Todos os posts de Dra. Suzana Vieira

Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá

Diabetes insipidus – deficiência do hormônio antidiurético (AVP)

O Diabetes Insipidus (DI) é uma doença rara, na qual há deficiência ou resistência do hormônio antidiurético e impossibilitando a concentração de urina.  A pessoa com essa doença urina litros e mais litros de urina diluída, quase água pura mesmo. Aqui, a gente vai chamar aqui de poliúria hipotônica e, nesse texto, vamos discutir a causa do diabetes insipidus e as doenças que podem simulá-la. O parágrafo sobre tratamento será mais direcionado para quando há deficiência hormonal, o diabetes insipidus central.

A hipófise posterior libera o hormônio antidiurético (do inglês antidiuretic hormone ou ADH) que é produzido no hipotálamo, conforme Fig. 1. O ADH também é conhecido como vasopressina ou arginina-vasopressina (AVP).  

Importante destacar que nos últimos anos há uma sugestão de mudança de nomenclatura para “Deficiência de AVP” em lugar de diabetes insipidus central.

Aqui nesse texto, você ainda vai encotrar muito a nomenclatura antiga.

Figura 1. Hipófise com destaque à hipófise posterior onde é liberado o ADH produzido pelos núcleos hipotalâmicos.

O hormônio antidiurético age no seu receptor no rim trazendo de volta para circulação sanguínea parte da água que seria eliminada na urina. Esse transporte se dá através do aumento dos canais de água chamadas de aquaporinas 2 na superfície do túbulo renal.

Figura 2. Ação do ADH no rim pela mobilização das vesículas de aquaporinas 2 para superfície da célula do túbulo renal e posterior reabsorção da água.

Diagnóstico diferencial da poliúria e polidipsia

A urina hipotônica é considerada quando a osmolalidade é < 300 mOsm/Kg. Com esse valor, completamos o critério de urina hipotônica.

Depois desse ponto, devemos saber se o problema da concentração de urina se deve a uma das três causas:

– Deficiência da produção do hormônio diurético pelo hipotálamo-hipófise posterior ou deficiência de AVP (DI central)

– Resistência à ação do hormônio antidiurético no rim ou resistência ao AVP (DI nefrogênico)

– Decorrente do hábito, mania ou necessidade de beber muita água (polidipsia primária ou psicogênica). O beber muita água é o problema principal, enquanto no DI, urinar muito é o problema primário e beber muita água é decorrente (secundário) desse primeiro aspecto.

Relatos que falam contra o DI e a favor da polidipsia primária

  1. o paciente consegue dormir a noite toda se se levantar para ir urinar
  2. o paciente se levanta à noite para beber água ao invés de urinar
  3. existe uma doença psiquiátrica associada, como esquizofrenia

Há ainda o diabetes insipidus gestacional por aumento da produção da enzima vasopressinase pela placenta (dá uma olhada no post do Instagram no final desse texto).

Causas de polidipsia

A história do paciente já pode dar pistas da causa do diabetes, como o relato de cirurgia na região da hipófise-hipotálamo. Uso de lítio é uma causa comum para DI nefrogênico nos dias de hoje.

Em post futuro, vale a pena esmiuçar a polidipsia primária, pois pode ser mais frequente do que se imagina por conta do “estilo de vida saudável” persseguido por algumas pessoas, na tabela descritas como “entusiastas da saúde”.

DefeitoCausas adquiridas
Deficiência de AVP (DI Central)
Deficiência na síntese ou secreção do ADH-Trauma (cirurgia ou lesão por desaceleração)
-Neoplasia (craniofaringioma, meningioma, germinoma e metástases)
-Granulomatose (histiocitose e sarcoidose)
-Infecção (meningite, encefalite e tuberculose)
-Inflamatório ou autoimune (infundíbulo-neurohipofisite linfocítica e neurohipofisite)
-Exposição a drogas ou toxinas Disfunção do osmorreceptor (DI adípsica)
-Outros (hidrocéfalo, cisto ventricular ou suprasselar e doença neurodegenerativa)
-Idiopático
Resistência ao AVP (DI Nefrogênico)
Redução da sensibilidade renal ao efeito dos níveis fisiológicos do h. antidiurético-Drogas (lítio demeclociclina, cisplatina etc.)
-Hipercalcemia ou redução do potássio no sangue (hipocalemia)
-Lesões infiltrativas (sarcoidose, amiloidose, mieloma múltiplo) –
-Mecânico (rins policísticos, obstrução ureteral)
Polidipsia primária
Ingesta excessiva de água-Dipsogênico (idiopático ou com lesões centrais semelhante ao que acontece no DI central)
-Síndrome da psicose com hiponatremia e polidipsia psicogênica intermitente
-Consumo compulsivo de água
-Entusiastas da saúde
Diabetes insipidus gestacional 
Aumento do metabolismo enzimático do ADH circulante-Gravidez
Tabela 1. Defeitos e causas do excesso de consumo de água e aumento da diurese.

Quadro clínico da poliúria hipotônica (diabetes insipidus)

Além de urinar muito, no diabetes insipidus (agora sugerido que se fale em poliúria hipotônica) a pessoa também tem muita sede e bebe muita água (polidipsia). A quantidade de água ingerida excede três litros por dia. A diferença para o diabetes mellitus é que esse mesmo quadro de urinar muito e beber muita água é causado pelo aumento da glicose no sangue que extravasa para urina (diurese osmótica).

Pode ser que a pessoa urine muitas vezes, mas não quer dizer que seja em grande volume. Se considera um volume de urina em excesso quando, em adulto, o volume urinário ultrapassa 50ml/kg/24h. Uma pessoa com 80 kg, por exemplo, teria que urinar mais de 4 litros por dia. Se esse volume não é confirmado, devemos pensar em problemas geniturinários como bexiga hiperativa, por exemplo.

Diagnóstico laboratorial da poliúria hipotônica (diabetes insipidus)

Depois de confirmada a poliúria, o passo seguinte é saber se a urina é diluída. Para isso, pede-se o exame de osmolalidade ou osmolaridade urinária, que mede a quantidade de solutos no líquido analisado, sendo o primeiro avaliado em quilos e o outro em litros de um determinado solvente.

A avaliação laboratorial inicial deve ser descartado o diabetes mellitus, o aumento do cálcio (como acontece no hiperparatireoidismo primário) e a redução do potássio. Esses últimos são causa de diabetes insipidus nefrogênico.

Se a pessoa com diabetes insipidus não tem problemas de acesso à água, não há desidratação e ela consegue compensar o que ela perde na urina e equilibrar os eletrólitos no sangue.

Em condições normais, quando há redução da ingesta de água, a urina fica concentrada. Para você perceber esse fenômeno, note a urina da manhã é mais amarelada (concentrada) depois de uma longa noite de sono. O retorno da água da urina para o sangue impede que ele, o sangue, fique muito concentrado.

Eletrólitos como o sódio podem aumentar no sangue no diabetes insipidus e causar muitos problemas. Ele e outros solutos aumentam a osmolalidade do sangue. Na prática, nos preocupamos mais com o sódio.

Osmolalidade sérica e urinária

Se a urina é em grande volume, diluída, e o sangue é muito concentrado, a gente já consegue dar o diagnóstico de diabetes insipidus avaliando apenas esses dois parâmetros.

Se o sangue e a urina são muito diluídos, estamos diante de um quadro de polidipsia psicogênica, o beber doentio de água, e de outros quadros de polidpsia primária descritos na Tabela 1.

Para diferenciar as possibilidades iniciais, podemos seguir o algoritmo da Figura 3.

Figura 3. Diagnóstico inicial para investigação de polidispia e poliúria.

Mas, como já comentado, se o paciente consegue repor a água que perde na urina, não dá para fazer esse diagnóstico tão fácil.

Caso não se consiga fazer o diagnóstico com os valores basais de osmolalidade versus osmolalidade ou sódio sérico, partimos para a realização dos testes dinâmicos para o eixo ADH-rim. Os testes dinâmicos têm como objetivo desafiar os hormônios a responderem às situações extremas, seja tentando inibi-los ou estimulá-los. No caso do DI, o objetivo é estimular a secreção ou ação do hormônio antidiurético.

Teste da restrição hídrica

A situação extrema para a liberação do hormônio diurético é provocada deixando a pessoa desidratar pelo teste da restrição hídrica, ou injetar solução de sódio concentrado no sangue (salina 3%). Ambos têm objetivo de aumentar a concentração (Na ou osmolalidade) sanguínea até um limite em que a resposta do hormônio antidiurético seria máxima. Esses dois testes devem ser feitos sobre supervisão de uma equipe médica em ambiente laboratorial monitorizado ou hospitalar.

No teste da restrição hídrica, o paciente não pode beber líquido até perder não mais que 5% do seu peso corporal prévio ao teste.  Se a urina concentrar, a situação é de polidipsia primária, ou seja, não há problema na produção e nem ação do hormônio antidiurético.

Se a urina não concentrar, podemos estar diante de deficiência ou resistência à ação do ADH. Como saber? Injetando o hormônio antidiurético sintético, o DDAVP. Se a urina concentrar, é sinal de que o problema é de falta de hormônio (DI central), e se não concentrar, é um problema de resistência renal ao ADH (DI nefrogênico).

Há casos de DI que ficam no meio do caminho – pode ser um DI central ou nefrogênico parcial. Esses critérios todos para diferenciação, você pode conferir na Figura 4.

Figura 4. Teste da restrição hídrica para diagnóstico diferencial dos casos de polidipsia e poliúria. Modificado de Ref. 1.

Teste da infusão salina com dosagem de copeptina

Você deve estar se perguntando por que não dosar o ADH para diferenciar entre DI central e nefrogênico. A resposta é que o ensaio laboratorial para dosagem do ADH não deu muito certo. Como dizem os mais jovens – o teste “flopou”, apesar das expectativas iniciais.

Já ensaio da copeptina deu mais certo e é o que há de mais moderno. A copeptina é um fragmento derivado do hormônio precursor do ADH, semelhante ao que acontece com a insulina e o peptídeo C. Para cada molécula de ADH produzida, uma molécula de copeptina é liberada na circulação. Sendo assim, sabemos “por tabela” a quantas anda a secreção de ADH (Figura 5).

Figura 5. Formação da molécula de copeptina a partir do pré-pró-AVP

Essa molécula é usada para tentar diferenciar os tipos de diabetes insipidus em outro teste dinâmico, o teste da infusão salina. Nesse teste, é administrado solução salina hipertônica, ou seja, um soro fisiológico com mais sódio. O objetivo é aumentar o sódio no sangue para estimular ao máximo o hormônio ADH, que será refletido pelo aumento da copeptina quando há secreção do ADH.

Na Figura 6, você pode ver as possibilidades diagnósticas diante do teste da infusão salina com dosagem de copeptina.

Figura 6. Teste da restrição hídrica para diagnóstico diferencial dos casos de polidipsia e poliúria. Modificado de Ref. 1.

Diabetes insipidus com adipsia  

É DI adípsico é quando o paciente não tem sede. É resultado do dano estrutural do hipotálamo anterior onde se encontram os osmorreceptores, que são estrutura que percebem o aumento da osmolalidade do sangue para liberação do ADH. É uma situação comumente relatada após clipagem de aneurisma da artéria comunicante anterior ou depois de uma cirurgia extensa de craniofaringioma. Além dos osmorreceptores, outras estruturas podem ser comprometidas, como centro da fome, da regulação de temperatura e da respiração, além de crises convulsivas.

Para diagnosticar esse tipo de diabetes insipidus, escalas de sede podem ser úteis durante os testes dinâmicos como o teste da privação hídrica ou da infusão de salina hipertônica.

Diagnóstico radiológico do diabetes insipidus

Depois de feito o diagnóstico laboratorial a gente vai avaliar se há algum problema estrutural que esteja causando o DI central. Entra em jogo o exame de ressonância magnética. É raro que um tumor na hipófise cause DI, pois a “fábrica” do ADH está não está na hipófise e, sim, no hipotálamo, como ilustrado na Figura 1. A hipófise posterior só tem os prolongamentos dos neurônios produtores de ADH e as vesículas que armazém esse hormônio. Dessa forma, as lesões mais comuns que causam DI central são as lesões acima da hipófise, como o craniofaringioma.

Pode ser que não haja tumor e a hipótese recai sobre causas autoimunes, inflamatórias e infiltrativas. Esse diagnóstico é mais difícil, pois não se pode fazer biópsia dessa região. O diagnóstico pode ser indireto, como, por exemplo, se a pessoa tem outra doença autoimune, como diabetes tipo 1, tireoidite de Hashimoto.

A neuro-hipófise tem um brilho próprio na hipófise e isso não é figura de linguagem. Ela aparece mais acesa, branca, que a hipófise anterior na ressonância magnética (Figura 7). Em textos mais antigos, um sinal sugestivo de destruição da hipófise posterior é a perda do brilho no exame de ressonância. Um estudo recente demonstrou que só 1/3 dos pacientes com DI não tem o brilho na hipófise posterior na RM (Figura 8). De forma contrária, até 20% de pessoas idosas sem DI esse brilho da neuro-hipófise é menor.

Concluindo, a falta do brilho na neuro-hipófise na ressonância não é um sinal específico do DI. O aumento da espessura da haste hipofisária > 2-3mm é considerado patológico, mas também não é específico para DI.

Tratamento da deficiência de avp (diabetes insipidus central)

Vou me deter ao tratamento do DI central por deficiência da produção do ADH nessa sessão. Os endocrinologistas são requisitados nos problemas da hipófise como o diabetes insipidus central. Já o diabetes insipidus nefrogênico e a polidipsia primária podem necessitar de ajuda de outros profissionais, como nefrologista, psiquiatra e psicólogo.

Para todos os pacientes com diabetes insipidus que tenham complicações agudas por desidratação e aumento do sódio intensos, o tratamento deve ser feito no ambiente hospitalar e devem ser feitos cálculos para corrigir o déficit de água. A correção da desidratação e do aumento do sódio devem ser feitos de forma cuidadosa e não pode ser rápida por conta do risco de edema cerebral.

Em ambiente de consultório, a medicação para o tratamento do DI central é o hormônio antidiurético sintético, a desmopressina ou também conhecida por DDAVP. O DDAVP existe na forma de comprimidos, solução nasal e injeção. A dose e o tipo da formulação do DDAVP devem ser individualizados para cada paciente.

Os comprimidos são o tipo de formulação preferida por conta da conveniência. Entretanto, iniciar com spray nasal é preferível por conta da absorção e efeito serem mais previsíveis, que depois pode ser mudado para formulação oral.

O tratamento com DDAVP controla a sede e a poliuria e permite uma boa qualidade de vida para o paciente. A dose de 0,1 a 0,2mg de DDAPVP oral pode ser dada inicialmente à noite para controlar a noctúria (a necessidade de levantar-se para ir urinar). A dose pode ser ajustada conforme a necessidade de controlar os sintomas.

A complicação do tratamento pode ser a intoxicação hídrica, caracterizada pela baixa de sódio (Na) no sangue, por isso esse exame deve ser pedido de forma rotineira no início do tratamento. Estudos indicam que 27% dos pacientes desenvolvem hiponatremia leve (Na sérico de 131 – 134 mmol/L) e 15%, hiponatremia grave (Na < 130 mmol/L) em paciente com tratamento de longa duração para DI central.

Se a hiponatremia ocorrer, o controle deve ser cuidadoso da mesma forma, pois a correção rápida pode levar a problemas neurológicos sérios, como a síndrome de desmielinização. Há estratégias para corrigir lentamente, como atrasar a dose alguns dias da semana ou suspender um comprimido eventualmente (mas não a dose uma dose diária completa).

A pergunta “Dr(a), pode beber?” deve ser respondida com cuidado, pois como o álcool não suprime os níveis circulantes de DDAVP, como faria com ADH hipofisário, o paciente tem mais risco de hiponatremia por excesso de líquido (dilucional).

Considerações finais

Apesar de ser um problema que pode assustar por conta da sintomatologia, geralmente o diabetes insipidus adequadamente tratado não causa maiores problemas e não compromete a qualidade de vida de forma significativa.

Atenção especial deve ser dada à DI central sem sede (adípsica), que pode ser mais complicada. Para esse tipo de DI, o paciente deve ter lembretes para beber água com regularidade ao longo do dia.

Hoje em dia é mais comum encontrar pessoas com polidipsia primária que antigamente, muito por conta do estímulo a beber muita água, como se fosse um dos pilares indiscutíveis do estilo de vida saudável. Por isso, é certa a afirmação que nem muita água é bom para saúde. O segredo está sempre no equilíbrio.

Referências

  1. Christ-Crain M, Bichet DG, Fenske WK, Goldman MB, Rittig S, Verbalis JG, Verkman AS. Diabetes insipidus. Nat Rev Dis Primers. 2019 Aug 8;5(1):54. doi: 10.1038/s41572-019-0103-2. PMID: 31395885.
  2. Garrahy A, Thompson CJ. Management of central diabetes insipidus. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2020 Sep;34(5):101385. doi: 10.1016/j.beem.2020.101385. Epub 2020 Jan 31. PMID: 32169331.
  3. Arima H, Bichet DG, Cheetham T, Christ-Crain M, Drummond J, Gurnell M, Levy M, McCormack A, Newell-Price J, Verbalis JG, Wass J, Cooper D. Changing the name of diabetes insipidus. Pituitary. 2022 Dec;25(6):777-779. doi: 10.1007/s11102-022-01276-2. Epub 2022 Nov 5. PMID: 36334185.

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Fratura atípica de fêmur relacionada aos bisfosfonatos

É uma fratura de fêmur chamada de atípica porque a típica é no colo do fêmur (local que une a cabeça ao corpo) essa não é exatamente assim, pois é na diáfise (corpo) desse osso. Junto com a osteonecrose de mandíbula, a fratura atípica de fêmur são complicações raras, mas graves do uso prolongado dos bisfosfonatos, que são usados no tratamento da osteoporose.

O remédio para evitar a fratura típica pode causar a fratura atípica, o que seria pouco provável de se imaginar que uma coisa dessas pudesse acontecer. Essa rara complicação ainda não tem consenso na literatura de como se deve conduzir melhor esse problema.

Contudo, todavia, entretanto, existem mais fraturas típicas que atípicas e o uso dos bisfosfonatos superam os riscos. Devemos usá-los com sabedoria. A ideia do texto não é condenar os bisfosfonatos.

Os bisfosfonatos reduzem a remodelação óssea. Porém, se não houver uma renovação mínima ele fica mais propenso a fraturas. O risco de fraturas atípicas aumenta com o uso de bisfosfonatos orais por mais de cinco anos e de três anos dos bisfosfonatos endovenosos.

Se você não é da área médica, vou dar alguns exemplos de bisfosfonatos: alendronato, risedronato, ibandronato (orais); pamidronato e ácido zoledrônico (endovenosos).

Esse texto revisa os fatores de risco, patogênese, tratamento e prevenção da fratura atípica de fêmur (FAF).

Critérios para fratura atípica de fêmur

Como a fratura acontece numa região próxima à fratura típica, foram descritos alguns critérios para diferenciá-las.

A fratura atípica deve ter 4 de 5 critérios:

  1. Ocorre sem história de trauma ou um trauma mínimo;
  2. Tem uma linha de fratura predominantemente transversal, originando no córtex lateral e às vezes se tornando oblíqua à medida que progride para o córtex medial;
  3. Estende-se através dos dois córtex e pode estar associado a uma espícula medial (fratura completa); ou envolve apenas o córtex lateral (fratura incompleta);
  4. Não é cominutiva ou minimamente cominutiva;
  5. Demonstra espessamento periosteal ou endosteal (em “bico” ou “chama”) do córtex lateral no local de fratura.
Figura 1. Ilustração da anatomia da fratura atípica de fêmur.

Outras características mais discretas são também importantes, mas não são necessárias para o diagnóstico, como por exemplo:

  • Espessamento cortical da diáfise femoral;
  • Dor unilateral ou bilateral que precede a fratura (pródromos);
  • Fratura completa ou incompleta da diáfise femoral
  • Atraso na consolidação de fraturas.

O risco absoluto é pequeno, mas aumenta com o tempo de uso da medicação, como veremos a seguir.

A FAF é rara, cerca de 4,6¨das fraturas femorais e nem todas as fraturas atípicas são em pessoas que usaram bisfosfonatos – cerca de 7,4% são em pessoas que relataram não terem usado a medicação.

O risco absoluto gira em cerca de 3,2 a 50 casos por 100.000 pacientes-ano. Depois de 5 anos de uso, esse número pula para 100 por 100.000 pacientes anos. O risco é maior em quem toma a medicação adequadamente. Após a suspensão dos bisfosfonatos, o risco de FAF diminui para 70% ao ano.

Muitos dados sobre a prevalência e incidência da FAF são conflitantes. Mais uma vez, os benefícios do uso dos bisfosfonatos superam os riscos, já que as fraturas típicas superam em número as atípicas.

A fratura de fêmur atípica geralmente vem acompanhada

Após uma fratura atípica de fêmur, os pacientes têm um risco significante de fratura no outro lado, no fêmur contralateral. Cerca de um quarto dos pacientes (28%) que tiveram fratura atípica de fêmur sofreram uma fratura no fêmur contralateral, comparado a 0,9% de pacientes que tiveram uma fratura típica.

A fratura contralateral pode ocorrer de 1 mês a 4 anos após a primeira fratura.

A mortalidade decorrente da fratura atípica de fêmur é semelhante à da fratura típica, ambas são maiores que a mortalidade da população geral. Em outras palavras, qualquer um dos tipos de fratura de fêmur encurta a vida das pessoas que a tiveram.

Figura 2. Fratura de fêmur atípica bilateral. A figura mostra o lado direito já com fixação cirúrgica e o esquerdo com fratura completa.

Sintomas precoces que acendem o alerta (pródromos)

A dor que antecede a fratura atípica é comum. De 32 a 76% dos pacientes com fratura de fêmur completa ou em desenvolvimento se apresenta com dor em região da virilha, região lateral ou anterior da coxa.  

A dor pode aparecer a qualquer momento de 2 semanas a vários anos antes da fratura.

A fratura pode ser não traumática, como em uma simples caminhada, descer uma calçada ou ainda uma queda da própria altura.

Em um paciente que estiver em uso de bisfosfonatos e se queixar de dor nessa região, o médico deve solicitar radiografia do quadril e ainda procurar por sinais e sintomas e fraturas no lado contrário.

Diagnóstico diferencial da fratura atípica de fêmur

EXAMES DE IMAGEM

São recomendados para todos os pacientes com queixa de dor no quadril, coxa ou virilha e os mais simples, são geralmente suficientes.

RX SIMPLES

A radiografia é o primeiro passo. Se a radiografia não for conclusiva, a cintilografia óssea ou RM deve ser considerada.

ESPESSAMENTO

DO CÓRTEX

LATERAL

>>>

As alterações radiológicas de fratura transversa e espessamento focal da cortical lateral do fêmur são os achados mais sensíveis e específicos.

Já que há grande risco de fratura contralateral, o estudo radiográfico dever ser feito em ambos os lados

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA

A tomografia não deve ser recomendada para rastreio de FAF por não ser sensível para detectar fraturas de estresse iniciais e por ter grande carga de radiação.

CINTILOGRAFIA ÓSSEA

É um exame muito sensível, mas a especificidade é limitada pela falta de resolução especial, ou seja, ela está alterada nas alterações da FAF, mas a imagem é meio “borrada” e não dá para localizar a lesão com precisão.

DENSITOMETRIA ÓSSEA

O exame base para o diagnóstico de osteoporose pode não detectar a FAF. Isso porque a região do fêmur analisada é principalmente o colo do fêmur e pega só um pedacinho do corpo (1 a 2 cm abaixo do trocânter). Em um estudo, a densitometria óssea “pegou” só 61% dos pacientes com FAF.

RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

Esse exame tem o benefício especial de rastrear a coxa contralateral em pacientes que sabidamente já têm fratura atípica de fêmur. O contraste não é indicado. O sinal mais precoce inclui reação periosteal com sinal normal da medula óssea.

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial da fratura atípica de fêmur inclui fratura por estresse, fratura patológica, hipofosfatasia e osteogênese imperfeita.

A osteomalácia hipofosfatêmica pode causar zonas de Looser, que pode ser confundida com fratura atípica de fêmur, mas geralmente acontece do lado medial.  Da mesma forma, a fratura por estresse pode ocorrer abaixo do trocânter menor do fêmur, mas também ocorre do lado medial e não lateral como o da FAF.

Fratura patológica por lesão óssea como metástase pode simular o “bico” da FAF, mas usualmente é associado com lesão radiolucente e margens mal definidas.

Fatores de risco adicionais

Há perfis de pessoas que a vigilância em relação a esse tipo de fratura deve ser redobrada, a saber:

– Mulher de etnia asiática;

– Medicações – além dos bisfosfonatos, outras drogas como denosumab (outra medicação para osteoporose), glicocorticoides e inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol etc.);

– Fatores genéticos;

– Outras condições médicas – doença do colágeno, doença pulmonar crônica, asma, artrite reumatoide e diabetes.

O risco dessa fratura, como se vê, permanece com medicações a antireabsortivas usadas para osteoporose. Vale a pena aqui não “trocar seis por meia-dúzia”.

Recomendações clínicas para “férias da droga” ou manutenção do uso de bisfosfonatos

Atualmente, recomenda-se avaliar o uso dos bisfosfonatos em um paciente com osteoporose após 5 anos ou mais de terapia.

Uma vez que o paciente com osteoporose tem maior risco de fratura, aqueles pacientes com muito alto risco deve-se considerar para continuar a terapia com bisfosfonatos. 

Fatores para alto risco incluem:

  • História de fratura durante o tratamento com droga antifraturas
  • Índice T menor ou igual a -2,5 em quadril
  • Idade avançada (>70 anos)
  • Outros fatores de risco como fumo, uso de álcool, uso de corticoides, artrite reumatoide e história familiar
  • Escore FRAX acima do limiar país-específico, que é uma ferramenta para determinar o risco de fratura.

Aqueles pacientes sem alto risco devem ser considerados para tirar umas “férias” (drug holiday) do bisfosfonato de 2- 3 anos com avaliação periódica da densidade mineral e marcadores do metabolismo ósseo.

O drug holiday permite que haja um aumento de remodelação e renovação do osso. A vigilância é para ver se a remodelação não aumenta além da conta e paciente começa a perder osso demais. Lembrando que essa classe, diferentemente do denosumab, tem um efeito residual após a suspensão.

Fisiopatologia da fratura atípica de fêmur

Essas drogas suprimem a remodelação óssea; entretanto, em teoria, o uso prolongado por suprimir tanto a remodelação e aumentar a fragilidade óssea

Mudanças na geometria do esqueleto, tais como ângulo mais agudo (fechado) entre o colo e o corpo femoral e a curvatura do fêmur.

Há mais hipóteses ligadas à fisiopatologia, que estão descritas em detalhes no artigo original, cuja referência está no final desse texto.

Tratamento da fratura atípica de fêmur

Tratamento clínico

Os bisfosfonatos devem ser suspensos e o aporte de cálcio e vitamina D deve ser revisto.

Para pacientes com fratura incompleta e dor persistente após 3 meses de tratamento médico, a fixação cirúrgica profilática é recomendada para prevenir a fratura completa.

A teriparatida, o PTH recombinante, é uma droga que estimula a formação óssea e pode ser usada isoladamente ou em conjunto com a fixação cirúrgica. Os estudos sugerem que a teriparatida funciona melhor quando o sítio de fratura está estável.

Tratamento ortopédico

O tratamento ortopédico depende se o paciente está com dor ou se a fratura é completa ou incompleta. O algoritmo sugerido para o tratamento ortopédico está detalhado na Figura 2.

O tratamento conservador para a fratura incompleta sem dor, além da suspensão de drogas antireabsortiva, os pacientes precisam parar as atividades de alto impacto e repetitivos, tais como pular ou correr. Se surgir alguma dor, os pacientes devem iniciar exercícios de levantamento de peso protegidos.

Para quem não está acostumado com os termos da ortopedia, exercícios com descarga parcial é não colocar todo peso do corpo, utilizando muletas ou andador, por exemplo. A descarga completa é andar sem apoios.



Algoritmo de tratamento da fratura atípica de fêmur. Modificado de Silverman e colaboradores.

Considerações finais

Precisamos sempre lembrar que o tratamento da osteoporose não se resume a medicações antifraturas. O exercício físico, a ingesta adequada de cálcio, exposição solar é o primeiro passo. Frequentemente, é necessário suplementar cálcio e vitamina D. Depois disso tudo ou junto com isso tudo é que a medicação deve ser utilizada.

Aqui, o alerta vale para não “queimar a largada” no tratamento da osteoporose, na minha opinião. O que eu quero dizer é de iniciar o tratamento em pacientes que realmente tenham indicação para essas medicações. Imagine você se o tratamento começa sem critério em uma paciente com 55 anos e se mantem sem pausa até os 75 anos! A essa altura, o paciente já vai ter 20 anos de uso da medicação e risco mais alto para fraturas atípicas.

Devemos usar bisfosfonatos? Sim! Com parcimônia sabedoria.

Referência bibliográfica

Silverman S, Kupperman E, Bukata S. Bisphosphonate-related atypical femoral fracture: Managing a rare but serious complication. Cleve Clin J Med. 2018 Nov;85(11):885-893. doi: 10.3949/ccjm.85a.17119. PMID: 30395525.

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Influência das emoções sobre os hormônios

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O hormônio do crescimento é um hormônio sentimental. Não só ele, mas outros também. O que chama a atenção para o hormônio de crescimento é que as crianças com grave privação de afeto não crescem.

A gente já viu que os hormônios estão interligados ao cérebro, quiçá à mente, através do hipotálamo.

Nas crianças que estão em situação extrema falta de amor, afeto, apresentam redução na liberação do hormônio de crescimento, o que provoca um tipo de baixa estatura psicossocial. Isso pode acontecer mesmo quando elas estão bem nutridas em termos de calorias e nutrientes.

Os estudos nessa área começaram após as guerras mundiais, quando foi observado que crianças realimentadas que viviam em famílias pouco privilegiadas cresciam menos em altura comparadas às que foram para orfanatos ou mantiveram sua estrutura familiar intacta.

A privação de afeto pode também influir em outros eixos hormonais, como o da adrenal, tireoide e hormônios sexuais, podendo causar um verdadeiro pan-hipopituitarismo, nesse caso, funcional.

Quando a situação afetiva é resolvida, não só a criança cresce, mas também os hormônios voltam a ser liberados normalmente.

Se isso acontece hoje em dia? Acredito que sim, mas muito menos documentado talvez. Estaria o elo desse efeito na epigenética?

Você já ouviu falar que criança que não é amada o suficiente não cresce? Onde você acha que esse fenômeno pode acontecer nos dias de hoje?

Sugestão de leitura – Emotional Deprivation in Children: Growth Faltering and Reversible Hypopituitarism – https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fendo.2020.596144/full

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