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Dieta cetogênica e Câncer

Manipulação dietética ou uso de alimentos como remédio tem sido utilizado desde Hipócrates para muitas doenças. Como exemplo temos a dieta cetogênica para tratamento de condições como epilepsia, obesidade, diabetes, síndrome dos ovários policísticos, doença cardiovascular e câncer.

O racional para a terapia metabólica com dieta cetogênica para o tratamento de câncer recai numa característica metabólica da maioria das células tumorais: o Efeito Warburg, descrito pelo pesquisador Otto Warburg, vencedor do Prêmio Nobel em 1924. De acordo com o que foi descrito pelo pesquisador, independentemente da quantidade de oxigênio e da função mitocondrial, as células tumorais capturam e metabolizam grandes quantidades de glicose com sua conversão posterior a lactato em lugar de oxidá-la (usar oxigênio para produção de dióxido de carbono). Assim, esse achado representa uso ineficiente da glicose, já que a produção energia a partir da quebra da glicose sem oxigênio (via anaeróbica ou fermentação) é bem menor que quando utilizada pela cadeia respiratória da mitocôndria (com a utilização de oxigênio). O uso ineficiente da glicose aumenta ainda mais a captação de glicose pelas células tumorais. Esse perfil metabólico das células cancerosas é a base para localização do tumor através da tomografia por emissão de pósitron (PET-scan) utilizando glicose marcada radioativamente (F-FDG).

O Efeito Warburg pode também pode ser um mecanismo adaptativo da célula tumoral frente ao estresse oxidativo: as células tumorais, por conta de alterações no DNA e proteínas mitocondriais, têm um aumento das espécies reativas de oxigênio durante a respiração mitocondrial em comparação com as células normais. As espécies reativas de oxigênio (ROS: do inglês, reactive oxigen species) são produtos intermediários do metabolismo e têm meia vida ultracurta pela presença de um elétron não-pareado que as torna extremamente reativas e capazes de causar danos a diversos tipo de molécula. O estresse oxidativo se estabelece quando há produção excessiva de ROS ou diminuição da capacidade de sua detoxificação pelos compostos antioxidantes.

Recentemente, o documentário  The Magic Pill aborda o papel da dieta cetogênica no câncer, falando do Efeito Warburg como o calcanhar de Aquiles das células cancerígenas.

O aumento dos ROS nas células tumorais eleva sua necessidade de captação de glicose, já que a metabolização dessa produz um composto que tem efeito antioxidante, o NADPH.

Dietas com pouco carboidrato (em geral <50g/dia) induzem a formação dos corpos cetônicos, conhecidas como dietas cetogênicas. Nessas dietas os carboidratos são substituídos por proteínas ou gorduras.

Uma hipótese é que as dietas cetogênicas diminuiriam a capacidade do tumor de produzir NADPH já que, na maioria dos casos, o metabolismo da gordura é incapaz de formar glicose através do processo de gliconeogênese. Consequentemente, a dieta cetogênica poderia levar a aumento do estresse oxidativo pela limitação da regeneração da NADPH, aumentando a susceptibilidade ao tratamento oncológico das células tumorais que se tornariam mais suscetíveis1. Figura 1

Dieta cetogênica e câncer - mecanismo lesivo para células tumorais
Efeito da dieta normal e cetogênica sobre células normais e tumorais

As células tumorais que não possuem a capacidade de metabolizar os corpos cetônicos têm uma queda importante na produção de energia e com isso haveria inibição do crescimento tumoral.  A não-oxidação dos corpos cetônicos diminuem a produção de NADPH, contribuindo para ainda mais para o estresse oxidativo anteriormente descrito. Outros mecanismos propostos são para o efeito da dieta cetogênica nas células tumorais seriam, entre outros, alterações nas vias de sinalização da insulina dentro da célula, fatores inflamatórios e outros do crescimento de vasos sanguíneos2.

Existem muitos estudos in vitro e em modelos animais sobre o efeito da restrição calórica, dieta cetogênica sobre as células cancerosas, mas poucos estudos em humanos. Em ratos, uma revisão sistemática de 21 estudos demonstrou que a restrição calórica tem um efeito anti-câncer bem como um efeito positivo da dieta cetogênica, mas não houve nenhum benefício do jejum intermitente3.

