Todos os posts de Dra. Suzana Vieira

Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá

O que é Metabolismo e sua aplicação na endocrinologia

Não é à toa que a especialidade é chamada de Endocrinologia e Metabologia. Pois bem, estudamos o metabolismo de vários compostos como os carboidratos, gorduras e proteínas sob a influências dos hormônios e de outros substâncias. Afinal, o que metabolismo? Podemos acelerá-lo ou não?

O que é metabolismo?

Metabolismo vem do grego “metabole” que significa “mudar”. Em medicina, o metabolismo é a mudança que diversas moléculas sofrem, através de reações químicas, com o objetivo de manter as funções básicas para sobrevivência de um organismo.

Na endocrinologia, vários hormônios estão envolvidos no processo do metabolismo energético e de elementos como a carboidratos, gorduras e proteínas.

Elementos do metabolismo e ação dos hormônios

Vale a pena entender quais são os dois componentes do metabolismo e exemplos dos hormônios que fazem predominar um sobre o outro. Os componentes do metabolismo sao o anabolismo e o catabolismo.

Anabolismo

É o processo no qual substâncias mais simples, pequenas, são transformadas em moléculas mais complexas, maiores. As substâncias mais simples servem como “matéria prima” para construção de tecidos ou são estocadas para serem utilizadas quando necessário. Os principais exemplos de anabolismo são o uso dos aminoácidos para formação de proteína muscular e dos ácidos graxos livres para formação de triglicérides, estocados nas células do tecido adiposo e da glicose para formação do glicogênio.

A insulina e a testosterona são exemplos de hormônios anabolizantes que estão relacionados ao metabolismo da glicose e aminoácidos, respectivamente. Temos ainda como hormônios que promovem o anabolismo, o hormônio do crecimento e o estrógeno.

Vale ressaltar que qualquer excesso de substrato, seja ela glicose, aminoácido ou ácido graxo, se não forem queimados como combustível ou utilizados na formação de tecidos, será transformado em triglicérides e estocado no tecido adiposo ou gorduroso.

Anabolismo no diabetes

A insulina é um hormônio que estimula a entrada de glicose nas células e seu estoque na forma de glicogênio hepático. Muito se fala que a insulina engorda. Por que? A insulina além de estimular a entrada de glicose na célula, ela evita a quebra da gordura. Se a pessoa com diabetes ingerir mais calorias que necessita e aplicar a dose adequada de insulina para controlar a glicemia, esse excesso de caloria vai ser estocado na forma de gordura. O jeito para não engordar é manter a quantidade limitada de calorias e aplicar a dose de insulina conforme a quantidade de carboidratos ingeridos.

Anabolismo e testosterona

Outro hormônio que é praticamente sinônimo da palavra “anabolizante” é a testosterona. A testosterona estimula a formação de músculo (proteína) a partir dos aminoácidos.

É frequente o uso da testosterona e seus derivados nas academias para aumentar a musculatura. A administração de testosterona sem a precisa indicação médica pode causar graves problemas saúde. A reposição da testosterona deve ser feita apenas nos casos de deficiência desse hormônio quando não houver contraindicação.

Catabolismo

É o processo no qual as substâncias mais complexas são transformadas nas substâncias mais simples para serem utilizadas como fonte de energia para os processos fisiológicos. Há uma prioridade de utilização de um substrato em relação a outro pelos diversos tecidos, mas em condições de grande déficit calórico, tanto o glicogênio, como os triglicérides e as proteínas são utilizados liberar na circulação, respectivamente, a glicose, os ácidos graxos os aminoácidos, que servirão como fonte de energia.

Catabolismo no jejum e restrição calórica

No jejum prolongado ou dietas de muito baixa caloria, quando já esgotados os estoques de glicogênio, os triglicérides contidos no tecido gorduroso são quebrados para fornecer ácidos graxos livres que servirão como base para formação de corpos cetônicos, utilizados como fonte alternativa de energia.

Efeito do jejum sobre a quebra da gordura e formação de corpos cetônicos

Catabolismo na hipoglicemia e diabetes descompensado

Temos alguns exemplos de catabolimo no metabolismo da glicose: na hipoglicemia, o glicogênio hepático é “quebrado” para liberar moléculas de glicose.

