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Por que as pessoas jejuam?

Greve de fome, pessoas famintas, inanição experimental, motivos religiosos e tratamento para obesidade são motivos pelos quais as pessoas jejuam. Essas situações estudadas em relação aos seus impactos do ponto de vista fisiológico e psicológico. Esse post traz informações baseadas em um artigo científico sobre jejum intermitente, e que traz bases científicas históricas e culturais sobre o jejum.1

GREVE DE FOME

Em mamíferos normais, a morte ocorre quando há perda de 40 a 50% do peso original. Um pesquisador chamado Elia publicou um estudo sobre prisioneiros do Irlanda do Norte em 1981 que fizeram greve de fome. Nessas pessoas, a morte ocorreu entre 57-73 dias. O trabalho de Elia sugere que indivíduos de peso normal sobrevivem em média 60-70 após jejum, enquanto indivíduos com obesidade levariam uma quantidade de tempo significativamente maior.

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Mural comemorativo das vítimas da greve de fome

FOME

Os relatos são anedóticos mais do que de estudos clínicos, por motivos compreensíveis.

Após a Segunda Guerra Mundial, estudos em prisioneiros de guerra relacionaram a privação calórica e binging eating* posterior. Dezenove prisioneiros de guerra foram estudados por após um período em que foi dado acesso irrestrito de calorias por 8 semanas e registram ingestas de até 3954 calorias em uma alimentação até 6000 calorias por dia. Esses dados têm sido usados como demonstração da hipótese que a restrição voluntária (o que não seria o caso) que leva a perda de peso substancial está relacionada com compulsão alimentar e extrapolado para noção que dieta per se leva a compulsão alimentar, pelo menos para alguns indivíduos.

ESTUDOS EXPERIMENTAIS

O maior estudo conduzido para avaliar a inanição em indivíduos com peso normal é conhecido como “Experimento de Minnesota”, realizado nos anos 40 durante a Segunda Guerra Mundial por Ancel Keys. Foram reunidos um grupo de cientistas para estuda a fisiologia e psicologia da restrição alimentar extrema. A perda de peso foi de 24% do peso inicial (para IMC médio de 17,5 kg/m2). O experimento incluía quatro fases: controle, semi-inanição, período de reabilitação com restrição alimentar, período de reabilitação com alimentação irrestrita. Um livro inteiro sobre o experimento foi publicado.

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Experimento de Minnesota

A ato de comer pode ocorrer quando a fome é pouca, e, contraditoriamente, é possível estar muito faminto e não comer, mesmo próximo ao ponto fatal (casos de greve de fome). Desta forma, pode-se levantar a hipótese que em sujeitos previamente obesos essa resposta pode ser muito diferente, já que a disposição para manter a perda de peso pode suplantar a inclinação fisiológica para comer muito

JEJUM POR MOTIVOS RELIGIOSOS

Ramadã

Um dos mais citados jejuns religiosos é o período do Ramadã. Durante um mês, os muçulmanos se abstêm de comida e bebida do nascer até o pôr do sol. Embora o Ramadã não envolva jejum de forma contínua, fornece informações sobre a restrição calórica de curto prazo em pessoas saudáveis. Há uma falsa concepção que o jejum religioso resulta em diminuição da ingesta calórica, mas investigadores encontraram até aumento da ingesta quando comparados a antes, durante e depois do Ramadã, a despeito da diminuição da frequência de refeições. Não foram observadas mudanças em composição corporal. Os dados sugerem que adultos são capazes de fazer mudanças compensatórias em curto período de tempo, a fim de manter o peso corporal.

Jejum de Daniel

Embora não pregue o jejum completo, o jejum de Daniel  prega a abstinência de certos alimentos. Praticado principalmente por cristãos, o jejum de Daniel é baseado na bíblia e proíbe o consumo de produtos de produtos animais, carboidratos refinados, industrializados, cafeína e álcool. Jejum de 21 dias é o mais comum, mas há variações com duração de 10 e 40 dias. A dieta se assemelha à dieta vegana. Um estudo avaliou o impacto desse tipo de dieta e observou melhora em muitas varáveis relacionadas à saúde, tais como: pressão sanguínea, lipídeos, sensibilidade à insulina e marcadores de estresse oxidativo2. Em geral, a adesão é boa e os estudos não avaliaram as variações de peso.

Jejum de Daniel
Daniel recusa alimento do rei

TRATAMENTO PARA OBESIDADE GRAVE REFRATÁRIA

O jejum de pacientes, em nível hospitalar, foi considerado como uma possibilidade terapêutica nos anos 50 e 60. Nessa época, os pesquisadores deixaram pacientes em jejum num período variável de 10 a 117 dias. Atualmente, essa modalidade terapêutica não é mais aconselhada, uma vez que o jejum prolongado pode levar a várias complicações médicas (fibrilação ventricular, acidose lática, deficiência de vitaminas e eletrólitos) e morte súbita durante o jejum ou o período de realimentação.

JEJUM NOS DIAS ATUAIS

Atualmente, um dos principais motivos para o jejum tem como objetivo a perda de peso. Protocolos de jejum intermitente e jejum alternado tem sido amplamente divulgados e popularizados. O jejum é um método que pode ser utilizado para perda de peso por um período de semanas.

O perfil de macronutrientes consumidos durante os dias de jejum não tem sido publicado, e é poderia se especular que dietas hiperproteicas poderiam ajudar a reduzir a fome e aumentar a saciedade.

Há poucas publicações que avaliam essas dietas em longo prazo, mas sem dúvida, é uma opção para tratamento da obesidade.

*Transtorno de compulsão alimentar periódica TCAP –  Binging eating – ingesta de grande quantidade de comida em até 2h, acompanhada de sensação de perda de controle da qualidade e quantidade de alimento, seguida por arrependimento de ter comido. Os episódios ocorrerem pelo menos duas vezes por semana por mais de seis meses;

Referências

1                      JOHNSTONE, A. Fasting for weight loss: an effective strategy or latest dieting trend? Int J Obes (Lond), v. 39, n. 5, p. 727-33, May 2015. ISSN 1476-5497. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25540982 >.

2                      TREPANOWSKI, J. F.; BLOOMER, R. J. The impact of religious fasting on human health. Nutr J, v. 9, p. 57, Nov 2010. ISSN 1475-2891. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21092212 >.

Jejum intermitente: 9 perguntas e respostas sobre a dieta — MdeMulher

CONTRIBUIÇÃO PARA O PORTAL M DE MULHER

Algumas considerações adicionais sobre o artigo:

A estratégia de jejum intermitente que permite a alimentação por 8h seguidas por 16h de jejum pode acompanhar o ritmo circadiano sono-vigília, parecendo a mais adequada.

Há evidências que dieta com restrição calórica (não necessariamente através do jejum intermitente), acompanhada de adequada ingestão de nutrientes, poderia levar a várias adaptações metabólicas reduzindo o risco de desenvolver diabetes tipo 2hipertensão, doença cardiovascular e alguns tipos de câncer ligados à obesidade.

Em diabetes, as medicações que levam a hipoglicemia são aquelas que aumentam os a secreção de insulina ou a própria insulina administrada.

Confira a matéria completa!

A dieta não é novidade, mas segundo dados de pesquisa do Google Trends, há pelo menos dois anos, vem aumentando (e muito!) a busca por informações sobre o… 977 mais palavras

via Jejum intermitente: 9 perguntas e respostas sobre a dieta — MdeMulher

Efeitos do lítio sobre tireoide, paratireoide, peso e rim

Além do psiquiatra, o lítio tem especial interesse também ao clínico e ao endocrinologista, pois entre os potenciais efeitos adversos estão a interferência com o sistema endócrino: tireoide, paratiroide; metabólico: ganho de peso; função renal e diabetes insipidus.

O lítio tem sido utilizado para transtornos do humor, incluindo mania, depressão bipolar ou unipolar e como profilaxia de transtorno bipolar, demonstrando redução do risco de suicídio e mortalidade a curto prazo. Como droga antiga e barata, além do crescente interesse na promoção de novas drogas, novos estudos com essa medicação são limitados. É uma medicação tem uma janela terapêutica estreita, isto é, a dose terapêutica é próxima à toxica, levando a necessidade de monitorar seus níveis séricos e além de outros parâmetros laboratoriais. Apesar disso, o lítio é uma das drogas mais efetivas ao longo prazo no tratamento do transtorno de humor.

Os riscos e os benefícios das medicações devem ser sempre pesados pelo médico e discutidos com o paciente. Não só o lítio, mas novas drogas têm mostrado preocupação no perfil de segurança (perfil de efeitos adversos) pelo aumento da síndrome metabólica, notadamente com o uso da olanzapina.

Esse post traz um resumo dos principais achados de um artigo de revisão sistemática e metanálise, que triou quase 6000 estudos sobre o lítio, incluindo 385 estudos para análise. No final, há uma recomendação prática sobre o manejo dos pacientes antes e durante a terapia com lítio no tocante ao manejo clínico (1).

LÍTIO E TIREOIDE

O lítio é um metal alcalino que pode atingir altas concentrações na célula tiroidiana. Em humanos, a administração de lítio pode inibir a captação de iodo pela tiroide por um mecanismo de competição. Ademais, pode haver alterações na síntese (inibição do acoplamento de iodotirosina e alteração na estrutura da tireoglobulina) e secreção dos hormônios tiroidianos. Há referências também a aumento de doenças autoimunes da tiroide em uso de lítio(3).

Para que a produção do hormônio tiroidiano seja adequada, há um elevação do hormônio tireoestimulante (TSH), caracterizando o hipotireoidismo, nesse caso, induzido pelo lítio. O aumento do TSH pode estimular o crescimento da tiroide e resultar em bócio.

O risco de hipotireoidismo aumenta em cerca de seis vezes em pacientes recebendo lítio.
Embora não seja uma recomendação formal de tratar pacientes com hipotireoidismo induzido pelo lítio, o tratamento deve ser considerado se houver alterações de humor importantes. A conversa entre endocrinologista ou clínico e psiquiatra é essencial para decidir sobre a reposição com hormônio tiroidiano.

Hipertiroidismo pode ocorrer com uso prolongado de lítio, embora o risco é bem menor que em relação ao desenvolvimento de hipotireoidismo.

O hipertiroidismo induzido por lítio é caracterizada por tireoidite transitória e indolor, que pode ser por um efeito tóxico sobre a glândula. Outras formas de tireodite também já observadas em pacientes em uso de lítio. Há ainda a possibilidade é que o hipertireoidismo seja decorrente de um processo autoimune, desencadeando a Doença de Graves (3).

LÍTIO E PARATIROIDE

As paratiroides são quatro glândulas do tamanho de uma ervilha, localizados junto à tiroide e estão relacionadas ao metabolismo do cálcio (Fig 1). A regulação da paratiroide é realizada principalmente pelos níveis de cálcio e vitamina D como um modelo regulação de glândula endócrina independente.

hipoparatirodismo

Hiperparatiroidismo primário é frequente em pacientes recebendo lítio: risco absoluto de 10% versus 1% observado na população geral.

Um dos mecanismos prováveis é a inativação do receptor sensível ao cálcio e interferência de mecanismos intracelulares de sinalização, como na Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar. Com isso, o cálcio deixa de ativar o seu receptor na paratiroide e não exercer o feedback negativo na secreção de PTH.  A paratiroide, dessa forma, entende essa falta de estimulação do receptor como uma diminuição dos níveis de cálcio sanguíneos e, como compensação, aumenta a secreção do hormônio paratiroidiano (PTH), levando a um aumento nos níveis de cálcio circulantes e um quadro de hiperparatiroidismo primário (por problemas na glândula).

O uso prolongado do lítio pode levar a um aumento expressivo da paratiroide e ser necessária retirada cirúrgica da glândula. Há casos descritos de reversão da hiperparatiroidismo com suspensão da droga e uso de medicações miméticas ao cálcio (cinacalcet).

Até 25% dos pacientes podem ter alterações em tiroide e paratiroides.

LÍTIO E GANHO DE PESO

O ganho de peso foi avaliado num total de 14 estudos randomizados, comparando lítio com placebo ou outras medicações. O ganho de peso que foi considerado significativo foi um aumento maior que 7% do peso anterior à terapia com lítio. O lítio aumentou em quase duas vezes o risco para ganho de peso em relação ao placebo, porém o risco foi 70% menor quando comparou-se o lítio à olanzapina.

Vários mecanismos podem explicar a ligação de lítio e ganho de peso: sua propriedade semelhante a insulina em aumentar a captação de glicose, aumento da sede, estimulação dos centros hipotalâmicos do apetite, e a indução de hipotireoidismo. O lítio pode afetar neurotransmissores, mas em menor grau que a olanzapina, por exemplo, que inibe os receptores de histamina e serotonina no cérebro.

LÍTIO E RIM

Há dois potenciais efeitos desse metal sobre o rim:

1. Redução da função renal

O funcionamento dos rins pode ser reduzido pelo uso de lítio, embora essa diminuição não é importante na maioria dos pacientes, porém é o efeito mais temido por médicos e pacientes.

Uma das medidas de avaliação da função renal é medida pela taxa de filtração do sangue pelos glomérulos. Existem várias formulas para avaliar essa taxa de filtração glomerular (TFG): medida diretamente através de exames de urina ou de forma estimada por fórmulas que podem ser  obtidas através de calculadoras e aplicativos para celular. Uma taxa de filtração de 90ml por minuto é considerada normal. A taxa de filtração glomerular também diminui de forma fisiológica com a idade.

O risco de toxicidade renal com lítio (especificamente de doença renal em fase terminal) é muito baixa (0,53% comparado a 0,2% na população geral).

O mecanismo para o dano para os glomérulos ainda não é totalmente conhecido.

2. Diabetes insipidus nefrogênico

Sintomas do diabetes são poliúria (excesso de diurese) e polidipsia (sede intensa).

Diferente do diabetes mellitus, cuja palavra significa sifão de mel devido à característica da urina doce (glicosúria), o diabetes insipidus não tem relação com a excreção de glicose pelo rim.

O diabetes insipidus decorre por falhas na secreção de regulação de hormônios do hipotálamo (diabetes insipidus central) ou por alterações na concentração de urina pelo rim (diabetes insipidus nefrogênico).

Cerca de 180 litros de sangue é filtrado nos glomérulos, mas menos de 2 litros de desse filtrado é eliminado na urina. Esse trabalho de reabsorção da maioria de compostos vitais e água é realizado pelos túbulos e ductos coletores, tornando a urina mais concentrada que o sangue. A falha na reabsorção de água aumenta a diurese e torna a urina menos concentrada.

Em uso de lítio, a capacidade de concentração da urina é reduzida em até 15%. A poliúria decorrente dessa alteração pode ser um fator limitante para o tratamento.

O mecanismo potencial está relacionado com a inibição de uma via ligada de sinalização intracelular que é ativada pelo hormônio antidiurético.

A poliúria é revertida com a suspensão do lítio ou tratada, curiosamente, com diurético amilorida.

Orientações gerais para terapia com lítio

Antes do início 

• Discutir os riscos e benefícios do tratamento com o paciente
• Avaliação clínica, incluindo peso
• Dosagens laboratoriais:
-Dosagem de TSH, T4 livre – avaliação de função tiroidiana)
-Dosagem de cálcio sérico
-Avaliação da função renal (creatinina e cálculo da TFG)
• Orientações sobre contracepção, já que ainda não está esclarecido o risco de malformações fetais*

Alguns autores sugerem realização de USG de tiroide e dosagem de anticorpos antitirioidianos pelo risco de desenvolvimento de bócio e autoimunidade induzidos pelo lítio.

Durante a terapia

• Testes para avaliação tiroidiana, paratiroidiana e renal (no mínimo: creatinina para cálculo do TGF, TSH e cálcio) devem ser repetidos num intervalo mínimo de 12 meses, mas frequentemente se o paciente tem história familiar de doença endócrina
• Testes devem ser repetidos imediatamente se houver mudança no estado de humor (por exemplo, mania)
• Alterações de efeitos adversos devem ser registrados (incluindo alterações de pele e cabelo)
• Mulheres que gostariam de conceber ou que ficaram grávidas durante o uso de lítio devem ser orientadas que o aumento do risco de malformação congênita é incerto; pacientes e médicos devem discutir o risco-benefício entre potencial dano ao bebê e instabilidade de humor da mãe antes de decidir por suspender a terapia com lítio*.

Dosagem de auto-anticorpos contra tiroide (caso tenham sido negativos antes do início da terapia) e realização de ultrassonografia de tiroide podem ser considerados (3).

*Um artigo observacional posterior demonstrou aumento do risco de malformações cardíacas (anomalia de Ebstein) em mulheres em tratamento com lítio. Esse efeito foi considerado de baixa magnitude (4).

Por último, e não menos importante, não se deve esquecer do incentivo e reforço na mudança ou manutenção de hábitos saudáveis relacionadas à alimentação, ingesta de água, atividade física e sono como adjuvante à terapia medicamentosa para o transtorno de humor e minimizar o possível ganho de peso resultante do tratamento medicamentoso.

REFERÊNCIAS

1 MCKNIGHT, R. F. et al. Lithium toxicity profile: a systematic review and meta-analysis. Lancet, v. 379, n. 9817, p. 721-8, Feb 2012. ISSN 1474-547X.

2 WELLS, J. E.; CROSS, N. B.; RICHARDSON, A. K. Toxicity profile of lithium. Lancet, v. 379, n. 9834, p. 2338, Jun 2012. ISSN 1474-547X.

3 KIBIRIGE, D.; LUZINDA, K.; SSEKITOLEKO, R. Spectrum of lithium induced thyroid abnormalities: a current perspective. Thyroid Res, v. 6, n. 1, p. 3, Feb 2013. ISSN 1756-6614.

4 PATORNO, E.  et al. Lithium Use in Pregnancy and the Risk of Cardiac Malformations. N Engl J Med, v. 376, n. 23, p. 2245-2254, 06 2017. ISSN 1533-4406