Em relação aos estudos em humanos, Oliveira e colaboradores fizeram recentemente uma revisão de 14 estudos sobre o impacto da dieta cetogênica em pacientes oncológicos4. Foram avaliados a progressão do tumor, alterações no metabolismo celular, desfechos metabólicos, composição corporal por bioimpedância, qualidade de vida. Os autores discutem que a terapia com dieta cetogênica em pacientes oncológicos é potencialmente promissora, mas os resultados são inconsistentes. O limitado número, diferença no desenho e característica dos estudos, tais como da falta de grupo controles, composição da dieta, técnica usada para acessar os resultados, contribuem para essas inconsistências. Novos estudos se tornam necessários. Para os autores, alguns pontos devem ser considerados para os novos estudos:

  • Duração da intervenção maior que 3 semanas
  • Medida dos corpos cetônicos para avaliar a adesão à dieta
  • Nos estudos em que o objetivo principal é o tratamento do câncer, a medida do tamanho do tumor e/ou metabolismo é essencial
  • Idealmente, a intervenção com a dieta deveria ser o único tratamento testado. Entretanto, retirar o tratamento convencional possa ter implicações éticas e impeditivas, o período antes da cirurgia ou em pacientes em que a vigilância ativa é uma opção (por exemplo, mulheres com carcinoma ductal in situ homens com câncer de próstata não agressivo)
  • Estudos em que a dieta cetogênica é a única terapia utilizada, critérios de inclusão e exclusão devem incluir falha a resposta da terapia convencional e falência de órgãos, respectivamente

Como conclusões, os autores afirmam que diante da grande prevalência do efeito Warburg em uma grande variedade de cânceres, parece sensato abordar essa característica através de uma terapia metabólica; contudo, ainda são necessários mais estudos para validar essa terapia contra o câncer.

Referências:

1                      ALLEN, B. G.  et al. Ketogenic diets as an adjuvant cancer therapy: History and potential mechanism. Redox Biol, v. 2, p. 963-70,  2014. ISSN 2213-2317.

2                      BOZZETTI, F.; ZUPEC-KANIA, B. Toward a cancer-specific diet. Clin Nutr, v. 35, n. 5, p. 1188-95, 10 2016. ISSN 1532-1983.

3                      LV, M.  et al. Roles of caloric restriction, ketogenic diet and intermittent fasting during initiation, progression and metastasis of cancer in animal models: a systematic review and meta-analysis. PLoS One, v. 9, n. 12, p. e115147,  2014. ISSN 1932-6203.

4                      OLIVEIRA, C. L. P.  et al. A Nutritional Perspective of Ketogenic Diet in Cancer: A Narrative Review. J Acad Nutr Diet, v. 118, n. 4, p. 668-688, Apr 2018. ISSN 2212-2672.

 

A dose faz o veneno

“A dose faz o veneno” é uma famosa frase atribuída a Paracelso, médico no século XVI e considerado o pai da toxicologia. Todos os elementos químicos, incluindo a água e oxigênio, podem ser danosos ao organismo quando em excesso. Esse princípio rege as concentrações máximas aceitáveis para quase todas as coisas que consumimos, inclusive medicamentos.

Os medicamentos devem ser utilizados de forma apropriada, direcionado determinado diagnóstico de forma racional. As respostas de cada indivíduo podem variar muito e mesmo num mesmo indivíduo, uma determinada dose ter mudanças necessárias ao longo do tempo.

Cada medicamento possui seu efeito terapêutico, propriedade utilizada para tratar determinada doença ou aliviar sintomas. Todo terapia medicamentosa segue dose, posologia e tempo de utilização por forma limitada ou contínua. Os efeitos colaterais podem aparecer mesmo com doses terapêuticas e estão presentes para todos os tipos de medicamento em maior ou menor grau. Os efeitos colaterais não se limitam a medicina alopática, mesmo compostos naturais utilizados na medicina integrativa devem ser usados com parcimônia. Doses muito acima da terapêutica (superdose) podem intoxicar o corpo com graves efeitos sobre a saúde, podendo serem letais.

A utilização de medicamentos sem prescrição médica (automedicação), sem indicação terapêutica apropriada, com dose maior do que a preconizada ou por um tempo administração podem ser mais maléficas que benéficas.

Na área de endocrinologia, as medicações iguais ou semelhantes aos hormônios são muito utilizadas para tratar as deficiências da produção das glândulas, esse é o efeito terapêutico.

