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Reação idiossincrática e hospitalização por ozempic

Uma jovem foi hospitalizada e estava
usando ozempic, a semaglutida injetável. O curioso foi
que ela não apresentou problemas no pâncreas, como
seria possível e descrito em bula, mas sim uma
hepatite fulminante que a levou para UTI.

A hepatite foi tão fulminante como um raio que cai na
cabeça de alguém. Não só foi algo rápido, como
aleatório. Esse fato me pareceu um caso de uma
reação idiossincrática ou de um fenômeno chamado
idiossincrasia.

“Em medicina o termo denota uma hipersensibilidade
não imunológica para uma substância, sem conexão
com toxicidade farmacológica, ou seja, é um efeito
independente de dose tóxica”, diz o wikipedia.

Essa reação não pode ser prevista e pode acontecer
independente da dose e se ela tenha se automedicado
ou não. Isso quer dizer que pode acontecer com
pessoas façam uso de medicações prescritas pelo
médico.

Como adivinhar se a pessoa vai ter essa reação ao
ozempic ou outra substância? A resposta é não tem
como. A gente reza para que não aconteça com a
gente ou com algum paciente nosso.

Idiossincrasia (do grego ἰδιοσυγκρασία, “temperamento
peculiar”, composto de ἴδιος [“peculiar”] e σύγκρασις
[“mistura”]) é uma característica comportamental ou
estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo.

Essa nóticia deixou muitos pacientes em pânico nos
últimos dias e quem estiver preocupado pelo uso da
medicação, deve procurar seu médico ou consultar um.

Doença Renal do diabetes

Live sobre doença renal do diabetes

Doença Renal do Diabetes e Nefropatia diabética

Há quase duas décadas atrás, a gente nomeava o acometimento do rim pelo diabetes com nefropatia diabética. Como a maioria das complicações do diabetes descompensado, o dano ao rim pode ser assintomático. Considerando esse fato, a gente rastreia, tenta diagnosticar precocemente através do exame de sangue e de urina.

Antigamente, nós víamos só o exame de urina. A lesão do rim pela glicose alta leva a perda de albumina na urina. O exame que vê isso é a albuminúria (geralmente chamada de microalbuminúria). Microalbuminúria positiva era o único sinônimo do dano renal pelo diabetes e a gente chamava a doença de nefropatia diabética. 

Porém, a perda da função renal decorrente do diabetes descompensado pode acontecer mesmo sem a perda de proteína. A partir dessa ciência, o termo sugerido é de Doença Renal do Diabetes.

Como saber se os rins estão funcionando bem?

Como a gente avalia a função do rim? Pelo volume de sangue que é filtrado a cada minuto que passa pelos glomérulos, que são como “peneiras”  que retém o que é importante antes de acabar na urina. Os glomérulos são esses novelos de vasos contidos nos néfrons.

Na prática, a gente usa a dosagem da creatinina, que é uma substância derivada do metabolismo da creatina no músculo. A creatinina é filtrada pelo rim e que não é reabsorvida, diferente da glicose que é totalmente reabsorvida. Quando a função do rim é normal a creatinina tem passe livre na peneira e praticamente a mesma creatinina que passa pelo rim aparece na urina. A creatinina no sangue e na urina não variam muito ao longo do dia. 

Quando a filtração renal do sangue começa a ficar prejudicada, a creatinina começa a se acumular no sangue e diminuir na urina. As peneiras não estão funcionando bem e o sangue começa a ficar com muita creatinina (além de ureia, potássio e muitas outras substâncias tóxicas).

Pelo valor de creatinina no sangue, várias fórmulas estimam essa taxa de filtração glomerular. Geralmente, o valor da fórmula está no rodapé da creatinina como TGFe – taxa de filtração glomerular estimada, que diferencia os valores da normalidade para raça branca, que tem menos músculo e deve ter uma creatinina menor que a raça negra, que é mais musculosa. 

Algumas vezes, é necessário medir de forma mais direta essa filtração e pode ser solicitado o clearance de creatinina. Clearance é uma palavra inglesa que quer dizer limpeza, depuração.  O clearance de creatinina é o volume de sangue que é limpo dessa substância (e de outras, por “tabela”) por cada minuto.  Esse exame é feito através da urina de 24h, onde se dosa a creatinina urinária e compara com a creatinina do sangue, considerando o volume da urina nesse período. Quanto mais creatinina no sangue e menos creatinina na urina, se conclui que a limpeza do sangue no geral está ruim. Esse método de avaliação é menos utilizado hoje em dia, apenas quando as fórmulas não são tão adequadas para avaliar, como por exemplo, paciente que tem muita ou pouca massa magra e, portanto, uma creatinina maior ou menor que a população geral.

O valor de normalidade da função renal pelo clearance de creatinina e estimado pela taxa de filtração é maior que 90ml/1,73m2 de sangue ou mais limpos por minuto, normalizados pela superfície corporal, raça, idade e sexo. 

Albuminúria

As “peneiras” que são os glomérulos dos néfrons podem deixar escapar proteínas. Quando os poros do glomérulo ficam menos seletivos, mas a quantidade de sangue filtrada é suficiente para deixar o sangue “limpo” de toxinas a gente diz que há uma lesão renal; A função renal é avaliada pelo ritmo de filtração glomerular estimado pela creatinina do sangue. A perda de albumina é quase sinônimo de doença renal do diabetes.

Como pode ser assintomática, para detecção da doença renal do diabetes, é solicitado a pesquisa de albuminúria ou microalbuminúria na urina.

Antes, esse exame era solicitado em urina de 24h. Hoje, se pede apenas em amostra de urina isolada. Importante aqui acrescentar que a análise da microalbuminúria em amostra isolada deve ser feita considerando a sua relação com a creatinina na mesma amostra. Alguns laboratórios já fazem essa relação, para outros, deve-se solicitar junto a dosagem de creatinina em amostra isolada e fazer o cálculo. O resultado é dado em mg de albumina por g de creatinina.

Se o exame vier alterado, ele deve ser repetido com intervalo de 3 a 6 meses e devemos considerar o resultado se duas em três amostras vierem alteradas.

Alguns pacientes podem se queixar de urina espumosa se a quantidade de proteína perdida é muito intensa.

O rastreamento da doença renal do diabetes deve ser feito ao diagnóstico do diabetes tipo 2 e após 5 anos do diabetes tipo 1 com dosagem de albumina na urina isolada (microalbuminúria) e creatinina no sangue para avaliar a taxa de filtração glomerular.

Classificação da Doença Renal do Diabetes

Combinando a taxa de filtração glomerular com a perda de proteína, temos a classificação da Doença Renal do Diabetes em vários estágios, conforme tabela abaixo. Juntando a classificação da função e lesão renal (TFG + albuminúria) temos o prognóstico (risco futuro) do paciente precisar diálise ou transplante, também chamados de terapia substitutiva.

Quando procurar um nefrologista?

A resposta é: quando a taxa de filtração glomerular estiver abaixo de 60ml/min. abaixo desse valor, há mais alterações do equilíbrio dos minerais e de outras substâncias no sangue que o nefrologista vê com detalhes. Se quiser saber mais, eu sugiro dar uma olhada na live que eu fiz com uma nefrologista (link acima).

Existem outras situações em que o nefrologista pode ser envolvido de forma mais precoce, geralmente quando se suspeita de outra doença renal que não provocada pelo diabetes. As situações são as seguintes:

  • Proteinúria em pacientes com diabetes tipo 1 com menos de cinco anos do diagnóstico
  • Início abrupto ou proteinúria que progride rapidamente
  • Queda rápida da taxa de filtração glomerular (> 4ml/min/ano)
  • Sedimento urinário alterado (células, bactérias, etc.)
  • Manifestações clínicas de outras doenças sistêmicas (exemplo – lúpus eritematoso sistêmico)
  • Ausência de retinopatia ou neuropatia diabética (as complicações crônicas geralmente andam juntas)
  • Queda rápida da TGFe, acima de 30%, após o início de inibidores da enzima conversora ou do receptor de angiotensina II (vide tratamento)

Tratamento da doença renal do diabetes

Para prevenir a doença renal do diabetes, a gente bate mais uma vez na tecla da mudança de estilo de vida, tais como dieta, atividade física, cessar o tabagismo etc. Além disso, é fundamental que se controle bem o diabetes, a pressão e as gorduras no sangue. Quando o rim não funciona bem, as doses das medicações devem ser revistas. Esse ajuste está detalhado na publicação sobre doença renal da Sociedade Brasileira de Diabetes (1).

As medicações próprias para essa complicação, são os inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) quando a albuminúria está presente, mesmo em pacientes com pressão arterial normal.

Os inibidores da enzima  conversora (IECA) OU os bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) são largamente utilizados para controle da pressão e são as medicações de escolha para pacientes diabéticos hipertensos. Não se recomenda associar essas duas classes de medicação. 

A ativação contínua do SRAA leva ao aumento da resistência nos vasos do rim e da periferia, aumentando a constrição dos vasos das arteríolas renais e aumentando a pressão dentro do glomérulo. Aumenta ainda o estresse oxidativo, levando à disfunção endotelial e leva a proliferação de células mesangiais. O bloqueio desse sistema leva à vasodilatação da arteríola eferente e redução da pressão no glomérulo.

Como exemplos dos IECAs temos os “pris”, como o enalapril, captopril, lisinopril etc. Já dos BRA, temos “sartanas” a losartana, olmesartana, valsartana etc.

Novas medicações para doença renal do diabetes

Inibidores do co-transportador sódio-glicose (Isglt2)

Quando o iSGLT2 inibe a reabsorção de sódio no túbulo contorcido proximal, sobra mais sódio no túbulo distal. Esse aumento é sentido pela mácula densa e, por sua proximidade com a arteríola aferente, faz com que ela se contraia e diminua a pressão dentro do glomérulo. A esse processo, chamamos de tubuloglomerular feedback

A pressão aumentada dentro do glomérulo é uma das primeiras alterações que ocorrem na nefropatia diabética. Despressurizando o glomérulo, há redução da progressão da doença renal no diabetes. É por isso também que o iSGLT2 podem aumentar temporariamente a creatinina e reduzir a taxa de filtração glomerular a curto prazo, mas a longo prazo, ela protege contra o declínio da função renal, como já provado em vários estudos clínicos.

Finerinone

Na doença renal do diabetes há um hiperaldosteronismo relativo. A aldosterona tem efeitos pró-inflamatórios além dos efeitos classicamente descritos sobre o equilíbrio hidroeletrolítico. Como a aldosterona, a finerinone pode aumentar o potássio, mas  a incidência desse problema é menor.

Outra medicação vem se mostrando promissora em reduzir a progressão da doença renal no diabetes e os eventos cardiovasculares a ela associados. A medicação é o finerinone, que é um antagonista não esteroidal mineralocorticoide que bloqueia a ação da aldosterona, via final do SRAA. Ela faz o efeito semelhante ao esteroide espironolactona.

Essa medicação é utilizada sobre as medicações clássicas (IECA e BRA) que inibem o sistema renina-angiotensina-aldosterona já descritos anteriormente.

Considerações finais

A doença renal do diabetes, junto com a hipertensão, é uma das principais causas que levam ao paciente para diálise ou transplante (terapias substitutivas). Pode ser assintomática e o endocrinologista deve fazer a detecção precoce dessa complicação tão comum em pacientes com diabetes.

A prevenção é mesmo com foco nos fatores de risco para evitar esse problema. Depois, só conseguimos atuar para frear a progressão da doença. Nesse tema, novas drogas surgem no cenário para minimizar a avanço da doença e os eventos cardiovasculares associados.

Referências

  1. Sá J, Canani L, Rangel E, Bauer A, Escott G, Zelmanovitz T, Silveiro S, Bertoluci M. Doença renal do diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). DOI: 10.29327/557753.2022-18, ISBN: 978-65-5941-622-6.
  2. Heerspink HJ, Perkins BA, Fitchett DH, Husain M, Cherney DZ. Sodium Glucose Cotransporter 2 Inhibitors in the Treatment of Diabetes Mellitus: Cardiovascular and Kidney Effects, Potential Mechanisms, and Clinical Applications. Circulation. 2016 Sep 6;134(10):752-72. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.116.021887. Epub 2016 Jul 28. PMID: 27470878. Roscioni SS, Heerspink HJ, de
  3. Zeeuw D. The effect of RAAS blockade on the progression of diabetic nephropathy. Nat Rev Nephrol. 2014 Feb;10(2):77-87. doi: 10.1038/nrneph.2013.251. Epub 2013 Dec 3. Erratum in: Nat Rev Nephrol. 2014 May;10(5):243. PMID: 24296623
  4. DeFronzo RA, Bakris GL. Modifying chronic kidney disease progression with the mineralocorticoid receptor antagonist finerenone in patients with type 2 diabetes. Diabetes Obes Metab. 2022 Jul;24(7):1197-1205. doi: 10.1111/dom.14696. Epub 2022 Apr 18. PMID: 35302284; PMCID: PMC9323420.

