Hipoglicemia em pessoas sem diabetes

Atualizado em novembro de 2019

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O que é hipoglicemia e como é feito o diagnóstico?

A hipoglicemia é uma situação de queda nos níveis de glicose no sangue a patamares muito baixos. Não é uma doença por si só, mas um sintoma de algum problema subjacente.

É muito comum que algum mal estar associado a tontura, tremores e ansiedade sejam logo rotulados como hipoglicemia. Mas para que esse diagnóstico seja feito, são necessários alguns critérios.

Para o diagnóstico de hipoglicemia clinicamente significativa, é necessário observar a presença de três condições (Tríade de Whipple):

  1. Que a glicemia esteja baixa, abaixo de 55mg/dL
  2. Que haja sintomas e sinais de hipoglicemia, tais como: fome, tremores, ansiedade, tontura, sudorese, irritabilidade, confusão mental ou nervosismo, fraqueza. Em casos graves, convulsão e desmaios;
  3. Que esses sintomas e sinais desapareçam após a resolução da hipoglicemia.

Em pessoas com diabetes, a hipoglicemia ocorre quando há um excesso de insulina injetada ou da ingestão indevida ou exagerada de medicamentos que estimulam a liberação de insulina pelo próprio pâncreas do paciente (secretagogos de insulina).

A glicose é o principal combustível do organismo e a insulina facilita a entrada da glicose dentro das células, por isso os sintomas podem afetar diversos órgãos.

Avaliação inicial da hipoglicemia

Para a avaliação inicial de hipoglicemia, observa-se se a pessoa está doente ou se aparenta estar saudável. Dessa forma, podemos considerar as seguintes causas, dependendo de cada contexto:

Indivíduo doente ou medicado

Uso de medicações ou drogas
  • insulina ou secretagogos de insulina
  • álcool;
  • outros.
Doenças graves
  • insuficiência hepática, renal ou cardíaca;
  • infecções graves;
  • desnutrição.
Deficiência hormonal
  • cortisol;
  • glucagon e adrenalina (em pacientes com diabetes insulinodependentes);
  • tumores que não são da ilhota pancreática

Indivíduo aparentemente saudável

Hiperisulinemia endógena (produzida pelo próprio pâncreas)
  • Insulinoma;
  • Desordens funcionais da célula beta (nesidioblastose);
    • hipoglicemia pacreatogênica não-insulinoma;
    • pós cirurgia bariátrica (por by pass gástrico ou Y de Roux e menos frequentemente por Sleeve ou gastrectomia vertical);
  • Hipoglicemia autoimune;
    • anticorpos contra insulina;
    • anticorpos contra receptor de insulina.

Acidental, furtivo ou malicioso. Nos dois últimos casos, o paciente provoca a propria hipoglicemia de maneira programada.

Hipoglicemia em pessoas sem diabetes

A hipoglicemia é mais comum em pessoas com diabetes, mas pode acontecer também em pessoas que não têm diabetes. Essa última condição é muito mais rara, mas vem sendo observada cada vez mais frequentemente devido ao aumento do número de pessoas que foram submetidas à cirurgia bariátrica.

Há basicamente dois tipos de hipoglicemia em pessoas sem diabetes:

  1. Hipoglicemia pós-prandial: acontece até quatro horas após uma alimentação;
  2. Hipoglicemia de jejum – que pode estar relacionada a uma doença.

É possível que os sintomas de hipoglicemia estejam presentes na ausência de níveis baixos de glicose, mas se não houver confirmação de glicemia baixa, o diagnóstico de hipoglicemia não pode ser dado.

Classificação da hipoglicemia em pessoas sem diabetes

Hipoglicemia pós refeição (também conhecida por hipoglicemia reativa) pode ser causada por:
  • Ter pré-diabetes ou ter fatores de risco para diabetes, que podem levar a quantidades de liberação de insulina excessivas e não sincronizadas ao aumento da glicemia após a refeição. A existência dessa condição é controversa na literatura, pois raramente se observam baixos níveis de glicose durante a manifestação dos sintomas desconfortáveis sugestivos de hipoglicemia. Para esses casos, há descrita a síndrome pós-prandial, que diz respeito à presença dos sintomas do sistema nervoso simpático (ansiedade, fraqueza, tremor, sudorese ou palpitação) após o teste de tolerância à glicose oral (TTGO) – o mesmo teste que é utilizado para o diagnóstico de diabetes. Essa doença foi desacreditada na literatura, pois evidências científicas não correlacionaram os sintomas descritos pelos pacientes às quedas de glicose e aumento de hormônios como adrenalina e cortisol;
  • Cirurgia no estômago que faz com que a comida passe rapidamente para o intestino delgado e libere a insulina antes da absorção da glicose do alimento. Como exemplo, é possível citar a cirurgia bariátrica com desvio do trânsito alimentar (by pass) ou sem sleeve (gastrectomia vertical);
  • Deficiências raras de enzimas que metabolizam os nutrientes dos alimentos.
  • Insulinoma, que mais comumente causa hipoglicemia em jejum, mas pode causar também no período pós-prandial.
Hipoglicemia de jejum

Pode ser causada por:

  • Medicamentos, tais como salicilatos (contidos em analgésicos), medicamentos contendo sulfas (alguns antibióticos), pentamidina (para tratamento de um tipo de pneumonia), quinidina (para tratamento malária);
  • Consumo de álcool em excesso;
  • Graves doenças do rim, fígado, coração;
  • Baixos níveis de hormônios, tais como cortisol, hormônio do crescimento, glucagon ou adrenalina;
  • Tumores, tais como um tumor em pâncreas que produza muita insulina ou um tumor que produza um hormônio semelhante à insulina, chamado IGF1.

