Diabetes, Temas gerais em endocrinologia

Hipoglicemia em pessoas sem diabetes

Atenção: esse texto aborda a hipoglicemia em pessoas sem diabetes. Se você está à procura de informações de hipoglicemia sem sintomas em pessoas com diabetes, veja o post: hipoglicemia sem sintomas no diabetes

A hipoglicemia é uma condição de baixos níveis de glicose no sangue. Não é uma doença por si só, mas um sintoma de algum problema subjacente.

Para o diagnóstico de hipoglicemia, são necessárias a presença de três condições (Tríade de Whipple):

1. Que a glicemia esteja baixa, abaixo de 55mg/dL

2. Que haja sintomas e sinais de hipoglicemia, tais como: fome, tremores, ansiedade, tontura, sudorese, irritabilidade, confusão mental ou nervosismo, fraqueza. Em casos graves, convulsão e desmaios;

3. Que esses sintomas e sinais desapareçam após a resolução da hipoglicemia.

Em pessoas com diabetes, a hipoglicemia ocorre quando há um excesso de medicamentos que liberam insulina ou da própria insulina injetada. A glicose é o principal combustível do organismo e a insulina facilita a entrada da glicose dentro das células.

Para avaliação inicial de hipoglicemia, deve-se considerar se a pessoa está doente ou aparenta estar saudável. Dessa forma podemos considerar as seguintes causas:

Indivíduo doente ou medicado

Drogas

  • insulina ou secretagogos de insulina
  • álcool
  • outros

Doenças graves

  • insuficiência hepática, renal ou cardíaca
  • infecções graves
  • desnutrição

Deficiência hormonal

  • cortisol
  • glucagon e adrenalina (em pacientes com diabetes insulinodependentes)
  • tumores que não são da ilhota pancreática

Indivíduo aparentemente saudável

Hiperisulinemia endógena

  • Insulinoma
  • Desordens funcionais da célula beta (nesidioblastose)
    • hipoglicemia pacreatogênica não-insulinoma
    • pós cirurgia bariátrica (por técnica de by pass)
  • Hipoglicemia autoimune
    • anticorpos contra insulina
    • anticorpos contra receptor de insulina

Acidental, furtivo ou malicioso

De longe, a hipoglicemia é mais comum em pessoas com diabetes, mas pode acontecer também em pessoas que não têm diabetes. Essa última condição é rara. Há basicamente dois tipos de hipoglicemia em pessoas sem diabetes:

  1. Hipoglicemia pós-prandial: acontece até quatro horas após uma alimentação
  2. Hipoglicemia de jejum – que pode estar relacionada a uma doença

É possível que os sintomas de hipoglicemia estejam presentes na ausência de níveis baixos de glicose, mas se não houver confirmação de glicemia baixa, o diagnóstico hipoglicemia não pode ser dado.

POSSÍVEIS CAUSAS CONFORME HIPOGLICEMIA DE JEJUM OU PÓS PRANDIAL

Hipoglicemia pós refeição (também conhecida por hipoglicemia reativa):

  • Ter pré-diabetes ou ter fatores de risco para diabetes, que pode levar a quantidades de liberação de insulina excessivas e não sincronizadas ao aumento da glicemia após a refeição. A existência dessa condição é controversa na literatura, pois raramente se observam baixos níveis de glicose durante os sintomas. Há descrito para esses casos a síndrome pós-prandial descrita como a presença de sintomas do sistema nervoso simpático (ansiedade, fraqueza, tremor, sudorese ou palpitação) após o teste de tolerância à glicose oral (TTGO) utilizado para diabetes. Esse diagnóstico foi desacreditado, pois evidências científicas não correlacionaram os sintomas às quedas de glicose e aumento de hormônios como adrenalina e cortisol;
  • Cirurgia no estômago que faz com que a comida passe rapidamente para o intestino delgado e libere a insulina antes da absorção da glicose do alimento – como exemplo, temos a cirurgia bariátrica com desvio do transito alimentar (by pass);
  • Deficiências raras de enzimas que metabolizam os nutrientes dos alimentos.
  • Insulinoma – mais comum causar hipoglicemia em jejum, mas pode causar também no pós-prandial.

