Todos os posts de Dra. Suzana Vieira

Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá

Análogos de insulina para diabetes tipo 1

Secreção de insulina basal e prandial

Para iniciar a discussão sobre os análogos de insulina, precisamos pincelar os perfis de secreção de insulina em pessoas sem diabetes.

Em pessoas sem diabetes, o pâncreas secreta insulina em dois padrões:

Insulina basal – mantém o metabolismo em estado anabólico; é uma secreção contínua nas 24h do dia;

Insulina prandial – picos de liberação para a captação de nutrientes da refeição, principalmente carboidratos.

No tratamento do diabetes tipo 1, o grande desafio é mimetizar os dois padrões de secreção fisiológica de insulina pelo pâncreas normal. Para isso, dois tipos de insulina são necessários: um de ação mais lenta que imitaria a insulina basal e outra de ação mais rápida, que faria o papel da insulina prandial.

Terapia insulínica basal-bolus

A insulina basal é administrada de forma independente da refeição e a insulina prandial em “bolus” antes de cada refeição. Esse esquema da utilização de dois tipos de insulina é conhecido como basal-bolus.

A insulina de ação rápida também pode ser usada para reduzir os níveis de glicemia para valores menores quando há um grande aumento dos seus níveis (hiperglicemia). Essa é a insulina de correção, que vem para corrigir o pico de glicose, enquanto a dose de insulina prandial é utilizada para prevenir o pico pós-refeição.

Na hipoglicemia, o pâncreas deixa de secretar insulina (endógena). Em pessoas com diabetes que fazem uso de insulina exógena na forma de injeções, a queda dos níveis de glicose não tem ação sobre a quantidade de insulina circulante. A falta desse feedback  negativo (ausência da ação da insulina na hipoglicemia) é uma das complicações do tratamento no diabetes tipo 1 que foi minimizada com a chegada dos análogos de insulina.

Insulinas subcutâneas

A descoberta da insulina foi um marco na vida de vários pacientes diabéticos e um grande avanço na medicina. A história da descoberta da insulina por Banting e Best em 1921 está em um post especial.

De lá para cá, a produção de novos tipos de insulinas só vem avançando. Entretanto, o uso de insulinas modernas não é uma realidade para a maioria dos pacientes. Dessa forma, é necessário incluir nesse post as insulinas humanas também para diferenciá-las dos análogos.

Insulinas humanas

Insulina regular

A insulina regular tem a mesma estrutura da insulina produzida pelo pâncreas: seis monômeros em torno de um íon de zinco que formam juntos um hexâmero. . Ela surgiu da forma que conhecemos hoje por engenharia genética no final dos anos 70.

Quando administrada diretamente no sangue, os hexâmeros da insulina regular rapidamente se dissociam em monômeros, forma que interage imediatamente com o receptor de insulina para exercer sua ação de facilitar a entrada de glicose nas células.

Se administradas no tecido subcutâneo, os hexâmeros devem se dissociar em monômeros para então serem reabsorvidos pela corrente sanguínea. Essa necessidade de dissociação, faz com que haja um atraso no início de ação da insulina e um “desencontro” do pico de glicemia do alimento com o pico de ação de insulina, motivo pelo qual a insulina regular deve ser administrada pelo menos 30 minutos antes da refeição.

Insulina humana NPH (Neutral Protamin Hagedorn)

Em 1936, Hans Hagedorn e B. Norman Jensen descobriram que o efeito da insulina dos extratos de pâncreas animal poderia ser prolongado pela adição de uma substância chamada protamina, isolada do esperma de peixes, e misturada em proporções exatas com zinco e fenol. Essa mistura mantém o pH neutro e forma cristais que lentificam a absorção e prolonga o tempo de ação.  A insulina NPH tem esse nome como acrônimo de Neutral Protamine Hagedorn). Surgia assim uma insulina de ação mais lenta que é ainda é utilizada para mimetizar a insulina basal. Essa tecnologia foi utilizada depois para a insulina humana NPH.

Como principais limitações principais da insulina NPH, temos a grande variabilidade de sua ação, necessidade de lanches entre as refeições e a não cobertura das 24h por uma única dose diária. O risco de hipoglicemia noturna também é maior que com a insulina NPH que com as insulinas análogas.