No diabetes descompensado, temos um exemplo onde o catabolismo é predominante. A falta da insulina gera menor entrada de glicose na célula, aumento da glicemia e provocando glicosúria e perda calórica. Paralelamente, há quebra de gordura para formação de corpos cetônicos. Todo esse processo resulta em perda de peso, pela prepoderância do catabolismo sobre anabolismo. Sabendo disso, alguns pacientes reduzem deliberadamente a dose insulina para emagrecer, um transtorno alimentar perigoso chamado de diabulimia, que pode levar ao quadro de cetoacidose e complicações crônicas do diabetes.

Catabolismo nas doenças da tireoide

Finalizando os exemplos de aumento do catabolismo, temos o hipertireoidismo, que é um clássico modelo de perda de peso devido a causas hormonais. A relação entre tireoide e ganho ou perda de peso é sempre muito lembrada – mais no ganho que na perda. Para saber mais, te convido a ler o post relacionado: tireoide e peso.

Metabolismo e composição corporal

Anabolismo e catabolismo também podem ter um sentido mais amplo do que do consumo e armazenamento das moléculas, podendo também ser aplicado à maior formação ou destruição dos tecidos do organismo.

Se você quer saber qual a relação do metabolismo com o ganho ou a perda peso, confira o próximo post sobre o assunto!

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Tireoide e peso: qual a relação?

Atire a primeira pedra quem nunca procurou ou acha que o ganho de peso é culpa da tireoide. Sabe-se que há uma relação entre doença tiroidiana, peso corporal e metabolismo. Alguns pacientes perguntam se o problema deles é a “tireoide que engorda ou emagrece”. Vamos conversar brevemente sobre o assunto.

Baixos níveis de hormônio tiroidiano já foram associados com diminuição do metabolismo e ganho de peso altos níveis com metabolismo mais acelerado e consequente perda de peso.

Quando se fala em ganho de peso, nem toda variação de peso é problema de tireoide… na verdade, a maioria das pessoas não ganham peso por conta da redução do hormônio tireoidiano.

Porém, existem outras substâncias no organismo além dos hormônios tiroidianos que participam do gasto metabólico e não se pode predizer qual a parcela de contribuição da variação apenas  do peso em consequência apenas das variações desses hormônios.

HIPOTIROIDISMO E GANHO PESO 

Algum ganho de peso é associado com o hipotireoidismo. A causa do ganho de peso pode ser complexa e nem sempre relacionada a aumento de gordura, mas muito é devido ao acúmulo de sódio e água que propriamente gordura. Um ganho de peso expressivo é raramente associado ao hipotireoidismo. Em geral, 2,5 a 5,0 kg podem ser atribuídos ao hipotireoidismo, dependendo da gravidade do caso.

Se o ganho de peso é o único sintoma do hipotireoidismo, é pouco provável que esse aumento de peso se deva unicamente a deficiência do hormônio tiroidiano. Outros fatores como excesso de ingesta calórica – dou destaque aos alimentos ultraprocessados – de física devem ser sempre lembrados.

TIREOTOXICOSE E PERDA DE PESO

Já que grande parte do ganho de peso com hipotireoidismo é devido ao acúmulo de sal e água, é esperada uma pequena diminuição do peso (cerca de 10%) com o tratamento do hipotireoidismo com a reposição do hormônio tiroidiano. O peso geralmente volta aos patamares antes do início da doença.

De forma inversa ao hipotireoidismo, o excesso de hormônio tiroidiano, a tireotoxicose, seja na tireoidite no hipertiroidismo pode levar à perda de peso se o paciente não consegue consumir a quantidade de calorias para compensar o aumento do metabolismo. A perda de peso pode ocorrer também por dose excessiva de reposição do hormônio tiroidiano no hipotireoidismo. Uma vez que o hipertiroidismo aumenta o apetite, se a ingesta calórica suplantar o gasto metabólico (mesmo que elevado), alguns pacientes podem ganhar peso ao invés de perdê-lo.

