Revisado em 03/08/2025
Se o diabetes tipo MODY é um tipo de diabetes que pode confundir por atingir a faixa etária do diabetes tipo 1 mas não precisa de insulina, e o diabetes tipo LADA pode ocorrer o mesmo por pegar faixa etária mais avançada porém precisar de insulina, mais um tipo conceito surge no espectro da síndrome do diabetes: o diabetes duplo (DD).
No diabetes duplo, a pessoa inicialmente é diagnosticada como tendo diabetes tipo 1 ou 2, mas ao decorrer do tratamento, as características de outro diabetes vai surgindo. Assim sendo, uma pessoa com diabetes tipo 1 pode desenvolver resistência à insulina que utiliza como tratamento, apesar da resistência à insulina ser uma característica principal do diabetes tipo 2.
Também pode ocorrer num jovem que aparenta na primeira avaliação ser ter diabetes tipo 2, por ser obeso, porém no sangue podem estar presentes os anticorpos que atacam as células beta, revelando dessa forma que também é portador de diabetes tipo 1.
Historicamente, as definições de DD evoluíram, com as primeiras menções em 1991, focando em pacientes com DM1 e histórico familiar de DM2. Autores posteriores incluíram a presença de características clínicas da DM2 (excesso de peso, dislipidemia, hipertensão) em indivíduos com DM1.
Fisiopatologia da Resistência à Insulina na DM1
A associação entre resistência à insulina e DM1 é provavelmente multifatorial. A seguir, alguns possíveis mecanismos:
Predisposição Genética: Indivíduos com DM1 podem ter uma predisposição genética à IR e DM2, especialmente se tiverem parentes com DM2.
Hipótese do Acelerador/Sobrecarga: A resistência à insulina impulsionada pela obesidade pode acelerar a apoptose (morte programada) das células β pancreáticas, aumentando a formação de autoanticorpos e, consequentemente, o risco e o início da DM1.
Terapia Intensiva de Insulina: O tratamento intensivo de insulina, embora reduza complicações, está associado ao ganho de peso, que é um fator conhecido de IR e inflamação crónica.
Tratamento Não Fisiológico: A administração de insulina por via subcutânea, em vez da via portal fisiológica (pâncreas para o fígado), leva a hiperinsulinemia periférica e hipoinsulinemia hepática, o que pode diminuir a captação periférica de glicose e aumentar a produção hepática de glicose, piorando a sensibilidade à insulina.
Glicotoxicidade Crônica: A hiperglicemia crônica pode induzir à resistência insulínica ao reduzir a captação periférica de glicose.
Avaliação da resistência insulínica no DM1
O método padrão-ouro para medir a captação de glicose mediada por insulina é a técnica de clamp euglicêmico-hiperinsulinémico (HEC), mas é invasivo e complexo para a prática diária. É feito apenas em ambiente de pesquisa.
Índices como HOMA-IR e QUICKI não podem ser usados em pacientes com DM1 devido ao uso de insulina exógena e à disfunção das células β. Os marcadores indiretos de resistência à insulina baseados em parâmetros clínicos e laboratoriais amplamente disponíveis são promissores para identificar a resistência insulínica em pacientes com DM1, tais como relação cintura-altura, dislipidemia aterogênica (aumento dos triglicérides e redução do HDL-colesterol).
A relação da dose de insulina por quilograma de peso também é uma forma indireta de avaliar a resistência à insulina.
Tratamento na Diabetes Duplo
Apenas a terapia com insulina não é suficiente e pode agravar a resistência à insulina devido ao ganho de peso.
Medicamentos hipoglicemiantes comumente usados na DM2 podem ser considerados como terapia adjuvante na DD para melhorar a sensibilidade à insulina e influenciar componentes da Síndrome Metabólica, tais como:
- Metformina: Diminui a gluconeogênese hepática, aumenta a captação periférica de glicose, e pode reduzir o peso e a dose diária de insulina. Parece ser uma escolha razoável devido à sua capacidade de reduzir a IR e aos seus benefícios cardiovasculares, com um bom perfil de segurança.
- Inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT-2): Reduzem a reabsorção renal de glicose. Embora diminuam a HbA1c, a massa corporal e a dose de insulina, aumentam o risco de cetoacidose diabética euglicêmica, exigindo que os pacientes estejam cientes dos sintomas e monitorem a cetonemia.
- Agonistas do receptor de GLP-1 (as “canetinhas”): Estimulam a secreção de insulina dependente de glicose, inibem o glucagon e retardam o esvaziamento gástrico, levando à redução da ingestão de alimentos. Podem reduzir a HbA1c, a dose de insulina e o peso corporal, mas também aumentam o risco de hipoglicemia e cetose.
Mudanças no estilo de vida são cruciais para prevenir e tratar a resistência insulínica no DM1:
- Dieta: Uma dieta com alto teor de proteínas, baixo teor de gordura e ingestão ideal de carboidratos com aumento da fibra dietética pode melhorar a sensibilidade à insulina.
- Atividade Física Regular: Pode reduzir a resistência à insulina e a dose diária de insulina sem afetar a HbA1c.
Modificação de estilo de vida para controle do peso, incluindo dieta e exercícios já sabidamente importantes para prevenção de diabetes tipo 2, podem ser importantes também para prevenção de diabetes tipo 1 em pacientes com diabetes duplo.
Considerações finais
É um problema clínico sério, pois está associada a um risco significativamente maior de desenvolver complicações micro e macrovasculares independentemente do controlo glicêmico, e a sua prevalência pode aumentar devido à pandemia global de obesidade e à crescente incidência de DM1.
Estima-se que um em cada quatro pacientes com DM1 preencha os critérios da Síndrome Metabólica, sendo assim identificado como tendo Diabetes Duplo.
Como já comentado, acredita-se que a obesidade tenha um papel não só na resistência à insulina, mas também no desencadeamento de autoimunidade nos pacientes que são geneticamente susceptíveis ao diabetes tipo 1. Essa hipótese pode justificar o aumento dos casos de diabetes tipo 1 ao longo dos anos.
Referência
Bielka W, Przezak A, Molęda P, Pius-Sadowska E, Machaliński B. Double diabetes-when type 1 diabetes meets type 2 diabetes: definition, pathogenesis and recognition. Cardiovasc Diabetol. 2024 Feb 10;23(1):62. doi: 10.1186/s12933-024-02145-x. PMID: 38341550; PMCID: PMC10859035.
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