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A SHBG (do inglês, sex hormone-binding globulin)  é produzida pelo fígado e tem como principal função o transporte dos hormônios sexuais no sangue.

Condições fisiológicas (puberdade, gravidez), uso de medicações e algumas doenças influem nos níveis de SHBG. Está inversamente correlacionada ao estado nutricional, estando aumentada na anorexia nervosa e diminuída na obesidade.

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Hormônios ligados e livres

As glândulas endócrinas e os hormônios

A Endocrinologia é a especialidade que estuda as ações dos hormônios no organismo. Os hormônios são substâncias liberadas pelas glândulas endócrinas, que podem agir em células próximas ou distantes. Os hormônios cirulam ligados (fração ligada) a diversos tipos de proteínas e também na forma não-ligada (fração livre). 

Diferença entre glândula exócrina, com liberação das substâncias produzidas através de ductos, e glândulas endócrinas, que libera os seus produtos diretamente na circulação sanguinea.

As glândulas endócrinas não tem ductos (canais) na sua estrutura e liberam os hormônios diretamente na corrente sanguínea. Diferente dessas são as  glândulas exócrinas, já que liberam as seus produtos para o exterior do corpo ou para dentro de outro órgão através de ductos.

Como exemplos de glândulas endócrinas, temos a hipófise, a tiroide, as paratireoides, as adrenais; como exemplos de glândulas exócrinas, temos as glândulas sudoríparas (produzem o suor), as glândulas mamárias, as glândulas lacrimais e as salivares. O pâncreas é um exemplo de glândula mista, produz o hormônio insulina que é liberada na corrente sanguínea e o suco pancreático, liberado pelo ducto pancreático para dentro do intestino.

Como os hormônios são transportados no sangue?

Quando caem na circulação sanguínea, os hormônios são transportados por proteínas chamadas “carreadoras”. A fração livre do hormônio liga-se a seu receptor na célula alvo para produzir seus efeitos ou serem destruídos. A fração ligada não tem efeito biológico, ou seja, não produz nenhum efeito no organismo.

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Proteínas ligadoras dos hormônios e metabolismo da fração livre

Há proteínas que transportam preferencialmente um tipo de hormônio, como os tiroidianos, sexuais e corticosteroide. São exemplos dessas proteínas mais específicas, a SHBG, que carreia os hormônios sexuais; a CBG, que carreia os hormônios produzidos pelas adrenai; a TBG, que carreia os hormônios tireoidianos.

Outras proteínas carreadoras, como a albumina e a transferrina, podem carrear hormônios de forma não preferencial.

As principais proteínas carreadoras estão exemplificadas na tabela abaixo.

Proteínas ligadoras e seus hormônios transportados

Hormônios tireoidianos ligados e livres

Para os endocrinologistas, a fração livre dos hormônios é a mais importante, mas nem sempre temos como dosá-las, já que bons ensaios laboratoriais estão disponíveis. Para os hormônios tireoidianos, já tivemos grandes avanços na metodologia laboratorial, permitido que sejam amplamente solicitados quando há suspeita das disfunções da tireoide.

Os hormônios tireoidianos ligam-se dessa forma: aproximadamente 97,97%  das moléculas de hormônio T4 (tetraiodotironina) estão ligadas às proteínas plasmáticas, enquanto 99,7% do T3 estão carreados.  Isso significa que a fração livre dos dois tipos de hormônio é menor que um por cento.

Exemplos da importância das proteínas carreadoras na prática

Proteína carreadora do hormônio tireoidiano

A principal proteína ligadora dos hormônios tiroidianos é a TBG. Vou falar um pouco mais sobre essa proteína, pois pode haver uma “pegadinha” decorrente das variações da TBG na interpretação dos hormônios tireoidianos.

É bem comum que os pacientes sejam encaminhados com dosagens de hormônios tireoidianos totais altos, principalmente o T4 total, e se faça imediatamente a suspeita de hipertireoidismo. Em uma boa parcela dos casos, não é uma doença real, mas é um resultado laboratorial decorrente do aumento apenas da TBG e não da fração livre do hormônio tireoidiano. A dosagem de T4 total está alto e TSH normal sem que haja hipertiroidismo pode ocorrer na gravidez, no uso de pílulas contraceptivas, na terapia hormonal na menopausa com estrógeno, no uso de andrógenos, de outros hormônios anabolizantes e ainda no uso de altas doses de corticoides.

Para as pessoas que já tem hipotireoidismo e começam a usar hormônio feminino (estrógeno) via oral, a elevação da TBG pode fazer com que haja necessidade do aumento da dose de levotiroxina, pois mais desse hormônio se liga à proteína, diminuindo a fração livre. A redução da fração livre é refletida no aumento do TSH. Essa interação não acontece para os hormônios que são utilizados por outras vias, como adesivos e géis.

Há também situações que podem ser errôneamente diagnosticadas como hipotireoidismo por diminuição global dos níveis das proteínas carreadoras, como doenças do fígado e dos rins.

