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Lipases lipoproteica e hormônio-sensível: semelhanças, diferenças e aspectos clínicos

As lipases são moléculas que atuam quebrando as gorduras. O efeito mais estudado e conhecido delas é sobre os triglicérides. Nesse texto, falarei da ação das lipases lipoproteica e hormônio-sensível, as doenças associadas às disfunções dessas enzimas e algumas medicações novas e antigas para tratamento do aumento dos triglicérides no sangue.

Lipases – aspectos gerais

A lipase pancreática quebra as gorduras dos alimentos para elas entrarem na circulação como ácidos graxos e colesterol livre. As gorduras devem estar esterificadas novamente para serem transportadas ou armazenadas no tecido adiposo.

O que significa isso gordura esterificada? Um éster é uma estrutura molecular de R-COOR’ (tem exemplos mais abaixo). Os ésteres mais comuns no organismo são os triglicérides – triéster de glicerina. O colesterol também precisa ser esterificado para circular no sangue. Essas reações são feitas pelas enzimas do grupo aciltransferases. Mas, vamos às lipases, que fazem exatamente o contrário disso.

As lipases quebram essas ligações ésteres e liberam na circulação os ácidos graxos e colesterol livres ou não esterificados. Essas formas são as utilizadas como matéria prima para serem consumidos como fonte energética ou estocadas como uma poupança de energia, no caso dos triglicérides; e servirem de matéria-prima para reações intracelulares como a formação do hormônios esteróides, no caso do colesterol.

Existem várias lipases de interesse da endocrinologia. Destacam-se duas, que veremos com detalhes a seguir.

Lipase lipoproteica

Após a alimentação, a lipase lipoproteica entra em ação para quebrar os triglicérides. Essa enzima está na superfície dos vasos sanguíneos do tecido adiposo e muscular.

A lipase lipoproteica capta os triglicérides das lipoproteínas que estão passando por aqueles tecidos e quebra as ligações ésteres, liberando glicerol e ácidos graxos livres, para que eles entrem nos tecidos periféricos ou extra-hepáticos para que sejam utilizados ou armazenados.

A lipase lipoproteica está mais ativa na fase pós-alimentar, estimulada pela insulina, que está alta nessa fase. O objetivo é recarregar o corpo de energia e armazenar alguma também.

Figura 1. Ação da lipase lipoproteica, que é estimulada pela insulina no período pós-prandial

A gente conhece mais o efeito da lipase lipoproteica tomando como modelo a doença em que vemos deficiência dela: síndrome da quilomicronemia familial. Essa doença é rara, com frequência estimada por 1 a 2 pessoas por milhão e que tem uma medicação supernova no mercado.

Antes que vocês achem estranho o termo “familial”, é aquele que (o familial é que é relacionado a parente, o termo “familiar” se refere ao nos é conhecido), mas vou usar a palavra familiar para não soar estranho, ou seja, “familiar” para ser soar familiar para vocês, com o perdão do trocadilho.

Na síndrome de quilomicronemia familiar, por falta da ação da lipase lipoproteica, os triglicérides são extremamente altos no sangue, frequentemente excedem 1.000 mg/dL, e eles extrapolam para os tecidos, como pele causando os xantomas eruptivos, nas vísceras causam aumento do fígado.

Aqui no blog, eu já falei sobre gordura ectópica, que é a gordura fora do lugar que a gente vê na síndrome metabólica e diabetes tipo 2, mas essa síndrome da quilomicronemia familiar é um caso extremo.  O sangue tem aspecto leitoso de tanta gordura e que dá até para ser visto nas veias da retina (lipemia retinalis). A principal complicação é pancreatite de repetição.

Figura 2. Sangue de um paciente com hipertrigliceridemia grave. Fonte – Wikipedia

Vamos falar de novidades?

O medicamento volanesorsena é uma medicação biológica que age interrompendo a fabricação do apoproteína apo CIII, que fez parte do quilomícron e da VLDL. E o que faz essa molécula?

A função do apo CIII é mais bem ilustrada nas síndromes que têm hipertrigliceridemia, como a síndrome de quilomicronemia familiar. Essas síndromes são associadas ao aumento da expressão da apo CIII. Há duas explicações plausíveis: (1) que a apo CIII iniba a lipoproteína lipase ou (2) impeça a remoção das partículas ricas em triglicérides da circulação.

Como a volanesorsena inibe a fabricação de apo CIII, reduziria a circulação dos quilomícrons e VLDLs. Essa medicação é indicada quando dieta, atividade física e medicações usualmente utilizadas para o aumento dos triglicérides não são capazes de controlar a doença. A medicação é injetável e utilizada semanalmente.

As medicações frequentemente utilizadas na nossa prática para reduzir os níveis dos triglicérides são chamadas de fibratos. O mais comum é que utilizemos essa classe de medicação nas doenças poligênicas do nosso dia a dia, como o diabetes tipo 2 e obesidade, em que pode haver aumento preferencial dos triglicérides e ainda na dislipidemia mista, quando temos conjuntamente um aumento do colesterol. Quando as duas gorduras estão aumentadas, podemos associar fibratos com as estatinas.

Os fibratos são utilizados como droga de escolha nas síndromes genéticas, como na síndrome de quilomicronemia familiar – da qual falamos há pouco – e na hipertrigliceridemia primária, na disbetaliproteinemia tipo III e hiperlipidemia combinada familiar. Essas doenças são muito mais raras.

Como modo de ação, os fibratos ativam fatores de transcrição da família do receptor ativado por proliferadores de peroxissoma ou PPAR, do inglês peroxisome proliferator-activated receptors. Eles agem no PPAR-alfa. Entre outras coisas, as fibratos ativam a lipase lipoproteica e reduzem a produção de apo CIII, reduzindo os triglicérides.  

Lipase hormônio-sensível

No sangue, a gente já viu a ação da lipase lipoproteica. No tecido gorduroso, o quem se destaca é a lipase hormônio-sensível. No jejum ou nas situações de luta e fuga, o organismo precisa de energia, e uma das fontes é a gordura estocada no tecido adiposo. Entra em cena a LHS, quebrando os triglicérides e liberando ácidos graxos livres na circulação.

Existe uma ligação bem estabelecida entre as disfunções da lipase hormônio-sensível (LHS) e as doenças metabólicas corriqueiras no nosso meio, como a obesidade e síndrome metabólica, mas também com outras doenças menos conhecidas, como a lipodistrofia, que é uma doença da distribuição do tecido gorduroso no corpo.

Essa enzima também foi relacionada com efeitos não-metabólicos envolvidos no câncer.

Figura 3. Lipase hormônio sensível, que é inibida pela insulina e menos ativa no pós-prandial. Mais ativa no jejum.

A lipase hormônio-sensível leva esse nome pois ela é regulada por vários hormônios: a adrenalina, o glucagon e o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) estimulam a ação da LHS e aceleram a lipólise (lipolítica), e a insulina inibe essa enzima facilitando o depósito de gordura no tecido adiposo (antilipolítica). Ela está mais ativa no jejum, pois o fluxo do gordura é contrário ao pós-prandial.

Figura 4. Ação acilglicerol hidrolase da lipase hormônio-sensível

A segunda atividade da LHS é quebra o colesterol éster e deixá-lo livre para participar do metabolismo intracelular e produção dos hormônios esteroides.

Figura 5. Ação colesteril éster hidrolase da lipase hormônio-sensível

A terceira ação enzimática conhecida da LHS é quebrar o retinil éster e liberar o retinol (vitamina A) e um ácido graxo livre.

Como na natureza, nada se cria, tudo se transforma, a glicose pode se transformar em ácido graxo livre. Esse processo recebe o nome de lipogênese “de novo”. O tecido gorduroso e o fígado têm essa capacidade. Parece que esse mecanismo é importante na gênese da esteatose hepática.

A LHS é importante em outros tecidos, que eu vou citar rapidamente:

– Tecido gorduroso marrom – lipólise (quebra da gordura) e oxidação de ácido graxo (utilização como energia);

  • Músculo esquelético e cardíaco – controle do conteúdo de gordura;

– Secreção de insulina;

– Esteroidogênese adrenal;

– Formação do esperma?

Figura 6. As diversas ações da lipase hormônio-sensível nos diversos sistemas. Adaptado de Recazens e col. (2)

Lipase hormônio-sensível na resistência à insulina e diabetes

A LHS está mais ativa na deficiência de insulina ou quando ela não age bem, como no diabetes tipo 1 descompensado, e nas síndromes com resistência à insulina (deficiência relativa), como a síndrome metabólica e o diabetes tipo 2.

Nessas situações, a insulina que deveria inibir a LHS não faz isso como deveria e mais gordura sai do tecido adiposo para circulação para servir como fonte alternativa de energia na produção de corpos cetônicos, base da cetoacidose diabética. Isso acontece na deficiência absoluta de insulina.

Na deficiência relativa de insulina ou resistência à insulina, há da mesma forma aumento dos triglicérides na circulação não para cetose, mas para outro problema que comentei aqui que é a dislipidemia aterogênica.

No diabetes, os esforços são direcionados para controlar a glicemia e, consequentemente, teremos redução dos triglicérides. Se mesmo com o controle do diabetes, os triglicérides permanecerem altos, pensamos em adicionar os fibratos.

Lipase hormônio-sensível e lipodistrofias

As lipodistrofias são um grupo de doenças da quantidade adiposo subcutâneo, que pode ser em todo corpo (lipodistrofia generalizada) ou em parte dele (lipodistrofia parcial). A gordura que deveria ser estocada sob a pele desvia para as vísceras causando uma resistência insulínica brutal. A lipodistrofia está relacionada à deficiência da lipase hormônio-sensível por defeitos no gene LIPE, sugerindo que essa lipase está também envolvida com o desenvolvimento e manutenção do tecido adiposo além de sua função enzimática.

Associada à resistência insulínica, o aumento dos triglicérides na lipodistrofia leva ao quadro de pancreatite de repetição, complicação presente na lipodistrofia e em qualquer doença com aumento expressivo de triglicérides. O resultado final de pancreatites repetitivas e resistência à insulina própria da doença é um diabetes de difícil controle com necessidade de doses altas de insulina, além de medicações que melhoram a resitência à esse hormônio.

Nessas síndromes lipodistróficas, utilizamos os fibratos para controle dos triglicérides e podemos associar à insulina os antidiabéticos orais da classe das glitazonas, que ativam o PPAR-gama, melhorando a sensibilidade à insulina com o benefício adicional melhorar o perfil lipídico já que agem em moléculas da mesma família dos fibratos.

Figura 7. Doenças relacionadas às disfunções da lipase hormônio-sensível. Adaptado de Recazens e col. (2)

Considerações finais

Compreender a função de cada lipase é importante para entender as alterações das gorduras no sangue próprias da resistência à insulina, síndrome metabólica e diabetes. Nas síndromes genéticas mais raras que têm aumento dos triglicérides ou alteração da distribuição de gordura no corpo, as lipases também têm um papel fundamental no entendimento do mecanismo dessas doenças e para o desenvolvimento de novas formas de tratamento, como a nova medicação que chegou ao Brasil esse ano.

Referências

  1. Staels B, Dallongeville J, Auwerx J, Schoonjans K, Leitersdorf E, Fruchart JC. Mechanism of action of fibrates on lipid and lipoprotein metabolism. Circulation. 1998 Nov 10;98(19):2088-93. doi: 10.1161/01.cir.98.19.2088. PMID: 9808609.
  2. Recazens E, Mouisel E, Langin D. Hormone-sensitive lipase: sixty years later. Prog Lipid Res. 2021 Apr;82:101084. doi: 10.1016/j.plipres.2020.101084. Epub 2020 Dec 30. PMID: 33387571.
  3. Bulário eletrônico ANVISA –  Waylivra® (Volanesorsena) https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?numeroRegistro=157700003

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Vídeo no Youtube sobre lipodistrofias

Cetose, dietas cetogênicas e cetoacidose diabética

O que é cetose e como ela surge

Na ausência da glicose, o fígado produz os corpos cetônicos a partir da gordura armazenada para serem usados como fonte de energia pelos tecidos, tais como cérebro, coração, rins, músculos. Esse processo é importante para o cérebro, pois esse órgão não utiliza outras fontes de energia alternativas a partir de gorduras e proteínas.

Os corpos cetônicos estão sempre presentes no sangue e seus níveis aumentam durante o jejum e exercício prolongado. São encontrados também nos recém-nascidos e grávidas. Essas condições são consideradas fisiológicas.

Dietas cetogênicas

Algumas dietas com pouco carboidrato também induzem a formação dos corpos cetônicos, conhecidas como dietas cetogênicas para tratamento da obesidade. Nessas dietas os carboidratos são substituídos por proteínas ou gorduras, simulando assim um jejum. Lembrando que a redução de calorias associada à atividade física são fundamentais para o tratamento da obesidade.

Após uma noite de jejum, os corpos cetônicos fornecem 2±6% das necessidades energéticas do organismo, enquanto após 3 dias de jejum, fornecem 30±40%.

Há três tipos de corpos cetônicos, sendo os dois principais corpos cetônicos são o acetoacetato e o 3 β-hidroxibutirato, e por último a acetona que é menos abundante no sangue.

corpos cetonicos
Figura 1. Estrutura química dos corpos cetônicos. A Acetil CoA é o link entre a produção de energia a partir de glicose ou ácidos graxos

A cetose é o aumento dos corpos cetônicos no sangue. Posteriormente ao aumento da concentração dos corpos cetônicos no sangue, o excesso de corpos cetônicos é eliminado pelos rins através da urina (cetonúria). A acetona por ser volátil pode ser também eliminada pelos pulmões através da respiração. Esse último fenômeno caracteriza o hálito característico de fruta nas pessoas em cetose.

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Figura 2. Produção de corpos cetônicos a partir do jejum

Cetoacidose diabética

No diabetes, quando há redução dos níveis de insulina – principalmente no diabetes tipo 1- ou na resistência à insulina, há liberação da ação da lipase hormônio-sensível, que quebra os tríglicérides de dentro do adipócito, lançando na ciruculação grande quantidade de ácidos graxos para produção dos corpos cetônicos.

Para que a cetoacidose diabética aconteça é necessária uma baixa concentração ou ausência de insulina circulante. Há também a contribuição de hormônios que aumentam a glicemia (contra-reguladores) como o glucagon.

Pela falta de insulina, não há entrada de glicose na célula do hepatócito, e o a produção de energia é desviada para produção de corpos cetônicos nos hepatócitos.  A grande quantidade de corpos cetônicos ultrapassa a capacidade de tamponamento do sistema de equilíbrio ácido-básico deixando o pH do sangue mais ácido, culminando na cetoacidose diabética. Nesse post não será detalhada essa complicação do diabetes.

A dieta cetogênica é perigosa?

Uma das perguntas que se pode fazer é se a dieta cetogênica pode causar cetoacidose. Esse tema é discutido em outro post.

É possível que em pacientes com diabetes com poucos níveis de insulina circulante, haja um tipo de cetoacidose sem aumento da glicemia, entidade denominada cetoacidose euglicêmica. Acontece particularmente em pacientes em uso de novas medicações orais para diabetes. 

Dessa forma, a intensidade de formação de corpos cetônicos e a deficiência de insulina   diferenciam uma cetose da cetoacidose diabética. Em pessoas com diabetes que fazem uso de insulina ou que estejam descompensadas, a indução de cetose por dietas pobres em carboidrato não é indicada.

Referência

LAFFEL, L. Ketone bodies: a review of physiology, pathophysiology and application of monitoring to diabetes. Diabetes Metab Res Rev, v. 15, n. 6, p. 412-26, 1999 Nov-Dec 1999. ISSN 1520-7552. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10634967

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Dislipidemia aterogênica: triglicérides altos e LDL pequeno e denso

O que é dislipidemia aterogênica?

O termo pode assustar um pouco, mas é um fenômeno bem frequente. Acontece bastante em quem tem obesidade, síndrome metabólica e diabetes. O colesterol LDL (ruim) é sempre tido como vilão, mas não podemos deixar de olhar para os triglicérides. Mesmo se os níveis de colesterol LDL estiverem baixos na vigência de altos níveis de triglicérides, as partículas de colesterol LDL menores podem ser mais problemáticas. Então, atenção quando o colesterol ruim está baixo, pode ser que não esteja tudo bem.

O termo “dislipidemia aterogênica” refere-se ao conjunto de alterações nos níveis de gorduras no sangue presentes no diabetes, da síndrome metabólica, da obesidade e do aumento da gordura abdominal, principalmente. Essas alterações aceleram o processo de deposição de gordura nos vasos sanguíneos (aterosclerose), e causam doenças cardiovasculares como infarto e acidente vascular encefálico (derrame).

Temos três características básicas da dislipidemia aterogênica:

  • Triglicérides elevados
  • Colesterol HDL baixo
  • Colesterol LDL relativamente normal, porém, como moléculas pequenas e densas

O problema que está por trás da dislipidemia aterogênica nas diversas doenças e síndromes está na deficiência da ação da insulina. O aumento da gordura abdominal na obesidade e síndrome metabólica resulta em resistência à ação da insulina. Já no diabetes, podemos ter tanto resistência à ação da insulina como diminuição dos seus níveis (deficiência) .

Qual o link entre resistência à insulina, diabetes e dislipidemia?

Já é bem conhecido a ação da insulina no metabolismo da glicose, mas ela age também no metabolismo das gorduras. Juntamente com outros hormônios, a insulina regula uma série de enzimas que agem no metabolismo das gorduras, as lipases – que quebram gordura. Quando a quantidade de ou ação da insulina é insuficiente, há deficiência no mecanismo de inibição dessas lipases, havendo maior quebra de gordura e com isso o aumento da quantidade de triglicérides circulantes no sangue.

Lembrando que, para que possam circular no sangue, os triglicérides e o colesterol são “empacotados” em moléculas chamadas de lipoproteínas. Cada lipoproteína carreia preferencialmente um tipo de gordura, no caso triglicérides ou colesterol.

A proporção dessas gorduras carreadas e o tipo de proteína e de apolipoproteína determinam os tipos das lipoproteínas, cujas características estão resumidas na tabela abaixo:

LipoproteínaDensidade (g/ml)tamanho (nm)Lipídio principalPrincipais apoproteinas
Quilomícrons<0,93075-1200TriglicéridesApo B-48, Apo C, Apo E, Apo A-I, A-II, A-IV
Remanescentes de quilomícron0,930- 1,00630-80Triglicérides ColesterolApo B-48, Apo E
VLDL0,930- 1,00630-80TriglicéridesApo B-100, Apo E, Apo C
IDL1,006- 1,01925-35Triglicérides ColesterolApo B-100, Apo E, Apo C
LDL1,019- 1,06318- 25ColesterolApo B-100
HDL1,063- 1,2105- 12Colesterol FosfolípidesApo A-I, Apo A-II, Apo C, Apo E
Lp(a)1,055- 1,085~30ColesterolApo B-100, Apo (a)

Formação de partículas de colesterol LDL pequenas e densas

O aumento dos de triglicérides leva ao aumento nos níveis da lipoproteína VLDL  (principal carreadora do triglicérides) e diminuição do tamanho das lipoproteínas que carreiam o colesterol, tanto a HDL (colesterol bom) quanto a LDL (colesterol ruim). Isso ocorre pela ação de uma enzima chamada CETP (do inglês: cholesteryl ester transfer protein), que transfere de gorduras entre as lipoproteínas, trocando o excesso triglicérides a partir do VLDL pelo colesterol contido nas moléculas HDL e LDL.

Numa segunda etapa, o excesso de triglicérides recebido pelas HDL e LDL são quebrados pela lipase lipoproteica, resultando em diminuição do tamanho da HDL e fazendo com que ela seja retirada da circulação mais rapidamente. Já para as moléculas de LDL, a retirada dos triglicérides deixam as moléculas menores e mais compactas. Temos então são as famosas LDL pequenas e densas, mais susceptíveis a sofrerem transformações danosas de outras moléculas, como oxigênio e a própria glicose. Elas também penetrarem mais facilmente pelas paredes das artérias no processo de aterosclerose.

Mecanismo da dislipidemia aterogênica

Na prática, a gente conclui que as LDLs são pequenas e densas quando o pacinte tem triglicérides altos. Mas há ferramentas adicionais para se chegar a essa conclusão. E como seria isso? Como há apenas uma apolipoproteína B-100 (Apo B100) por cada LDL, a dosagem da apo B mede o número de partículas de LDL.

Veja a figura abaixo. Imagine que uma dosagem de colesterol LDL reduziu, mas se não houve redução do número de partículas de Apo B-100 (painel A), consequentemente foram geradas partículas de LDL pequenas e densas.

Já nos casos em que há redução do coleterol LDL e também do número das apo B-100, as partículas não são pequenas e densas em relação às primeiras; elas mantêm o seu tamanho original. Isso é o desejável no tratamento da dislipidemia (painel B).

Exemplo de redução do colesterol às custas da redução do tamanho da molécula (painel A) ou do número de moléculas (painel B)

A relação entre apo B (contida no LDL) e da apo AI (contida no HDL) também é considerada como um marcador de risco cardiovascular.

Já é sabido que o colesterol LDL elevado é um fator de risco para doenças cardiovasculares e as moléculas de LDL pequenas e densas são piores ainda. Para tentar minimizar o processo de aterosclerose no diabetes principalmente, os níveis de colesterol LDL (ou colesterol não-HDL) devem ser menores que na população que não tem diabetes.

Tratamento da dislipidemia aterogênica

Em relação ao tratamento da dislipidemia aterogênica, a melhora da resistência à insulina, seja pela perda da gordura abdominal, através por mudança de estilo de vida (perda de peso e atividade física) ou mesmo através de medicações, já pode ser suficiente para baixar os níveis de triglicérides sem necessidade de medicações próprias para reduzir as gorduras.

Muitas vezes é necessário o tratamento com medicamentos que reduzem o colesterol (estatinas) mesmo que os níveis do colesterol se apresentem normais se correlacionados aos valores de referência dados pelo laboratório. Por exemplo, o colesterol LDL deve estar < 100mg/dL em portadores de diabetes que não tenham tido uma cardiovascular, devendo ser menor ainda nos pacientes que já tiveram este tipo de complicação. As metas de LDL são individualizadas para cada paciente.

Nos casos de diabetes tipo 2 mais descompensado, quando há necessidade de medicações que secretam insulina ou a aplicação de insulina subcutânea, o tratamento resulta também em queda dos triglicérides paralelamente à queda da glicemia. A redução dos triglicérides é seguida de forma inversa pelo aumento do colesterol HDL e LDL. Deve-se rever se os níveis de colesterol ficarão no alvo após o controle dos triglicérides.

As medicações que diminuem os triglicérides (fibratos) são usadas em casos em que haja níveis muito elevados de triglicérides (>500mg/dL) com o objetivo de evitar pancreatite. Ainda é não está bem definido se a redução dos triglicérides reduz complicações cardiovasculares, apesar da longa discussão na literatura.

Muitas controvérsias na literatura sobre esse tema ainda existem. Na dúvida, não deixe de consultar seu médico.

Referência

http://www.myhealthywaist.org/the-concept-of-cmr/intra-abdominal-adipose-tissue-the-culprit/complications-of-intra-abdominal-obesity/atherogenic-dyslipidemia/

SATTAR, N. Revisiting the links between glycaemia, diabetes and cardiovascular disease. Diabetologia, v. 56, n. 4, p. 686-95, Apr 2013. ISSN 1432-0428.

FORTI, Neusa  and  DIAMENT, Jayme. Apolipoproteínas B e A-I: fatores de risco cardiovascular?. Rev. Assoc. Med. Bras. [online]. 2007, vol.53, n.3 [cited  2020-02-26], pp.276-282.   https://doi.org/10.1590/S0104-42302007000300029.

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