Todos os posts de Dra. Suzana Vieira

Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá

Dosagem de insulina e peptídeo C – do diabetes à hipoglicemia

Para que serve a dosagem de insulina?

Vamos nesse post comentar qual a utilidade da dosagem da insulina e do peptídeo C nas condições de resistência à insulina, passando pelo diabetes e, finalmente, pela hipoglicemia.

Mas antes de comentar sobre a dosagem de insulina, devemos considerar alguns fatos:

  • O aumento da glicemia é acompanhado pelo aumento da secreção de insulina, e a queda da glicemia é acompanhada da queda e da suspensão da secreção de insulina na hipoglicemia (modelo de feedback). A sincronia entre esses glicemia e insulina determina os níveis de glicemia considerados normais, conforme exemplificado na figura 1.
  • O aumento desproporcional da insulina circulante em relação à glicemia causa hipoglicemia enquanto a redução da ação (resistência) da insulina ou da sua secreção leva ao diabetes.
  • Medir a glicemia é já um dos exames de rotina para promoção de saúde em relação ao diabetes, principalmente nos casos de obesidade.
  • O peptídeo C é secretado em quantidades iguais à insulina produzida pelo pâncreas.
Metabolismo normal da insulina e glicose
Fig 1. Representação esquemática das variações da glicemia e insulina ao longo do dia, demostrando as variações de forma sincronizada entre as duas.

E onde se encaixa a utilidade da dosagem de insulina e do peptídeo C nessa história?

Uma dosagem de insulina de 10, 20 ou 40 µUI/mL é normal? A resposta é: depende da glicemia.

Já que a insulina no sangue está intimamente relacionada à glicemia, é imprescindível interpretá-las em conjunto. Vamos ver em detalhes como a dosagem de insulina é útil em diferentes situações. Quando a dosagem de insulina não é útil, podemos lançar mão do peptídeo C.

1. Dosagem da insulina na detecção da resistência à insulina

Para manter a glicemia normal, maiores quantidades de insulina são necessárias pois existe uma menor sensibilidade à ação desse hormônio em facilitar a entrada de glicose para dentro da célula.

Sabe-se que a resistência à ação da insulina está presente na síndrome metabólica, sendo um fator de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2 e para outros tipos de doenças, tais como a síndrome dos ovários policísticos (SOP) e esteatose hepática.

Para determinar se a quantidade de insulina está desproporcionalmente alta para a glicemia, vários modelos matemáticos foram desenvolvidos, sendo o mais conhecido deles o HOMA-IR (do inglês, homeostatic model assessment). Muito utilizado nos estudos populacionais, o HOMA-IR tem maior facilidade de realização que o exame padrão para determinação de resistência insulínica, o clamp. As dosagens no JEJUM são consideradas para o cálculo.

Para o uso na prática clínica, ainda há de se considerar a metodologia e padronização do laboratório para interpretação dos resultados. Além dessas limitações metodológicas, se a pessoa tem sinais fortemente ligados à presença da resistência insulínica, como por exemplo: acantose nigricante, obesidade central, SOP associada à obesidade,  a determinação de HOMA-IR torna-se questionável. Quanto maior a resistência à insulina, maior o resultado do HOMA IR.  Os valores podem ser ajustados para o índice de massa corpórea (IMC).

homa
Tabela 1. Exemplo de resultados do HOMA-IR com os mesmos valores de glicemias e valores crescentes de insulina utilizando calculadora

2. Dosagem de insulina nas pessoas com diabetes

Não se costuma dosar a insulina em pacientes com diabetes bem controlada em uso de insulina exógena ou nos pacientes que estão tomando medicações que estimulam a secreção da insulina (secretagogos de insulina) a menos que haja dúvida no diagnóstico e planos para mudança de tipo de medicação.

Nos casos mais típicos de diabetes tipo 1 ou tipo 2, não há necessidade de dosagem de insulina, pois já é bem conhecida a fisiopatologia de cada uma das doenças. Quando há dúvida sobre o tipo de diabetes (se tipo 1, tipo 2 com falência pancreática, após pancreatite, MODY , LADA, etc), a dosagem não da insulina, mas do peptídeo C pode ajudar a diferenciar os tipos de diabetes e saber qual medicação será mais útil em controlar o diabetes.

Peptídeo C e determinação da secreção da insulina pelo pâncreas

A dosgem do peptídeo C reflete a quantidade de insulina que o pâncreas produz, já que é uma molécula que aparece a partir da clivagem da pró-insulina, como exemplificado na figura 2. Para cada molécula de insulina, uma molécula de peptídeo C é produzida, em termos técnicos, são moléculas produzidas de forma equimolar.