A TBG pode estar em excesso ou deficiente também por predisposição genética, além de outras doenças e condições clínicas que fogem ao objetivo desse texto.

Pelos motivos descritos acima, são consideradas a fração livre do T4 e não o T4 total. Em conjunto com TSH, o T4 livre permite diagnosticar a maior parte dos casos de disfunção da tireoide.

O T3 total sofre menos das variações da TBG, mas não é menos útil que o T4 para o diagnóstico das disfunções da tiroide.

Na prática clínica, a dosagem de TBG não é necessária na grande maioria dos casos onde há discrepância entre os níveis de T4 total e T4 livre, isso geralmente pode ser subentendido pela observação das causas comuns de aumento de TBG, como é no caso de uso de pílulas anticoncepcionais.

Outras proteínas carreadoras

Ainda falando da interferência da pílula anticoncepcional, pode haver aumento da dosagem de cortisol no sangue por conta do aumento nos níveis da globulina carreadora dos corticosteroides. Esse aumento não tem relevância clínica, isto é, não resulta e nem representa nenhuma doença.

Igualmente importantes são as variações da SHBG em diversas condições clínicas, como síndrome dos ovários policísticos e resistência à insulina, câncer. Para esses temas, há postagem separadas no blog. Vale a pena conferir!

Conclusões

Não se deve, portanto, chegar a conclusões precipitadas sobre alguma doença endocrinológica se baseando apenas nas dosagens isoladas de um ou outro hormônio e, sim, considerar as dosagens hormonais dentro de um todo, dentro de um contexto que inclui a interferência do uso de medicações, condições fisiológicas (exemplo – gravidez) e outras doenças crônicas que possam estar causando as variações na ligação dos hormônios às suas respectivas proteínas carreadoras.

Referências

Thyroxine-Binding Globulin (TBG). Site em inglês da Mayo Clinic sobre TBG

Assay of Thyroid Hormones and Related Substances. Texto em inglês sobre ensaios laboratoriais dos hormônios tireoidianos.

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Diabetes e câncer de mama

Com o aumento dos índices de obesidade no mundo todo, há também aumento do número de indivíduos com diabetes. Parece haver uma relação entre diabetes e câncer de mama, tanto influenciando na causa como modificando o curso da doença.

A resistência à insulina, níveis elevados de insulina (hiperinsulinemia), aumento dos níveis de IGF 1 (fator de crescimento semelhante à insulina), redução da SHBG, alteração da regulação dos hormônios sexuais (estrógeno, principalmente) e substâncias inflamatórias.

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Relação entre resistência insulínica, hiperinsulinemia e alterações em hormônios sexuais

Durante o metabolismo normal, o oxigênio é reduzido à água e, nesse processo, os produtos intermediários, as espécies reativas de oxigênio (ROS: do inglês, reactive oxigen species). Esses compostos têm meia vida ultracurta, pois a presença de um elétron não-pareado os torna extremamente reativos e capazes de causar danos a diversos tipos de molécula. O estresse oxidativo quando há produção excessiva de ROS ou diminuição da capacidade de sua detoxificação pelos compostos antioxidantes.  O aumento das espécies reativas de oxigênio também podem estar relacionados ao aumento do risco de câncer de mama no diabetes.

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Célula tumoral com aumento da formação de espécies reativas de oxigênio pelo excesso de glicose

Muitos estudos têm demonstrado que pacientes com diabetes que já tenham o diagnóstico de câncer de mama têm uma sobrevida menor quando comparada aos indivíduos com câncer de mama sem diabetes. O aumento de mortalidade por todas as causas quando o diabetes está presente é em 65% maior quando comparado aos indivíduos sem diabetes.

Estudos posteriores sobre prognóstico confirmam a presença de diabetes é fator de risco para  redução da sobrevida global, mas também o tempo livre de doença. A ausência de diabetes aumenta em 28% o tempo livre de doença numa metanálise recente.

A administração de insulina parece ser um fator de risco para o crescimento de células cancerígenas, enquanto que e o uso de metformina parece ser um fator protetor para câncer.

A presença de diabetes também tem um impacto no tipo de tratamento para os pacientes com câncer de mama.  O diabetes pode aumentar o risco de toxicidade relacionada à quimioterapia resultando na administração de tratamentos menos agressivos ou respostas mais pobres ao tratamento oncológico. Tanto o cuidado menos intensivo do diabetes como do câncer podem afetar negativamente o prognóstico.

A redução do peso e dietas pobre em carboidrato têm se mostrados estratégias potenciais para o manejo do câncer,  mas ainda carecem de evidências científicas robustas para serem fortemente recomendadas como estratégias terapêuticas.

Por ora, seguimos na forte recomendação da prevenção e controle de fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de mama, como obesidade e diabetes, que certamente vêm antes do rastreamento desses tumores. Mesmo depois do diagnóstico, o controle do peso e controle do diabetes não podem ser negligenciados.

Referências

PEAIRS, K. S.  et al. Diabetes mellitus and breast cancer outcomes: a systematic review and meta-analysis. J Clin Oncol, v. 29, n. 1, p. 40-6, Jan 2011. ISSN 1527-7755.

COHEN, D. H.; LEROITH, D. Obesity, type 2 diabetes, and cancer: the insulin and IGF connection. Endocr Relat Cancer, v. 19, n. 5, p. F27-45, Oct 2012. ISSN 1479-6821.

Zhao XB, Ren GS. Diabetes mellitus and prognosis in women with breast cancer: A systematic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2016;95(49)

Qual a relação entre obesidade e câncer de mama?

Muito se fala em prevenção do câncer de mama, principalmente no mês de outubro, o famoso “Outubro Rosa”. Eu fico pensando cá com os meus botões, que na verdade o outubro rosa é uma campanha de detecção precoce, que é diferente de prevenção, pelo menos a prevenção primária que seria evitar que a doença se desenvolva. Para prevenir o câncer de mama, não podemos deixar de falar no tratamento e prevenção da obesidade. E por que isso?

Qual a relação entre obesidade e câncer de mama?

O câncer de mama é mais comum após os 50 anos de idade, que coincide com a época da menopausa.

Após a menopausa, quando os ovários param de produzir hormônios (estrógeno e progesterona), a gordura se torna a fonte mais importante de estrógeno. As mulheres obesas têm mais gordura corporal e, portanto, seus níveis de estrógeno são mais altos que as mulheres mais magras.

O aumento do estrógeno pode levar a um crescimento mais rápido de tumores de mama que têm receptores para esse hormônio na sua superfície.

O tecido gorduroso e a relação com os hormônios sexuais

O tecido gorduroso expressa as enzimas aromatase e 17β-hidroxiesteroide desidrogenase (17β-HSD). Em indivíduos obesos, há  uma conversão aumentada dos andrógenos Δ4-androstenediona (Δ4A) e testosterona (T) nos estrógenos estrona (E1) e estradiol (E2), respectivamente, pela aromatase. A 17β-HSD converte os hormônios menos biologicamente ativos Δ4A e E1 nos hormônios mais ativos T e E2, respectivamente.

A resistência à insulina reduz a SHBG e piora o quadro

Paralelamente, a obesidade leva à hiperinsulinemia secundária à resistência à ação da insulina, que por sua vez causa uma redução na síntese hepática e nos níveis circulantes de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG).

O efeito combinado do aumento da formação de estrona e testosterona, juntamente com níveis reduzidos de SHBG, leva a um aumento nas frações biodisponíveis  ou livres de E2 e T que podem se chegar mais rapidamente nas células-alvo, onde se ligam a receptores de estrogênio e andrógeno.

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Figura 1. Mecanismo proposto para aumento do risco de câncer de mama e endométrio na obesidade

Os efeitos dos esteroides sexuais quando ligados aos seus receptores podem variar, dependendo dos tipos de tecido, mas em alguns tecidos (por exemplo, epitélio mamário e endométrio) eles promovem a proliferação celular e inibem a apoptose (morte celular), como observado na figura 1.

A obesidade aumenta em quanto o risco para câncer de mama?

Muitos estudos têm mostrado que sobrepeso e obesidade estão associados a um aumento de risco de câncer de mama na pós menopausa. Esse aumento do risco é principalmente visto em mulheres que fizeram terapia de reposição hormonal e para tumores que tem receptores para os hormônios estrógeno e progesterona. Essas mulheres têm história de ganho de peso na vida adulta (entre 18 e 50 a 60 anos).

A obesidade pode causar de 7 a 15% dos cânceres de mama:
– O aumento de 2 a 10 kg após a idade de 50 anos, aumenta o risco de câncer de mama em 30%
– O ganho de 25kg após os 18 anos aumentam o risco de câncer de mama em 45%.

Mas lembrando que esses hormônios eram menos modernos e por via oral. Provavelmente, o terapia hormonal transdérmica não apresente risco dessa magnitude.

Perder peso pode reduzir o risco de desenvolver câncer de mama

A perda de peso pode ter um efeito positivo na diminuição do risco de câncer.  Há estudos que avaliaram os biomarcadores modificáveis com a perda de peso. Redução significante de estradiol (E2) é vista com a redução de peso, de forma inversa, a SHGB aumenta. Isso resulta em considerável redução do estradiol livre mesmo com uma modesta perda de peso.

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Figura 2. Mecanismo pelo qual a perda de peso levaria à redução do risco de câncer de mama

Considerações finais

Apesar das campanhas maciças para o rastreamento de câncer de mama amplamente realizadas no mês de outubro, é válido reforçar que a decisão de fazer a mamografia deve ser compartilhada entre médico e paciente, pois existem alguns tipos de câncer de mamas mais indolentes (de lento crescimento) que não são tão danosos.

Sem dúvida, mais do que a realização de um exame, a prevenção passa por hábitos de vida saudáveis e controle do peso.

Referências

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