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Metformina ou insulina faz mal para os rins?

Metformina ou insulina faz mal para os rins! Você já deve ter ouvido isso ou pensado assim.

Quem já ouviu a história do vizinho que começou insulina e logo depois foi para hemodiálise? Ou que o médico tirou a metformina pois a pessoa estava desenvolvendo problema no rim? Se logo depois da insulina o paciente começou a fazer hemodiálise, foi ela que piorou tudo, não é? E se a metformina foi tirada é porque estava fazendo mal, concordam?

Não caiam nesse engano!!

Esse assunto é muito sério, pois muitos pacientes culpam essas medicações injustamente. Mais do que uma injustiça, os reais inimigos, que são o diabetes descompensado e a pressão não controlada podem passar ilesos e continuar danificando os rins e outros órgãos nobres até uma hora que já é tarde demais para salvar o rim.

Eu já falei isso em um vídeo, mas vou desenhar, já que praticamente todas as semanas eu atendo pacientes com medo da metformina ou da insulina, mas não com medo do diabetes descompensado.

Vamos pensar em dois pacientes: um que aceita e adere ao tratamento do diabetes (paciente 1) e outro paciente mais rebelde, que não adere ao tratamento (paciente 2). Aqui são pacientes hipotéticos, mas que frequentemente representam o que acontece na vida real.

Vamos supor nesses exemplos que:

  1. um bom controle do diabetes representa que mais de 70% das glicemias estão 70 e 180mg/dL e que isso corresponde a uma hemoglobina glicada por volta de 7%;
  2. abaixo de 50% de perda de função renal, a metformina é retirada; ´
  3. abaixo de 10% da função renal, o paciente vai para hemodiálise.

Na prática, esses números podem variar. Aqui é só para deixar o entendimento mais fácil.

Considerando tudo isso, vamos ver o que pode acontecer com os dois pacientes hipotéticos.

Paciente bem controlado versus mal controlado

Partindo das premissas acima, vamos contar as histórias dos nossos pacientes.

Paciente 1

O paciente 1 é sempre bem controlado. Depois de muito tempo de diabetes, ele teve que começar a insulina, mas aceitou prontamente pois ela foi necessária. Ele tem o mesmo tempo de acompanhamento do paciente 2, mas sempre controlou bem a glicose, visto que as suas glicemias sempre estiveram em mais de 70% no alvo.

Ele controla muito bem outros problemas como pressão e peso. Por conta desse bom controle global, ele não tem problema na função renal, mesmo depois de muito tempo de diabetes. Continua usando a metformina, iniciada logo no primeiro ano, e depois de 12 anos de diabetes precisou começar também insulina.

Ele pode utilizar ainda outras medicações que o médico achou necessário acrescentar para controlar o seu diabetes.

Na figura 1, temos como a função renal se comporta nesse paciente e ainda que ele está todo tempo de doença na faixa de bom controle do diabetes (acima de 70% do tempo dentro do alvo glicêmico).

FIGURA 1. PACIENTE 1 COM CONTROLE GLICÊMICO SEMPRE ACIMA DO DESEJADO E PRESERVAÇÃO DA FUNÇÃO RENAL

Não ouviu falar ainda no termo tempo no alvo? Então confere depois esse post: https://drasuzanavieira.med.br/2017/06/16/monitorizacao-continua-da-glicose-tempo-no-alvo/

Paciente 2

O paciente 2 tem uma história diferente: como ele não sente nada nem com o diabetes descompensado e nem com a pressão alta, ele vai levando assim a vida. Faz uso de comprimidos para diabetes e pressão forma irregular e, às vezes, quando a receita vence, fica umas semanas sem tomar. Vai ao médico uma vez por ano e já faz umas três consultas que o médico prescreveu insulina, pois o controle do diabetes sempre está abaixo do desejado.


Ele até já tentou até usar uma vez a insulina, mas passou mal. Lembrou também do vizinho que começou a fazer hemodiálise logo depois que começou a tomar insulina. A cada ano, a função do rim vai diminuindo, até que depois de 8 anos de diabetes não controlado o médico retira a metformina pois os rins foram afetados (pelo diabetes descompensado).

Não tendo mais opção para controlar o diabetes, inicia o uso de insulina. A insulina melhora o controle, mas não melhora a função do rim. Ela chegou muito tarde! O início da insulina e depois da hemodiálise é uma triste coincidência.


Na figura 2, temos como comportou a função do rim (em queda) e o controle do diabetes (sempre ruim até o início da insulina). A melhora do diabetes não melhorou a função do rim

Figura 2. Paciente 2 com controle glicêmico sempre abaixo do desejado e com piora progressiva da função renal.