Em pacientes que já fazem uso de insulina, a medida da insulina no sangue dosa tanto a insulina injetada quanto a insulina produzida pelo pâncreas. Sendo assim, a dosagem de peptídeo C consegue espelhar apenas a insulina que o próprio pâncreas produz.

Se o peptídeo C é muito baixo, é possível inferir que a produção da insulina pelo pâncreas também é reduzida e será necessária a administração da insulina subcutânea para controle da glicemia; se a dosagem do peptídeo C é alta, o pâncreas ainda produz insulina, mas não suficiente para controlar a glicemia e precisa de medicação adicional.

Figura 2. Representação da quebra da pró-insulina com formação de uma molécula de insulina e uma molécula de peptídeo C

A determinação da produção de insulina endógena (reserva insulínica) a partir da dosagem do peptídeo C pode ser útil para diferenciação do diabetes tipo 1 de tipos raros de MODY. Se o peptídeo C é mais alto, podemos estar diante de um caso de MODY e a insulina pode ser substituída por uma sulfonilureia.

Na diferenciação de um quadro diabetes tipo 2 que necessitou de insulina ao diagnóstico de uma pessoa com diabetes tipo 1, há muita sobreposição dos valores de peptídeo C, quando este é dosado muito próximo ao diagnóstico. No início do diabete tipo 1, há uma fase em que a secreção de insulina não é tão reduzida e consegue controlar sem grandes dificuldades a glicemia, essa fase é conhecida por “lua de mel”. Após essa fase, no diabetes tipo 1 a reserva de insulina vai ficando acabando, da mesma forma no diabetes tipo LADA – com menor velocidade – enquanto no diabetes tipo 2, a reserva insulínica dura mais tempo e os níveis de peptídeo C estarão mais elevados que no diabetes tipo 1.

Para uma pessoa com diabetes tipo 2 em uso de insulina, mas com alguma reserva de insulina endógena, outras medicações podem ser consideradas, como aquelas que aumentam a sensibilidade à insulina e eventualmente mudança da insulina exógena para seus secretagogos (medicações que estimulam a secreção de insulina).

A dosagem de peptídeo C é preconizada para avaliar a reserva insulínica após 3 a 5 anos do diagnóstico. Pode ser dosado no basal (sem estímulo) ou em testes de estímulo com glucagon ou glicose.

3. Dosagem de insulina na investigação da hipoglicemia

É para investigação das causas da hipoglicemia que a insulinemia é mais útil e consagrada. Na hipoglicemia, a dosagem de insulina deve estar indetectável.

A hipoglicemia divide-se basicamente em dependente de insulina e não-dependente de insulina. Durante a hipoglicemia, a dosagem de insulina, peptídeo C e outros fatores semelhantes à insulina são realizados.

Hipoglicemia dependente de insulina

Nesse caso, a hipoglicemia é decorrente da ação desproporcionalmente alta da insulina em relação à glicemia. Para cada situação, as dosagens de insulina e peptídeo C são realizadas para tentar elucidar a causa. A seguir, veremos as situações mais comuns de hipoglicemia e qual o resultado esperado das dosagens de insulina e peptídeo C.

Em pessoas com diagnóstico de diabetes:

  • Administração excessiva de insulina exógena: níveis altos de insulina e níveis baixos de peptídeo C;
  • Excesso de secretagogos medicações que estimulam a secreção de insulina pelo pâncreas): níveis altos de insulina e ainda de peptídeo C.

Em pessoas sem diagnóstico de diabetes

  • Hipoglicemia reativa: dosagem de insulina e peptídeo C altos (acontece pós-refeição);
  • Tumores produtores de insulina (insulinomas): níveis altos de insulina e peptídeo C;
  • Outras causas raras.

A hipoglicemia recorrente pode levar à hipoglicemia sem sintomas de alerta e ser potencialmente grave.

Hipoglicemia não-dependente de insulina

Como o próprio nome já diz, nesses casos, a insulina não é o fator causador da hipoglicemia. Pode decorrer da falta de ingesta de calorias ou, muito mais raramente, por ação de substâncias semelhantes à insulina. Mais uma vez, o peptídeo C e a insulina são úteis.

  • Maioria dos casos de hipoglicemia no jejum – insulina e peptídeo C baixos;
  • Tumores não-insulinomas – produzem substâncias semelhantes à insulina. A dosagem de insulina e peptídeo C estarão baixas e a dosagem dessas substâncias semelhantes à insulina estarão altas.

