Arquivo da categoria: Obesidade

A obesidade é uma doença causada pelo excesso de gordura corporal. É uma condição de múltiplas causas e seu tratramento envolve diversos profissionais. Para sua prevenção, necessitamos de políticas públicas amplas, já que a obesidade é considerada uma “epidemia”.

Nessa categoria, você vai encontrar vários artigos sobre o tema de obesidade e doenças correlacionadas.

Artigos mais antigos são periodicamente atualizados.

Bioimpedância: o que é e como funciona?

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Princípios da bioimpedância corporal

A bioimpedância mede a quantidade de gordura e músculo no corpo e como é feito isso? Pela oposição à passagem de uma pequena corrente elétrica (impedância) ao longo dos tecidos do corpo é o princípio do exame de bioimpedância para avaliação da composição corporal.

Sabe-se que a corrente elétrica é mais bem conduzida pelos íons contidos nos fluidos. A partir desse princípio, é possível determinar a quantidade de água corporal, geralmente expressa em porcentagem.

Tecidos que tenham mais água e íons na sua composição, como o músculo e sangue, oferecem menor resistência (menor impedância) à passagem da corrente elétrica, o mesmo não acontece com os tecidos adiposo, pele e ossos, que conduzem mal a eletricidade.

Por esse princípio, a composição corporal é dividida em dois componentes principais:

  • massa livre de gordura, ou massa magra: inclui músculos, ossos, pele;
  • massa gorda (total menos massa magra).

Há também de se considerar que a massa muscular inclui diversos tipos de músculo:

  • músculo esquelético presente principalmente nos membros;
  • outros tipos de músculo que compõem órgãos como o coração (músculo cardíaco), intestino, aparelho etc. (músculo liso) – presente principalmente no tronco.

O músculo esquelético corresponde a aproximadamente 56,6% da massa magra.

Como o músculo é rico em água, um aumento de água corporal no exame de bioimpedância pode ser reflexo do aumento da massa muscular.

Outra informação útil que podem ser obtida é o índice de sarcopenia, que é perda de musculatura esquelética dos membros (apendicular). O índice de sarcopenia é calculado dividindo-se a massa muscular dos quatro membros pela altura ao quadrado.

A manutenção da massa magra é importante para qualidade de vida ao longo dos anos e para manter ou aumentar o metabolismo.

Informações adicionais estimadas pela bioimpedância

Taxa metabólica basal – é s estimativa de quanto seria o gasto energético para manter as funções vitais do organismo em repouso. A taxa metabólica basal é diretamente proporcional ao peso e à quantidade de músculo.

A bioimpedância não é o exame mais apropriado para medir metabolismo. O exame mais indicado é a calorimetria indireta.

Ingestão calórica diária – estima a necessidade energética (ingestão calórica) necessária para manter a taxa de metabolismo basal e gastos de atividade física.

Em programas que visem redução do peso corporal, um valor menor do que o informado no campo de “ingestão calórica diária” deve ser utilizado para programar uma dieta hipocalórica.

Idade Metabólica – é o valor corresponde à taxa metabólica basal média de determinada idade cronológica.

Se sua idade metabólica é maior do que sua idade cronológica, é sinal de que você precisa melhorar a composição corporal através de exercícios físicos que aumentem a massa muscular.

Resultados da análise total e segumentar da bioimpedância corporal
Fig.1. Exemplo de laudo fornecido pela bioimpedância. Abreviações: BMR – basal metabolic rate (taxa metabólica basal estimada). TBW – total body water (água corporal)

Os resultados podem ser representados de diferentes formas, como no exemplo abaixo.

bioimpedancia corporal
Fig. 2. Forma alternativa de excposição dos dados coletados: massa magra, massa gorda (adiposa), massa muscular, músculo esquelético e água corporal e índice de sarcopenia

Condições que modifiquem a quantidade de água no organismo podem subestimar ou superestimar a quantidade de massa magra e, consequentemente, massa gorda.

Os aparelhos tetrapolares (eletrodos para os quatro membros) permitem a avaliação da composição corporal por segmento: membros superiores, inferiores e tronco e oferecer mais informações, como índice de sarcopenia.

Fig.4. Exemplo de aparelho tetrapolar: a corrente elétrica passa por cada segmento do corpo

Pela análise individualizada de cada segmento corporal, é possível obter os resultados de massa magra nos quatro membros e tronco.