Exemplos?Nós temos vários! Começado pela testosterona, que nem sempre é utilizada para quem tem hipogonadismo, mas indiscriminadamente utilizada para aumento da massa magra, desejo e desempenho sexual. A suplementação ou superdosagem hormonal pode causar efeitos deletérios, mesmo que seja um moléculas muito semelhantes às  produzidas originalmente pelas glândulas.

Outro exemplo muito comum é o uso de hormônio tiroidiano para emagrecimento, que pode levar a sinais e sintomas de hipertiroidismo, diminuição de massa óssea e arritmias cardíacas em pessoas com a produção normal desses hormônios.

Aqui eu retomo a modulação hormonal para regular uma possível diminuição da ação dos hormônios, mas pode ser um grande perigo, já que na maioria dos casos, doses não necessárias de hormônios desfaz um equilíbrio hormonal anterior se presente.

Por fim, vemos um excesso de prescrições de vitamina D, que pode ter interesses econômicos como pano de fundo.

O outro lado

Certamente, há casos em que as medicações são realmente necessárias e nos quais enfrentamos também dificuldades. Um dos maiores problemas no uso das medicações é o uso irregular pelos pacientes; a falta de adesão ao tratamento, isto é, o não seguimento da prescrição. A falta de adesão é muito comum nas doenças crônicas, para medicações de uso contínuo e quando há muitas medicações prescritas ao mesmo tempo (polifarmácia). Há também de se considerar o risco de interações medicamentosas à medida que a lista de medicações aumenta.

Além disso, podemos citar outros problemas relacionados tais como: tomada ou administração de medicação fora do horário indicado na prescrição, não respeitar se deve ser tomado com estômago cheio ou vazio no caso das medicações de uso oral ou da aplicação correta quando não é utilizada essa via.

A forma de administração é tão importante o mais que a dose correta. Por exemplo, no diabetes, as insulinas devem ser aplicadas fazendo o rodízio adequados dos seus locais de aplicação para não haver o desenvolvimento de lipodistrofia e mudar o efeito de determinada dose das insulinas humanas e seus análogos. Antes de mudar a dose, deve-se examinar os locais de aplicação de insulina.

Medicações desnecessárias e uso inadequado das medicações necessárias são extremos que vemos diariamente na prática clínica. Essas premissas também valem para suplementos e outros compostos tidos como naturais e isentos de efeitos deletérios. Saber indicar as medicações e principalmente quando não indicá-las é essencial. Em dúvida, abstenha-se de intervirPrimun non nocere – um aforismo bem conhecido e um dos princípios adotados pelo movimento Slow Medicine.

Após uma consulta médica, nem sempre é necessário sair com uma lista enorme de medicamentos e suplementos ou com mudança na prescrição prévia. Avaliar riscos e benefícios de cada medicação a ser introduzida, revisar a forma adequada de utilização das medicações através da anamnese e exame físico é parte essencial da consulta médica, requerendo seu tempo adequado.

Bioimpedância: o que é e como funciona?

Bioimpedância mede a quantidade de gordura e músculo no corpo

A oposição à passagem de uma pequena corrente elétrica (impedância) ao longo dos tecidos do corpo é o princípio do exame de bioimpedância para avaliação da composição corporal. Sabe-se que a corrente elétrica é melhor pelos íons contidos nos fluidos. A partir desse princípio, é possível determinar a quantidade de água corporal, que é a percentagem de fluidos no corpo e geralmente é indicada em porcentagem.

Tecidos que tenham mais água e íons na sua composição, como o músculo e sangue, oferecem menor resistência (menor impedância) à passagem da corrente elétrica, o mesmo não acontece com os tecidos adiposo, pele e ossos.

Por esse princípio, o composição corporal é dividida em dois componentes:

  • massa livre de gordura, ou massa magra: inclui músculos, ossos, pele
  • massa gorda  (total menos massa magra)

Há também de se considerar que a massa muscular inclui diversos tipos de músculo:

  • músculo esquelético presente principalmente nos membros
  • outros tipos de músculo que compõem órgãos como o coração (cardíaco), intestino, aparelho respiratório etc (músculo liso) – presente principalmente no tronco

O músculo esquelético corresponde a aproximadamente 56,6% da massa magra.

Como o músculo é rico em água, um aumento de água corporal no exame de bioimpedância pode ser reflexo do aumento da massa muscular.

Outra informação útil que podem ser obtidas é o índice de sarcopenia, que é perda de musculatura esquelética dos membros (apendicular). A manutenção da massa magra é importante para qualidade de vida ao longo dos anos. O índice de sarcopenia é calculado dividindo-se a massa muscular dos quatro membros pela altura ao quadrado.