Como diferenciar os tipos de hipoglicemia?

Para saber de que tipo de hipoglicemia se trata cada caso, o médico avalia primeiro se a história clínica é sugestiva de hipoglicemia e os fatores que melhoram e os que pioram os sintomas.
O valor da glicemia é fundamental. Portanto, testes laboratoriais são sempre solicitados

O teste a ser realizado para a confirmação da hipoglicemia depende se os sintomas sugestivos de hipoglicemia tenham sido após a refeição (hipoglicemia reativa) ou no jejum.

Teste para o diagnóstico de hipoglicemia reativa (pós-prandial)

Hipoglicemia pós prandial: um teste chamado de teste da refeição mista, que contém carboidratos, proteínas e gorduras deverá ser realizado na suspeita da hipoglicemia reativa; é uma alimentação que simula uma refeição normal. Muitos médicos solicitam a curva glicêmica com a ingestão de glicose com dosagem da glicemia de hora em hora. Importante frisar que  o teste de curva glicêmica prolongada NÃO é recomendado para investigação desse tipo de hipoglicemia.

Teste para o diagnóstico de hipoglicemia de jejum

Para hipoglicemia de jejum – a medida da glicose deve ser realizada durante jejum, que poderá ser prolongado por várias horas para confirmação da hipoglicemia. Esse teste pode durar até 72 horas e deve ser supervisionado por um profissional de saúde. Durante o teste, é permitido o consumo de bebidas sem calorias.

Em ambos os testes, além da glicemia e da insulina, outras substâncias podem ser dosadas no sangue para auxiliar na investigação da causa da hipoglicemia, como a insulina e o peptídeo C. O peptídeo C está elevado quando há aumento da secreção de insulina pelo pâncreas. Para saber mais sobre a dosagem de insulina e peptídeo C, confira o post relacionado.

O peptídeo C é o fragmento resultante da quebra da pro-insulina. A insulina subcutânea não contém o peptídeo C e por isso a dosagem do peptídeo C reflete a insulina produzida pelo pâncreas.

O uso de aparelhos para medição de glicemia capilar – aqueles testes que as pessoas com diabetes fazem pelo sangue da picada da ponta dos dedos – podem ser utilizados para detecção da hipoglicemia, mas a sua confirmação do diagnóstico e e orientação da causa são feitos apenas pelos testes de laboratório durante uma hipoglicemia, seja ela de jejum ou pós-refeição.

Como é o tratamento das hipoglicemias?

  • O tratamento vai depender da causa da hipoglicemia. Por exemplo, se for um tumor produtor de insulina, o tratamento é cirúrgico. Se a causa for por medicamentos, deve-se considerar a troca ou suspensão dos remédios.
  • Medicações como acarbose, análogos de somatostatina, diazóxido e liraglutida (análogo do GLP1) podem ser consideradas para o tratamento da hipoglicemia pós-prandial

Durante a crise de hipoglicemia, o tratamento imediato deve ser feito da mesma forma, independente de qual seja a causa. Se a pessoa estiver acordada, deve ingerir 15 gramas de carboidrato na forma de sucos, glicose pura ou doces.

Algumas dicas para evitar a hipoglicemia pós-prandial

A hipoglicemia pós-refeição está relacionada a um descompasso entre a subida da glicose no sangue e o pico exagerado e tardio da insulina estimulada por esse pico de glicose. Dito isso, é importante evitar o estímulo do pico da insulina pela redução do pico de glicose. Em linhas gerais, orienta-se:

  • Fracionamento da dieta em pequenas porções a cada duas ou três horas;
  • Variar alimentos, incluindo proteínas e alimentos ricos em fibras;
  • Limitar a quantidade de alimentos doces de alto índice glicêmico para evitar a hipoglicemia reativa.

Uma lembrança importante: as recomendações dietéticas devem ser sempre discutidas com o seu médico e o seu nutricionista.

Em resumo, a hipoglicemia acontece mais raramente em pessoas sem diabetes, seu diagnóstico depende da confirmação de níveis baixos de glicose no sangue através de testes apropriados, e o tratamento vai depender da causa da hipoglicemia. Consulte o seu médico de confiança ou procure um endocrinologista para a confirmação do diagnóstico, se você tem suspeita de hipoglicemia.

Referências
  1. http://www.diabetes.org.br/para-o-publico/hipoglicemia
  2. http://www.fleury.com.br/medicos/educacao-medica/revista-medica/materias/Pages/endocrinologia-nova-prova-funcional-ajuda-a-estudar-o-metabolismo-da-glicose.aspx
  3. CRYER, P. E.  et al. Evaluation and management of adult hypoglycemic disorders: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab, v. 94, n. 3, p. 709-28, Mar 2009. ISSN 1945-7197.
  4. http://cursoenarm.net/UPTODATE/contents/mobipreview.htm?3/11/3263/abstract/11
  5. http://www.hormone.org/questions-and-answers/2013/nondiabetic-hypoglycemia

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