Se a metfromina não faz mal para os rins, por que ela é retirada quando os rins não funcionam bem?

A metformina é retirada pois ela pode causar uma complicação em quem JÁ tem doença renal (ou também hepática ou cardíaca ou pulmonar grave) chamada de acidose lática. Ela não causa problema no rim, mas quem tem problema no rim não pode usá-la. O problema no rim foi causado pelo diabetes e pressão descontrolados. Percebeu a diferença?

E a insulina, não faz mal para os rins mesmo?

O maior e talvez o único risco da insulina é a hipoglicemia. Tirando isso, é a medicação MAIS segura para usar no diabetes. Se o paciente tem alguma doença grave renal ou hepática, a medicação que permanece no tratamento é a insulina. A insulina é também a medicação mais eficaz que existe para o controle do diabetes.
Tem dois vídeos sobre as medicações utilizadas no diabetes que eu convido vocês a assistir.
Eu espero que tenha sido mais clara sobre esse assunto e desejo não mais ficar chocada ao ouvir tamanhas injustiças contra essas duas medicações, tão queridas por nós, endocrinologistas.

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Obesidade e inflamação

A obesidade é um estado de inflamação de baixo grau persistente. Já falamos sobre essa inflamação da pessoa com obesidade quando comentamos do aumento de marcadores bioquímicos no sangue como a ferritina e a proteína C reativa. Nesse texto, vamos ver como esse estado inflamatório se desenvolve por ocasião do excesso de gordura corporal.

Tecido adiposo produz hormônios e citocinas

Não pense que o tecido adiposo só serve para estocar gordura. Ele é também um órgão endócrino que produz e hormônios (as adipocinas) e outras substâncias chamadas citocinas.

Além dos adipócitos, que são as maiores células do tecido adiposo, existem outras células menores como os pré-adipócitos, fibroblastos, células endoteliais, macrófagos e histiócitos. Algumas dessas células produzem citocinas, algumas são pró-inflamatória, ou seja, que estimulam a inflamação, enquanto outras são anti-inflamatórias, que encerram o estado inflamatório.

As citocinas são substâncias produzidas por células que influem no funcionamento das células vizinhas, enquanto os hormônios podem interagir em tecidos distantes de onde foram produzidos.

Os hormônios mais estudados produzidos pelas células adiposas são a leptina e a adiponectina. A leptina tem papel de regulação da fome e é uma adipocina que estimula a inflamação, enquanto a adiponectina é uma substância anti-inflamatória.

Já dá para supor que nas pessoas com obesidade há aumento da leptina e redução da adiponectina.

Células inflamatórias infiltradas no tecido adiposo

Sem dúvida, um tipo célula protagonista na inflamação crônica da obesidade é o macrófago, do qual falaremos com mais detalhes nos parágrafos seguintes.  

Macrófagos M1 e M2 no tecido adiposo

Os macrófagos são encontrados em vários tecidos e sua função mais conhecida é a fagocitose. Eles “engolem” restos de células, partículas estranhas ao organismo e liberam citocinas que iniciam processos da resposta inflamatória.

Na diferenciação das células do sistema imunológico, os monócitos dão origem aos macrófagos. Pela via clássica, os monócitos dão origem aos macrófagos M1, que produzem citocinas inflamatórias. De forma alternativa, os monócitos podem se diferenciar em macrófagos que produzem citocinas anti-inflamatórias, os macrófagos M2.

Há também a possibilidade do macrófago M1 se transformar em M2, fenômeno descrito como polarização dos macrófagos. Nos extremos, o M1 é o mau: produz substâncias pró-inflamatórias; e o M2 é o bom dessa nossa estória: produz substâncias anti-inflamatórias. A obesidade leva à desestabilização do equilíbrio da população de macrófagos M1 e M2, como predomínio do primeiro tipo de célula.

Em pessoas magras, a porcentagem dos macrófagos entre as que constituem os outros tipos de células que não os adipócitos correspondem de 5 a 10%. Essa porcentagem nas pessoas com obesidade pode ser superior a 40%, chegando a 50% na obesidade grave. De forma inversa, a perda de peso promove redução da porcentagem dos macrófagos.

O que causa a infiltração de macrófagos M1 no tecido adiposo na obesidade? Um dos estímulos mais aceitos é a morte da célula gordurosa, mais prevalente no tecido adiposo visceral, que é aquele que fica entre e dentro dos órgãos da cavidade abdominal.

Perfil inflamatório na obesidade e suas consequências

O fator de necrose tumoral alva (TNF-α) foi a primeira citocina identificada capaz de induzir a resistência à insulina in vitro. Essa citocina pró-inflamatória é secretada pelos macrófagos M1. Outras citocinas secretada por esse subtipo de macrófago incluem as interleucinas (IL): IL-6, IL-1β, IL-12 e IL-

À medida que se aumenta a gordura corporal, vemos uma predominância de substâncias inflamatórias e estas se relacionam com a resistência à insulina (perfil pró-inflamatório). A perda de peso está associada à redução das substâncias pró-inflamatórias e aumento das substâncias anti-inflamatórias. Como é a caracterização desses dois perfis? Em resumo, temos:

  • Perfil anti-inflamatório – aumento da adiponectina, redução da leptina, aumento disponibilidade de oxigênio para as reações químicas (redução da hipóxia);
  • Perfil pró-inflamatório – redução da adiponectina, aumento da leptina, redução da disponibilidade de oxigênio para as reações químicas (aumento da hipóxia).
Figura 1. Características do tecido gorduroso normal e de uma pessoa com obesidade. As células adiposas do tecido gorduroso na obesidade são maiores e maior infiltração de células inflamatória. A hipóxia causa morte dos adipócitos, que é um estímulo para transformação dos macrófagos de M2 a M1.

Existe mais uma gama de substâncias anti e pró-inflamatórias. Para saber mais sobre o tema, há sugestão de dois artigos em inglês que são gratuitos.

A “inflamação metabólica” produz as complicações sistêmicas da obesidade, como a resistência insulínica, solo fértil para o desenvolvimento da síndrome metabólica, diabetes tipo 2, doença gordurosa não-alcoólica (esteatose hepática), síndrome dos ovários policísticos, dislipidemia aterogênica etc.

Considerações finais

A obesidade é um problema do excesso de gordura, como já sabemos. Existe uma quantidade de gordura necessária no corpo, mas muita gordura no lugar errado é um problemão.

A gordura intra-abdominal é a grande vilã quando se pensa em um perfil metabólico desfavorável.  Essa gordura pode “extravasar” para órgãos vizinhos como o pâncreas, causando resistência à insulina e diabetes tipo 2 e o fígado, causando esteatose hepática. O efeito tóxico da gordura ectópica chamamos de lipotoxicidade.

Além do extravasamento da gordura, a produção de citocinas pró-inflamatórias, o aumento da leptina e a redução da adiponectina produzidas pelo tecido adiposo em excesso se correlacionam como a resistência à insulina, mesmo que a gordura não esteja infiltrada nos órgãos.

A gordura como fonte de inflamação é um campo de estudo relativamente novo, mas já explica muitos fenômenos que observamos na prática clínica, desde as alterações laboratoriais das quais já falamos, até doenças classicamente resultantes de aumento da inflamação. Uma das doenças inflamatórias que aumentam com o ganho de peso é a asma brônquica, assunto que está no próximo post.

Referências

  1. Castoldi A, Naffah de Souza C, Câmara NO, Moraes-Vieira PM. The Macrophage Switch in Obesity Development. Front Immunol. 2016 Jan 5;6:637. doi: 10.3389/fimmu.2015.00637. PMID: 26779183; PMCID: PMC4700258.
  2. Chylikova J, Dvorackova J, Tauber Z, Kamarad V. M1/M2 macrophage polarization in human obese adipose tissue. Biomed Pap Med Fac Univ Palacky Olomouc Czech Repub. 2018 Jun;162(2):79-82. doi: 10.5507/bp.2018.015. Epub 2018 May 16. PMID: 29765169.

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Medicações para o tratamento do diabetes tipo 2

Nesse vídeo eu dou um panorama sobre as medicações utilizadas no tratamento do diabetes tipo 2 que não a insulina. Basicamente são os comprimidos e os análogos de GLP1. Vou falar sobre o uso de insulina em outro vídeo. Eu vou falar um monte de sigla durante o vídeo, mas para facilitar a minha fala e o entendimento de vocês, eu coloquei essas siglas aqui na legenda.

  • SLGT2 – do inglês Sodium-glucose Cotransporter-2 ou contransportador sódio glicose;
  • DPPIV – Dipeptidyl peptidase-4 (DPP4) – em português é quase igual – dipeptil peptidase IV
  • GIP Gastric inhibitory polypeptide – polipeptídeo inibitório gástrico
  • GLP-1 – and glucagon-like peptide-1 – peptídeo semelhante ao glucagon

Ah, tem mais uma classe também bem pouco utilizada que eu não mencionei, que são as glinidas. Elas são semelhantes às sulfonilureias.

Obrigada,

Suzana