Hipoglicemia de jejum:

  • Medicamentos, tais como salicilatos (contidos em analgésicos), medicamentos contendo sulfas (alguns antibióticos), pentamidina (para tratamento de um tipo de pneumonia), quinidina (para tratamento malária);
  • Consumo de álcool em excesso;
  • Graves doenças do rim, fígado, coração;
  • Baixos níveis de hormônios, tais como cortisol, hormônio do crescimento, glucagon ou adrenalina;
  • Tumores, tais como um tumor em pâncreas que produza muita insulina ou um tumor que produza um hormônio semelhante à insulina, chamado IGF1.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

O médico através da investigação da história clínica sugestiva de hipoglicemia ou condições que levem ao aumento do risco da queda da glicose, melhora desses sintomas com a ingestão de alimentos ou bebidas que aumentem a glicemia, associado à solicitação de testes para a confirmação da hipoglicemia, poderá fazer esse diagnóstico.

O teste realizado para a confirmação da hipoglicemia dependerá se for hipoglicemia reativa ou em jejum.

Hipoglicemia pós prandial: um teste chamado de testes da refeição mista, que contém carboidratos, proteínas e gorduras deverá ser realizado. Importante: o teste de curva glicêmica prolongada NÃO é recomendado para investigação desse tipo de hipoglicemia.

Para hipoglicemia de jejum – a medida da glicose deve ser realizada durante jejum, que poderá ser prolongado por várias horas para confirmação da hipoglicemia. Esse teste pode durar até 72 horas, deve ser supervisionado por um profissional de saúde. Durante o teste é permitido o consumo de bebidas sem calorias.

Em ambos os testes, além da glicemia e insulina, outras substâncias podem ser dosadas no sangue para auxiliar na investigação da causa da hipoglicemia, como a insulina e o peptídeo C.

O uso de aparelhos para medida de glicose capilar (glicosímetros) podem ser utilizados para detecção da hipoglicemia, mas sua confirmação é feita apenas pelos testes de laboratório durante uma hipoglicemia.

E QUANTO AO TRATAMENTO?

  • O tratamento vai depender da causa da hipoglicemia. Por exemplo, se for um tumor produtor de insulina, o tratamento é cirúrgico. Se a causa for por medicamentos, deve-se considerar a sua troca ou suspensão.
  • Medicações como acarbose podem ser consideradas no tratamento da hipoglicemia pós-prandial

Para o tratamento imediato da hipoglicemia, deve ingerir 15 gramas de carboidrato na forma de sucos, glicose ou doces.

ALGUMAS DICAS PARA EVITAR A HIPOGLICEMIA

  • Fracionamento da dieta em pequenas porções a cada de horas
  • Variar alimentos, incluindo proteínas, alimentos ricos em fibras
  • Limitar a quantidade de alimentos doces de alto índice glicêmico para evitar hipoglicemia reativa

Importante: As recomendações dietéticas devem ser sempre discutidas com o seu médico e nutricionista.

Em resumo, a hipoglicemia acontece mais raramente em pessoas sem diabetes, seu diagnóstico depende da confirmação de níveis baixos de glicose no sangue através de testes apropriados, e o tratamento vai depender da causa da hipoglicemia. Consulte o seu médico de confiança ou procure um endocrinologista.

 

Referências:

  1. http://www.diabetes.org.br/para-o-publico/hipoglicemia
  2. http://www.fleury.com.br/medicos/educacao-medica/revista-medica/materias/Pages/endocrinologia-nova-prova-funcional-ajuda-a-estudar-o-metabolismo-da-glicose.aspx
  3. CRYER, P. E.  et al. Evaluation and management of adult hypoglycemic disorders: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab, v. 94, n. 3, p. 709-28, Mar 2009. ISSN 1945-7197.
  4. http://cursoenarm.net/UPTODATE/contents/mobipreview.htm?3/11/3263/abstract/11
  5. http://www.hormone.org/questions-and-answers/2013/nondiabetic-hypoglycemia

Atualizado em 17/11/2017

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