Análogos de insulina

Nos últimos 20 anos, tomando como base as insulinas humanas, novas insulinas foram criadas por mudanças nas suas estruturas moleculares que modificam características com o tempo para o início ou a duração de ação, as chamadas insulinas análogas ou análogos de inulina. De semelhante modo às insulinas humanas, temos insulinas de ação rápida e de ação lenta (Fig 1).

Análogos de insulina de ação rápida

Disponíveis na década de 90, os análogos de insulina de ação rápida são modificações da molécula da insulina humana para que os hexâmeros se dissociem mais rapidamente em monômeros.

Insulina asparte, insulina lispro e glulisina

Os representantes da classe dos análogos de insulina de ação rápida são as insulinas asparte, insulina lispro e glulisina.

Essas insulinas, por terem um início de ação mais rápido e menor tempo de duração, “cobrem” de forma mais adequada o aumento da glicemia após uma refeição. Devido à essa característica, podem ser administradas de 15 minutos antes até imediatamente após a refeição, o que melhora a flexibilidade da administração e aumenta a satisfação do paciente com o seu tratamento.

Adicionalmente, há menor risco de hiperglicemia pós-prandial e hipoglicemia noturna quando se compara a utilização dos análogos de insulina rápida em comparação com a insulina regular.

Insulina asparte ultrarrápida

Em 2020, chegou ao Brasil a insulina asparte de ação ultrarrápida, comercializada sob o nome de insulina Fiasp. A nova insulina asparte tem de diferente a adição da vitamina B3 (nicotinamida) e o aminoácido L-arginina à molécula da antiga aspart (figura 1). Com isso, os monômeros dessa nova insulina se dissociam mais rapidamente que todas as insulinas anteriores. Isso permite que a sua administração de dois minutos antes da refeição, no momento da refeição ou até 20 minutos após.

analogos insulina DM1
Figura 1. Diferenças entre diversas insulinas humanas e análogas em relação à estrutura molecular, velocidade de absorção e tempo de ação

Na Figura 2, temos o gráfico comparativo das concentrações no sangue dos diversos tipos de insulina prandiais.

analogos insulina DM1
Figura 2. Concentração no sangue das insulinas de ação rápida. Comparadas com a insulina humana regular, as insulinas aspart, lispro e glulisina tem um início de ação mais rápida, um pico mais alto de concentração e uma duração menor.

As insulinas asparte e lispro são as de eleição para o sistema de infusão contínua ou bomba de insulina. Nesse tipo de terapia, pequenas doses de insulina de ação rápida são liberadas de forma contínua por um dispositivo para mimetizar a insulina basal, e quando necessário, doses maiores são administradas (bolus) para cobrir as refeições ou corrigir a hiperglicemia.

bomba de insulina
Fig 3. Exemplo de sistema de infusão contínua de insulina (bomba de insulina)

Análogos de insulina ação prolongada

Essas insulinas foram desenhadas para terem um tempo maior de ação e serem injetadas uma vez ao dia. Por terem menor variabilidade que a insulina NPH, os análogos de insulina conferem menor risco de hipoglicemia (notadamente, a hipoglicemia noturna).

Insulina glargina

Foi o primeiro análogo de insulina desenvolvido e uma das insulinas mais prescritas. No recipiente, o pH da solução de insulina é ácido. Quando administrada no tecido subcutâneo, que têm o pH neutro, a insulina forma agregados que vão lentamente liberam seus hexâmeros. A primeira apresentação disponível é a glargina U100 (100 unidades em 1ml de solução). Recentemente, foi lançada a insulina glargina U300 (300 unidades em 1ml de solução) que leva mais tempo que a insulina glargina U100 para liberar toda quantidade de insulina injetada, prolongando sua duração.

Insulina detemir

As modificações na estrutura molecular dessa insulina permitem a disposição da insulina em di-hexâmeros no local da injeção e a ligação a uma molécula de albumina na corrente sanguínea. Essas duas características conferem um prolongamento do tempo de ação da insulina detemir em relação ao da insulina NPH.

O tempo de ação médio da insulina detemir é de 21,5 horas. Uma proporção maior de pacientes precisará de duas doses de insulina para cobrir as necessidades basais diárias de insulina em comparação à insulina glargina. Entretanto, estudos que compararam pacientes usando duas doses de detemir versus uma dose de insulina glargina, demostraram menor risco de hipoglicemia noturna com a insulina detemir.