Considerações finais

Em resumo, a dosagem da insulina é útil em casos bastante selecionados, principalmente na investigação de hipoglicemia. Portanto, a dosagem de insulina não deve ser considerada isoladamente, mas em conjunto com a glicemia nos casos de investigação de resistência à insulina. Para a avaliação da reserva insulínica no diabetes, o peptídeo C deve ser utilizado em lugar da dosagem de insulina.

Referências

  1. Calculadora para HOMA (em inglês)
  2. JONES, A. G.; HATTERSLEY, A. T. The clinical utility of C-peptide measurement in the care of patients with diabetes. Diabet Med, v. 30, n. 7, p. 803-17, Jul 2013. ISSN 1464-5491. doi: 10.1111/dme.12159

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Cetose, dietas cetogênicas e cetoacidose diabética

O que é cetose e como ela surge

Na ausência da glicose, o fígado produz os corpos cetônicos a partir da gordura armazenada para serem usados como fonte de energia pelos tecidos, tais como cérebro, coração, rins, músculos. Esse processo é importante para o cérebro, pois esse órgão não utiliza outras fontes de energia alternativas a partir de gorduras e proteínas.

Os corpos cetônicos estão sempre presentes no sangue e seus níveis aumentam durante o jejum e exercício prolongado. São encontrados também nos recém-nascidos e grávidas. Essas condições são consideradas fisiológicas.

Dietas cetogênicas

Algumas dietas com pouco carboidrato também induzem a formação dos corpos cetônicos, conhecidas como dietas cetogênicas para tratamento da obesidade. Nessas dietas os carboidratos são substituídos por proteínas ou gorduras, simulando assim um jejum. Lembrando que a redução de calorias associada à atividade física são fundamentais para o tratamento da obesidade.

Após uma noite de jejum, os corpos cetônicos fornecem 2±6% das necessidades energéticas do organismo, enquanto após 3 dias de jejum, fornecem 30±40%.

Há três tipos de corpos cetônicos, sendo os dois principais corpos cetônicos são o acetoacetato e o 3 β-hidroxibutirato, e por último a acetona que é menos abundante no sangue.

corpos cetonicos
Figura 1. Estrutura química dos corpos cetônicos. A Acetil CoA é o link entre a produção de energia a partir de glicose ou ácidos graxos

A cetose é o aumento dos corpos cetônicos no sangue. Posteriormente ao aumento da concentração dos corpos cetônicos no sangue, o excesso de corpos cetônicos é eliminado pelos rins através da urina (cetonúria). A acetona por ser volátil pode ser também eliminada pelos pulmões através da respiração. Esse último fenômeno caracteriza o hálito característico de fruta nas pessoas em cetose.

Cetogenese_3
Figura 2. Produção de corpos cetônicos a partir do jejum

Cetoacidose diabética

No diabetes, quando há redução dos níveis de insulina – principalmente no diabetes tipo 1- ou na resistência à insulina, há liberação da ação da lipase hormônio-sensível, que quebra os tríglicérides de dentro do adipócito, lançando na ciruculação grande quantidade de ácidos graxos para produção dos corpos cetônicos.

Para que a cetoacidose diabética aconteça é necessária uma baixa concentração ou ausência de insulina circulante. Há também a contribuição de hormônios que aumentam a glicemia (contra-reguladores) como o glucagon.

Pela falta de insulina, não há entrada de glicose na célula do hepatócito, e o a produção de energia é desviada para produção de corpos cetônicos nos hepatócitos.  A grande quantidade de corpos cetônicos ultrapassa a capacidade de tamponamento do sistema de equilíbrio ácido-básico deixando o pH do sangue mais ácido, culminando na cetoacidose diabética. Nesse post não será detalhada essa complicação do diabetes.

A dieta cetogênica é perigosa?

Uma das perguntas que se pode fazer é se a dieta cetogênica pode causar cetoacidose. Esse tema é discutido em outro post.

É possível que em pacientes com diabetes com poucos níveis de insulina circulante, haja um tipo de cetoacidose sem aumento da glicemia, entidade denominada cetoacidose euglicêmica. Acontece particularmente em pacientes em uso de novas medicações orais para diabetes. 

Dessa forma, a intensidade de formação de corpos cetônicos e a deficiência de insulina   diferenciam uma cetose da cetoacidose diabética. Em pessoas com diabetes que fazem uso de insulina ou que estejam descompensadas, a indução de cetose por dietas pobres em carboidrato não é indicada.

Referência

LAFFEL, L. Ketone bodies: a review of physiology, pathophysiology and application of monitoring to diabetes. Diabetes Metab Res Rev, v. 15, n. 6, p. 412-26, 1999 Nov-Dec 1999. ISSN 1520-7552. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10634967

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Monitorização contínua da glicose – sistema Flash: tempo no alvo e outras informações

Os sistemas de monitorização contínua de glicose têm sido uma revolução no manejo dos níveis glicêmicos de pessoas com diabetes. Nesse post, serão detalhados alguns aspectos de resultados do Sistema Flash de Monitoramento da Glicose (FreeStyle Libre).

Nesse sistema de monitorização contínua de glicose, um sensor dura em média 14 dias. A medida da glicose intersticial (líquido que banha as células) pode ser obtida a qualquer momento pela aproximação do sensor ao leitor e sem picadas! Independentemente das leituras por aproximação, as medidas de glicose são continuamente armazenadas.

SETAS DE TENDÊNCIA

A monitorização contínua também fornece a tendência de subida ou queda e a velocidade dessas variações pelas setas de tendência. Na figura abaixo, a seta de tendência não está inclinada e demostra que naquele momento os níveis glicêmicos estão estáveis. Como as variações  da glicemia no sangue (glicemia capilar ou ponta de dedo) vêm primeiro que as variações da glicose no interstício (medida pelo sensor), pode haver um atraso da detecção de uma uma hiper ou hipoglicemia na glicose medida no sensor quando comparada à medida obtida pela glicemia capilar.

Podemos imaginar as variações entre essas duas medidas como vagões do trem numa montanha russa, sendo o primeiro vagão a glicemia capilar e a glicose intersticial um vagão que viria atrás. Desse modo, nas subidas e descidas esses vagões não estariam num mesmo nível. Dito isto, para avaliar a acurácia da medida da glicose intersticial (sensor) comparada à glicemia capilar, deve-se procurar momentos onde a seta de tendência está reta no leitor. 

freestyle
Sistema Flash – leitura dos dados do sensor com leitor próprio

BAIXANDO OU COMPARTILHANDO OS RESULTADOS

Os resultados dessa leitura contínua pode ser visualizados através de gráficos no próprio leitor ou relatórios dos resultados baixados no programa do fabricante. 

Atualmente, também é possível a leitura dos sensor por  determinados smartphones. Os resultados são enviados para uma nuvem e podem ser compartilhados com outras pessoas e profissionais de saúde em tempo real através da  nova plataforma – o Libreview.

ANALISANDO OS GRÁFICOS

Um dos gráficos mais úteis é o que resulta da sobreposição dos valores de glicemia dos 14 dias para construir um relatório dos padrões diários com perfil de glicose ambulatorial ou AGP (do inglês – Ambulatory Glucose Profile). Fig 1

Fig 1. Exemplo de gráfico de padrões diários (AGP).

O AGP fornece:

  • Glicemia média diária, que a partir da qual estima-se a HbA1c por uma fórmula matemática

Dividindo-se a amplitude entre o maior e o menor valor ao longo do dia em 4 partes (quartis), obtemos 3 tipos de curvas:

  • Quartil 1 que corresponde à curva do percentil 25 – 25% das valores estão abaixo dessa curva e 75% acima
  • Quartil 2 que corresponde à curva do percentil 50 ou mediana –  divide metade das medidas para cima e para baixo, representada pela curva escura central (Fig 2)
  • Quartil 3 que corresponde à curva percentil 75 –  25% dos valores estão acima
AGP 2 mediana
Fig 2. Curva representativa da mediana das medidas de glicose

O intervalo interquartílico abrange a área onde estão 50% dos valores da glicemia, representado pela área azul escura (Fig 3). É um dos parâmetros que pode ser utilizado para a avaliação da variabilidade glicêmica. Se toda área azul escura estiver contida nos limites definidos como alvo (retas superior e inferior), teremos que 50% dos valores glicêmicos encontram-se dentro do esperado.

AGP 2 IIQ
Fig 3. Representação dos percentis 25 e 75 e intervalo interquartílico

Ainda temos nos gráficos a representação de dois mais dois percentis:

  • Curva do percentil 90 – 90% dos valores está abaixo dessa curva e 10% acima. A área azul clara superior representa os valores entre o percentil 75 e 90.
  • Curva do percentil 10 – 10% das valores estão abaixo dessa curva. A área azul clara inferior representa os valores entre o percentil 10 e 25. Fig 4
AGP 2 10
Fig 4. Representação dos percentis 10 e 90

O intervalo entre esses dois percentis abrange 80% dos valores dos valores de glicemia. Em outras palavras,  se toda área entre as inferior e a superior 80% dos valores estarão dentro da área das retas que limitam os alvos definidos (área hachurada). Fig 5

Fig 5. Representação da mediana e diversos percentis

VARIABILIDADE GLICÊMICA

Quanto maior a amplitude entre essas curvas, maior a variabilidade glicêmica. De forma inversa, quanto menores essas áreas, menor a variabilidade da glicose.

A variabilidade glicêmica é por muitos autores considerada como um fator de risco para complicações do diabetes, principalmente, as macrovasculares.Em outras palavras, a variabilidade glicêmica é um processo caracterizdo pela amplitude, frequência e duração das flutuações da glicose.

Há algumas formas matemáticas de avaliar a variabilidade glicêmica, entre elas estão o desvio-padrão e o coeficiente de variação. A percentagem do coeficiente de variação (CV) foi eleita para determinar o limite númerico entre a glicemia estável e instável. Níveis estáveis de glicose são definidos como tendo um CV  < 36%, e níveis instáveis de glicose são definidos como  CV ≥36%.

TEMPO NO ALVO – TIME IN RANGE (TIR)

Uma vez definidos os valores de glicemia mínima e máxima para cada pacientes ainda temos o tempo e a percentagem dentro, acima e abaixo dos alvos propostos.

Há alguns anos, literatura científica começou  a falar em tempo no alvo, do inglês time in range (TIR).  Esse novo parâmetro determina porcentagens aceitáveis de valores abaixo, acima e dentro do intervalo de alvo padronizado como 70 – 180 mg/dL. Fig 6

Em 2019, a Sociedade Brasileira de Diabetes chancelou o Consenso de Tempo no alvo, que determina: 

“Como recomendação para a maioria dos pacientes com DM1 e DM2 ficaram estabelecidos, como indicadores de um bom controle glicêmico:

  • > 70% do tempo no alvo entre 70-180mg/dL (3.9-10.0 mmol/L)
  • < 4% do tempo < 70 mg/dL (< 3.9 mmol/L)
  • < 1% do tempo < 54 mg/dL (< 3.0 mmol/L)
  • < 25% do tempo > 180 mg/dL (> 10.0 mmol/L)
  • < 5% do tempo > 250 mg/dL (> 13.9 mmol/L)

Para pacientes fragilizados e com risco maior de hipoglicemia:

  • > 50% do tempo no alvo entre 70-180 mg/dL (3.9-10.0 mmol/L)
  • < 1% do tempo < 70 mg/dL (< 3.9 mmol/L)
  • < 10% do tempo > 250 mg/dL (> 13.9 mmol/L)

Para diabetes tipo 1 que ficaram gestantes:

  • 70% do tempo entre no alvo entre 63-140 mg/dL (3.5-7.8 mmol/L)
  • < 4% do tempo < 63 mg/dL (< 3.5 mmol/L)
  • < 1% do tempo entre < 54 mg/dL (< 3.0 mmol/L)
  • < 25% do tempo acima de > 140 mg/dL (>7.8 mmol/L).”

Para diabetes gestacioanl 

  • 75-90% do tempo entre no alvo entre 63-140 mg/dL (3.5-7.8 mmol/L)

Para diabetes gestacional  e pacientes com diabetes tipo 1 ficaram gestantes já está aprovado no Brasil. 

Ao longo do tratamento, esses números podem ser avaliados comparativamente para um mesmo indivíduo. 

Gráfico mostrando o tempo no alvo. No exemplo em questão, o tempo no alvo foi de 88% com 2% de hipoglicemia (intervalo entre 70 -180mg/dL)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Além da comodidade para os usuários, as novas tecnologias trazem mais informações para as tomadas de decisões dos próprios pacientes e ajudar profissionais nas suas condutas para obeter o controle do diabetes. Dois indivíduos que tenham uma mesma HbA1c podem ter valores muito diferentes no que se refere à variabilidade glicêmica, tempo no alvo e episódios de hipoglicemia. O sistema de monitorização contínua ajuda a revelar se uma HbA1c no alvo representa também um controle glicêmico estável.

As novas tecnologias vieram para ficar! Entretanto, elas representam uma parcela no controle do diabetes. Sem educação em diabetes, as novas tecnologias são insuficientes para seu propósito. Por falar nisso, tem um post muito legal que escrevi para o Slow Medicine. Convido você a conferir esse texto também!

Referências:

  1. http://www.freestylelibrepro.us/
  2. SBD chancela o Consenso de Tempo no Alvo (Time in range, TIR)
  3. International Consensus on Use of Continuous Glucose Monitoring

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