Todos os posts de Dra. Suzana Vieira

Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá

Dieta de baixa caloria possibilita a remissão do diabetes tipo 2

Atualizado em 06/11/19

REMISSÃO DO DIABETES

Hábitos saudáveis e estilo de vida que reúnam dieta e atividade física para obtenção de perda de peso são importantes para o controle do diabetes. Isso já é bem sabido. Agora o que se fala pouco é mais que auxiliarem no controle, a perda de peso levar à remissão do diabetes tipo 2 em alguns casos.

Muito se fala sobre o diabetes tipo 2 não ter cura e sobre a necessidade de sempre utilizar medicação para manter sob controle a glicemia. O estudo DiRECT, publicado na revista Lancet vem para quebrar um paradigma de que não apenas a doença possa ser controlada como ter sua remissão, isto é, ter os níveis de glicemia normalizados sem medicação.

ESTUDO DIRECT

Cerca de 1500 participantes em potencial foram convidados a participar do estudo, dos quais um terço deles concordaram em participar e um quinto dos indivíduos foram incluídos no estudo. Um programa alimentar e de atividade física foi foi prescrito para 149 pessoas com diabetes tipo 2 em uso de hipoglicemiante oral e com diagnóstico de diabetes nos últimos 6 anos e comparados ao mesmo número de indivíduos que não fizeram o plano estruturado de redução de peso. A HbA1c de base foi de 7,7 % no grupo de intervenção (dieta low carb, low calorie) e 7,5% do grupo controle, respectivamente. O IMC dos dois grupos era de aproximadamente 35,5 kg/m2. Os pacientes estavam usando até dois hipoglicemiantes orais.

O plano alimentar foi dividido em duas fases:

A primeira fase tinha duração de 3 meses, podendo ser estendida a 5 meses, se o participante assim desejasse. Foram utilizados substitutos alimentares em todas as refeições, perfazendo um total de 825–853 kcal/dia, com a seguinte composição:

  • 59% de carboidrato,
  • 13% de gordura,
  • 26% proteína
  • 2% fibra.

A segunda fase era de reintrodução alimentar, que durou de 2 a 8 semanas e tinha a seguinte composição:

  • 50% de carboidrato,
  • 35% de gordura,
  • 15% de proteína

Os indivíduos permaneciam num programa de visitas mensais por longo prazo para manutenção do peso perdido até um ano do início do estudo.

Todas as medicações para diabetes e hipertensão foram suspensas logo no primeiro dia de dieta.

Todos os participantes foram encorajados a manter, mas não aumentar, sua atividade física habitual durante a primeira fase da dieta com substitutos de refeição.

Estratégias de atividade física mais específicas foram iniciadas na fase de reintrodução de alimentos. Pedômetros foram disponibilizados para auxiliar os participantes a atingirem e manterem seu número máximo de atividade física, com objetivo alcançar 15.000 passos ao dia.

A remissão do diabetes foi definida como HbA1c (hemoglobina glicada) <6,5% após 2 meses de retirada dos antidiabéticos orais, do início do estudo até 12 meses. Essa remissão foi intimamente relacionada à perda de peso e atingida em 86% dos participantes que perderam pelo menos 15 quilos, conforme figura abaixo.

DISCUSSÃO

As diretrizes da ADA de 2019 no seu capítulo que aborda nutrição  afirma que não há uma porcentagem ideal de macronutrientes recomendada para pessoas com diabetes, e que se deve individualizar a prescrição de dieta, observado as preferências pessoais de cada paciente.

Os benefícios das dietas pobre em carboidratos no DM2 incluem impactos nos níveis de gordura no sangue, diminuindo triglicérides e aumentando o HDL-colesterol, reduzindo ainda a circunferência abdominal e a pressão arterial.

Existe uma tendência ao uso de dietas de baixo teor de carboidrato, ou mesmo cetogênicas para controle do diabetes tipo 2, mas essas estratégias são ainda vistas com ressalvas pela comunidade acadêmica.

Pessoas que usam hipoglicemiantes orais ou insulina devem realizar o ajuste dessas medicações durante uma dieta deste tipo somada a atividades físicas adaptadas e regulares, por isso é fundamental o acompanhamento médico para ingressar nesse tipo de tratamento mais restrito. Todos os casos devem ser sempre acompanhados por médicos habilitados. Isso porque dentro do espectro da doença, existem algumas restrições a esta dieta, como, por exemplo, todas as pessoas com diabetes do tipo 1 e algumas pessoas com diabetes tipo 2 que necessitem de doses muito altas de insulina, já que não podem restringir demais os carboidratos devido ao risco de cetoacidose diabética.

CONCLUSÃO

A principal mensagem do estudo DiRECT, estudo comentado nos primeiros parágrafos, é que ele provou a remissão do diabetes tipo 2. Esse foi um estudo de vida real, com médicos generalistas e equipe multidisciplinar sem necessidade de cirurgia bariátrica ou metabólica. A chave do sucesso foi a perda de peso substancial, que reduziria a gordura no pâncreas, envolvida com mecanismo do defeito da secreção de insulina.

O diabetes tipo 2 é uma doença crônica, mas não inexoravelmente progressiva com antes pensado. Há a possibilidade de remissão da doença através perda de peso ou cirurgias e através de dietas dietas mais restritivas. Sabe-se da dificuldade em se manter essas dietas e nem sempre é necessário o uso de substitutos alimentares. Na verdade, num mundo ideal, as pessoas não necessitariam perder tanto peso controlar suas doenças e a dieta seria o menos processada possível, mas não é essa a nossa realidade.

Referências

LEAN, M. E. et al. Primary care-led weight management for remission of type 2 diabetes (DiRECT): an open-label, cluster-randomised trial. Lancet, v. 391, n. 10120, p. 541-551, 02 2018. ISSN 1474-547X.

ASSOCIATION, A. D. 5. Lifestyle Management:. Diabetes Care, v. 42, n. Suppl 1, p. S46-S60, Jan 2019. ISSN 1935-5548. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30559231 >.

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Prolactina, dopamina e impulsividade: conexões

Prolactina e dopamina

A prolactina é um hormônio produzido na hipófise e responsável pela estimulação da mama para produção de leite na gravidez. Após o parto, os níveis de prolactina diminuem a menos que a mãe amamente.  A prolactina é inibida pela dopamina secretada por neurônios do hipotálamo.

hipofise_2

Além do controle da prolactina, a dopamina é um neurotransmissor importante para função motora, motivação e aprendizagem de reforço, agindo por diferentes vias neuronais.

O aumento patológico da prolactina leva à deficiência dos hormônios sexuais (hipogonadismo) no homem e na mulher.

A prolactina pode estar anormalmente alta devido à produção tumoral das células que a produzem da hipófise (prolactinoma), uso de medicações, hipotireoidismo, outros tumores da hipófise, lesões ou estimulação dos mamilos ou ainda lesão em tórax (como herpes zoster) ou pequenos traumas nessa região.

Nesse post, será abordada principalmente a influência dos medicamentos sobre a prolactina e os potenciais efeitos adversos dos agonistas dopaminérgicos, classe de medicações utilizadas para tratamento do prolactinoma, entre outras doenças.

Hiperprolactinemia induzida por medicamentos

Primeiramente, acerca do efeito das medicações sobre a prolactina, temos uma lista relativamente grande.

As medicações que bloqueiam os efeitos da dopamina na hipófise ou esgotam os estoques de dopamina cerebrais podem inibir essa supressão da dopamina sobre a prolactina. Essas medicações incluem os antipsicóticos, que são medicamentos usados para esquizofrenia e alguns tipos de depressão.

Como resultado final, os antagonistas da dopamina podem causar o aumento da secreção de prolactina pela hipófise. Essas medicações incluem os antipsicóticos, que são medicamentos usados para esquizofrenia, alguns tipos de depressão e utilizadas ainda no transtorno do controle dos impulsos.

