Diabetes e hipoglicemia

Avaliação do controle glicêmico no diabetes: além da hemoglobina glicada

Atualizado em 28/02/2018

A glicação (ligação da glicose sem ajuda de enzimas)  pode
acontecer em várias outras moléculas em qualquer parte do corpo.

No diabetes, esse processo é exacerbado pelas altas concentrações de glicose no sangue.

Para avaliar o grau de glicação no organismo, o exame mais utilizado e reconhecido é a hemoglobina glicada. O termo “hemoglobina glicada” (A1C) representa a ligação da glicose a uma parte da hemoglobina, proteína presente nas hemácias (células vermelhas do sangue), e reflete o grau de glicação a outros tecidos, principalmente naqueles em que a glicose tem livre acesso (olho, rim, nervos, vasos).

O aumento dos níveis de A1c foram relacionados ao aumento do risco de complicações do diabetes e é o exame utilizado principalmente para avaliar o controle e recentemente foi incluído também para diagnóstico do diabetes; o valor proposto para diagnóstico é a A1c ≥6,5%, já os valores para avaliar o controle, pode variar de 6,5 a 8,5% dependendo da faixa etária, presença de complicações crônicas, risco de hipoglicemia etc., devendo ser individualizada.

No diabetes, ao se iniciar um tratamento (medicamentoso ou não) para diminuir os níveis de glicose no sangue, o esperado é que haja uma diminuição do processo de glicação como um todo, e que é monitorado pela queda da A1C. Como a glicose se liga de uma forma irreversível à hemoglobina, a diminuição da porcentagem da glicação é vista apenas à medida em que as células vermelhas são destruídas. A vida média de uma hemácia é de 90 a 120 dias, o que quer dizer que se houver normalização dos níveis de glicemia, apenas haverá normalização da quantidade de A1c depois que todas as hemácias forem substituídas por novas que não sofreram maior glicação.

Da mesma forma que a hemoglobina, outras proteínas do sangue terão maior quantidade de glicose combinada a elas quando o diabetes está descompensado. O exame de frutosamina leva em consideração esse princípio e representa a glicação das proteínas do sangue em geral, mas principalmente da albumina, cuja vida media é de 2 a 3 semanas.

Outro exame mais recentemente disponível é o 1,5 anidroglucitol (1,5-AG), também conhecido como 1-deoxiglicose, que avalia as variações de glicemia nas últimas 24h a 72h. A dosagem é feita no sangue, sendo inversamente proporcional à glicemia, isto é, quanto mais baixo, melhor o controle glicêmico (Fig 1).

hemoglobina glicada

A partir desse conhecimento, esses exames podem ser  utilizados na prática clínica para avaliar se uma tratamento (intervenção) dependendo do tempo que se quer reavaliar. Esses exames são feitos em laboratório a partir do sangue.

É importante lembrar que a relação do aumento da frutosamina com as complicações do diabetes não foi diretamente estudada, e sua solicitação geralmente é recomendada apenas quando há problemas na interpretação da A1c por alterações na estrutura ou níveis de hemoglobina.

Nos últimos anos, vem ganhando força não só a avaliação dos marcadores no sangue, mas também dados de controle realizados pelas próprias pessoas com diabetes (automonitorização). As avaliações da automonitorização podem ser realizadas em curtos períodos de tempo, e os métodos mais utilizados são a glicemia capilar (pequenos vasos) ou “ponta de dedo”, ou ainda pela avaliação da monitorização continua da glicose intersticial (Fig 2). Programas de computador e aplicativos estão disponíveis para avaliar os dados da automonitorização e os dados podem ser compartilhados com a equipe multidisciplinar.

No exemplo abaixo de um gráfico de monitorização contínua de glicose, apesar da glicada estimada ser de 6,5%, que estaria no alvo para a maioria das pessoas com diabetes, o paciente em questão apresenta vários episódios de  hipoglicemia assintomática e tempo considerável abaixo do alvo previamente determinado seria prioridade para o ajuste da dose de insulina.

avaliação contínua da glicose 2
Figura 2. Exemplo de gráfico mostrando tempo acima, dentro e abaixo dos alvos pré-definidos

Em resumo, os níveis de glicose podem ser verificados de formas alternativas à A1c. Embora a A1c ainda continue sendo o exame de referência na avaliação do tratamento, a avaliação contínua da glicose vêm ganhando força como uma ferramenta auxiliar, para essa última muito se tem falado em objetivos de controle glicêmico com tempo no alvo glicêmico e redução da variabilidade glicêmica, já que a A1c oferece uma média, e não reflete os altos e baixos da glicemia. A interpretação e solicitação dos exames laboratoriais que avaliam a glicação (e consequentemente níveis glicêmicos), glicemia ou glicose devem considerar o tempo no qual o pacientes estará ou esteve submetido ao tratamento recomendado.

Para saber mais sobre a avaliação contínua da glicose pelo Sistema Flash, confira o post: https://drasuzanavieira.med.br/2017/06/16/monitorizacao-continua-da-glicose-sistema-flash-o-que-dizem-as-curvas/

 

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