O bom, o mau (colesterol) e os triglicérides

COMO ENTENDER OS RESULTADOS DAS “GORDURAS” NO EXAME DE SANGUE

Colesterol total, colesterol bom e colesterol ruim

Colesterol total, colesterol LDL (às vezes, mais de um resultado), colesterol HDL, colesterol não-HDL, colesterol VLDL, triglicerídeos. Todos ou alguns desses resultados são possíveis quando o médico solicita o exame: colesterol total e frações e triglicérides,ou triglicerídeos, (COLT+ frações, TG). O que quer dizer cada um e como obter o valor dos demais quando todos esses resultados não estão expostos?

Primeiramente, vamos aos resultados possíveis no exame de sangue e, posteriormente, o que cada uma dessas gorduras ou lipídeos significa e sua principal função.

Nos resultados dos exames laboratoriais, temos como possibilidades:

Colesterol total

Medido de forma direta, isto é, temos o valor impresso no resultado do exame igual à leitura feitas no aparelho dos laboratórios de análises clínicas. Representa a soma do colesterol contido no LDL+HDL+ VLDL (frações do colesterol total).

Frações do colesterol:

  • HDL colesterol (colesterol bom)– dosado de forma direta
  • LDL colesterol (colesterol ruim)– podem vir expresso na forma de dois valores nos resultados:
    • LDL estimado – é obtido de forma estimada pela Equação de Friedewald (mais comum): LDL colesterol= Colesterol total – HDL-colesterol – (Triglicerídeos/5).

Existem várias calculadoras para se chegar a esse resultado quando não está explicitado no resultado do exame, por exemplo em no endereço eletrônico:http://aps.bvs.br/apps/calculadoras/?page=10

Um aspecto muito importante na estimativa do colesterol LDL é que seu valor pode ficar mais longe do real (subestimado) quando os níveis de triglicérides são maiores que 150mg/dL, mais notadamente acima de 400mg/dL, por exemplo. Dessa forma, quanto maior os níveis de triglicérides, mais o LDL fica falsamente menor, podendo dar a impressão que o paciente está “protegido” quando o alvo do colesterol deve ser menor.

  • LDL colesterol dosado – é obtido de forma direta por uma metodologia mais recente, ainda não disponível em todos os laboratórios de análises clínicas
  • Colesterol não-HDL – vem surgindo como uma alternativa na estimativa do risco cardiovascular, diante dos problemas na estimativa do LDL ou na não há indisponibilidade para medida direta do LDL-colesterol. Obtido pela simples subtração do colesterol HDL do colesterol total
  • HDL-colesterol – medido de forma direta, como o colesterol total
  • VLDL –colesterol – o resultado é estimado de a partir do valor dos triglicerídeos = TG/5
  • Triglicérides – os triglicerídeos são medidos de forma direta.

Mais importante que avaliar os valores absolutos de cada um dos resultados, seria contextualizar os diversos níveis das frações de colesterol e triglicérides para cada paciente. Por exemplo, interpretar por conta própria os resultados obtidos comparando-os com os valores de referência contidos ao lado de cada resultado pode levar equívocos. É possível que o resultado de colesterol total esteja acima dos valores de referência podem ser reflexo de valores relativamente mais altos de HDL-colesterol (um resultado bom no conjunto), enquanto níveis normais de colesterol total, mas com um valor de LDL-c de 120 mg/dL pode ser adequado para a maioria dos indivíduos, mas não para os portadores de diabetes. Portanto, é muito importante a avaliação médica para determinação dos valores de alvo de cada lípide em relação a cada indivíduo conforme sua condição clínica.

Lipoproteínas

As gorduras presentes no nosso organismo podem ser de fonte exógena (pela alimentação) ou endógena (produzido pelo próprio organismo, principalmente pelo fígado). Por esse motivo explica-se o colesterol aumentado no sangue de pessoas que não ingerem grandes quantidades de gordura na dieta, elas são, portanto, produzidas pelo próprio organismo por defeitos genético no metabolismo desses compostos.

As principais gorduras, ou lipídeos, envolvidos nas dislipidemias (anormalidades das gorduras no sangue) são o colesterol e o triglicérides. Como água e óleo, as gorduras não são solúveis no sangue e precisam ser “empacotadas” por uma molécula com a ajuda de proteínas (vide figura abaixo).

estrutura de uma lipoproteína

O colesterol no interior do complexo lipoproteico é o colesterol éster. Um éster de colesterol é formado entre o grupo carboxila de um ácido graxo e o grupo hidroxil do colesterol. É a forma inativa do colesterol. A forma ativa, é o colesterol não esterificado ou livre.

Tanto o colesterol éster, quanto os triglicérides, são moléculas hidrofóbicas (pouco solúveis em água) e ficam no interiro da lipoproteína. Na superfície, ficam os fosfolípides e o colesterol não-esterificado, além das apolipoproteínas, algumas comuns, outras específicas de cada uma molécula.
O fosfato dos fosfolipides são mais hidrofílicos, ou seja, tem mais afinidade por água.

Essa configuração das lipoproteínas permite que as gorduras transitem no sangue entre os diversos tecidos.

A esse complexo de lipídeo-proteína, denomina-se lipoproteína. As lipoproteínas são classificadas de acordo com a sua composição de lipídios e proteínas, bem como sua densidade (grau de concentração da massa) ou, em outras palavras, quanto elas são “compactas”.

Tipos de lipoproteínas

·      Lipoproteína de muito baixa densidade ou VLDL (do inglês: Very-Low-Density Lipoprotein) –  São moléculas grandes, isto é, pouco densas ou “empacotadas”. Sua principal função é entregar colesterol e triglicérides para os outros tecidos a partir do fígado. Ao serem liberados pelo fígado, as partículas de VLDL sofrem uma série de transformações na corrente sanguínea, liberando triglicérides para serem estocados no tecido adiposo ou utilizado como fonte de energia. A molécula remanescente vai dar origem a lipoproteína seguinte, o LDL. 

·      Lipoproteína de baixa densidade ou LDL (do inglês: Low-DensityLipoprotein) – são menores que a VLDL e maiores que a HDL. Têm maior quantidade de gordura e menor quantidade de proteína quando comparadas às LDLs. É a principal molécula que carrega o colesterol no sangue do fígado para vários tecidos.

·      Lipoproteína de alta densidade ou HDL (do inglês: High-Density Lipoprotein) –é a menor molécula das três. Proporcionalmente, contêm menor quantidade de lipídos e maior quantidade de proteínas. De forma contrária ao LDL, transporta o colesterol dos tecidos periféricos (por exemplo – vasos sanguíneos)  para ser metabolizado e eliminado pela bile. Esse processo é chamado de transporte reverso do colesterol.

  • Lp(a) – ligada a uma apoproteína a, que tem semelhança com o plasminogênio, que por sua vez é um fator que facilita a trombose. Tem um post falando sobre esse LDL piorado.

Colesterol é bom e necessário

O colesterol é importante na estrutura da membrana celular e na produção de alguns hormônios esteroides adrenais e sexuais, como cortisol, estrógeno e testosterona. As células podem produzir seu próprio colesterol ou ter como fonte adicional o colesterol produzido pelo fígado.

O colesterol que não foi utilizado não pode ser degradado e eliminado pelas próprias células, devendo retornar para o fígado (transporte reverso) e eliminado pela bile. Esse processo é realizado pelas lipoproteínas.

Quando o colesterol é ruim

Altos níveis de colesterol no sangue podem levar ao aumento da oferta e com isso acúmulo do colesterol na parede dos vasos e participar do processo de aterosclerose. Na maioria dos estudos, o aumento do colesterol LDL foi relacionado ao processo de aterosclerose, processo que leva enrijecimento e diminuição da luz do vaso sanguíneo, dificultando a passagem do sangue e a chegada do oxigênio nos tecidos. Quando esse processo acontece nas artérias do coração (coronárias) ou do cérebro, com obstrução da circulação do sangue nesses órgãos, temos como resultado o infarto e o derrame, respectivamente. Por ser o principal “distribuidor” do colesterol para as artérias, o LDL é chamado de colesterol ruim, ao contrário do colesterol HDL, que vai “coletando” o excesso de colesterol, por isso, denominado de bom colesterol.

E os triglicérides?

Os triglicerídes são o tipo mais comum de gordura no corpo, seu aumento não está tão claramente ligado ao maior risco de doenças cardiovasculares como o colesterol, mas frequentemente encontra-se aumentado nos casos de diabetes e obesidade. A hipertrigliceridemia pode ser um marcador da dislipidemia aterogênica, discutida em outro post.

Apolipoproteínas

É a parte proteica das lipoproteínas. Algumas são comuns, outras exclusivas de cada tipo de lipoproteína.

Algumas delas podem ser dosadas no laboratório e a importância vai ser comentada no texto sobre dislipidemia aterogênica.

A apolipoproteína B está contida quase que exclusivamente na partícula de LDL-colesterol, havendo apenas uma partícula dela por lipoproteína. Já a apolipoproteína A-I é a principal representante no HDL-colesterol.

LipoproteínaDensidade (g/ml)tamanho (nm)Lipídio principalPrincipais apoproteínas
Quilomícrons<0,93075-1200TriglicéridesApo B-48, Apo C, Apo E, Apo A-I, A-II, A-IV
Remanescentes de quilomícron0,930- 1,00630-80Triglicérides ColesterolApo B-48, Apo E
VLDL0,930- 1,00630-80TriglicéridesApo B-100, Apo E, Apo C
IDL1,006- 1,01925-35Triglicérides ColesterolApo B-100, Apo E, Apo C
LDL1,019- 1,06318- 25ColesterolApo B-100
HDL1,063- 1,2105- 12Colesterol FosfolípidesApo A-I, Apo A-II, Apo C, Apo E
Lp(a)1,055- 1,085~30ColesterolApo B-100, Apo (a)

Considerações finais

Concluindo, as gorduras dosadas no exame de sangue são diversas e estão sob forma de lipoproteínas. O “colesterol bom” é usado como sinônimo da lipoproteína HDL-colesterol e o ruim, do LDL-colesterol. Os triglicérides são outro tipo de gordura que está contida nass liproteínas junto com quantidades variáveis de colesterol. Os valores desejáveis dessas gorduras no sangue variam de indivíduo para indivíduo a depender de outros fatores que aumentam o risco para doenças cardiovasculares.

Referências

Introduction to Lipids and Lipoproteins

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Diabetes e doença e cardiovascular: qual fator de risco priorizar no tratamento?

Em 2013 foi publicado um artigo de revisão sobre a relação da glicemia, diabetes e doença cardiovascular. A doença cardiovascular, como infarto e derrame, é reconhecida há muitos anos como principal causa de morte nos pacientes portadores de diabetes.

No passado, grandes estudos tentaram avaliar se o controle intensivo da glicemia diminuiria os eventos cardiovasculares. Os resultados foram controversos. Um dos pontos abordados pelo artigo de revisão do autor Sattar, publicado em 2013, é o resultado de metanálise (análise conjunta de vários estudos) que avaliou qual seria a medida que mais teria impacto sobre a redução dos eventos cardiovasculares. Como resultados, o controle da hipertensão, do colesterol LDL (“colesterol ruim”) foram mais importantes que o controle da HbA1c na prevenção dos eventos cardiovasculares, conforme demonstrado na figura.

impacto da pressão, dislipidemia, e glicemia na doença cardiovascular
Contribuição de cada fator de risco na diminuição dos eventos cardiovasculares.

Para a prevenção das complicações microvasculares (que afetam olho, rim e nervos) o controle da glicemia se mostra mais evidente que as complicações macrovasculares, entre elas infarto e derrame.

A principal recomendação desse tópico na publicação é que o controle da pressão arterial e redução do colesterol devem ser priorizados precocemente no tratamento do diabetes.

Como esses estudos foram realizados com medicações orais mais antigas (sulfonilureias) e insulina, que têm maior risco de hipoglicemia quando comparados às medicações mais modernas, foi questionado se esses resultados se manteriam com medicações com menor risco de hipoglicemia. Embora a relação entre hipoglicemia e eventos cardiovasculares ainda não tenha sido totalmente esclarecida, a hipoglicemia pode ter sido fator que tenha minimizado o benefício do controle glicêmico na redução dos eventos cardiovasculares.

