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Cetoacidose diabética, infecção pelo covid-19 e uso de iSGLT2

Infecções e cetoacidose diabética

As infeções são causa de descompensação diabética e potencialmente podem levar ao quadro de cetoacidose. Na infecção pelo coronavírus não poderia ser diferente! Restam dúvidas se a infecção pelo covid-19 levaria ao risco aumentado de cetoacidose quando comparada a outros tipos de infecção.

Não só para a infecção pelo coronavírus, mas para todas as infecções, os pacientes que usam insulina, principalmente os que tem diabetes tipo 1 e ainda naqueles com diabetes tipo 2 que necessitam de altas doses, precisam estar atentos aos sintomas de descompensação diabética e cetoacidose.

Cetoacidose euglicêmica e uso de inibidores do SGLT2

Já comentei nesse blog sobre o risco aumentado de cetoacidose diabética com a glicemia normal (cetoacidose euglicêmica) em usuários de insulina em combinação com inibidores de SGLT2, ou gliflozinas, e suas combinações, a saber: dapagliflozina (forxiga®, xigduo®), empagliflozina (jardiance®, glyxambi) e canagliflozina (invokana®).

No texto sobre cetoacidose euglicêmica, há orientações de como proceder se o paciente tem a possibilidade da medida domiciliar de corpos cetônicos no sangue (cetonemia). Se você está em uso dessas medicações, não deixe de conferir essas informações!

Orientações para pacientes em uso de gliflozinas e sintomas de infecção pelo covid-19

Há poucos dias, três sociedades médicas (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Sociedade Brasileira de Diabetes e Sociedade Brasileira de Cardiologia) emitiram uma nota para os pacientes que usam essas medicações, alertando para a necessidade do uso adequado dessas medicações, ou seja, para as indicações aprovadas em bula. Também reforçam que os pacientes “devem suspender o uso [dos inibidores de SGLT2] caso haja infecção sintomática pelo Coronavírus, e sempre após orientação do médico assistente”.

Diante dessa nova pandemia, coisas muito simples – como o ato de lavar as mãos – tiveram que ser relembradas e reforçadas. Devemos, da mesma forma, reforçar a necessidade de uso aprovado em bula das medicações, relembrar seus potenciais efeitos colaterais e informar as ações que devem ser tomadas quando houver suspeita de infeção pelo covid-19.

Referência

Notas de esclarecimentos da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre o coronavírus (COVID-19)

Lorcasserina (Belviq) e risco de câncer

Um novo medicamento para o tratamento da obesidade sempre é recebido com grande entusiasmo. O tratamento da obesidade é um grande desafio, principalmente para manutenção do peso perdido. Dieta e atividade física são o alicerce do tratamento e as medicações são indicadas quando essas duas estratégias conjuntas não atingem o objetivo desejado.

No Brasil, a novidade para obesidade é a lorcasserina, encontrada nas farmácias também sob o de Belviq. Aprovada desde 2016, chegou ao mercado só no ano passado, mas nesse pouquíssimo tempo já sofreu um grande golpe: análises recentes de um estudo desenhado para avaliar a segurança cardiovascular do medicamento (CAMMELLIA-TIMI) encontrou uma correlação possível do Belviq com risco de câncer.

Essa potencial correlação já tinha sido veiculada por um canal popular de notícias, mas o tema teve alguns desdobramentos recentes. Ontem, dia 13 de fevereiro de 2020, a agência regulatória dos Estados Unidos – FDA – lançou um alerta, atualizado hoje, no qual descreve “até o momento, a causa de câncer é incerta, e não podemos concluir que a lorcasserina contribui para o risco de câncer”.

O estudo CAMMELLIA foi conduzido em 12.000 pacientes por pelo menos 5 anos. Vários tipos de câncer foram relatados, ocorrendo com mais frequência no grupo da lorcasserina, incluindo câncer pancreático, colorretal e de pulmão. A diferença dos casos de câncer foi pequena entre os grupos: no da lorcasserina foram relatados 470 casos (7,7% dos pacientes) de câncer versus 423 no grupo placebo (7,1%). A diferença absoluta e relativa foi pequena, mas…

O FDA recomendou ao médicos que considerem o risco-benefício quando decidir continuar o tratamento e aos pacientes para conversarem com seus médicos para tomarem a melhor decisão sobre o tratamento com a medicação.

A farmacêutica que distribui o medicamento enviou um comunicado para os médicos que está em contato com a Anvisa para alinhar conduta no território brasileiro e suspendeu a comercialização e distribuição do medicamento em todo território nacional.

Carta aos médicos

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia recomendam que os médicos entrem em contato com os pacientes para descontinuar a medicação.

Posicionamento das entidades médicas

Antes de entrar no desespero, devemos entender o que nem sempre uma correlação significa uma relação causa-efeito. Nesse episódio da lorcasserina, devemos lembrar que:

(1) o estudo que verificou esse desbalanço do número de pessoas com câncer entre os grupos do estudo (droga x placebo) foi desenhado para outro propósito, o de segurança cardiovascular;

(2) um estudo específico para avaliar o risco de câncer deve ser desenhado e desenvolvido com um número suficiente (geralmente grande) de pacientes para responder à pergunta se o Belviq está associado ao risco de câncer ou não.

A própria agência americana diz que ainda não se chegou a uma conclusão definitiva e ponderou esses pontos acima listados. Aguardamos ainda o posicionamento da Anvisa.

A obesidade, sim, já é reconhecida como um fator de risco para diversos tipos de câncer, com uma plausibilidade biológica, ou seja, com mecanismos biológicos relacionados já bem descritos. Além disso, a perda de peso parece estar associada à redução do risco de câncer. Nessa luta contra a obesidade vale a pena escolher bem as armas.

Se você estiver usando essa medicação, converse com seu médico e juntos tomem decisões compartilhadas de maneira slow.

Se você gostou da leitura, não deixe curtir e de compartilhar o conteúdo.

Para receber em primeira mão as publicações, você pode se increver no blog ou me acompanhar pelas redes sociais. Os links estão no rodapé dessa página.

Espero ver você mais vezes por aqui!

Um forte abraço,

Suzana

AvanSUS podcast

Por trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) a maior parte da minha vida profissional, por ser diabetes um tema que tenho especial interesse e ainda por ter me envolvido com a Sociedade Brasileira de Diabetes como representante no Departamento de Saúde Pública (biênio 2016/2017), encontrei pelo caminho pessoas extraordinárias da blogosfera do diabetes. A Débora Aligieri do Blog Diabetes e Democracia e o Ronaldo Pineda Wieselberg, o Arquimago da Insulina, são exemplos dessas pessoas extraordinárias que compartilham informações de qualidade com ética e responsabilidade para vários públicos, além de serem ativistas de primeira grandeza na defesa dos interesses das pessoas com diabetes.

Tive a honra de dividir com eles esse podcast, de outro lugar de fala, mas com interesses comuns na defesa da boa qualidade de informação e do SUS, nosso sistema gratuito e universal de saúde, modelo para o mundo. Ainda conversamos sobre autonomia e autocuidado e compartilhamento de decisões – um dos princípios do Slow Medicine.

Abaixo, links do podcast com essa dupla. Agradeço o convite e o trabalho de toda equipe do AvanSUS, podcast da Associação Paulista de Saúde Pública.

Dia Mundial do Diabetes – AvanSUS sptify

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