Insulina degludeca 

É um análogo de insulina mais recente. A insulina degludeca quando aplicada no subcutâneo, forma uma longa cadeia de hexâmeros (multi-hexâmeros) e ainda se liga à albumina. Uma vez atingido o estado de equilíbrio, a insulina degludeca pode ter duração de ação de até 48h. Essa ação ultraprolongada permite que a insulina seja administrada uma vez ao dia em horários diferentes. Também foram observadas menores taxas de hipoglicemia noturna com a insulina degludeca quando comparada à insulina glargina.

Figura 4. Tempo de duração da inulina NPH e análogos de insulina de longa duração

As insulinas humanas e os análogos de insulina aspart, lispro e detemir podem ser utilizados na gravidez.

Os prós e contras do uso de análogos de insulina versus insulinas humanas

INSULINAS DE AÇÃO RÁPIDA

Favorecem análogos de insulina versus insulinas humanas

  • Insulinas de longa duração
  • Rápido início de ação
  • Controle da glicose pós refeição
  • Curta duração
  • Menor risco de hipoglicemia diurna
  • Não há necessidade de lanches
  • Menor risco de hipoglicemia noturna
  • Flexibilidade (injeções no horário da refeição)
  • Uso de infusão subcutânea contínua (bomba de insulina)

Por terem menor risco de hipoglicemia. é uma estratégia para reversão da hipoglicemia sem sintomas de alerta.

Favorecem insulinas humanas versus insulinas análogas

  • Custo
  • Experiência clínica
  • Acesso (disponibilidade no sistema público)

INSULINAS DE AÇÃO LENTA

Favorecem análogos de insulina versus insulinas humanas

  • Duração da ação
  • Sem pico de ação
  • Variabilidade da resposta
  • Menor risco de hipoglicemia
  • Sem necessidade de lanches
  • Menor risco de hipoglicemia noturna
  • Maior flexibilidade
  • Disponibilidade em formas concentradas

Favorecem insulinas humanas versus insulinas análogas

  • Custo
  • Experiência clínica
  • Acesso (disponibilidade no sistema público)

Considerações finais

O desenvolvimento dos análogos de insulina e toda tecnologia hoje disponível para o tratamento do diabetes tipo 1 trouxe mais segurança ao tratamento através dos menores índices de hipoglicemia, maior flexibilidade e satisfação com o tratamento. Efeito positivo também foi observado em relação ao menor ganho de peso com a insulinoterapia. Vale a pena lembrar que o tipo de insulina, dispositivos, utilização de monitorização de glicose, sejam eles antigos ou modernos, por vezes não são suficientes para atingir o bom controle da glicemia. A educação em diabetes ainda persiste como um grande desafio, e sem dúvida é uma peça indispensável na conquista diária do bom controle da glicemia.

Referência

MATHIEU, C.; GILLARD, P.; BENHALIMA, K. Insulin analogues in type 1 diabetes mellitus: getting better all the time. Nat Rev Endocrinol, Apr 2017. ISSN 1759-5037.

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Suzana

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Baixa massa óssea na pré-menopausa

A osteoporose é uma doença óssea caracterizada pela alteração na qualidade e quantidade (massa óssea) do osso acompanhada pelo aumento do risco de fraturas. É mais comum em mulheres na pós-menopausa e o diagnóstico é feito através do exame de densitometria óssea.

Nas mulheres na pós-menopausa, a correlação de baixa densidade mineral óssea e fratura é bem estabelecida. O mesmo não acontece para mulheres na pré-menopausa, isto é, não existe associação clara entre baixa densidade mineral óssea na densitometria e aumento do risco de fraturas.

Não se deve usar o termo “osteoporose” ou “osteopenia” para mulheres nessas condições em que só se tem a imagem alterada, apenas quando já ha evidência de fraturas ósseas. 

O achado de baixa massa óssea em mulheres jovens deve direcionar para a procura de causas secundárias, tais como:

Há várias outras potenciais causas para baixa densidade mineral óssea. Na maioria dos casos em que há esse achado na densitometria, alguma causa é detectada antes de considerar que a baixa massa óssea é de origem idiopática (desconhecida).

Uma causa genética para baixa massa óssea que pode vir com história de fraturas aos traumas mínimos é a osteogênese imperfeita.

A Sociedade Internacional para Densitometria Clinica (ISCD) recomenda a realização de Densitometria óssea em mulheres com reconhecida causa de osteoporose (osteoporose secundária) ou perda óssea detectada por outro meio. Apesar de não recomendada a realização de densitometria óssea como rastreamento em mulheres pré-menopausa, muitas mulheres realizam esse teste por várias razões.

Na ausência de fatores de risco para perda óssea, a densitometria deve ser solicitada para mulheres acima de 65 anos.

Em mulheres a partir dos 40 anos, os fatores de risco podem ser calculados pela ferramenta FRAX.

Caso a densitometria óssea seja realizada na pré-menopausa, a avaliação da massa óssea deve ser feita utilizando-se o índice Z em lugar do índice T.

LAUDO DO
Exemplo de laudo de densitometria óssea com destaque para o índice Z

O índice Z compara a massa óssea de pessoas do mesmo sexo, etnia e faixa etária. O índice T, por sua vez, compara a massa óssea indivíduos mais idosos em relação aos mais jovens.

Um índice Z menor que -2 deve ser caracterizado como “abaixo do esperado para a idade”, e o diagnóstico seria de “baixa massa óssea” em lugar de osteoporose ou osteopenia.

A partir desse achado, deve-se investigar causas para a menor massa óssea, conforme listado acima.

Em mulheres com baixa massa óssea e sem história de fratura por fragilidade (aquela que ocorre por força equivalente a cair da própria altura ou menos), a abordagem do fator causador da baixa massa óssea deve ser priorizada, sendo o tratamento padrão para osteoporose utilizado para mulheres na pós-menopausa raramente justificado.

Referências

ABRAHAM, A.; COHEN, A.; SHANE, E. Premenopausal bone health: osteoporosis in premenopausal women. Clin Obstet Gynecol, v. 56, n. 4, p. 722-9, Dec 2013. ISSN 1532-5520. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24022503 >.

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Calculadora do risco de fratura – FRAX 2.0
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Esteatose hepática – gordura no fígado

Por Dra. Regiane Saraiva

A esteatose hepática caracteriza-se por um acúmulo de gordura nas células do fígado, também chamada de infiltração gordurosa ou doença gordurosa do fígado. É muito comum e pode ser dividida em:

# Alcoólica (quando há abuso na ingestão de bebida alcoólica)

# Não alcoólica (quando não existe história de ingestão de álcool significativa)

A esteatose hepática não alcoólica pode ser causada por:

A esteatose não alcoólica atinge cerca de 20% da população geral e cerca de 60% das pessoas obesas. Mais de 70% dos pacientes com esteatose são obesos, e quanto maior o sobrepeso, maior o risco. A esteatose é mais comum em mulheres, provavelmente por ação do estrogênio.

Esteatose inicial ou leve é quando ocorre pequena deposição de gordura no fígado, se essa gordura persistir por um tempo prolongado ou se houver um maior acúmulo de gordura, pode acarretar dano às células do fígado, com inflamação, que chamamos de esteato-hepatite. Ou seja, após vários anos de esteatose pode ocorrer uma “hepatite” pelo excesso de gordura. A esteato-hepatite é um quadro bem mais preocupante que a esteatose, pois pode evoluir para cirrose hepática em cerca de 20% dos casos, que é a complicação mais temida da esteatose hepática

historia natural

Tanto a esteatose como a esteato-hepatite não tem sintomas e com frequência são descobertas por uma ultrassonografia abdominal de rotina, ou na investigação de alteração de exames laboratoriais relativos ao fígado. O médico pode suspeitar de esteatose pela história clínica, exame físico do paciente, com detecção do fígado aumentado, ou por aumento da circunferência abdominal pelo acúmulo de gordura. Alguns pacientes com esteatose queixam-se de fadiga e sensação de peso ou desconforto no abdome superior direito, porém não há evidências que esses sintomas estejam relacionados ao acúmulo de gordura no fígado, pois pacientes com graus avançados de esteatose geralmente não apresentam nenhum sintoma.