Quando a tireotoxicose é resolvida, há recuperação do peso aos valores antes da doença. Isto é, se a pessoa emagreceu sem dieta, ela recupera o peso mesmo comendo de forma semelhante da época em que estava emagrecendo ou mantendo o peso sem grandes esforços.

Lembrando sempre que o uso de hormônio tiroidiano exclusivamente para perda de peso ou tratamento do hipotireoidismo com doses maiores que as recomendadas podem levar à perda de peso, porém a um preço perigoso para saúde. Não caia nessa cilada!

Referência

Thyroid and weight

Curso de tireoide

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Dieta cetogênica e massa muscular

Um estudo publicado recentemente em uma revista americana JCEM sobre o método espanhol avaliou e seu impacto na força  massa muscular após dieta cetogênica de muito baixa caloria cetogênica (método Pronokal)1 A dieta cetogênica simula o jejum pela restrição de carboidrato e proteínas com aumento relativo de proteína. Foram as conclusões do estudo:

  1. Perda de peso significativa ao longo de todo estudo, explicada por perda de massa gorda e gordura visceral
  2. Perda inicial discreta de massa livre de gordura (massa magra) devido principalmente a diminuição de água corporal , seguida por uma recuperação subsequente
  3. Preservação da força muscular durante o tratamento
  4. Correlação com os dados mostrado pela bioimpedância multifrequência tetrapolar com os da densitometria para avaliação da composição corporal
pronokal Exemplos de alimentos da dieta proteinada

Perguntas que o estudo quis responder:

  1. Quanto da perda de peso era devido à perda de gordura e de massa magra (ex – músculo, água, osso)
  2. Se os métodos para avaliação da composição corporal (densitometria, bioimpedância e pletismografia) são comparáveis.

Para isso foram estudados durante 4 meses vinte pacientes com obesidade e sem diabetes. O peso médio inicial foi de 95,9 kg. A composição corporal foi avaliada em 4 estágios:1. antes do início da dieta, 2. no período de máxima cetonemia, 3. No período de retorno da ingestão de carboidrato pela reintrodução da nutrição padrão e período de manutenção. O período de cetose durou de 60 a 90 dias.

Respostas à primeira pergunta:

  • Mesmo com pequena perda de massa magra, a força muscular foi preservada em qualquer fase do estudo e avaliada pelo preensão manual (hand grip);
    hand-grip Dinamômetro para avaliação da força muscular através da preensão manual
  • A perda de peso média final do estudo foi de 20 kg, sendo desses apenas um quilo um quilo de músculo. A avaliação das quantidades de gordura corporal e massa livre de gordura (composição corporal) foram avaliadas pelo método considerado mais aceito (DXA), e mais acessível (bioimpedância);
  • No início do tratamento há um aumento da diurese: uma das explicações é que na quebra de glicogênio (molécula que estoca a glicose) há perda hídrica, pois a glicogênio é armazenado juntamente com a molécula de água. Outra potencial explicação é que a perda de corpos cetônicos na urina leva consigo sódio e água. A perda de água intra e extracelular foi semelhante.

Resposta à segunda pergunta:

  • Os resultados obtidos pela avaliação da composição corporal por densitometria e bioimpedância foram semelhantes. Vale registrar que a bioimpedância utilizada foi a multifrequência tetrapolar. A pletismografia não está disponível na prática clínica.

Não esquecendo de mencionar que a redução de calorias associada à atividade física são fundamentais para o tratamento da obesidade.

Como conclusões, os autores afirmam que a perda de peso decorrente da dieta  cetogênica de muito baixa caloria é principalmente às custas de perda de gordura e gordura visceral, com preservação de massa e força muscular. Para a avaliação da composição corporal, a bioimpedância parece ser mais conveniente na prática clínica.

Sobre a dieta cetogênica, leia também:

Referência

1                      GOMEZ-ARBELAEZ, D.  et al. Body composition changes after very low-calorie-ketogenic diet in obesity evaluated by three standardized methods. J Clin Endocrinol Metab, p. jc20162385, Oct 2016. ISSN 1945-7197.

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