Prolactina e antipsicóticos

Os antipsicóticos de primeira geração, mais antigos, tais como o  haloperidol, trifluoperazina têm o risco consideravelmente maior de aumentar a prolactina, enquanto os antipsicóticos mais modernos como a clozapina, olanzapina, aripiprazol, ziprasidona e zotepina não aumentam ou aumentam em menor grau esse hormônio. Essa diferença deve-se a maior ou menor estimulação do receptor D2 presente nas células que produzem a prolactina na hipófise, os lactotrofos.

A risperidona, embora seja um antipsicótico de segunda geração, aumenta consideravelmente a prolactina.

Essa diferença entre os antipsicóticos no aumento da prolactina se deve a maior ou menor estimulação do receptor D2 presente nas células que produzem a prolactina na hipófise, chamadas de lactotrofos.

Prolactina e antidepressivos

Ao contrário da dopamina, a serotonina pode estimular a produção de prolactina. Os antidepressivos que inibem a recaptura da serotonina (SSRI), principalmente os mais antigos, podem também aumentar a prolactina.

A lista de medicamentos que aumentam a prolactina não se limita às medicações usadas na psiquiatria.

Os opioides e derivados são principalmente usados para dor e podem também aumentar a prolactina.

Tabela 1. Medicamentos que causam aumento persistente da prolactina

Sobre o aumento da prolactina secundário ao uso de medicações, de acordo com as Diretrizes da Endocrine Society, a suspensão ou troca da medicação por outra que não aumente ou aumente menos a prolactina é recomendada nesses casos.

Na impossibilidade de suspender ou trocar a medicação que aumenta a prolactina, deve ser feita a reposição de hormônio sexual nos casos de hipogonadismo de longa data.

Como o uso de agonistas dopaminérgicos pode piorar o quadro psiquiátrico, deve se ter muita cautela em se prescrever essa medicação em pacientes que estejam em tratamento com antidepressivos e/ou antipsicóticos. O alinhamento com o psiquiatra sobre qualquer a prescrição de qualquer medicação que possa afetar o quadro psiquiátrico é fundamental.

Aumento de prolactina e hipotireoidismo

O hipotireoidismo primário pode aumentar a prolactina via aumento do hormônio TRH (hormônio liberador da tireotrofina). O TRH por sua vez estimula primariamente as células que produzem o hormônio o TSH (tireotrofos), mas também a prolactina.

Diante de um aumento da prolactina é mandatório excluir o hipotireoidismo.

Agonistas dopaminérgicos : no caminho inverso

Os agonistas são medicações que estimulam determinado receptor, em contraste com os antagonistas.

Uso terapêutico dos agonistas dopaminérgicos

Os agonistas dopaminérgicos estimulam o receptor da dopamina e com isso diminuem a secreção da prolactina. São utilizados não só na endocrinologia para o tratamento de prolactinomas (o tipo mais comum de tumor hipofisário), para supressão da lactação na obstetrícia, mas também é uma das medicações possíveis para no tratamento de Doença de Parkinson e síndrome das pernas inquietas. Relembrando que não são utilizados no tratamento da hiperprolactinemia farmacológica causada pelos antipsicóticos.

Agonistas dopaminérgicos e prolactinomas

Para o tratamento dos prolactinomas, são utilizadas medicações derivadas do ergot (ergolínicos): a carbergolina e bromocriptina. Essas medicações apresentam semelhanças com neurotransmissores como a serotonina, dopamina e adrenalina.

A ação estimulatória da cabergolina e da bromocriptina sobre os receptores da dopamina é o efeito desejado para suprimir a secreção tumoral da prolactina.Pela ação nos receptores de serotonina, as duas medicações produzem efeitos colaterais como mais comuns, como náuseas e vômitos.

Pelo potencial efeito serotoninérgico nas válvulas cardíacas, altas doses dos agonistas dopaminérgicos podem levar a valvulopatias. Esse efeito colateral é raramente observado e não é recomendado o exame de ecocardiograma de rotina.

Agonistas dopaminérgicos e Doença de Parkinson

Atualmente, no tratamento da Doença de Parkinson, os agonistas dopaminérgicos utilizados são os não-ergolínicos: pramipexol e ropinirol e piribedil.

A bromocriptina e a cabergolina já foram utilizadas para Doença de Parkinson, mas as doses chegam até 10 vezes maiores que as utilizadas para o tratamento dos prolactinomas.

Agonistas dopaminérgicos e Transtorno de Controle dos Impulsos

Alguns efeitos colaterais desses agonistas dopaminérgicos incluem alucinações, insônia, comportamentos impulsivos, tais como hipersexualidade, jogo patológico, comer compulsivo, cleptomania, compulsão por compras, comportamento agressivo, variações do transtornos de controle dos impulsos.

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O transtorno do controle dos impulsos já foi relatado em estudos de caso-controle em pacientes usando doses altas de agonistas dopaminérgicos para o tratamento de tumores hipofisários (1). 

Há de se levar em consideração que o tratamento da hiperprolactinemia reverte o hipogonadismo (baixos níveis de hormônios sexuais). Se após o tratamento for observado o desenvolvimento da hipersexualidade, pode ser que o(a) paciente volte ao seu padrão “normal” e não que esteja desenvolvendo um transtorno de controle de impulso.

Recentemente, uma artigo de revisão francês avaliou a relação entre os agonistas dopaminérgicos utilizados para o tratamento da Doença de Parkinson, síndrome das pernas inquietas e prolactinomas com o transtorno de controle dos impulsos e encontrou uma associação complexa (2). Os principais achados que conferiram risco para o  dese nvolvimento desse transtorno com o uso dessas medicações está relacionado ao tipo de agonista (principalmente utilizados na Doença de Parkinson), doses altas, sexo masculino (principalmente para hipersexualidade e jogo patológico), pacientes jovens (abaixo de 65 anos), estado civil (não casados) e história preexistente de sintomas ou transtornos psiquiátricos.

Considerações finais

O tratamento da hiperprolactinemia causada pelos medicamentos, principalmente os antipsicóticos, é uma situação muito complexa para o endocrinologista. O alinhamento da terapia com o psiquiatra ou médico que prescritor da medicação causadora do aumento da prolactina é fundamental.  Por outro lado, o endocrinologista e outros profissionais que prescrevam agonistas dopaminérgicos, devem estar atentos ao aumento da impulsividade nos seus pacientes. A mensagem  que fica para as pessoas que vão iniciar ou estão em tratamento para prolactinoma é que não há motivo para alarme pois esses efeitos colaterais são raros e mais estudos ainda são necessários.  Na dúvida, converse com o seu médico.

Referências

BANCOS, I.  et al. Impulse control disorders in patients with dopamine agonist-treated prolactinomas and nonfunctioning pituitary adenomas: a case-control study. Clin Endocrinol (Oxf), v. 80, n. 6, p. 863-8, Jun 2014. ISSN 1365-2265.

2  GRALL-BRONNEC, M.  et al. Dopamine Agonists and Impulse Control Disorders: A Complex Association. Drug Saf, v. 41, n. 1, p. 19-75, Jan 2018. ISSN 1179-1942.

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Os cinco tipos ou fenótipos do diabetes

O vídeo acima fala da classificação usual e clássica dos tipos de diabetes, mas uma publicação científica sugere uma reclassificação. E como seria?

A nova sugestão de classificação do diabetes e suas implicações

O estudo publicado  publicado online em 1º de março na revista Lancet Diabetes & Endocrinology, pretende novas implicações para diagnóstico e tratamento do diabetes ao classifica-lo em cinco tipos. O diabetes é atualmente classificado em dois grandes grupos: diabetes tipo 1 e tipo 2, mas o diabetes tipo 2 é bastante heterogêneo.

A ideia principal seria refinar classificação para identificar pacientes com maior risco de complicação do diabetes.