Informações adicionais estimadas pela bioimpedância

Taxa metabólica basal – estimativa de quanto seria o gasto energético para manter as funções vitais do organismo em repouso. A taxa metabólica basal é diretamente proporcional ao peso e à quantidade de músculo. A bioimpedância não é o exame mais apropriado para medir metabolismo. O exame mais indicado é a calorimetria indireta.

Ingestão calórica diária – estima a necessidade energética (ingestão calórica) necessária para manter a taxa de metabolismo basal e gastos de atividade física. Em programas que visem redução do peso corporal, um valor menor diário deve ser utilizado para eventualmente programar uma dieta hipocalórica.

Idade Metabólica – o valor corresponde à taxa metabólica basal média de determinada idade cronológica. Se sua idade metabólica é maior do que sua atividade atual, é sinal que precisa que precisa melhora-la através de exercícios físicos que aumentem a massa muscular.

Resultados da análise total e segumentar da bioimpedância corporal
BMR – basal metabolic rate (taxa metabólica basal estimada). TBW – total body water (água corporal)

Os resultados podem ser representados de diferentes formas, como no exemplo abaixo.

bioimpedancia corporal
Diferente forma de excposição dos dados coletados: massa magra, massa gorda (adiposa), massa muscular, músculo esquelético e água corporal e índice de sarcopenia

Condições que modifiquem a quantidade de água no organismo podem subestimar ou superestimar a quantidade de massa magra e, consequentemente, massa gorda.

Os aparelhos tetrapolares (eletrodos para os quatro membros) permitem a avaliação da composição corporal por segmento: membros superiores, inferiores e tronco e oferecer mais informações, como índice de sarcopenia.

Exemplo de aparelho tetrapolar: a corrente elétrica passa por cada segumento do corpo

Pela análise individualizada de cada segmento corporal, é possível obter os resultados de massa magra nos quatro membros e tronco.

Resultados da análise total e segumentar da bioimpedância corporal
Análise para cada segmento do corpo e equilíbrio da massa muscular

Alguns programas possibilitam também a avaliação da evolução das mudanças de composição corporal ao longo do tempo.

Evolução de peso, massa muscular e massa gorda ao longo do tempo

Como vimos, a quantidade de água medida é essencial para determinar a composição corporal. Portanto, alguns cuidados são necessários garantir um grau de hidratação normal e uma boa acurácia do resultado do exame, bem como evitar artefatos que modifiquem a velocidade da corrente elétrica, um preparo antes do exame torna-se necessário.

Quem não pode ou deve fazer o exame

  • Usuários de marcapasso ou outro aparelho elétrico implantado no corpo
  • Pessoas com com peças metálicas no corpo tais como placas e parafusos
  • Gravidez ou suspeita de gravidez

A avaliação sequencial da composição corporal é mais indicada que uma medida isolada. Os programas comercialmente disponíveis podem dar não só uma avaliação pontual, mas a evolução ao longo do tempo num programa de emagrecimento e também atividade física.

A avaliação da composição corporal é mais acurada que a medida do índice de massa corporal (IMC) para avaliar o excesso de gordura, característica da obesidade; duas pessoas podem ter o IMC exatamente igual, mas composições corporais totalmente diferentes.

. A massa magra é o principal componente que mantém um bom nível de metabolismo para evitar um reganho de peso no futuro.

Preparo do exame

  • jejum de 4h antes do exame
  • não ingerir bebidas alcoólicas 8h antes do exame
  • evitar consumo excessivo de alimentos ricos em cafeína (chocolates, chás escuros, cafés)
  • evitar atividade física intensa e sauna no dia anterior ao exame
  • evitar realizar no período menstrual
  • beber aproximadamente 500 ml de água 2h antes do exame
  • esvaziar a bexiga antes da realização do exame
  • retirar metais do corpo (brincos, anéis, piercings)

Orienta-se usar roupas leves para realização do exame

Quem não pode ou deve fazer o exame

  • Usuários de marcapasso ou outro aparelho elétrico implantado no corpo
  • Pessoas com com peças metálicas no corpo tais como placas e parafusos
  • Gravidez ou suspeita de gravidez

A avaliação sequencial da composição corporal é mais indicada que uma medida isolada. Os programas comercialmente disponíveis podem dar não só uma avaliação pontual, mas a evolução ao longo do tempo num programa de emagrecimento ou para avaliação de programas de atividade física.

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