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Variação circadiana do TSH

Quem tem um resultado de TSH (hormônio tireotrófico) levemente alterado precisa repetir o exame, isso é fato! Já falamos sobre essa necessidade nos posts sobre hipotiroidismo subclínico e hipertireoidismo subclínico. Outro fato é que quase nunca um resultado desse exame é um número próximo ao do outro exame. Muitos pacientes ficam intrigados com essa variação de um exame para exame e podem até achar que estão desenvolvendo um problema de tireoide. E por que isso?

O TSH, como vários outros hormônios, é secretado de forma pulsátil e possui um ritmo circadiano.

Em humanos, o TSH é secretado em pulsos de baixa amplitude, com uma subida e descida a cada 1 a 2h. A baixa amplitude do TSH, juntamente com a meia-vida (o tempo que o hormônio circula) relativamente longa de aproximadamente 50 min resulta em pequena variação do TSH circulante se formos comparamos com hormônios como o hormônio de crescimento, que tem um pulsatilidade de cerca de 20 min ou cortisol e testosterona que têm uma amplitude maior de variação ao longo do dia. Dessa forma, A secreção do TSH é considerada parcialmente pulsátil e parcialmente basal.

Normalmente, os menores níveis de TSH são observados durante a tarde, vão aumentando durante a noite até chegar ao máximo por volta das 3h da madrugada, variando da meia-noite até 5h30min da manhã. Essa queda do TSH ajuda a pessoa a manter o sono. Depois, os níveis de TSH começam a baixar. Esse padrão é de pessoa que não troca a noite pelo dia.

Variação do TSH conforme sexo

As mulheres têm muito mais doença da tireoide que os homens, mas não foi observada diferença significativa na secreção de TSH em indivíduos não doentes de ambos os sexos, como demostrado na figura abaixo.

Variação do TSH conforme jejum

O jejum prolongado também modifica a secreção de TSH, O jejum prolongado também altera a secreção do TSH pela redução da amplitude dos ciclos diurnos e minimiza o aumento desse hormônio durante a noite.

Após iniciado o sono, o TSH reduz, como já falado anteriormente. Uma reversão do ciclo sono-vigília (trocar o dia pela noite), provoca uma mudança do ritmo de TSH, com um aumento da amplitude dos pulsos durante a primeira noite acordada e redução da amplitude durante a segunda noite de sono. Em outro estudo, o efeito da privação de sono em indivíduos que ficaram 64h acordados, foi verificado que as primeiras 24h do ritmo do TSH foi mantido, mas os picos ficam mais largos e, de novo, o TSH reduziu após o sono. Na figura abaixo, o período de sono está representado pela barra preta no terceiro dia de observação.

Variação do TSH conforme privação de sono

Existem muitas outras situações em que há alteração da secreção de TSH, como a obesidade, gravidez, idade e presença de doenças graves.

A ideia do texto, foi tentar esclarecer o porquê de tanta variação do TSH com o simples fato de perder uma noite de sono ou ficar mais tempo em jejum em pessoas sem doença da tireoide. Mesmo que esses eventos não aconteçam, pode haver alterações da dosagem do TSH conforme o período do dia em que o exame foi colhido.

A maioria dos laboratórios de análises clínicas solicitam um preparo de 3-4h de jejum para coleta desse hormônio. Nunca devemos esquecer de suspender o uso de algumas vitaminas ricas em biotina 72h antes da coleta. Essa vitamina altera a leitura do exame que dosa o TSH.

Assim sendo, na prática clínica, os endocrinologistas frequentemente veem se há uma queda ou aumento progressivo do TSH antes de concluir se há doença em curso, já que não sabemos se estamos vendo um pico, um vale ou mesmo um ponto fora da curva da dosagem do TSH.

Referência

Ferdinand Roelfsema, Johannes D. Veldhuis, Thyrotropin Secretion Patterns in Health and Disease, Endocrine Reviews, Volume 34, Issue 5, 1 October 2013, Pages 619–657, https://doi.org/10.1210/er.2012-1076

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Por que as pessoas jejuam?

Greve de fome, pessoas famintas, inanição experimental, motivos religiosos e tratamento para obesidade são motivos pelos quais as pessoas jejuam. Essas situações estudadas em relação aos seus impactos do ponto de vista fisiológico e psicológico. Esse post traz informações baseadas em um artigo científico sobre jejum intermitente, e que traz bases científicas históricas e culturais sobre o jejum.1

GREVE DE FOME

Em mamíferos normais, a morte ocorre quando há perda de 40 a 50% do peso original. Um pesquisador chamado Elia publicou um estudo sobre prisioneiros do Irlanda do Norte em 1981 que fizeram greve de fome. Nessas pessoas, a morte ocorreu entre 57-73 dias. O trabalho de Elia sugere que indivíduos de peso normal sobrevivem em média 60-70 após jejum, enquanto indivíduos com obesidade levariam uma quantidade de tempo significativamente maior.

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Mural comemorativo das vítimas da greve de fome na Irlanda

FOME

Os relatos são anedóticos mais do que de estudos clínicos, por motivos compreensíveis.

Após a Segunda Guerra Mundial, estudos em prisioneiros de guerra relacionaram a privação calórica e binging eating* posterior. Dezenove prisioneiros de guerra foram estudados por após um período em que foi dado acesso irrestrito de calorias por 8 semanas e registram ingestas de até 3954 calorias em uma alimentação até 6000 calorias por dia. Esses dados têm sido usados como demonstração da hipótese que a restrição voluntária (o que não seria o caso) que leva a perda de peso substancial está relacionada com compulsão alimentar e extrapolado para noção que dieta per se leva a compulsão alimentar, pelo menos para alguns indivíduos.