Atenção! O laudo completo é padronizado para maiores de 18 anos.

Resultados da análise total e segumentar da bioimpedância corporal
Fig.5. Análise para cada segmento do corpo e equilíbrio da massa muscular

Alguns programas possibilitam também a avaliação da evolução das mudanças de composição corporal ao longo do tempo.

Fig. 6. Evolução de peso, massa muscular e massa gorda ao longo do tempo de vários exames realizados em um mesmo paciente em um processo de emagrecimento

Como vimos, a quantidade de água medida é essencial para determinar a composição corporal. Portanto, alguns cuidados são necessários garantir boa acurácia do exame, como hidratação adequada e evitar artefatos que modifiquem a velocidade da corrente elétrica. Para isso, um preparo antes do exame torna-se necessário.

Indicações da bioimpedância

A bioimpedância é indicada nos tratamentos de emagrecimento e para avaliar a mudança de composição corporal no decorrer de um programa de atividade física

Quem não pode ou deve fazer o exame

  • Usuários de marcapasso ou outro aparelho elétrico implantado no corpo
  • Pessoas com peças metálicas no corpo tais como placas e parafusos
  • Gravidez ou suspeita de gravidez

A avaliação sequencial da composição corporal é mais indicada que uma medida isolada. Os programas comercialmente disponíveis podem dar não só uma avaliação pontual, mas a evolução ao longo do tempo num programa de emagrecimento e também atividade física.

A avaliação da composição corporal é mais acurada que a medida do índice de massa corporal (IMC) para avaliar o excesso de gordura, característica da obesidade; duas pessoas podem ter o IMC exatamente igual, mas composições corporais totalmente diferentes.

A massa magra é o principal componente que mantém um bom nível de metabolismo para evitar um reganho de peso no futuro.

Preparo do exame

  • jejum de 4h antes do exame
  • não ingerir bebidas alcoólicas 8h antes do exame
  • evitar consumo excessivo de alimentos ricos em cafeína (chocolates, chás escuros, cafés)
  • evitar atividade física intensa e sauna no dia anterior ao exame
  • evitar realizar no período menstrual
  • beber aproximadamente 500 ml de água 2h antes do exame
  • esvaziar a bexiga antes da realização do exame
  • retirar metais do corpo (brincos, anéis, piercings)

Orienta-se usar roupas leves para realização do exame

A avaliação sequencial da composição corporal é mais indicada que uma medida isolada. Os programas comercialmente disponíveis podem dar não só uma avaliação pontual, mas a evolução ao longo do tempo num programa de emagrecimento ou para avaliação de programas de atividade física.

Realizo o exame de bioimpedância sem custo adicional na minha consulta. Se você estiver interesse em realizar bioimpedância apenas, por favor, entre em contato por whatsapp. Para esse exame, não há agendamento online.

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Suzana

Cetose, dietas cetogênicas e cetoacidose diabética

O que é cetose e como ela surge

Na ausência da glicose, o fígado produz os corpos cetônicos a partir da gordura armazenada para serem usados como fonte de energia pelos tecidos, tais como cérebro, coração, rins, músculos. Esse processo é importante para o cérebro, pois esse órgão não utiliza outras fontes de energia alternativas a partir de gorduras e proteínas.

Os corpos cetônicos estão sempre presentes no sangue e seus níveis aumentam durante o jejum e exercício prolongado. São encontrados também nos recém-nascidos e grávidas. Essas condições são consideradas fisiológicas.

Dietas cetogênicas

Algumas dietas com pouco carboidrato também induzem a formação dos corpos cetônicos, conhecidas como dietas cetogênicas para tratamento da obesidade. Nessas dietas os carboidratos são substituídos por proteínas ou gorduras, simulando assim um jejum. Lembrando que a redução de calorias associada à atividade física são fundamentais para o tratamento da obesidade.

Após uma noite de jejum, os corpos cetônicos fornecem 2±6% das necessidades energéticas do organismo, enquanto após 3 dias de jejum, fornecem 30±40%.

Há três tipos de corpos cetônicos, sendo os dois principais corpos cetônicos são o acetoacetato e o 3 β-hidroxibutirato, e por último a acetona que é menos abundante no sangue.

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Figura 1. Estrutura química dos corpos cetônicos. A Acetil CoA é o link entre a produção de energia a partir de glicose ou ácidos graxos

A cetose é o aumento dos corpos cetônicos no sangue. Posteriormente ao aumento da concentração dos corpos cetônicos no sangue, o excesso de corpos cetônicos é eliminado pelos rins através da urina (cetonúria). A acetona por ser volátil pode ser também eliminada pelos pulmões através da respiração. Esse último fenômeno caracteriza o hálito característico de fruta nas pessoas em cetose.

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Figura 2. Produção de corpos cetônicos a partir do jejum

Cetoacidose diabética

No diabetes, quando há redução dos níveis de insulina – principalmente no diabetes tipo 1- ou na resistência à insulina, há liberação da ação da lipase hormônio-sensível, que quebra os tríglicérides de dentro do adipócito, lançando na ciruculação grande quantidade de ácidos graxos para produção dos corpos cetônicos.

Para que a cetoacidose diabética aconteça é necessária uma baixa concentração ou ausência de insulina circulante. Há também a contribuição de hormônios que aumentam a glicemia (contra-reguladores) como o glucagon.

Pela falta de insulina, não há entrada de glicose na célula do hepatócito, e o a produção de energia é desviada para produção de corpos cetônicos nos hepatócitos.  A grande quantidade de corpos cetônicos ultrapassa a capacidade de tamponamento do sistema de equilíbrio ácido-básico deixando o pH do sangue mais ácido, culminando na cetoacidose diabética. Nesse post não será detalhada essa complicação do diabetes.

A dieta cetogênica é perigosa?

Uma das perguntas que se pode fazer é se a dieta cetogênica pode causar cetoacidose. Esse tema é discutido em outro post.

É possível que em pacientes com diabetes com poucos níveis de insulina circulante, haja um tipo de cetoacidose sem aumento da glicemia, entidade denominada cetoacidose euglicêmica. Acontece particularmente em pacientes em uso de novas medicações orais para diabetes. 

Dessa forma, a intensidade de formação de corpos cetônicos e a deficiência de insulina   diferenciam uma cetose da cetoacidose diabética. Em pessoas com diabetes que fazem uso de insulina ou que estejam descompensadas, a indução de cetose por dietas pobres em carboidrato não é indicada.

Referência

LAFFEL, L. Ketone bodies: a review of physiology, pathophysiology and application of monitoring to diabetes. Diabetes Metab Res Rev, v. 15, n. 6, p. 412-26, 1999 Nov-Dec 1999. ISSN 1520-7552. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10634967

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Esteatose hepática – gordura no fígado

Por Dra. Regiane Saraiva

A esteatose hepática caracteriza-se por um acúmulo de gordura nas células do fígado, também chamada de infiltração gordurosa ou doença gordurosa do fígado. É muito comum e pode ser dividida em:

# Alcoólica (quando há abuso na ingestão de bebida alcoólica)

# Não alcoólica (quando não existe história de ingestão de álcool significativa)

A esteatose hepática não alcoólica pode ser causada por:

A esteatose não alcoólica atinge cerca de 20% da população geral e cerca de 60% das pessoas obesas. Mais de 70% dos pacientes com esteatose são obesos, e quanto maior o sobrepeso, maior o risco. A esteatose é mais comum em mulheres, provavelmente por ação do estrogênio.

Esteatose inicial ou leve é quando ocorre pequena deposição de gordura no fígado, se essa gordura persistir por um tempo prolongado ou se houver um maior acúmulo de gordura, pode acarretar dano às células do fígado, com inflamação, que chamamos de esteato-hepatite. Ou seja, após vários anos de esteatose pode ocorrer uma “hepatite” pelo excesso de gordura. A esteato-hepatite é um quadro bem mais preocupante que a esteatose, pois pode evoluir para cirrose hepática em cerca de 20% dos casos, que é a complicação mais temida da esteatose hepática

historia natural

Tanto a esteatose como a esteato-hepatite não tem sintomas e com frequência são descobertas por uma ultrassonografia abdominal de rotina, ou na investigação de alteração de exames laboratoriais relativos ao fígado. O médico pode suspeitar de esteatose pela história clínica, exame físico do paciente, com detecção do fígado aumentado, ou por aumento da circunferência abdominal pelo acúmulo de gordura. Alguns pacientes com esteatose queixam-se de fadiga e sensação de peso ou desconforto no abdome superior direito, porém não há evidências que esses sintomas estejam relacionados ao acúmulo de gordura no fígado, pois pacientes com graus avançados de esteatose geralmente não apresentam nenhum sintoma.

