Lipoproteína(a)  – importância clínica, diagnóstico e tratamento

Última atualização em 23/11/2025

O que é a Lp(a)?

Lp(a) é a lipoproteína(a), a Lp “azinha”, que nada mais é que o colesterol ruim (LDL) somado a uma apoproteína “a”. É uma molécula de colesterol ruim piorada um tanto mais. Ela pode explicar o porquê de muitos pacientes terem problemas cardiovasculares (infarto, derrame, problemas de válvulas cardíacas) sem que tenham a presença que chamamos fatores de risco clássicos, tais como colesterol ruim alto, diabetes, hipertensão, tabagismo etc.

A função fisiológica da Lp(a) não é totalmente conhecida. Uma vez que a Lp(a) está presente apenas em humanos e primatas, é possível que ela esteja envolvida no combate a vários agentes de estresse oxidativo. Por exemplo, foi provado que a Lp(a) participa da cicatrização de feridas, na formação de vasos nos tumores e na detoxificação dos fosfolípides oxidados.

Estrutura molecular da Lp(a)

A Lp(a) que contém uma única molécula de apo B100 e está ligada a uma única molécula de apo(a), além das gorduras. Mas não é só o colesterol propriamente dito que faz dela uma vilã. A apo(a) tem semelhança com compostos da cascata de coagulação.

A apo(a) e plasminogênio compartilham proteínas em forma de uma estrutura semelhante a um laço (kringles). Um kringle é um tipo de massa dinamarquesa, semelhante aos pretzels que vendem nos shoppings (Fig 1).

Figura 1. Kringle

A apo(a) tem apenas dois tipos de kringles, uma única cópia do quinto kringle (KV) e um número variável do quarto kringle (KIV), que determina a variação no tamanho da molécula (Fig 2). O plasminogênio tem cinco tipos de kringles.

Figura 2. Estrutura da Lp(a) e semelhança com o plasminogênio. Modificado de ref 2.

A semelhança estrutural da Lp(a) com o plasminogênio pode interferir na atividade deste último. Isso pode atrapalhar a degradação da fibrina e predispor à formação de coágulos na placa aterosclerótica do vaso, resultando em obstrução da artéria, resultando em infarto e derrame. Esse é o efeito pró-trombótico.

Além disso, a Lp(a) é o principal transportador de fosfolipídes oxidados – Lp(a)-OxPLs – que derivam de processos inflamatórios e processos apoptóticos. O fosfolípide oxidado é facilmente captado pelas células dos vasos (monócitos) para formação de células espumosas, característica da lesão aterosclerótica. Dessa forma, essa lipoproteína tem um perfil pró-inflamatório e pró-aterogênico.

Avaliação laboratorial da Lp(a)

Não há método laboratorial bem estabelecido para dosagem da Lp(a). Como as diferentes isoformas de Lp(a) podem ter peso molecular diferente por conta da variação na repetição dos kringles, a conversão entre mg/dL e nmol/L não é acurada e não pode ser feita.

O padrão-ouro é a dosagem de apo(a) massa por turbidimetria, nefelometria ou quimiluminesência, utilizando ensaios isoforma-insensitivos, que são pouco afetados pela heterogeneidade nas isoformas da apo(a). Não é necessário jejum.

Já que a Lp(a) e o LDL-colesterol têm composição semelhante e as suas densidades se sobrepõem, os ensaios que incluem a medida do colesterol também não são acurados se o paciente tiver hipercolesterolemia.

Um limite mais amplamente aceito para definir se a Lp(a) confere risco para doenças cardiovasculares é o valor de 120nmol/L (aproximadamente 50mg/dL).

A Diretriz Brasileira de Dislipidemia 2025 recomenda a dosagem rotineira de Lp(a) pelo menos uma vez na vida, quando disponível, para auxiliar na avaliação do risco cardiovascular e tratamento, com certeza da evidência científica em nível moderado.

Como as concentrações da Lp(a) são determinadas geneticamente, uma vez dosada, não precisa ficar redosando. Algumas Sociedades médicas recomendam dosar a Lp(a) pelo menos uma vez na vida.

Tratamento da LP(a) aumentada

O que dá um nó na cabeça é quando se fala de tratamento. Os estudos de intervenção dietética demostraram que a dieta pobre em gordura e rica em carboidrato resulta em maiores níveis de Lp(a) que rica em gordura e pobre em carboidrato. O impacto clínico dessas alterações ainda precisa ser estabelecido.

Os efeitos do tratamento com estatina, que é a primeira linha de tratamento para a hipercolesterolemia, sobre a Lp(a) ainda permanece controverso. Como detalhado na Tabela 1, o a administração de estatina aumentou os níveis de Lp(a) após 12 semanas de tratamento. O impacto clínico do resultado das dietas e das estatinas também ainda precisa ser esclarecido.

 Utilização clínicaEfeito
Estatinas  Redução do colesterolEfeitos inconsistentes em vários estudos, com aumento em 20% dos níveis médios de Lp(a)
Niacina  Hipolipemiante  12% de redução nos níveis de Lp(a)
Estrógeno/progestágeno  Terapia hormonal  ~15% de redução nos níveis da Lp(a). A magnitude da redução dos níveis de Lp(a) é maior dependendo dos níveis da molécula no basal. Quanto maior o nível, maior a redução
AspirinaAntiplaquetário20% de redução nos níveis de Lp(a)
Fibratos  HipolipemianteNenhum efeito na redução nos níveis da Lp(a)
EzetimibaHipolipemianteNenhum efeito na redução nos níveis da Lp(a)
PelacarsenTratamento em desenvolvimento para redução da Lp(a)Redução dos níveis de Lp(a) em até 92% em esquema de múltiplas doses
Tabela 1. Medicações, utilização clínica e impacto nos níveis de Lp(a)

O que não tem muito remédio, remediado está? No que se refere à Lp(a), a gente remedia outras coisas que já conhecemos e que aumentam o risco cardiovascular, como o controle intensivo do colesterol (redução do colesterol ruim) e dos outros fatores de risco clássicos para doença cardiovascular, incluindo mudança de estilo de vida.

Tem algo novo? Sim!

Estudos em indivíduos saudáveis com Lp(a) > 75nmol/L (~30mg/dL) mostram a que o medicamento Pelacarsen reduziu substancialmente os níveis dessa lipoproteína ( de 66 a 92%). Essa medicação consiste em um oligonucleotídeo antisense que inibe a formação do RNA mensageiro do gene da apo(a).  As pesquisas clínicas já estão avançadas e é possível que tenhamos aprovação dessa medicação em breve.

Considerações finais

No dia a dia, a Lp(a) não precisa estar na solicitação de exames do médico, já os outros “colesteróis” e triglicérides, sim. Ela deve ser lembrada, entretanto, nas pessoas que tenham tido algum problema cardiovascular que não seja justificado pelos fatores de risco clássicos, que tanto falamos: diabetes, hipertensão, tabagismo, obesidade, sedentarismo etc. Pode ser considerada também nos pacientes com hipercolesterolemia familiar.

O tratamento da Lp(a) elevada, por enquanto, deve ser direcionado ao que a gente já conhece e usa até a chegada de novas medicações.

Esse tema do colesterol eu gosto muito e tem vários posts aqui no blog sobre esse assunto na categoria de “metabolismo das gorduras – lípides”. Não deixa de visitar os outros posts.

Espero que tenham gostado, um abraço e até a próxima!

Referências

  1. Di Fusco SA, Arca M, Scicchitano P, Alonzo A, Perone F, Gulizia MM, Gabrielli D, Oliva F, Imperoli G, Colivicchi F. Lipoprotein(a): a risk factor for atherosclerosis and an emerging therapeutic target. Heart. 2022 Dec 13;109(1):18-25. doi: 10.1136/heartjnl-2021-320708. PMID: 35288443.
  2. Hu J, Lei H, Liu L, Xu D. Lipoprotein(a), a Lethal Player in Calcific Aortic Valve Disease. Front Cell Dev Biol. 2022 Jan 27;10:812368. doi: 10.3389/fcell.2022.812368. PMID: 35155427; PMCID: PMC8830536.
  3. RACHED, F. H.; MINAME, M. H.; ROCHA, V. Z.; ZIMERMAN, A. et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v.122, n. 9, p. –, DOI: 10.36660/abc.20250640. Disponível em: https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-dislipidemias-e-prevencao-da-aterosclerose-2025/.

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Sistema Bethesda de classificação 2023 – resultado PAAF de tireoide

Na Classificação do Sistema Bethesda de 2023 temos algumas novidades, como era de se esperar. A última edição foi de 2017.

Na nomenclatura, foram retirados os termos “insatisfatório” para categoria I, “lesão folicular de significado indeterminado (FLUS)” para categoria III e “suspeito para neoplasia folicular” na categoria IV da classificação de Bethesda para o resultado da citologia da punção aspirativa por agulha fina (PAAF). Foi deixado um termo apenas para cada categoria.

Classificações Bethesda 2023 e possibilidades de resultado

BETHESDA I – NÃO DIAGNÓSTICO

  • Apenas vem, na seringa da punção do nódulo, líquido (coloide), sangue, coágulos etc., Não vem células de tireoide suficientes para avaliação e classificação. Ou seja, não é possível dizer se o nódulo é benigno, suspeito ou maligno. Em geral, recomenda-se nova punção.

BETHESDA II – BENIGNO

É compatível com:

BETHESDA III – ATIPIA DE SIGNIFICADO INDETERMINADO (AUS)

Esse resultado é inconclusivo. Para saber mais sobre ele, eu sugiro que veja um post do Instagram sobre o assunto (fim do texto).

  • Especificar se atipia de significado indeterminado é nuclear ou outra

BETHESDA IV – NEOPLASIA FOLICULAR

  • Especificar se é do tipo oncocítico (antigo células de Hurthle)

BETHESDA V – SUSPEITO PARA MALIGNIDADE

  • Suspeito para carcinoma papilífero
  • Suspeito para carcinoma medular
  • Suspeito para carcinoma metastático
  • Suspeito para linfoma
  • Outro

BETHESDA IV – MALIGNO

  • Carcinoma papilífero
  • Carcinoma derivados de células foliculares de alto grau
  • Carcinoma medular pouco diferenciado
  • Carcinoma indiferenciado (anaplásico)
  • Carcinoma de células escamosas
  • Carcinoma com achados mistos (especificar)
  • Carcinoma metastático
  • Linfoma Não-Hodgkin
  • Outro

Risco de malignidade conforme resultado da classificação Bethesda 2023

Importante destacar que é provável que o risco de malignidade para as categorias I, II e III sejam, de fato, menores do que o exposto, já que essas categorias geralmente não são submetidas à cirurgia.

Em outras palavras, se a gente dividir o número de pacientes com câncer comprovado na cirurgia sobre o total dos pacientes de cada categoria que tiveram os resultados da PAAF antes da cirurgia como não-diagnóstico, benigno e atipia de significado indeterminado (Bethesda I, II e III, respectivamente) vai ser maior do que se a gente pegasse esse mesmo número de pacientes com câncer comprovado e dividisse por todos os pacientes de cada categoria existentes (os que fizeram + os que não fizeram cirurgia).

No manejo usual, as modificações principais são em relação são:

  • acrescenta a vigilância para categoria III
  • para categoria V, acrescenta o teste molecular

Nessa edição, o risco foi de malignidade para adultos foi atualizado conforme estudos recentemente realizados para os seguintes números:

Categoria diagnósticaRisco de câncer 
média % (intervalo)
Manejo usual
I – Não diagnóstico
13 (5–20)
Repetir PAAF guiada por ultrassonografia (USG)
II – Benigno
4 (2–7)
Acompanhamento clínico com ultrassonografia
III – Atipia de significado indeterminado
22 (13–30)
Repetir PAAF, teste molecular, lobectomia diagnóstica ou vigilância
IV – Neoplasia folicular
30 (23–34)
Teste molecular, lobectomia diagnóstica
V – Suspeito de malignidade
74 (67–83)
Teste molecular, lobectomia ou tireoidectomia subtotal ou total
VI – Maligno97 (97–100)Lobectomia, tireoidectomia subtotal ou total
Sistema de Classificação Bethesda 2023 para resultado de citologia de PAAF de nódulos de tireoide: risco de malignidade baseado no seguimento de nódulos retirados por cirurgia e recomendação do manejo clínico

Os testes moleculares são realizados no Brasil. Eles são utilizados para tentar definir se uma categoria indeterminada ou suspeita tem maior ou menor probabilidade de ser benigna. Nas categorias V e VI, os testes moleculares podem ser utilizados para planejar a extensão da cirurgia (se retirada parcial ou total da tireoide, por exemplo).