São afirmações dos pesquisadores:

A sub-estratificação pode eventualmente ajudar a desenhar e alcançar os pacientes que poderiam se beneficiar mais, representando o primeiro passo para medicina de precisão em diabetes

Uma ferramenta online para estratificação está sendo desenvolvida

Dados de cerca de 15.000 pacientes obtidos retrospectivamente de registro médicos em países escandinavos foram divididos em agrupamento conforme observação de seis ao variáveis ao diagnóstico de diabetes:

  1. Presença de anticorpo contra o pâncreas (contra a glutamato descarboxilase – anti-GAD), o principal anticorpo que configura o diabetes autoimune, ou seja, o diabetes tipo 1 e o LADA;
  2. Idade ao diagnóstico
  3. Índice de massa corporal
  4. HbA1c
  5. HOMA2-Bhomeostatic model assessment 2 – para avaliar secreção de insulina. No nosso meio, utilizamos mais o peptídeo C para ver reserva pancreática de insulina.
  6. HOMA2-IR para avaliar resistência à insulina com dosagem de peptídeo C

O tempo para adicionar medicação, tempo para atingir o alvo do tratamento, risco de complicações diabéticas e associações genéticas foram os objetivos do estudo.

FENÓTIPOS DO DIABETES

Os resultados dos da divisão em cinco tipos de diabetes estão resumidos na tabela abaixo

Tab 1. Agrupamentos segundo as características iniciais, evolução e risco de complicações

AgrupamentoN (%)CaracterísticaNome
1577(6,4)·         Início precoce – essencialmente corresponde a diabetes tipo 1 e LADA, IMC relativamente baixo

·         mau controle metabólico

·         deficiência de insulina

·         anti-GAD positivo

Diabetes grave autoimune
21575(17,5)·         Similar ao agrupamento 1

·         anti-GAD negativo

·          HbA1c elevada

·         mais alta incidência de retinopatia

Diabetes insulino-deficiente grave – Severe insulin-deficient diabetes (SIDD)
31373 (15,3)·         Resistência à insulina

·         IMC elevado

·         mais alta incidência de complicação renal (nefropatia)

Diabetes insulino-resistente grave
41942 (21,6)·         Obesidade

·         Idade precoce


Sem resistência à insulina

Diabetes leve relacionado à obesidade
53513 (39.1)·         idade avançada

·         alterações metabólicas leves

Diabetes leve relacionado à idade

O grupo 5 mostrou menor risco de retinopatia e doença renalO agrupamento 3 mostrou maior risco de desenvolver doença renal terminal em comparação com os outros grupos, principalmente com o grupo 5.

Considerações sobre a necessidade de nova classificação em cinco tipos de diabetes

A atual classificação da associação americana de diabetes, a qual geralmente acompanhamos aqui no Brasil, divide o diabetes em 4 grandes grupos.

Embora seja mais comentados os dois principais tipos de diabetes – tipo 1 e tipo 2 – há ainda o diabetes gestacional e outros tipos de diabetes. No diabetes tipo 1, ainda há a divisão de com anticorpos positivos ou negativos e é chamado idiopático, aparentemente semelhante ao agrupamento 2 do estudo recém-publicado.

O quarto grupo é o menor, mas muito heterogêneo e são os casos de diabetes monogênico, doença do pâncreas exócrino, devido ao uso de medicações, por ex. corticoides, por tratamento de HIV/AIDS e após transplantes de órgãos.

Esses grupos podem se sobrepor.

Fenótipos do diabetes – modificado de Ref 2.

Quanto às complicações microvasculares do diabetes, a retinopatia é a primeira complicação a se desenvolver em pacientes com mau controle glicêmico, razão pela qual deva estar no agrupamento 1 pelo difícil controle.

Muitos, senão a maioria, dos endocrinologistas não conseguem seguir as diretrizes para tratamento do diabetes, pois tentam raciocinar sobre a fisiopatologia da doença. Não é fácil “encaixar” as características e um tipo de diabetes. Mesmo os casos aparentemente mais comuns de diabetes tipo 2 são muitas vezes desafiadores para seu controle, talvez por isso, após a metformina quase todas as medicações são possíveis em todas as diretrizes, ou seja, o que combinar melhor com o paciente.

Em uma pessoa obesa, com história familiar positiva para diabetes, é bem provável que tenha diabetes tipo 2 (fato observado no estudo escandinavo). Como a obesidade causa resistência à insulina, a fisiopatologia nesse caso inclui a resistência à insulina ou também deficiência da secreção de insulina e o tratamento vai ser direcionado para esses dois problemas.

Por outro lado, pessoas magras, jovens, com quadro de emagrecimento ao diagnóstico, cetoacidose diabética, sem controle com medicações orais levantam a suspeita (ou deveriam levantar) de diabetes autoimune ou que apresentem baixa secreção de insulina pelo pâncreas por outra causa. Por ser a insulina um hormônio metabolismo, pessoas com emagrecimento por descompensação importante e descontrole do diabetes devem ser tratadas com insulina mesmo sem ter obrigatoriamente de “fechar diagnóstico” como diabetes tipo 1 ou tipo 2.

O termo medicina de precisão vem com a proposta de tratar pessoas com base na análise pormenorizada e personalizada das suas características biológicas. Esse conceito vem gerando discussão e controvérsias. As dosagens hormonais para a obtenção dos parâmetros que avaliam secreção e resistência à insulina podem ser um complicador, pois necessitam de ensaios laboratoriais mais refinados e nem todo laboratório está pronto para tal.

Não nego aqui a importância de classificar o diabetes, muito menos da susceptibilidade maior de alguns pacientes a certas complicações. A susceptibilidade genética foi meu objeto de estudo na pós-graduação, sendo uma possibilidade para explicar a ausência de complicações em pacientes cronicamente descompensados. No estudo aqui comentado, o perfil genético diferiu nos diversos grupamentos. A abordagem genética não apresentou até o momento grandes avanços na sua aplicação prática para identificar pacientes de maior risco. Por ora, o controle glicêmico e outros fatores com hipertensão, dislipidemia, tabagismo, permanecem como fatores de risco para complicações mais facilmente detectáveis e, portanto, combatíveis.

Dados preciosos para o diagnóstico correto podem ser obtidos pela anamnese e exame físico. O tratamento sempre com dieta e atividade física, perda de peso nos pacientes obesos, sobrepeso ou para reduzir circunferência abdominal além de medicação oral ou insulina quando necessárias. Recentemente, foi demonstrado que mudança de estilo de vida pode levar à remissão do diabetes tipo 2.

Parece-me válida essa nova sugestão de classificação se ajudar a definir os pacientes que precisam de insulina dos que não precisam, em outras palavras, não classificar erroneamente um diabetes tipo 1 como se tivesse diabetes tipo 2. Se for mais uma forma de categorizar os pacientes, mas que tenha pouca reprodutibilidade ou acesso no nosso meio, ou ainda não leve à grandes mudanças no tratamento, acredito que teria pouca validade.

Por fim, um ponto interessante que me fez lembrar o discurso de muitos pacientes que relatam na história familiar que os pais ou avós tiveram “diabetes da idade”, e assim o falam conferindo pouca importância para saúde geral daqueles, esses pacientes já alocaram os seus parentes no agrupamento 5, isto é, o diabetes leve de curso benigno sem saber que seria descrito em um artigo científico. Para esse grupo, mais susceptível a hipoglicemias e que não se beneficiam tanto de tratamento intensivo, vale a pena repensar a forma de tratamento.

Referências

  1. Novel subgroups of adult-onset diabetes and their association with outcomes: a data-driven cluster analysis of six variablesAhlqvist, Emma et al.The Lancet Diabetes & Endocrinology, Volume 6, Issue 5, 361 – 369
  2. Deutsch AJ, Ahlqvist E, Udler MS. Phenotypic and genetic classification of diabetes. Diabetologia. 2022 Nov;65(11):1758-1769. doi: 10.1007/s00125-022-05769-4. Epub 2022 Aug 12. PMID: 35953726; PMCID: PMC9522707.
Fenótipos do diabetes

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