Do metabolismo da vitamina D ao tratamento nas deficiências de suas diversas formas

Revisto em 03/01/2026

O termo vitamina D (calciferol) se refere a dois compostos: vitamina D2 (ergocalciferol) e D3 (colecalciferol).

A vitamina D3 é produzida pela pele quando seu precursor, o 7-dehidrocolesterol ou pró-D3, sofre ação dos raios ultravioletas B, seja pelo sol ou artificial. A pré-vitamina D se transforma espontaneamente em vitamina D3 (colecalciferol).

Após ser produzida pela pele, a vitamina D3 passa por uma reação no fígado onde recebe a primeira hidroxilação formando a 25(OH)D3 25hidroxivitaina D ou calcidiol (também conhecido por calcifediol). A 25(OH)D3 é representa a reserva de vitamina D no organismo, é a forma mais comumente dosada nos exames laboratoriais.

O calcifediol ficou disponível comercialmente após o colecalciferol. O calcidiol aparenta ter melhor absorção intestinal que o colealciferol. Enquanto o colecalciferol oral é transportado por quilomícrons e atinge a circulação sanguínea pela via linfática, o calcidiol é transportado diretamente para a corrente sanguínea geral através da veia porta. Estas diferenças explicam o pico mais rápido e mais elevado dos níveis plasmáticos de calcifediol em comparação com o colecalciferol após ingestão oral.

Nos casos de má absorção intestinal, seja ou não por cirurgia bariátrica, o calcifediol parece ser superior ao colecalciferol. Lembrando que para pacientes com obesidade e pós cirurgia bariátrica, usamos altas doses de vitamina D quando repomos a deficiência desta vitamina.

Uma segunda reação acontece no rim, quando a 25(OH)D recebe mais uma hidroxila para se transformar na sua forma ativa: a 1,25(OH)2D3, 1,25 di-hidroxivitamina D ou calcitriol, ou ser na forma inativa 24,25(OH)2D.

Metabolismo da vitamina D

Além da exposição solar, a vitamina D pode ser obtida pela ingestão de alimentos de origem animal, principalmente peixes gordurosos de água fria como atum e salmão. Outra fonte dietética de vitamina D é o ergosterol (vitamina D2), proveniente de alimentos vegetais, em especial fungos.

Figura 1. Metabolismo da vitamina D. Modificado de ref 4.

No metabolismo da vitamina D, quando qualquer um dos processos está deficiente, como a baixa exposição aos raios ultravioletas, doenças do fígado ou doenças do rim, resulta em diminuição da ação da vitamina D e consequente alteração nas concentrações de cálcio e fósforo no sangue, fundamentais para:
– Processos metabólicos
– Saúde óssea
– Função neuromuscular

Além da pele, fígado e rim, uma outra glândula, a paratiroide, atua no metabolismo do cálcio e fósforo pela produção do paratormônio (PTH). As paratiroides estão anatomicamente juntas à glândula tiroide, mas têm sua função é totalmente diferente: o PTH produzido por elas estimula a transformação do 25(OH)D para 1,25(OH)2D.

Figura 2. Ação da vitamina D e PTH

Níveis baixos de 1,25(OH)2D (calcitriol) decorrentes da deficiência de vitamina D ou doença renal podem aumentar os níveis de PTH, levando a uma maior reabsorção de cálcio nos ossos para manter os níveis normais no sangue, condição denominada hiperparatiroidismo.

Como na maioria das vezes, a deficiência de vitamina D é devida à produção insuficiente pela pele, a reposição de colecalciferol pode ser necessária para restaurar os níveis de vitamina D.

Nos casos de doença renal, como não há transformação da vitamina D em sua forma ativa, ou também nos casos de deficiência do PTH (hipoparatireoidismo), a forma ativa da vitamina D (calcitriol) deve ser administrada.

A deficiência da vitamina D têm função bem definida no metabolismo do cálcio e ósseo. Quadro de deficiência ou resistência à ação da vitamina D podem levar a quadro de baixos níveis de cálcio, causando defeitos na mineralização de cartilagem e ossos, doenças conhecidas respectivamente como raquitismo e osteomalácia.

Muito se tem discutido se a vitamina D teria outros efeitos na prevenção de diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares e autoimunes, ainda com resultados controversos na literatura científica, podendo ser não a causa, mas a consequência dessas doenças.

Até fim de fevereiro de 2023, cerca e 3800 artigos de revisão foram publicados no Pubmed. Desses, destaco da Nature Reviews que tem como pontos princiapais (1):

  • A suplementação de cálcio e vitamina D pode curar raquitismo nutricional e pode diminuir de forma modesta o risco de fraturas maiores em idosos com deficiência de vitamina D ou pouca ingesta de cálcio.
  • Grandes trabalhos que suplementaram a vitamina D em adultos (valores de 250HD > 20ng/mL) não mostraram melhora na incidência de câncer, eventos cardiovasculares ou diabetes tipo 2 e nenhum benefício em termos de densidade mineral óssea e risco de quedas.
  • Análise post-hoc de grandes estudos de suplementação de vitamina D sugerem a suplementação de vitamina D retarda de forma modesta a perda óssea relacionada à idade e a progressão para diabetes tipo 2 e melhora a função pulmonar.
  • Uma metanálise sugere que a suplementação de vitamina D resulta em pequena redução da mortalidade por câncer.
  • Mais de 60 estudos mendelianos que examinaram a relação causal entre baixos níveis vitamina D geneticamente determinados e desfechos de saude; a maioria desses estudos tiveram efeitos nulos, exceto quatro estudos que demostraram um aumento de risco de esclerose múltipla
  • Em conclusão, suplementar vitamina D em pacientes sem deficiência não adiciona benefícios à saúde geral, entretanto, a correção em pacientes com deficiência de vitamina D grave permanece essencial.

Outro ponto controverso e ainda sem resposta definitiva é a quantidade de exposição solar que é segura para os casos de deficiência de vitamina D sem que haja aumento do risco de câncer de pele.

Enquanto não há respostas para tais questões, os níveis de vitamina D devem ser avaliados em pacientes de risco para fraturas, principalmente em pacientes com osteoporose ou condições que levem ao risco de fratura óssea. A reposição de vitamina D deve ser individualizada.

Referências

  1. Bouillon R, Manousaki D, Rosen C, Trajanoska K, Rivadeneira F, Richards JB. The health effects of vitamin D supplementation: evidence from human studies. Nat Rev Endocrinol. 2022 Feb;18(2):96-110. doi: 10.1038/s41574-021-00593-z. Epub 2021 Nov 23. PMID: 34815552; PMCID: PMC8609267
  2. Bouillon R, Marcocci C, Carmeliet G, Bikle D, White JH, Dawson-Hughes B, Lips P, Munns CF, Lazaretti-Castro M, Giustina A, Bilezikian J. Skeletal and Extraskeletal Actions of Vitamin D: Current Evidence and Outstanding Questions. Endocr Rev. 2019 Aug 1;40(4):1109-1151. doi: 10.1210/er.2018-00126. PMID: 30321335; PMCID: PMC6626501.
  3. Recomendações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) para o diagnóstico e tratamento da hipovitaminose D. https://doi.org/10.1590/0004-2730000003388
  4. Jodar E, Campusano C, de Jongh RT, Holick MF. Calcifediol: a review of its pharmacological characteristics and clinical use in correcting vitamin D deficiency. Eur J Nutr. 2023 Jun;62(4):1579-1597. doi: 10.1007/s00394-023-03103-1. Epub 2023 Mar 2. PMID: 36862209; PMCID: PMC9979899.

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