ESTUDOS EXPERIMENTAIS

O maior estudo conduzido para avaliar a inanição em indivíduos com peso normal é conhecido como “Experimento de Minnesota”, realizado nos anos 40 durante a Segunda Guerra Mundial por Ancel Keys. Foram reunidos um grupo de cientistas para estuda a fisiologia e psicologia da restrição alimentar extrema. A perda de peso foi de 24% do peso inicial (para IMC médio de 17,5 kg/m2). O experimento incluía quatro fases: controle, semi-inanição, período de reabilitação com restrição alimentar, período de reabilitação com alimentação irrestrita.

experimento minnesota.jpg
Experimento de Minnesota

Durante o experimento, muitos voluntários sofreram de sintomas graves de depressão, dificuldade de controlar as emoçoes, hipocondria, redução do interesse sexual, além das alterações fisiológicas. Ainda depois do término do estudo, houve sequelas do ponto de vista psicológico.

JEJUM POR MOTIVOS RELIGIOSOS

Ramadã

Um dos mais citados jejuns religiosos é o período do Ramadã. Durante um mês, os muçulmanos se abstêm de comida e bebida do nascer até o pôr do sol. Embora o Ramadã não envolva jejum de forma contínua, fornece informações sobre a restrição calórica de curto prazo em pessoas saudáveis. Há uma falsa concepção que o jejum religioso resulta em diminuição da ingesta calórica, mas investigadores encontraram até aumento da ingesta quando comparados a antes, durante e depois do Ramadã, a despeito da diminuição da frequência de refeições. Não foram observadas mudanças em composição corporal. Os dados sugerem que adultos são capazes de fazer mudanças compensatórias em curto período de tempo, a fim de manter o peso corporal.

Jejum de Daniel

Embora não pregue o jejum completo, o jejum de Daniel prega a abstinência de certos alimentos. Praticado principalmente por cristãos, o jejum de Daniel é baseado na bíblia e proíbe o consumo de produtos de produtos animais, carboidratos refinados, industrializados, cafeína e álcool. Jejum de 21 dias é o mais comum, mas há variações com duração de 10 e 40 dias. A dieta se assemelha à dieta vegana. Um estudo avaliou o impacto desse tipo de dieta e observou melhora em muitas varáveis relacionadas à saúde, tais como: pressão sanguínea, lipídeos, sensibilidade à insulina e marcadores de estresse oxidativo2. Em geral, a adesão é boa e os estudos não avaliaram as variações de peso.

Jejum de Daniel
Daniel recusa alimento do rei

TRATAMENTO PARA OBESIDADE GRAVE REFRATÁRIA

O jejum de pacientes, em nível hospitalar, foi considerado como uma possibilidade terapêutica nos anos 50 e 60. Nessa época, os pesquisadores deixaram pacientes em jejum num período variável de 10 a 117 dias. Atualmente, essa modalidade terapêutica não é mais aconselhada, uma vez que o jejum prolongado pode levar a várias complicações médicas (fibrilação ventricular, acidose lática, deficiência de vitaminas e eletrólitos) e morte súbita durante o jejum ou o período de realimentação.

JEJUM NOS DIAS ATUAIS

Atualmente, um dos principais motivos para o jejum tem como objetivo a perda de peso. Protocolos de jejum intermitente e jejum alternado tem sido amplamente divulgados e popularizados. O jejum é um método que pode ser utilizado para perda de peso por um período de semanas.

As dietas cetogênicas simulam o jejum prolongado.

O perfil de macronutrientes consumidos durante os dias de jejum não tem sido publicado, e é poderia se especular que dietas hiperproteicas poderiam ajudar a reduzir a fome e aumentar a saciedade.

Há poucas publicações que avaliam essas dietas em longo prazo, mas sem dúvida, é uma opção para tratamento da obesidade.

*Transtorno de compulsão alimentar periódica TCA – Binging eating – ingesta de grande quantidade de comida em até 2h, acompanhada de sensação de perda de controle da qualidade e quantidade de alimento, seguida por arrependimento de ter comido. Os episódios ocorrerem pelo menos duas vezes por semana por mais de seis meses;

Considerações finais

A ato de comer pode ocorrer quando a fome é pouca, e, contraditoriamente, é possível estar muito faminto e não comer, mesmo próximo ao ponto fatal (casos de greve de fome). Desta forma, pode-se levantar a hipótese que em sujeitos previamente obesos essa resposta pode ser muito diferente, já que a disposição para manter a perda de peso pode suplantar a inclinação fisiológica para comer muito.

Muitos estudos publicados sobre o jejum prolongado hoje em dia não seriam realizados por motivos éticos e humanitários. Entretanto, de forma perversa ou antiética, alguns deles serviram para aumentar o entendimento sobre a fisiologia e os impactos emocionais do jejum prolongado.

Métodos de emagrecimento, principalmente o jejum intermitente, entram e saem de moda. Particularmente, não tenho nada muito a favor nem contra. Se funciona bem para pessoa sem muito sofrimento, acho que pode caber como estratégia nutricional.

Referências

1 JOHNSTONE, A. Fasting for weight loss: an effective strategy or latest dieting trend? Int J Obes (Lond), v. 39, n. 5, p. 727-33, May 2015. ISSN 1476-5497. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25540982 >.

2 TREPANOWSKI, J. F.; BLOOMER, R. J. The impact of religious fasting on human health. Nutr J, v. 9, p. 57, Nov 2010. ISSN 1475-2891. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21092212 >.

Polivy, J., Zeitlin, S. B., Herman, C. P., & Beal, A. L. (1994). Food restriction and binge eating: A study of former prisoners of war. Journal of Abnormal Psychology, 103(2), 409–411. https://doi.org/10.1037/0021-843X.103.2.409

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