Se por um lado o risco aumentou, por outro, a conduta ficou mais conservadora em alguns casos.

Referência

Ali SZ, Baloch ZW, Cochand-Priollet B, Schmitt FC, Vielh P, VanderLaan PA. The 2023 Bethesda System for Reporting Thyroid Cytopathology. Thyroid. 2023 Jul 8. doi: 10.1089/thy.2023.0141. Epub ahead of print. PMID: 37427847.

Curso de tireoide

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Variação do TSH na obesidade e baixo peso: causa ou consequência?

Os hormônios podem variar como consequência a problemas fora da tireoide. O protótipo desse efeito é a Síndrome do Eutireoideo Doente. Nessa síndrome, o T3 reverso pode subir e T3 pode baixar em consequência de uma doença grave fora da glândula. Esse fenômeno acontece com em até 60% dos pacientes gravemente enfermos.  O feedback eixo hipotálamo-hipófise-tireoide é dinâmico e se adapta a essas situações. O TSH também varia, com consequência ao novo ponto de equilíbrio.

Esse texto vai comentar sobre a alteração do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide nos casos de baixo peso (inanição) e obesidade graves. O TSH pode, sim, variar com o peso e não o contrário. A mudança do ponto de equilíbrio (homeostase) para se adaptar a uma nova situação é denominada de alostase.

Conceito de alostase

É uma reação dinâmica a um estrese que mantém o corpo em estabilidade através da mudança. Esse termo foi usado por Sterling e Eyer em 1988, ampliando o paradigma clássico da homeostase. Particularmente, achei muito interessante e explica bastante coisa na medicina.

HomeostaseAlostase
Ponto de equilíbrio constante ou oscilantePonto de equilíbrio deslocado
Equilíbrio fisiológicoEquilíbrio compensatório
Pouca ou nenhuma antecipação à demandaAntecipação à demanda ampla
Nenhum ajuste baseado na históriaAjuste baseado na história
Ajuste não acarreta um preçoAjuste e acomodação acarreta um preço (carga alostática)
Não patológicoPotencialmente leva a patologias
Tabela 1. Diferença entre homeostase e alostase

Se a carga alostática for mantida por muito tempo, pode haver uma sobrecarga alostática. Estresses repetidos também podem levar à sobrecarga, com consequências sérias à saúde. Há dois modelos de alostase: tipo 1, que as alterações dos hormônios tireoidianos levam à redução do T3 e tipo 2, onde há aumento do T3. Sugiro você dar uma olhada no post do Instagram sobre alostase para entender a carga e sobrecarga alostática.

Diagrama com as situações da variação do TSH, incluíndo as situações de alostase e interferentes na metodologia
Figura 1. Alostase tireoidiana tipo 1 e 2 e condições associadas. TACITUS – alostase tireoidiana no doente crítico, tumor, uremia e sepse. NTIS – síndrome não tireóidea do enfermo. Modificado de Ref. 1.

Alostase tireoidiana na restrição calórica e inanição

Relatos antigos da literatura já falavam que, nos estados de restrição calórica, o T3 é reduzido.

A Síndrome do T3 baixo é descrita em várias condições associadas com a privação energética, tais como anorexia nervosa, dietas livre de calorias na obesidade, treinamento militar com restrição calórica e outras situações que tenham déficit de ingesta calórica importantes. É um modelo do alostase tipo 1. Mesmo a perda de peso moderada leva à redução da desiodação pelas desiodases I e II (D1 e D2), responsáveis pela retirada do iodo na posição que transforma T4 em T3. Há redução do T3, que é o hormônio tireoidiano ativo.

Quando as D1 e D2 estão menos ativas, há aumento da ação da desiodases III (D3), que transformam o T4 em T3 reverso, uma forma inativa do hormônio tireoidiano. Alguns mecanismos podem estar envolvidos:

  1. Nos estados pós-alimentares, a insulina e os ácidos biliares estimulam a desiodação e aumento do T3;
  2. A leptina aumenta a liberação de TRH e TSH pela via da melanocortina hipotalâmica;

No jejum prolongado, a insulina, os ácidos biliares e a leptina estão baixos e, consequentemente, a desiodação para formação do T3. Essa é uma estratégia para o organismo poupar calorias e se adaptar à nova situação. O TSH pode estar normal ou baixo, o que poderia confundir com um quadro de hipertireoidismo subclínico.  

Se for feito algum tratamento para reduzir mais ainda os hormônios tireoidianos, pode haver redução exagerada do metabolismo. A lógica da mudança do ponto de equilíbrio é que a queda do T3 reduza o metabolismo a fim de se ajustar à baixa ingesta calórica e aproveitar ao máximo toda e qualquer caloria que for ofertada para o corpo.    

Alostase tireoidiana na obesidade

É um protótipo da alostase tipo 2. A interconexão entre tireoide e peso é amplamente conhecida. A tireoide leva a culpa pelo ganho de peso, mas ela pode ser apenas uma vítima. Na obesidade, há um aumento de desiodação de T4 para T3 pela maior atividade das desiodases I e II. Como o T3 pode se elevar, o T3 reverso pode diminuir. Pode ainda haver um aumento discreto de TSH, que se normaliza com a perda de peso.

O aumento da concentração de adipocinas, como a leptina, tem sido proposto com o um elemento chave na alostase tireoidiana relacionada à obesidade, mas a disfunção mitocondrial, a inflamação crônica, a resistência à insulina, bem como resistência central e periférica aos hormônios tiroidianos podem ter um papel adicional na alostase tireoidiana na obesidade.

Como os hormônios da tireoide são muito importantes para termogênese, o aumento do TSH e do T3 são uma tentativa de autorregulação para maior queima de calorias. Sendo assim, o uso de hormônios tireoidianos no tratamento da obesidade sem que o paciente tenha uma doença tireoidiana é perigoso do ponto de vista metabólico e cardiovascular. É pôr mais lenha na fogueira.

Se o TSH é levemente aumentado pode-se pensar em um hipotireoidismo subclínico. É um grande desafio distinguir uma disfunção tireoidiana leve da mudança do ponto de equilíbrio dos hormônios tireoidianos na obesidade. Desafio maior é não tratar o TSH alterado, principalmente se ele for a única alteração hormonal detectada nos casos de excesso de peso.

Variações do TSH, T3 total , T3 reverso e T4 total e livre na diversas doenças não tireoidianas
Tabela 2. Variação dos hormônios tireoidianos nas situações de alostase. Modificado de Ref. 1.

Considerações finais

Um problema que nos deparamos na prática clínica é que os valores de referência dos hormônios tireoidianos são para pessoas saudáveis, em repouso e estado pós alimentar. Não temos valores de referência para pessoas sem doença tireoidiana com baixo peso ou obesidade.

Como saber então se uma pessoa em um dos extremos de peso não tem doença na tireoide?
Talvez tenhamos que juntar outras peças ao quebra-cabeças, entre elas os anticorpos contra a tireoide e a ultrassonografia.

Se anticorpos antitireoidianos forem positivos podem indicar com mais probabilidade se as mudanças nos hormônios são resultado de uma doença na própria tireoide. Da mesma forma, as alterações de textura e vascularização da tireoide na ultrassonografia da tireoide com doppler podem ser uma pista para uma doença nessa glândula. Seguindo as essas pistas, pode ser que consigamos desvendar o mistério.

Há a possibilidade de tratar a causa base primeiro, como o tratamento voltado para o baixo peso ou a obesidade e ver se os hormônios tireoidianos voltam a ficar dentro dos limites da normalidade. Acredito que essa situação é mais rara, muito porque o paciente também tem que ser convencido que a tireoide é vítima e não culpada da alteração de peso. 

Referência 

  1. Chatzitomaris A, Hoermann R, Midgley JE, Hering S, Urban A, Dietrich B, Abood A, Klein HH, Dietrich JW. Thyroid Allostasis-Adaptive Responses of Thyrotropic Feedback Control to Conditions of Strain, Stress, and Developmental Programming. Front Endocrinol (Lausanne). 2017 Jul 20;8:163. doi: 10.3389/fendo.2017.00163. PMID: 28775711; PMCID: PMC5517413.
Curso de tireoide

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Para que serve o T3 reverso
Alostase tireoidiana
Para que serve o T3 reverso – YouTube

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Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá