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Esperança

Mais que um simples clichê, desejo a todos os habitantes desse nosso pequeno grande planeta redondo um Feliz Ano Novo, ou pelo menos mais feliz que o atual.

Sim, esse ano foi e está sendo muito difícil. Não consigo enumerar todas as dificuldades que cada um de nós tem passado, mas vou arriscar algumas: o isolamento social, a falta do toque humano, a hiperconvivência dentro de casa, a doença física e mental, o desemprego, e tantas outras mazelas que nos trouxe a pandemia. Com certeza aprendemos coisas boas e ruins, que serão lembradas por nós pelo resto de nossas vidas e possivelmente marcarão toda uma geração.

Mas não devemos perder a humanidade e seu traço singular: a ESPERANÇA! Esse sentimento me faz lembrar do texto com mesmo nome do poeta de Mário Quintana, também muito lembrado nessa época do ano:

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana

A esperança na vacina, a esperança no retorno às atividades de forma semelhante ao que tínhamos antes, a esperança de tocarmos o outro sem ressalvas, a esperança que recobremos o que foi perdido esse ano (infelizmente, isso não vale para vidas humanas) e qualquer motivo especial e individual para esperançar.

Bom fim de ano!! Aproveitem suas famílias, amigos e amados mesmo à distância.

Aproveito para informar que estamos em recesso, e retorno às consultas online e presencial a partir da primeira semana de janeiro.

Suzana

O Vírus e o Zepelim

Foi necessário que um vírus entrasse dentro das nossas fronteiras para que víssemos a importância do Sistema Único de Saúde e da Universidade Pública.

A Universidade Pública e o SUS

Sei que sou uma privilegiada em ter tido a oportunidade de estudar em uma Universidade Pública de Pernambuco, a UFPE. Foi nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) de Recife que ocorreram os meus primeiros contatos com pacientes de enfermarias e ambulatórios.

Naquele tempo, não existiam tantas universidades como agora, principalmente universidade particulares de medicina. A minha graduação foi em 1998. O aprendizado continuou em São Paulo nas residências dentro de outro serviço do SUS, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Depois das residências e paralelamente à minha pós-graduação na FMUSP, estudando complicações do diabetes em pacientes do HC, eu fui médica concursada desse e de outro hospital público. Bons tempos aqueles em que existiam concursos…

Transformação das relações de trabalho

Ainda por volta de 2004, ao término da residência médica já se falava na necessidade de que todos profissionais de saúde terem uma pessoa jurídica, seja para receber o pagamento dos serviços prestados na forma de plantões em hospitais privados ou de consultas médicas de convênios, entre outras atividades.

Os “prestadores” médicos são remunerados através das suas pessoas jurídicas e o “salário” passa a ser a “prestação de serviço” mediante emissão de nota fiscal. Muitos fazem seguros profissionais para manter uma renda mínima caso não consigam trabalhar. Se não trabalham, não ganham. Ainda que concursada, mesmo não necessitando de CNPJ para receber a maior parte dos meus rendimentos, eu não achava prudente ficar de fora dessa tendência e entrei numa sociedade médica.

Saúde suplementar

Nem todo tempo de trabalho como médica foi no serviço público, experimentei atendimento em clínicas e hospitais privados. Entendo um pouco como é a dinâmica das relações pessoais e financeiras.

Tenho uma visão que as relações entre os três atores envolvidos na saúde suplementar (paciente, médico e plano de saúde) são permeadas por insatisfações: de um lado, o paciente ou “cliente” que paga uma mensalidade cara para o plano de saúde e quer usufruir o máximo da consulta com o médico com frases: ˜peça tudo que eu tenho direito, doutora!” . Do outro lado da mesa do consutório, está o médico ou “prestador” que é mal remunerado pelo intermediário (plano de saúde) e com atraso de pelo menos dois meses entre realização da consulta e o seu pagamento.

Comumente, os prestadores de serviço (leia-se médicos) trabalham com maior número de consultas e procedimentos para obter uma remuneração que lhe pareça razoável. Entendo, em parte, as demandas de pacientes e médicos nessa relação intermediada pelos planos de saúde.