De qualquer forma, o alerta do tratamento multifatorial (pressão, colesterol e glicemia) é mais que válido. Mesmo que as medicações mais modernas como a empagliflozina e a liraglutida tenham mostrado recentemente diminuir eventos cardiovasculares, elas não estão ao alcance da maior parte da população. Além disso, não há dúvidas da contribuição do controle da pressão e do colesterol sobre doenças cardiovasculares.

Certamente, o controle glicêmico deve ser perseguido, sem ser às custas de aumento da frequência de hipoglicemia, mas não devem ser esquecidos o controle da pressão arterial e dos níveis de colesterol de acordo com os objetivos terapêuticos de cada paciente no tratamento individualizado.

Referências

SATTAR, N. Revisiting the links between glycaemia, diabetes and cardiovascular disease. Diabetologia, v. 56, n. 4, p. 686-95, Apr 2013. ISSN 1432-0428.

ZINMAN, B.  et al. Empagliflozin, Cardiovascular Outcomes, and Mortality in Type 2 Diabetes. N Engl J Med, v. 373, n. 22, p. 2117-28, Nov 2015. ISSN 1533-4406.

DOGGRELL, S. A. Liraglutide, a GLP-1 receptor agonist, prevents cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes. Evid Based Med, Nov 2016. ISSN 1473-6810.

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Atividade física previne a progressão para o diabetes independentemente da perda de peso

Em 2002 foi publicado um importante estudo sobre a prevenção de diabetes em indivíduos acima do peso e com pré-diabetes, o estudo DPP (do inglês, Diabetes Prevention Program). Nele, foram comparados três grupos de pacientes: o grupo placebo, um grupo ao qual foi prescrito metformina 850mg duas vezes ao dia, e um terceiro grupo que recebeu aconselhamento contínuo para mudança de estilo de vida, com dieta e atividade física de pelo menos 150min por semana, visando uma perda de 7% do peso inicial e avaliada a progressão de pré-diabetes para diabetes.

Após uma média de três anos do início do estudo, nos indivíduos mais jovens, abaixo de 60 anos, a mudança de estilo de vida foi mais eficaz que o uso metformina, que por sua vez foi melhor que o grupo placebo em retardar progressão do pré-diabetes para o diabetes. Já nos indivíduos acima de 60 anos, a mudança de estilo de vida reduziu em 71% o risco da progressão para diabetes, e a administração de metformina mostrou ser uma medida pouco eficaz. Avaliando-se todos os pacientes que fizeram mudança de estilo de vida, o risco para progressão do diabetes reduziu em 58%.

Devido ao sucesso da mudança de estilo de vida, foi oferecido para todos os indivíduos um programa de mudança de estilo de vida e convidados a participar da continuação do estudo DPP, o DPPOS (Diabetes Prevention Program Outcome Study), cujos resultados foram publicados em 2009 e confirmaram a maior eficácia da mudança de estilo de vida quando comparadas a metformina e placebo.

Há poucas semanas, os resultados da observação de uma média de 12 anos desses pacientes foram anunciados durante o Congresso da Associação Americana de Diabetes. Os pesquisadores concluíram que, em todos os grupos de tratamento, a progressão para o diabetes foi menor nos indivíduos que eram fisicamente ativos, especificamente 2% de diminuição no risco, independentemente da perda de peso. O efeito protetor foi mais pronunciado naqueles que eram mais sedentários no início do estudo.

Antes desses resultados, pensava-se apenas que a atividade física tinha benefício apenas no auxílio da perda de peso, entretanto, mostrou-se benéfica por si só na prevenção do diabetes, devendo ser encorajada na prevenção do diabetes, bem como a perda de peso e alimentação saudável.

Referências:

http://www.niddk.nih.gov/about-niddk/research-areas/diabetes/diabetes-prevention-program-dpp/Pages/default.aspx

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3135022/

http://www.diabetes.org/newsroom/press-releases/2016/new-dpp-data-indicates-physical-activity-helps-prevent-type-2-diabetes-independent-of-weight-loss.html

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Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá