Sou graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE e completei minha formação na USP nas Residência Médicas (Clínica e Endocrinologia) e Doutorado. Atualmente, atendo como Endocrinologista em consultório particular (presencial e online) e sou Professora de Medicina na Uni9 Mauá
Ah, e se você está chegando agora, tem a área de cursos também.
Faz um tempo que estou para dar uma turbinada nos cursos, mas é que a minha atividade como docente do curso de medicina esse ano tem me ocupado um bocado. É lógico que essa experiência de ensino eu vou trazer depois para vocês.
A tirzepatida e a semaglutida são as medicações administradas em canetas no tecido subcutâneo que são aprovadas para obesidade e diabetes. Como já comentado em outro post, sobre os hormônios intestinais, a tirzepatida é um análogo dual de GLP1 e GIP, enquanto a semaglutida é só um análogo de GLP1.
Elas podem vir com diferentes nomes comerciais e são popularmente conhecidas como “canetas emagrecedoras”.
A semaglutida com apresentação aprovada para diabetes tipo 2 vai até 1,0mg e tem o nome de Ozempic ®.
A mesma molécula, semaglutida, aprovada para o tratamento de obesidade vai até 2,4mg e está sob o nome comercial do Wegovy ®.
A tirzepatida que chegou no Brasil foi aprovada apenas para o uso em diabetes tipo 2. O nome comercial é o Mounjaro® e vai até a dose de 5,0mg.
Não sabemos se a apresentação da tirzepatida para o tratamento da obesidade virá com o mesmo nome, mas deve vir com apresentações até 15mg.
Bem, houve 2 estudos comparando a tirzepatida (Mounjaro®) com a Semaglutida (Ozempic® e Wegovy®).
Comparação entre tirzepatida e semaglutida no diabetes tipo 2
O primeiro foi o SURPASS-2. Esse estudo durou 40 semanas e envolveu 1878 pessoas com sobrepeso e diabetes tipo 2 em uso apenas de metformina.
O principal objetivo do estudo foi ver melhora do controle glicêmico. O objetivo secundário foi ver a perda de peso nessas pessoas.
Todas as apresentações da tirzepatida (até 15mg do Mounjaro®) foram comparados com a semaglutida de 1,0mg (Ozempic®).
O resultado foi que todas as apresentações da tirzepatida foram superiores à Semaglutida de 1,0mg no controle do diabetes e na perda de peso.
Figura 1. Resultado de melhora do controle glicêmico com tirzepatida e semaglutida (desfecho primário). Ref 1.
A dose de 5mg da tirzepatida (Moujaro) conseguiu reduzir a 7,0% a Hb glicada em 82% comparados a 79% no grupo da semaglutida (Ozempic®). 86% dos pacientes com a dose de 15mg conseguiram chegar nesse alvo. A hemoglobina glicada média de início era 8,3%).
Em relação ao peso, após 40 semanas, temos os seguintes resultados:
A semaglutida de 1mg reduziu 6,7% do peso inicial, a tirzepatida 5mg reduziu 8,5% e tirzepatida de 15mg em 13,1% do peso inicial dos pacientes. O IMC inicial médio foi de 33kg/m2. A perda de peso ainda foi significativamente maior nos pacientes com qualquer apresentação da tirzepatida em comparação como a semaglutida.
Figura 2. Resultado quanto à perda de peso e lípides da tirzepatida e semaglutida (desfecho secundário). Ref 1.
Aqui, eu estou incluindo a apresentação de 5mg que é o que temos no momento disponível no mercado brasileiro.
Comparação entre tirzepatida e semaglutida na obesidade
Mas como foi a comparação da tirzepatida com a semaglutida em doses maiores de semaglutida para obesidade?
Essa resposta foi dada pelo estudo que saiu recentemente, o SURMOUNT 5, que comparou as máximas doses toleradas de tirzepatida (até 10 – 15mg) e semaglutida (até 1,7 – 2,4mg), cujo nome comercial seria o Wegovy.
O estudo foi até 72 semanas e incluiu cerca de 700 pessoas com sobrepeso com comorbidades ou obesidade, mas sem diabetes. O IMC inicial médio foi de 39 kg/m2.
O objetivo principal foi avaliar a porcentagem de peso perdida.
Como foram os resultados?
A dose de tirzepatida de 10 ou 15mg – reduziu em 20,2% o peso das pessoas comparado ao início do estudo, enquanto a dose de semaglutida de 1,7 ou 2,4mg, reduziu 13,7%. A tirzepatida também foi superior à semaglutida em reduzir a circunferência de cintura.
Figura 3. Redução do peso e circunferência de cintura. Comparação entre tirzepatida e semaglutida (doses máximas toleradas). Ref. 2.
E a dose de 5mg de tirzepatida, quanto reduziu? Não sabemos, provavelmente menos. Essa dose não foi testada.
O interessante desse estudo é que mulheres responderam melhor ao tratamento que homens.
Em relação aos eventos adversos, que são principalmente náusea, vômito, constipação ou diarreia, eles foram considerados na maioria leve a moderados e semelhantes nos grupos da tirzepatida e semaglutida. Entretanto, mais pessoas no grupo da semaglutida descontinuaram o tratamento devido aos efeitos colaterais da medicação.
Figura 4. Prevalência de efeitos colaterais da tirzepatida e semaglutida. Ref 2.
O que podemos concluir?
Que a tirzepatida (Mounjaro®) na dose de 5mg até 15mg é superior à semaglutida (Ozempic®) em controlar o diabetes e para perda de peso em pessoas com sobrepeso e diabetes tipo 2.
Que a tirzepatida (Moujaro®) na dose de 10 ou 15mg é superior à 1,7 ou 2,4mg de semaglutida (Wegovy®) para pacientes com sobrepeso e obesidade na redução do peso.
A pergunta que fica é:
Como seria a dose de 5mg de tirzepatida (Mounjaro®) contra a 1,7 a 2,4mg de semaglutida (Wegovy), já que são essas duas medicações que temos disponíveis nas drogarias. O valor pago por uma quantidade semelhante de perda de peso seria o mesmo ou ainda teremos um melhor custo-benefício do Moujaro sobre o Wegovy?
Qual o palpite de vocês?
Referências
Frías JP, Davies MJ, Rosenstock J, Pérez Manghi FC, Fernández Landó L, Bergman BK, Liu B, Cui X, Brown K; SURPASS-2 Investigators. Tirzepatide versus Semaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2021 Aug 5;385(6):503-515. doi: 10.1056/NEJMoa2107519. Epub 2021 Jun 25. PMID: 34170647.
Aronne LJ, Horn DB, le Roux CW, Ho W, Falcon BL, Gomez Valderas E, Das S, Lee CJ, Glass LC, Senyucel C, Dunn JP; SURMOUNT-5 Trial Investigators. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2025 May 11. doi: 10.1056/NEJMoa2416394. Epub ahead of print. PMID: 40353578.
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Trabalho no SUS há pelos menos 20 anos. Já passei por serviços estaduais e trabalho em um serviço municipal há quase 10 anos. De medicação e papelada disponibilizada pelo SUS a gente tem que entender, bem como os processos para incorporação de cada medicação ou tecnologia.
Fazendo esse post, até me surpreendi de encontrar medicações que não sabia estarem inclusas recentemente na lista, como as insulinas de ação lenta para diabetes tipo 1.
COMO UMA MEDICAÇÃO É APROVADA PARA DISPONIBILIZAÇÃO NO SUS?
Vou comentar um pouco sobre as diversas instâncias até uma medicação ou insumo chegar na farmácia do SUS. A primeira coisa é que seja aprovada na ANVISA.
ANVISA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) Aprova medicações a serem comercializadas no Brasil; Medicações não aprovadas pela ANVISA podem ser importadas de outros países. Os derivados de Cannabis precisam de autorização especial da ANVISA.
Uma vez aprovada pela ANVISA, algumas medicações depois de um bom tempo podem ser incorporadas pelo SUS, mas tem que passar pela CONITEC.
CONITEC
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) aprova a incorporação de tecnologias, que são não só medicamentos, mas também dispositivos médicos. Podemos citar como tecnologias que não são medicamentos, o sistema flash (Freestyle Libre) para monitorização do controle do diabetes. Esse último não foi aprovado para incorporação no SUS.
Frequentemente, a CONITEC chama uma consulta pública com pacientes e demais pessoas e profissionais para ajudar na decisão da incorporação. Essa decisão baseia-se principalmente em um relatório técnico para avaliar eficácia, segurança das tecnologias, além do impacto orçamentário no SUS.
A CONITEC também é responsável pela elaboração e publicação dos PCDTs, Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas que orientam o tratamento de doenças à luz das evidências científicas atuais, utilizando as medicações por ela aprovadas.
Uma vez aprovada na CONITEC, as medicações vão ser listadas no RENAME.
RENAME
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) é a lista de de medicamentos e insumos no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualizada a cada dois anos, a RENAME 2024 apresenta os medicamentos disponíveis no SUS em todos os níveis de atenção e organizados por responsabilidades de financiamento.
Para saber se a medicação que você precisa está nessa lista, clique aqui. Lembre-se de usar o nome da substância e não seu nome comercial.
A RENAME é dividida em 3 compontentes:
Componente básico – são a maioria dos medicamentos entregues pelas farmácias da Unidade Básica de Saúde. Geralmente dispensada com receita simples, mas algumas medicações mais específicas são fornecidas em unidades de referência para certas condições ou necessitam de formulário específico.
Componente estratégico – medicamentos e insumos para prevenção, diagnóstico, tratamento e controle de doenças e agravos de perfil endêmico, com importância epidemiológica, impacto socioeconômico ou que acometem populações vulneráveis, contemplados em programas estratégicos de saúde do SUS. As medicações são voltadas para o tratamento e prevenção de doenças infectocontagiosas. Exemplo – tuberculose, HIV, hanseníase etc.
Componente especializado – são para o tratamento medicamentoso, em nível ambulatorial, cujas linhas de cuidado estão definidas em publicados Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), publicadas pelo Ministério da Saúde e que não são estão contempladas pelo componente básico. Geralmente disponibilizados nas farmácias de equipamentos estaduais.
Vamos para alguns exemplos práticos?
Para o tratamento do colesterol alto, temos a sinvastatina que pode ser obtida pela farmácia da Unidade Básica de Saúde (componente básico). Se o paciente não conseguiu controlar o colesterol com sinvastatina, o médico pode prescrever a atorvastatina, que está disponível no componente especializado (alto custo).
Se um paciente com diabetes tipo 2 não está bem controlado com metformina e gliclazida (componente básico) e tem doença cardiovascular estabelecida ou risco para doença cardiovascular, o médico pode acrescentar a dapagliflozina pelo componente especializado, desde que contemplados os critérios específicos do PCDT de diabetes.
hormônio de crescimento e bloqueadores da puberdade em crianças com baixa estatura e puberdade precoce, respectivamente.
Confira a lista do componente especializado do Estado de São Paulo. No seu Estado, haverá uma lista semelhante disponível. Todas essas medicações tem critérios muito bem definidos para sua obtenção. Médicos fora do SUS podem prescrever todas essas medicações.
REMUME
A Relação Municipal de Medicamentos é uma lista de medicamentos utilizados na rede de atenção básica e de especialidades, rede hospitalar, urgência e emergência móvel, saúde bucal e caixa de emergência das unidades de saúde sob gestão do município. Para a cidade de São Paulo, temos uma lista específica. Essa lista pode variar de cidade para cidade.
Para medicações que não estão no REMUME, o médico do SUS (nesse cenário específico) pode pedir à secretaria municipal de saúde a aquisição pelo extra-REMUME.
FARMÁCIA POPULAR
A Farmácia Popular é um programa do Governo Federal que visa complementar a disponibilização de medicamentos utilizados na Atenção Primária à Saúde, por meio de parceria com farmácias da rede privada. Recentemente, todas as medicações para diabetes tipo 2, incluindo a dapagliflozina para maiores de 65 anos, são distribuídas gratuitamente.
Considerações finais
Aqui vai parecer uma sessão de desabafo, mas é para me antecipar a alguns comentários e atitudes. Falar de SUS sempre divide opiniões, mas ainda sou entusiasta do modelo e não é à toa que atendo no SUS por tanto tempo.
Insisto que não é necessário que o médico seja do SUS para a maioria das solicitações de medicação ofertadas pelo SUS, pois atendo muitos pacientes de convênio e particulares que utilizam uma consulta só para os médicos do SUS preencham esses formulários. Sim, eu sei que a burocracia não agrada ninguém, mas é assim que funciona no momento.
Alguns links aqui são do Estado e cidade de São Paulo, onde eu atuo, mas você pode procurar na internet sobre as diretrizes de onde você mora ou perguntar ao médico que te acompanha.
Quando eu publico algo assim, sobre as medicações gratuitas, um monte de gente vem dizer que elas não são de graça, pois pagam impostos, que a medicação está em falta etc. Tenho ciência de tudo isso e esse não é o objetivo do post e aqui não é um canal resolutivo dessas reclamações. Cada instância do governo tem sua ouvidoria. Contudo, se você achou a publicação útil, deixa sua curtida ou comentário (construtivo, tá?).
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Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá
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