Passagem pelo mundo corporativo

“Mas será que o mundo corporativo não é melhor?˜ Eu tinha essa pergunta na cabeça. Uma oportunidade surgiu para eu ir trabalhar em uma empresa do ramo farmacêutico em 2012, e eu conto um pouco dessa história em um podcast. A experiencia foi muito interessante para eu ver que a “grama do vizinho é mais verde” não se aplicava ao mundo corporativo, principalmente se a pessoa tem um cargo gerencial.

A meritocracia, a competitividade, a prontidão do empregado para as estratégias da empresa comprometiam as relações entre os colegas e a disponibiliade de tempo para vida pessoal. A carga horária de trabalho era estendida além do que aparentemente fora contratado (na minha impressão). Não era raro que o trabalho se estendesse pela noite, pelos fins de semana e feriados. Sem dúvida, foi uma experiência interessante de grandes aprendizados e que não me arrependo de ter passado por ela.

De volta às origens

Em 2015, quando eu decidi sair da empresa que trabalhava, adivinhem onde voltei a trabalhar? A resposta é: no SUS! Só que não era mais o SUS que havia deixado há três anos antes por ocasião da minha entrada no mundo corporativo.

Ha cinco anos atrás, eu não ouvia mais notícias de concursos médicos para minha especialidade e nem para outras áreas. No lugar de concursos, havia contratações pelas Organizações Sociais (OS) para trabalhar em serviços médicos da Prefeitura e do Estado de São Paulo. Confesso que eu nem sabia bem o que era uma OS… Pelo menos, que bom que eu havia garantido pelo menos um trabalho com carteira assinada! Eu sempre achei e ainda acho bom.

Na verdade, a contratação por CLT está ficando mais escassa para trabalhar no serviço público à medida que o tempo passa. Não tinha ciência da “pejotização” e privatização dos equipamentos públicos de saúde em curso há já algum tempo.

Da minha formação e especialização para cá, vários médicos foram sendo formados por universidades privadas e o “exército de reserva” na área de medicina está cada vez maior. Fica mais fácil repor um profissional médico, principalmente se ele não tem especialização.

Muitos colegas se sujeitam às condições insalubres e assédios morais no trabalho para não perder os seus empregos formais ainda e ser prontamente substituidos. Se desistirem dos empregos formais, ainda correm o risco de “saltar da frigideira para o fogo” como empreendedores, já que muitos médicos não têm o dom de gerir uma empresa.

Alternativas ao SUS

Sim, há muitos problemas no SUS. Filas para consultas, para exames, dificuldade para diversos tratamentos e medicações. Eu não quero nem tenho condições de analisar em profundidade as causas desse problema, mas certamente passa pela má gestão dos recursos financeiros. Quais são as alternativas ao SUS?

A olhos vistos, o SUS estava sendo sucateado e planos populares vinham surgindo como uma alternativa aos atendimentos gratuitos pelo SUS para aquelas pessoas que não tinham plano de saúde.

Os planos populares atendem até certo ponto às necessidades dos pacientes. Consultas e exames mais baratos podem ser pagos por uma parcela da população para os planos populares num primeiro momento, mas esses mesmos pacientes terminam voltando ao SUS quando há indicação de de exames de maior complexidade, tratamentos de alto custo, internações e cirurgias.

Na minha visão, o sucateamento da saúde pública reflete a escassez de investimentos nesse setor. Na universidade pública, o cenário não tem sido diferente.

O Vírus e o Zepelim

Agora, em 2020, na crise do coronavirus no Brasil, o SUS parece ressurgir como a personagem Geni, da canção Geni e o Zepelin, diante da ameaça do capitão para toda uma determinada população.

Depois de tanta pedra atirada no SUS, ele surge como o salvador da pátria amada, juntamente com os centros de pesquisa públicos. Ambos, SUS e universidades públicas são convocados, respectivamente, para minimizar mortes pelo covid-19 através da assistência à população e desenvolvimento de uma vacina contra esse vírus em menor tempo possível.

Não podemos esquecer que na universidade pública foi dado o primeiro passo na batalha contra o coronavírus, com o sequenciamento do código genético viral por cientistas mulheres. Quanto orgulho delas!

O SUS pode nos salvar e a chegada do vírus indesejado pode redimir dos erros feitos até agora contra a saúde, demais serviços públicos e políticas sociais. A pandemia do covid-19 veio colocar o modelo econômico atual em xeque e expor a nossa fragilidade humana.

Só espero que o final seja diferente para o SUS se comparado ao fim da Geni da famosa canção. Muito pelo contrário, espero que o SUS saia dessa crise muito fortalecido, reconhecido, e que Governo e população acordem para o risco do Estado mínimo e do limite de gastos para área da saúde.

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Espero ver você mais vezes por aqui!

Um forte abraço,

Suzana

Uma visão feminina sobre a endocrinologia

Atualizado em 07/03/2021

Mulheres na medicina e na especialidade

A endocrinologia tem alma feminina. De profissionais a pacientes, nós somos maioria. Só que há muito mais além desses dois tipos de atores (ou atrizes) nessa história.

Segundo dados da pesquisa sobre demografia médica feito pela Universidade de São Paulo e Conselho Federal de Medicina, publicada no final de 2020, dos quase 6.000 endocrinologistas, 70,6% são do sexo feminino. Nesse mesmo levantamento, as mulheres representam 46,6% do total de médicos no Brasil. No total, não ainda somos maioria. “Ainda” porque, na última década, as mulheres são maioria entre os novos médicos registrados nos Conselhos de Medicina, consolidando a tendência de feminização da Medicina no Brasil.

Em 1910, os homens eram 77,7% e as mulheres, 22,3%. A presença masculina se amplia até 1960, quando chegou a 87%, e as mulheres se limitavam a 13%. A partir dos anos 1970, com a abertura de grande número de escolas médicas, as mulheres ampliam sua participação e passam de 15,8% em 1970 para 46,6% em 2020.

Entre as mulheres, 40% têm um ou dois vínculos, e entre os homenssão 37,1%.

Trechos retirados de Demografia Médica no Brasil – 2020

Trabalhamos bastante e temos ao nosso lado outras profissionais de saúde como ginecologistas, pediatras, nutricionistas, enfermeiras, psicólogas na prevenção, tratamento e reabilitação. Também esses profissionais são na sua maioria mulheres, salvo engano. Os serviços de cuidado com outras pessoas são essencialmente feito por mulheres.

Mesmo com algumas dificuldades, o número de mulheres empreendendo no Brasil cresce a cada ano, e essa tendência deve se manter elevada pelos próximos anos, conforme levantamento do IPGS.

As minhas e as nossas pacientes

O sexo feminino também representa a maior parte dos nossos pacientes.

Dos meus pacientes, 73% são mulheres.

Levantamento feito até março de 2021

Atendemos mulheres que trabalham (e muito) apenas dentro das suas casas e outras que trabalham dentro e fora de casa. Durante a pandemia, as multiplas jornadas do feminino se intensificaram demasiadamente. Elas têm múltiplas jornadas diárias de trabalho enquanto tentam equilibrar o que é necessário para o cuidado próprio e dos outros que delas dependem, seja financeiramente e/ou afetivamente. Vemos pontualmente ou acompanhamos essas mulheres em vários momentos de vida.

Fases da vida, gênero e endocrinologia

Mudanças hormonais e do metabolismo são uma constante na vida da mulher. Nessa travessia, podemos citar alguns exemplos em onde a endocrinologia é evocada: nos problemas de puberdade, nas alterações menstruais, processo da menopausa (que não é exatamente uma doença) e nos problemas de tireoide, mais prevalentes no sexo feminino.

Mesmo nas condições médicas que não atingem preferencialmente ou são exclusivas das mulheres, elas – mais que os homens – procuram ajuda médica mais precocemente e frequentemente. Podemos citar como exemplos quadros de diabetes, sobrepeso e obesidade.

Questões de gênero também permeiam a endocrinologia. As equipes que atuam no cuidado com mulheres transexuais devem ter esses especialistas no seu quadro para o manejo hormonal que se faz necessário.

