longo prazo. Por isso, o tratamento deve ser sempre realizado com um acompanhamento cuidadoso.

Considerações finais

Os endocrinologistas não se cansam de falar que não se dosa testosterona na mulher, apenas se houver suspeita que esse hormônio esteja alto, que não se deve usar testosterona para fins estéticos e de desempenho em qualquer área da vida, que não se pode usar terapia hormonal se há alguma contraindicação, que não há libido que dê conta se a pessoa não tem um estilo de vida adequado, que a terapia hormonal indiscriminada traz muitos riscos à saúde.

Mesmo com todo o empenho da especialidade em disseminar os pontos acima, encontramos muitas mulheres com queixa de libido baixa ou mesmo só de “testosterona baixa”, fruto da propaganda ilusória da terapia hormonal como elixir para todos os males, como ela é vendida nas redes sociais e por médicos inescrupulosos.

Esse texto foi para reforçar o que nós já falamos extensivamente por nós e entre nós em congressos científicos e nas redes sociais, mas que ainda não temos certeza se essas informações estão disseminadas.

 A informação que deve ficar é que a única indicação de terapia com testosterona é para mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo que esteja lhe causando sofrimento, desde que ela não tenha contraindicação.

Agradecimento especial à Monica de Oliveira, minha amiga e colega endocrinologista, pelas sugestões e revisão desse texto.

Referências

  1. Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, Kaunitz AM, Kingsberg SA, Lambrinoudaki I, Liu J, Parish SJ, Pinkerton J, Rymer J, Simon JA, Vignozzi L, Wierman ME. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019 Oct 1;104(10):4660-4666. doi: 10.1210/jc.2019-01603. PMID: 31498871; PMCID: PMC6821450.
  2. Rossi, C.; Cicalini, I.; Verrocchio, S.; Di Dalmazi, G.; Federici, L.; Bucci, I. The Potential of Steroid Profiling by Mass Spectrometry in the Management of Adrenocortical Carcinoma. Biomedicines 20208, 314. https://doi.org/10.3390/biomedicines8090314
  3. Lara LADS, Pereira JML, de Paula SRC, de Oliveira FFL, Cunha AM, Lerner T, Villar Y, Antoniassi GPR, Benetti-Pinto CL. Challenges of prescribing testosterone for sexual dysfunction in women: Number 7 – 2024. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024 Jul 26;46:e-FPS07. doi: 10.61622/rbgo/2024FPS07. PMID: 39176198; PMCID: PMC11341187.

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Suzana

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Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá