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A gravidez é um momento de uma revolução hormonal e mudanças significativas no corpo da mulher. A tireoide aumenta em tamanho e em sua produção hormonal. Muitas vezes, essas mudanças se confundem com doenças da tireoide que podem ser detectadas na gestação. Esse texto vai falar sobre o hipertireoidismo e gestação. O hipertireoidismo na gestação também pode ser encontrado nesse e em outros textos como “tireotoxicose na gestação”.
Vamos comentar sobre duas situações:
1. Quando a paciente não tem hipertireoidismo antes da gestação, mas há alterações dos hormônios de tireoide detectadas na gravidez;
2. Quando a paciente já tem um hipertireoidismo e quer engravidar ou engravida sem planejamento.
Vamos para o primeiro tópico?
É normal e esperado que a tireoide se modifique para atender às novas demandas da mãe e do feto. Podemos destacar as seguintes modificações:
Por conta desse aumento da produção dos hormônios da tireoide, maior quantidade de iodo é necessária nessa fase.
No nosso meio, a gravidez talvez seja a única situação em que a suplementação de iodo é recomendada. A ingestão total diária deve ser de 250mcg para gestante e deve-se suplementar pelo menos 150mcg na forma de iodeto de potássio. Quem já trata hipotireoidismo ou hipertireoidismo com reposição de levotiroxina ou medicação antitireoidiana, respectivamente, não há necessidade de suplementação. Não é necessário suplementar selênio, mesmo se houver anticorpos antitireoidianos positivos.
Por conta da importância dos hormônios de tireoide no desenvolvimento fetal e por todas as alterações deles durante a gravidez, o ideal é pedir os exames de função tireoidiana no período pré-natal para detectar alguma disfunção prévia, pois já no início da gestação vemos algumas mudanças nos exames, começando pelo TSH.
O TSH é menor na gestação por conta do estímulo da gonadotrofina coriônica humana (hCG), produzida pela placenta, sobre a tireoide. Só relembrando: o hCG tem semelhança molecular com o TSH e estimula a tireoide como se assim o fosse. Por conta disso, há aumento proporcional da produção do T3 e T4 e redução da secreção de TSH pela hipófise como consequência.

Vemos então que o TSH reduz em média 0,4mU/L, que pode ser deduzido do limite inferior da normalidade para pacientes adultas não grávidas durante toda gestação. Esta é a recomendação da Associação Americana de Tireoide. Pode-se ainda usar os valores de referência sugeridos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM), conforme exemplo abaixo:


Em uma pequena parcela das mulheres grávidas, o TSH pode ser indetectável (<0,01 mU/L) e ainda assim representar uma gravidez normal; este quadro que pode ocorrer em até 5% das gestações. O T4 livre permanece dentro dos valores de referência. O T4 total pode estar acima do valor de referência por conta do aumento da TBG. O hipertireoidismo subclínico (TSH baixo e T4 livre normal) não é associado a problemas na gestação.
Esse excesso de hormônios circulantes na gravidez pode dar origem ao quadro de tireotoxicose. A gente usa esse termo, tireotoxicose, para falar que há excesso de hormônios circulantes quando ainda não determinamos a causa.
A tireotoxicose na gestação é um quadro de hipermetabolismo e hiperatividade decorrentes do excesso de hormônios tireoidianos. É caracterizada por palpitações, tremores, ansiedade e intolerância ao calor. Pode vir acompanhada por quadro excesso de náuseas e vômitos e hiperêmese gravídica, já que está relacionada ao pico de hCG.
Sem ser pelas alterações fisiológicas, a causa mais comum de tireotoxicose na gestação é pelo hipertireoidismo autoimune (Doença de Graves), que acomete 0,4% a 1,0% das gestantes. Causas menos comuns são o bócio nodular tóxico e tireoidite subaguda.
Quando o excesso de hormônio tireoidiano é por conta do estímulo excessivo do hCG, vemos as seguintes características:
Na tireotoxicose transitória gestacional, o tratamento deve ser sintomático até o seu desaparecimento, que ocorre até a 18ª semana da gravidez. Temos como principais medidas:

Para as pacientes com hipertireoidismo por Doença de Graves descoberto na gestação, o uso de medicação antitireoidiana pode ser necessária. Vamos comentar sobre esse cenário juntamente com a situação em que a mulher tem hipertireoidismo antes da gestação e deseja engravidar ou engravida sem planejamento.
Se a mulher já tem hipertireoidismo e deseja engravidar, o melhor seria controlar o excesso hormonal antes da gestação. Isso porque o hipertireoidismo não controlado pode levar a uma série de complicações, as quais podemos listar:
Pensando na doença mais comum que atinge a faixa etária de mulheres da fase reprodutiva, o mais provável (quando encontramos um hipertireoidismo em uma grávida) é que seja uma Doença de Graves. Tentar o eutireoidismo, ou seja, a normalização dos hormônios, é muito importante. Antes de engravidar, as pacientes podem ser submetidas ao tratamento definitivo do hipertiroidismo, que é a iodoterapia ou cirurgia.
Se os títulos do anticorpo contra a tireoide (TRAb) forem muito elevados, a cirurgia é preferida. A iodoterapia pode aumentar mais ainda os níveis de anticorpo e produzir hipertireoidismo fetal. Se optado pela iodotoerapia, deve-se postergar a gravidez em 6 – 12 meses.
Se a paciente tem um hipertiroidismo leve, controlado com equivalente a 5-10mg de tiamazol por pelo menos 6 meses, pode-se suspender medicação e liberar para a paciente engravide. Entretanto, se a dose for maior e a paciente engravidar, o recomendado é que se troque o tiamazol (ou metimazol) para propiltiouracila, na relação 1:20mg (5mg de tiamazol = 100mg de propiltiouracila divididas em duas doses ao dia).
As duas medicações têm risco de má formação fetal, sendo que com propiltiouracila é cerca de 2-3% e com tiamazol é por volta de 3-4% dos nascidos vivos. A principal complicação reportada é a aplasia cutis, em que há formação incompleta da pele.
O tratamento medicamentoso deve ser com a mínima dose necessária para manter o T4 livre no limite superior do método e o T4 total em 1,5 vezes o valor de referência para mulheres não grávidas. As medicações passam também para o feto e, se em excesso, podem causar hipotireoidismo fetal.
Na Doença de Graves, mesmo se a paciente tiver feito o tratamento definitivo com cirurgia ou iodoterapia, o TRAb deve ser dosado. Se os níveis desse anticorpo forem muito altos, cerca de 3 vezes o valor do limite superior de referência, a gestante deve ser acompanhada muito de perto por uma equipe multidisciplinar especializada (gravidez de alto risco).
As doenças da tireoide são muito frequentes em mulheres. Em outro post, muito acessado, comentei sobre o hipotireoidismo subclínico na gestação.
Antes, durante e depois da gestação, os hormônios tireoidianos devem ser solicitados pelos médicos que estão acompanhando a mulher nessa jornada.
Mesmo se aparentemente o assunto do hipertireoidismo autoimune (Doença de Graves) tenha sido resolvido no passado, não se deve esquecer do risco do hipertireoidismo no feto se a gestante ainda tiver muitos anticorpos circulantes. Essa informação eu realmente queria frisar novamente.
O endocrinologista pode ser acionado se houver dúvidas antes e durante a gestação. Mesmo após o parto, as doenças da tireoide são também comuns, mas isso é comentado em outro capítulo, no post de disfunções da tireoide no pós-parto.
Espero que tenham gostado da leitura.
Até a próxima!
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Um forte abraço,
Suzana
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Tem novas atualizações do manejo do incidentaloma adrenal. A último consenso foi de 2016, comentado em um post anterior e as novas recomendações são de 2023.
Relembrando que os incidentalomas adrenais são lesões encontradas por acaso na investigação de outro sintoma não relacionado aos hormônios das adrenais. Ex: a pessoa faz uma tomografia para investigar uma cólica renal e descobre um tumor na adrenal. Não vale usar essa nomenclatura se estamos pesquisando um paciente com quadro clínico compatível com Síndrome de Cushing, por exemplo.
Os incidentalomas adrenais podem ser unilaterais ou bilaterais. O mais comum é que seja unilateral. Se bilateral, geralmente há outros desdobramentos e investigação e condutas são individualizadas.
A investigação é sugerida para lesões adrenais ≥ 1 cm, a menos que sinais e sintomas de excesso hormonal estejam presentes.
Já que é uma imagem descoberta por acaso, a primeira coisa que temos em mãos é geralmente uma tomografia. A gente avalia a tomografia e pede os exames hormonais. Diante desses dois parâmetros, decidimos como melhor conduzir o restante da investigação e tratamento.
Se a tomografia de adrenal sugerir uma lesão benigna, independentemente do tamanho dela, e não houver sinais ou sintomas de excesso hormonal, a investigação acaba aí, segundo autores do consenso. (Fig 1). Na prática, a gente acompanha o paciente por um tempo.

Em pacientes com hipertensão deve-se investigar excesso de aldosterona, o hiperaldosteronismo primário e em qualquer pacientes em que a imagem não seja típica de adenoma (TC UH> 10) deve-se excluir o paraganglioma adrenal (feocromocitoma).
Os andrógenos adrenais devem ser solicitados se a imagem for sugestiva de câncer adrenal.
Mas se houver um quadro diferente, a equipe médica que cuida do caso deve ser acionada para decidir a melhor conduta.
Mas atenção! Crianças, adolescentes, grávidas e adultos jovens (< 40 anos) com tumor adrenal devem ser avaliados com urgência para realização de cirurgia, devido ao risco maior de malignidade nessas populações.
Os pesquisadores consideraram uma nova categoria intermediária em relação à suspeita de malignidade pela tomografia (TC) sem contraste. Há 3 possibilidades conforme a densidade pelas unidades Hounsfield, se menor que 10, que indica benignidade, entre 10 -20, que é indeterminado e > 20 UH, que seria uma lesão suspeita.
Eles consagram a tomografia sem contraste como exame de eleição para a avaliação dos incidentaloma adrenais, mas não descartam outros tipos de imagem dependendo do resultado inicial da TC (Fig 2.)

Se o tumor adrenal for secretor, o que é mais comum é que a secreção seja do cortisol. Dessa forma, também há novidades nesse quesito. Na investigação, o teste da supressão do cortisol com dexametasona deve ser realizado.
Pacientes que não tem o cortisol suprimido após 1mg de dexametasona, ou seja, o cortisol é > 1,8 µg/dL, e que não tenham o quadro clínico típico de Síndrome de Cushing, são agora chamados como tendo “secreção autônoma de cortisol leve”. Mais uma vez reforçam o desuso do termo Cushing pré-clínico ou subclínico, já que a maioria dos pacientes não evoluem para Síndrome de Cushing clínica.
Deve-se discutir a opção de cirurgia para o paciente com secreção autônoma de cortisol leve, tumor unilateral e comorbidades relevantes relacionadas ao excesso de cortisol (hipercortisolismo), tais como diabetes, hipertensão, dislipidemia e osteoporose (Fig 3).

A título de curiosidade, como era ANTES:

Se a cirurgia for indicada para um nódulo adrenal benigno, que ela seja minimamente invasiva por um cirurgião experiente.
Se optado por cirurgia, o paciente deve ser acompanhado no pós-operatório por um endocrinologista até recuperação do eixo hipotálamo-hipófise adrenal.
Biópsia das lesões adrenais não se faz, muito menos se a lesão for suspeita de ser um câncer. Uma situação em que se pode fazer biópsia é na suspeita de que as lesões adrenais sejam metástases de outro câncer que o paciente esteja tratando e se o resultado dessa biópsia fará alguma diferença no tratamento do paciente.
Os incidentalomas adrenais são lesões cada vez mais frequente no cotidiano do médico endocrinologista por conta do aumento do número de exames realizados nos últimos tempos.
Para a maioria dos casos, os fluxogramas aqui apresentados são um bom ponto de partida. Claro que existem casos que não se encaixam nesses fluxogramas ou que se encaixam, mas podem receber um tratamento diferenciado conforme o julgamento do médico e a preferência do paciente.
Abaixo, como de costume, a referência do artigo em que esse texto foi baseado.
Na descoberta de um incidentaloma adrenal, consulte um endocrinologista!
Martin Fassnacht, Stylianos Tsagarakis, Massimo Terzolo, Antoine Tabarin, Anju Sahdev, John Newell-Price, Iris Pelsma, Ljiljana Marina, Kerstin Lorenz, Irina Bancos, Wiebke Arlt, Olaf M Dekkers, European Society of Endocrinology clinical practice guidelines on the management of adrenal incidentalomas, in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors, European Journal of Endocrinology, Volume 189, Issue 1, July 2023, Pages G1–G42, https://doi.org/10.1093/ejendo/lvad066
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