Visão mais ampla

Depois dessa breve introdução sobre a endocrinologia, saio pouco da especialidade para ampliar o olhar sobre as demais mulheres do cotidiano profissional e pessoal. Dessa forma, presto uma pequena homenagem às mulheres admiráveis que interagem umas com as outras e tornam a vida mais leve e o trabalho mais fácil.

Do meu lugar é que eu posso falar sem errar muito (eu acho), por isso vou listar algumas personagens importantes que me influenciam, inspiram e apoiam.

Dentro e fora da saúde

Fico feliz e grata em ver e contar com o apoio de outras mulheres da mesma especialidade em diversas necessidades, seja nos desabafos, opiniões, incentivos, discussões de casos, compartilhamento de angústias profissionais, troca de informação e conhecimentos.

Não posso esquecer de citar a importância das mulheres na área da saúde e outra áreas de conhecimento que ampliam o nosso olhar sobre o ser humano, objeto do nosso trabalho. São advogadas, educadoras físicas, professoras, assistentes sociais, artistas, jornalistas, blogueiras, líderes religiosas etc etc etc… a lista é grande.

Meus seguidores

A mulherada também é maioria entre os seguidores das minhas redes sociais. No instagram, nesse momento, elas representam quase 82% do total de seguidores.

Distribuição por gênero dos seguidores do instagram

Na página do Facebook, também não é diferente: 84% dos seguidores são do sexo feminino.

Equipe de suporte

Por último, mas não menos importante, gostaria de lembrar e agradecer às mulheres cujo trabalho é fundamental para o nosso. Para que eu ou qualquer mulher e desempenhe seus diversos papéis na sociedade, houve, há e haverá suporte de outras mulheres – disso eu não tenho dúvidas. Quem não se lembra da sua própria mãe nesse dia? Não sei como a minha mãe com nove filhos deu conta do recado.

No meu caso, uma equipe feminina está ao meu lado: a secretária, as recepcionistas, a ajudante dos serviços domésticos, minha irmã, amigas, outras mães (ai, que medo de esquecer alguém). Elas me dão do apoio corriqueiro ao excepcional para a “Suzana endocrinologista” e a “mãe da Helena”, por exemplo.

Desigualdades? Sim, nós temos!

Admiro toda e qualquer mulher que faz diferença com seu trabalho, seja formal ou informal, socialmente reconhecido ou não. Imagino sua rotina e dificuldades.

Para as que estão no mercado de trabalho historicamente desigual, minha solidadariedade e desejo de dias melhores para nós. Esse é um fenômeno que atinge inclusive a medicina. Na nossa profissão, quase 80% das mulheres estão concentradas nas três categorias de menor remuneração.

Fonte – Jornal da USP 2019 (ref 2)

Além disso, os homens ainda são maioria em 36 das 55 especialidades médicas, conforme o estudo Demografia Médica mais recente.

Limitações e desejos

Como deu para você perceber, mesmo que eu quisesse falar só apenas da especialidade ou da parte profissional, correria o risco de ser demasiadamente injusta. Não sei se isso foi uma limitação ou não para o texto, mas acontece que muitas mulheres são de importantes a fudamentais, sendo que algumas são mais visíveis, outras nem tanto.

Durante a produção do texto, muitos rostos femininos me vieram à mente. Espero que algumas dessas mulheres se reconheçam nas minhas palavras. Muito obrigada em dividir seus dons e talentos; compartilhar comigo seus conhecimentos; oferecer seus cuidados e amizade; confiar-me seus problemas de saúde e prestigiar o meu trabalho.

Para todas as mulheres, desejo que tenham um excelente dia internacional da mulher. Que seja um dia de descanso, reflexão, ação, reinvidicação ou do jeitinho que mais desejarem. Para os homens, desejo que sejam nossos parceiros na luta pela igualdade de gênero.

Feliz Dia Intenacional da Mulher!

Referências

  1. Demografia Médica no Brasil 2020
  2. Estudo quantifica abismo salarial entre homens e mulheres na medicina – Jornal da USP 2019
  3. Mainardi GM, Cassenote AJF, Guilloux AGA, et alWhat explains wage differences between male and female Brazilian physicians? A cross-sectional nationwide studyBMJ Open 2019;9:e023811. doi: 10.1136/bmjopen-2018-023811

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Suzana