Arquivo da tag: obesidade

Lorcasserina (Belviq) e risco de câncer

Um novo medicamento para o tratamento da obesidade sempre é recebido com grande entusiasmo. O tratamento da obesidade é um grande desafio, principalmente para manutenção do peso perdido. Dieta e atividade física são o alicerce do tratamento e as medicações são indicadas quando essas duas estratégias conjuntas não atingem o objetivo desejado.

No Brasil, a novidade para obesidade é a lorcasserina, encontrada nas farmácias também sob o de Belviq. Aprovada desde 2016, chegou ao mercado só no ano passado, mas nesse pouquíssimo tempo já sofreu um grande golpe: análises recentes de um estudo desenhado para avaliar a segurança cardiovascular do medicamento (CAMMELLIA-TIMI) encontrou uma correlação possível do Belviq com risco de câncer.

Essa potencial correlação já tinha sido veiculada por um canal popular de notícias, mas o tema teve alguns desdobramentos recentes. Ontem, dia 13 de fevereiro de 2020, a agência regulatória dos Estados Unidos – FDA – lançou um alerta, atualizado hoje, no qual descreve “até o momento, a causa de câncer é incerta, e não podemos concluir que a lorcasserina contribui para o risco de câncer”.

O estudo CAMMELLIA foi conduzido em 12.000 pacientes por pelo menos 5 anos. Vários tipos de câncer foram relatados, ocorrendo com mais frequência no grupo da lorcasserina, incluindo câncer pancreático, colorretal e de pulmão. A diferença dos casos de câncer foi pequena entre os grupos: no da lorcasserina foram relatados 470 casos (7,7% dos pacientes) de câncer versus 423 no grupo placebo (7,1%). A diferença absoluta e relativa foi pequena, mas…

O FDA recomendou ao médicos que considerem o risco-benefício quando decidir continuar o tratamento e aos pacientes para conversarem com seus médicos para tomarem a melhor decisão sobre o tratamento com a medicação.

A farmacêutica que distribui o medicamento enviou um comunicado para os médicos que está em contato com a Anvisa para alinhar conduta no território brasileiro e suspendeu a comercialização e distribuição do medicamento em todo território nacional.

Carta aos médicos

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia recomendam que os médicos entrem em contato com os pacientes para descontinuar a medicação.

Posicionamento das entidades médicas

Antes de entrar no desespero, devemos entender o que nem sempre uma correlação significa uma relação causa-efeito. Nesse episódio da lorcasserina, devemos lembrar que:

(1) o estudo que verificou esse desbalanço do número de pessoas com câncer entre os grupos do estudo (droga x placebo) foi desenhado para outro propósito, o de segurança cardiovascular;

(2) um estudo específico para avaliar o risco de câncer deve ser desenhado e desenvolvido com um número suficiente (geralmente grande) de pacientes para responder à pergunta se o Belviq está associado ao risco de câncer ou não.

A própria agência americana diz que ainda não se chegou a uma conclusão definitiva e ponderou esses pontos acima listados. Aguardamos ainda o posicionamento da Anvisa.

A obesidade, sim, já é reconhecida como um fator de risco para diversos tipos de câncer, com uma plausibilidade biológica, ou seja, com mecanismos biológicos relacionados já bem descritos. Além disso, a perda de peso parece estar associada à redução do risco de câncer. Nessa luta contra a obesidade vale a pena escolher bem as armas.

Se você estiver usando essa medicação, converse com seu médico e juntos tomem decisões compartilhadas de maneira slow.

Existe dieta para Síndrome de Ovários Policísticos?

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) juntamente com a obesidade são doenças endocrinológicas muito comuns em mulheres em idade reprodutiva. De 30 a 70% das pacientes têm resistência à insulina, característica da Síndrome Metabólica, que podem levar ao aumento do risco diabetes e de doenças cardiovasculares. A SOP, diabetes e obesidade e a doença cardiovascular têm em comum um leve grau de inflamação contínua no organismo. Sabe-se que a obesidade e a SOP estão intimamente relacionadas e ambas vem crescendo nas últimas décadas, resultante de grandes revoluções na nossa alimentação e estilo de vida. Afinal, exite uma dieta melhor para mulheres que tenham síndrome dos ovários policísticos?

Um artigo publicado na revista Nutrition Research Reviews (1 )no ano passado revisou o impacto das fontes e quantidade de carboidrato na dieta e fatores inflamatórios em pacientes com SOP. Entre os alimentos que mais produzem inflamação, temos os alimentos muito calóricos, ricos em carboidratos refinados de alto índice glicêmico e carga glicêmica (aqueles que aumentam rapidamente a glicemia e insulina após a sua ingestão), ricos em gordura e pobre em fibras, características da Dieta Ocidental.

Adoçantes à base de frutose (açúcar das frutas) também elevaram os marcadores inflamatórios. Marcadores bioquímicos inflamatórios na prática clínica são proteína C reativa e também ferritina, que estão aumentados nos estados como obesidade e diabetes.

Diferentes estudos mostraram que carboidratos dos laticínios, alimentos ricos em de amido (ex: batata, mandioca, arroz, trigo) provocam picos de insulina maior que carboidratos derivados de vegetais e frutas isentos ou pobre em amido (feijão, couve-flor, cenoura, folhas verdes, abobrinha, milho, ervilha, cebola, vagem etc).

Quando comparados aos alimentos citados anteriormente, estudos sugerem que dietas de baixo índice glicêmico, ricos em fibras, (por exemplo os in natura ou minimamente processados) estão relacionados a menores níveis de marcadores inflamatórios. A ingestão de castanhas, ricas em gorduras boas, também foi citada como possivelmente benéfica para reduzir os níveis de inflamação no organismo. É bom lembrar que frutas e vegetais frescos são ricos em antioxidantes naturais.

Para uma dieta saudável, não precisamos inventar muita moda. Não é necessário que seja adicionada alimentos fora da culinária nacional. Os principais pilares da dieta que parece ser benéfica para a Síndrome de Ovários Policísticos e obesidade está presente no Guia Alimentar para População Brasileira (2): preferir alimentos in natura ou minimamente processados e evitar alimentos industrializados. Esse guia vale a pena ler com bastante calma. O arroz com feijão e salada mais uma fonte de proteína com uma fruta como sobremesa é um ótimo exemplo de refeição. Em mulheres com sobrepeso, uma redução em 30% das calorias diárias ou de 500 a 700 calorias por dia é recomendável, associada à atividade física regular.

Típico prato da culinária brasileira

Referências

1. BARREA, L. et al. Source and amount of carbohydrate in the diet and inflammation in women with polycystic ovary syndrome. Nutr Res Rev, v. 31, n. 2, p. 291-301, 12 2018. ISSN 1475-2700. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30033891

2. Guia Alimentar para População Brasileira

Obesidade e gravidez: quais os riscos?

A obesidade é a condição médica mais comum das mulheres em idade reprodutiva. Muitos fatores influem para excesso de peso em populações de quase todo mundo, assunto comentado em um post recente. A obesidade na gravidez pode ter um grande impacto sobre a saúde da gestante e do bebê.

Antes da gestação, a classificação da obesidade é feita pelo índice de massa corporal (IMC).  Segundo a Organização Mundial da Saúde, o IMC ≥ 30 kg/m2 é considerado obesidade. Na gestação, pelo aumento da quantidade de líquido no organismo, o IMC se correlaciona pior com a quantidade de gordura corporal. Mesmo assim, o Ministério da Saúde tem uma tabela de IMC de acordo com a idade gestacional em semanas. 

Antes da concepção

Atingir um peso saudável para quem planeja engravidar é muito importante. Sabe-se que a obesidade se correlaciona com a Síndrome dos Ovários Policísticos, que tem como uma das características ciclos em que não há ovulação, podendo causar dificuldades para engravidar e infertilidade. Mesmo em mulheres que ovulam regularmente, um IMC maior parece dificultar a gravidez. A obesidade também pode afetar o sucesso da fertilização in vitro (FIV).

Estratégias para o tratamento da obesidade em mulheres não grávidas incluem mudança de estilo de vida (restrição calórica e atividade física), medicamentos e cirurgia bariátrica em casos selecionados.

Durante a gravidez

A quantidade de quilos a serem ganhos durante a gestação depende da estado nutricional antes da gestação, conforme as recomendações do Institute of Medicine resumidas na tabela abaixo.

Se antes da gravidez você está Você deve ganhar Ganho de peso no 2º e 3º trimestre por semana (kg)
Abaixo do peso – IMC ≤ 18,5 kg/m2 12,5  – 18 kg 0,5
Peso normal – IMC entre18,5 e 24,9 kg/m2 11- 16 kg 0,4
Sobrepeso – IMC entre 25,0 e 29,9 kg/m2 7 – 11 kg 0,3
Obesidade – IMC ≥ 30,0 kg/m2 5- 9 kg 0,2

Os valores acima são considerados para gestação de apenas um bebê. No caso de gestação de gêmeos, o recomendado de ganho de peso é entre 11 a 19 kg.

Para mulheres que são extremamente obesas, ganhar menos que a quantidade recomendada durante a gestação pode diminuir o risco de macrossomia fetal. Entretanto, perder peso ou ganhar muito pouco peso durante a gestação pode aumentar o risco de nascimento prematuro ou que o feto fique abaixo do peso esperado para idade gestacional.

Mais importante que recomendar o ganho de determinada quantidade de peso na gestação, o profissional que esteja acompanhando a gestante deve encorajar a evitar ganho de peso excessivo durante a gestação.

Os riscos da obesidade durante a gravidez incluem:

  • abortamento, morte fetal ou logo após o nascimento e abortamento de repetição;
  • diabetes gestacional;
  • aumento da pressão arterial e pré-eclâmpsia;
  • disfunção cardíaca;
  • apneia do sono;
  • parto prematuro;
  • dificuldade para o parto normal;
  • aumento da chance cesárea e complicações dessa cirurgia, tais como infecção da ferida operatória e tromboembolismo venoso.

Além do rastreamento do diabetes gestacional, a obesidade pode levar a apneia obstrutiva do sono, que por sua vez aumenta o risco de pré-eclampsia e outras complicações. Em caso de ronco excessivo, sensação de sufocamento e engasgos noturnos, o hipótese de apneia do sono deve ser levantada. O exame de polissonografia confirma o diagnóstico e consulta a um profissional habilitado em medicina do sono pode ser necessária para indicar melhor tratamento.

O tratamento para obesidade durante a gestação inclui apenas mudança de estilo de vida. Nem medicamentos para obesidade e nem cirurgia bariátrica são indicados.

Riscos para o bebê 

O feto pode também ter riscos decorrentes da obesidade materna. Destacam-se:

  • Macrossomia – peso maior que o esperado para idade gestacional e ter mais gordura que o normal, o que pode aumentar o risco de síndrome metabólica e obesidade infantil;
  • Malformações fetais – a obesidade aumenta o risco para o desenvolvimento de malformações fetais e ainda pode ainda dificultar a detecção delas ao ultrassom.

Aleitamento e pós parto

O aleitamento materno deve ser sempre encorajado. Devido a limitações de ordem física, pode haver dificuldade para o aleitamento materno. Mulheres obesas podem ter também ter redução da primeira fase da produção de leite materno.

É sempre importante frisar que o cuidado deve vir antes da concepção para que os riscos durante a gravidez sejam minimizados. Se você está acima do peso e pretende engravidar, adote um estilo de vida que inclua alimentação saudável e com restrição de calorias , atividade física regular e sem fumo. Se preciso for, converse com a(o) sua (seu) ginecologista adicionar ao seu cuidado um nutricionista e também endocrinologista, que podem ajudá-la a perder peso antes da gravidez.

Referências:
  1. Pregnancy and obesity: Know the risks
  2. IMC para gestantes