A ultrassonografia costuma indicar o grau de esteatose hepática, sendo:

  • Grau 1 ou leve: quando há pequeno acúmulo de gordura
  • Grau 2: quando há um acúmulo moderado de gordura no fígado
  • Grau 3: quando ocorre grande acúmulo de gordura no fígado.

Essa graduação não é muito precisa, pois a avaliação é subjetiva, depende do equipamento e da experiência do médico que faz o exame, mas ajuda na avaliação da intensidade da gordura e no seguimento, para verificar se houve melhora com o tratamento. Não é possível diferenciar casos de esteatose da esteato-hepatite, nem das outras causas de hepatite pelos exames de imagem. Na ultrassonografia consegue-se ver bem a gordura, mas ela não possui sensibilidade suficiente para se descartar ou confirmar a presença de inflamação no fígado, nem saber o grau de lesão do fígado.

Quando o ultrassom ou tomografia mostram esteatose é preciso fazer exames complementares para avaliar a presença de inflamação e identificar a causa da esteatose.

O grau de esteatose ao ultrassom não é proporcional à gravidade do quadro, o paciente pode ter esteatose grau 1 e ter muita inflamação ou ter grau 3 e não apresentar inflamação hepática. A presença de inflamação é mais importante do que a quantidade de gordura, sendo investigada através de exames de sangue para avaliação do fígado, que são as enzimas hepáticas (TGO e TGP ou AST e ALT) e outros marcadores de doença do fígado como a gama GT.

A confirmação do diagnóstico de esteato-hepatite é feito pela análise histológica de um fragmento do fígado, retirado através da biópsia hepática. Este procedimento costuma ser indicado apenas nos pacientes com as enzimas hepáticas elevadas, com maior risco de esteato-hepatite e fibrose hepática como consequência da inflamação.

A esteatose e a esteato-hepatite são doenças reversíveis, desde que ainda não tenham provocado fibrose no fígado. A associação da esteatose hepática com hepatite B ou C, colestase, doenças metabólicas ou autoimunes pode facilitar a evolução para a cirrose. Por isso é muito importante a identificação da esteatose e tratamento adequado.

Tratamento:

Não há até o momento um tratamento específico para a esteatose. Dessa forma, o tratamento se concentra na causa, ou seja, o diabetes, os níveis elevados de colesterol e triglicerídeos, a obesidade. Isso inclui uso de medicamentos, quando necessário, e uma mudança de hábitos de vida, com perda de peso, reeducação alimentar e realização de atividade física, além de acompanhamento médico regular.

Geralmente a medida mais eficaz para controlar a esteatose é a perda de peso, uma redução de 10% no peso corporal pode trazer bons resultados. Porém, deve-se perder de peso de forma gradual, perdas muito rápidas podem agravar a esteatose. Pessoas com índice da massa corporal (IMC) normal não apresentam grandes benefícios com a perda de peso, pois a causa da esteatose não é o excesso de peso. Em doentes com obesidade mórbida, a cirurgia bariátrica pode ser uma opção.

Alguns medicamentos têm sido usados com algum benefício:

A vitamina E, na dose de 400 a 800 UI ao dia, é indicada para pacientes com esteato-hepatite e sinais de fibrose hepática, comprovados através da biópsia do fígado.

Drogas hipoglicemiantes, usadas para tratamento de diabetes, como a metformina, pioglitazona e rosiglitazona, têm sido utilizadas, geralmente nos pacientes com níveis elevados de glicemia.

O orlistate pode ser usado como droga auxiliar para o controle do peso corporal, mas não age diretamente sobre a esteatose.

Alguns trabalhos mostraram benefícios do ômega 3 nos casos de esteatose, mas não da esteato-hepatite.

Outras drogas foram testadas com resultados inconclusivos, entre elas: ursacol (ácido ursodesoxicólico), N-acetilcisteína, acido fólico, silimarina.

Portanto, apesar da esteatose ser uma doença benigna na grande maioria dos casos, se não tratada pode evoluir de forma desfavorável. Por isso, todo paciente com diagnóstico de esteatose hepática e, principalmente, esteato-hepatite deve iniciar tratamento para tentar reverter esse acúmulo de gordura.

Saiba mais sobre a doença hepática gordurosa não-alcoólica

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