 

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Qual o exame para verificar o metabolismo?

Caloria – É a quantidade de energia capaz elevar em 01 (um) grau celsius 01 (um) quilograma de água. Na nutrição, a caloria é utilizada para expressar a quantidade de energia dos alimentos

O metabolismo do corpo de uma pessoa também é determinado pela quantidade de calorias necessárias para manter as funções vitais.

Dessa forma, metabolismo = quantidade de energia que a pessoa gasta. O metabolismo basal é a parcela do gasto de caloria para manter os sinais vitais.

A produção de energia consome oxigênio e produz calor mais gás carbônico. É nesse princípio que os exames de calorimetria se baseiam.

Tem muita gente que se queixa do metabolismo lento. Como se mede?

Calorimetria direta

Se existe a indireta, existe a direta certo? Sim, existe a calorimetria direta, que mede a quantidade de calor produzida pelo corpo. Nesse exame, a pessoa fica dentro de uma câmara que capta o calor produzido pelo corpo para aquecer um circuito de água que circula o ambiente. O metabolismo celular libera uma parcela de energia na forma de calor que é captado por essa câmera.

A calorimetria direta seria o exame mais preciso, mas tem a desvantagem de complicado e não avalia o substrato, se gordura ou carboidrato, está sendo consumido preferencialmente. A calorimetria indireta é de mais fácil realização e avalia se a pessoa está gastando mais gordura ou carboidrato através do coeficiente respiratório.

Calorimetria indireta

O método utilizado na prática é a calorimetria indireta. É um exame em que a pessoa fica respirando em uma máscara ou capacete por cerca de 30 minutos e se extrapola os resultados para as 24h do dia. Durante o tempo do exame, o consumo de oxigênio e a produção de gás carbônico são medidos. Eles representam a respiração celular que é a produção de energia. O coeficiente respiratório que eu falei em outro post mostra se a pessoa está queimando mais gordura ou carboidrato naquele momento. Esse resultado é comparado ao que se esperaria em pessoas do mesmo perfil.

Esse método avalia o gasto metabólico basal.

Calorimetria indireta: coeficiente respiratório e flexibilidade metabólica

Se vai queimar gordura ou carboidrato para ter energia, depende da flexibilidade metabólica.

Normalmente, quando nos alimentamos queimamos preferencialmente o carboidrato e poupamos gordura. Ao contrário, nos períodos de jejum, se queima a gordura estocada. Proteína também pode ser recrutada se for necessário, mas geralmente fica entre carboidrato e gordura.

A mitocôndria é a usina energética que vai escolher preferencialmente um outro combustível; ela pode ser flexível e trocar o tipo de combustível (substrato energético) de forma adequada ou ser inflexível, no sentido de não fazer essas mudanças. Isso pode acontecer na obesidade e resistência insulínica, quando mesmo no jejum, a gordura não é o principal substrato e a pessoa não queima adequadamente as suas gordurinhas.

Se tem muito combustível na jogada, mitocôndria fica mais indecisa ainda e além de ficar inflexível, pode produzir muitas toxinas metabólicas. O excesso de calorias seja na forma de proteína, carboidrato ou gordura, vai se transformar em gordura mesmo para ser armazenada.

Como saber o que o corpo está queimando mais? Dá para ter uma ideia pelo exame de calorimetria indireta, que avalia o coeficiente respiratório. O coeficiente respiratório é uma conta que se faz de quanto oxigênio é consumido e quanto CO2 é produzido pela respiração mitocondrial. Quanto mais perto de 1,0, quer dizer que mais carboidrato está sendo queimado e quanto mais perto de 0,7, significa que mais gordura está sendo consumida.

PP – pós-prandial; PA – pós-alimentar;

Como mudar isso? Déficit calórico, exercício físico, perda de peso algumas possibilidades.

Referências

Muoio DM. Metabolic inflexibility: when mitochondrial indecision leads to metabolic gridlock. Cell. 2014 Dec 4;159(6):1253-62. doi: 10.1016/j.cell.2014.11.034. PMID: 25480291; PMCID: PMC4765362.

Kenny GP, Notley SR, Gagnon D. Direct calorimetry: a brief historical review of its use in the study of human metabolism and thermoregulation. Eur J Appl Physiol. 2017 Sep;117(9):1765-1785. doi: 10.1007/s00421-017-3670-5. Epub 2017 Jul 8. PMID: 28689303

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