A ultrassonografia costuma indicar o grau de esteatose hepática, sendo:

  • Grau 1 ou leve: quando há pequeno acúmulo de gordura
  • Grau 2: quando há um acúmulo moderado de gordura no fígado
  • Grau 3: quando ocorre grande acúmulo de gordura no fígado.

Essa graduação não é muito precisa, pois a avaliação é subjetiva, depende do equipamento e da experiência do médico que faz o exame, mas ajuda na avaliação da intensidade da gordura e no seguimento, para verificar se houve melhora com o tratamento. Não é possível diferenciar casos de esteatose da esteato-hepatite, nem das outras causas de hepatite pelos exames de imagem. Na ultrassonografia consegue-se ver bem a gordura, mas ela não possui sensibilidade suficiente para se descartar ou confirmar a presença de inflamação no fígado, nem saber o grau de lesão do fígado.

Quando o ultrassom ou tomografia mostram esteatose é preciso fazer exames complementares para avaliar a presença de inflamação e identificar a causa da esteatose.

O grau de esteatose ao ultrassom não é proporcional à gravidade do quadro, o paciente pode ter esteatose grau 1 e ter muita inflamação ou ter grau 3 e não apresentar inflamação hepática. A presença de inflamação é mais importante do que a quantidade de gordura, sendo investigada através de exames de sangue para avaliação do fígado, que são as enzimas hepáticas (TGO e TGP ou AST e ALT) e outros marcadores de doença do fígado como a gama GT.

A confirmação do diagnóstico de esteato-hepatite é feito pela análise histológica de um fragmento do fígado, retirado através da biópsia hepática. Este procedimento costuma ser indicado apenas nos pacientes com as enzimas hepáticas elevadas, com maior risco de esteato-hepatite e fibrose hepática como consequência da inflamação.

A esteatose e a esteato-hepatite são doenças reversíveis, desde que ainda não tenham provocado fibrose no fígado. A associação da esteatose hepática com hepatite B ou C, colestase, doenças metabólicas ou autoimunes pode facilitar a evolução para a cirrose. Por isso é muito importante a identificação da esteatose e tratamento adequado.

Tratamento:

Não há até o momento um tratamento específico para a esteatose. Dessa forma, o tratamento se concentra na causa, ou seja, o diabetes, os níveis elevados de colesterol e triglicerídeos, a obesidade. Isso inclui uso de medicamentos, quando necessário, e uma mudança de hábitos de vida, com perda de peso, reeducação alimentar e realização de atividade física, além de acompanhamento médico regular.

Geralmente a medida mais eficaz para controlar a esteatose é a perda de peso, uma redução de 10% no peso corporal pode trazer bons resultados. Porém, deve-se perder de peso de forma gradual, perdas muito rápidas podem agravar a esteatose. Pessoas com índice da massa corporal (IMC) normal não apresentam grandes benefícios com a perda de peso, pois a causa da esteatose não é o excesso de peso. Em doentes com obesidade mórbida, a cirurgia bariátrica pode ser uma opção.

Alguns medicamentos têm sido usados com algum benefício:

A vitamina E, na dose de 400 a 800 UI ao dia, é indicada para pacientes com esteato-hepatite e sinais de fibrose hepática, comprovados através da biópsia do fígado.

Drogas hipoglicemiantes, usadas para tratamento de diabetes, como a metformina, pioglitazona e rosiglitazona, têm sido utilizadas, geralmente nos pacientes com níveis elevados de glicemia.

O orlistate pode ser usado como droga auxiliar para o controle do peso corporal, mas não age diretamente sobre a esteatose.

Alguns trabalhos mostraram benefícios do ômega 3 nos casos de esteatose, mas não da esteato-hepatite.

Outras drogas foram testadas com resultados inconclusivos, entre elas: ursacol (ácido ursodesoxicólico), N-acetilcisteína, acido fólico, silimarina.

Portanto, apesar da esteatose ser uma doença benigna na grande maioria dos casos, se não tratada pode evoluir de forma desfavorável. Por isso, todo paciente com diagnóstico de esteatose hepática e, principalmente, esteato-hepatite deve iniciar tratamento para tentar reverter esse acúmulo de gordura.

Saiba mais sobre a doença hepática gordurosa não-alcoólica

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