Arquivo da categoria: Metabolismo das gorduras – Lípides

Lipoproteína(a)  – importância clínica, diagnóstico e tratamento

Última atualização em 23/11/2025

O que é a Lp(a)?

Lp(a) é a lipoproteína(a), a Lp “azinha”, que nada mais é que o colesterol ruim (LDL) somado a uma apoproteína “a”. É uma molécula de colesterol ruim piorada um tanto mais. Ela pode explicar o porquê de muitos pacientes terem problemas cardiovasculares (infarto, derrame, problemas de válvulas cardíacas) sem que tenham a presença que chamamos fatores de risco clássicos, tais como colesterol ruim alto, diabetes, hipertensão, tabagismo etc.

A função fisiológica da Lp(a) não é totalmente conhecida. Uma vez que a Lp(a) está presente apenas em humanos e primatas, é possível que ela esteja envolvida no combate a vários agentes de estresse oxidativo. Por exemplo, foi provado que a Lp(a) participa da cicatrização de feridas, na formação de vasos nos tumores e na detoxificação dos fosfolípides oxidados.

Estrutura molecular da Lp(a)

A Lp(a) que contém uma única molécula de apo B100 e está ligada a uma única molécula de apo(a), além das gorduras. Mas não é só o colesterol propriamente dito que faz dela uma vilã. A apo(a) tem semelhança com compostos da cascata de coagulação.

A apo(a) e plasminogênio compartilham proteínas em forma de uma estrutura semelhante a um laço (kringles). Um kringle é um tipo de massa dinamarquesa, semelhante aos pretzels que vendem nos shoppings (Fig 1).

Figura 1. Kringle

A apo(a) tem apenas dois tipos de kringles, uma única cópia do quinto kringle (KV) e um número variável do quarto kringle (KIV), que determina a variação no tamanho da molécula (Fig 2). O plasminogênio tem cinco tipos de kringles.

Figura 2. Estrutura da Lp(a) e semelhança com o plasminogênio. Modificado de ref 2.

A semelhança estrutural da Lp(a) com o plasminogênio pode interferir na atividade deste último. Isso pode atrapalhar a degradação da fibrina e predispor à formação de coágulos na placa aterosclerótica do vaso, resultando em obstrução da artéria, resultando em infarto e derrame. Esse é o efeito pró-trombótico.

Além disso, a Lp(a) é o principal transportador de fosfolipídes oxidados – Lp(a)-OxPLs – que derivam de processos inflamatórios e processos apoptóticos. O fosfolípide oxidado é facilmente captado pelas células dos vasos (monócitos) para formação de células espumosas, característica da lesão aterosclerótica. Dessa forma, essa lipoproteína tem um perfil pró-inflamatório e pró-aterogênico.

Avaliação laboratorial da Lp(a)

Não há método laboratorial bem estabelecido para dosagem da Lp(a). Como as diferentes isoformas de Lp(a) podem ter peso molecular diferente por conta da variação na repetição dos kringles, a conversão entre mg/dL e nmol/L não é acurada e não pode ser feita.

O padrão-ouro é a dosagem de apo(a) massa por turbidimetria, nefelometria ou quimiluminesência, utilizando ensaios isoforma-insensitivos, que são pouco afetados pela heterogeneidade nas isoformas da apo(a). Não é necessário jejum.

Já que a Lp(a) e o LDL-colesterol têm composição semelhante e as suas densidades se sobrepõem, os ensaios que incluem a medida do colesterol também não são acurados se o paciente tiver hipercolesterolemia.

Um limite mais amplamente aceito para definir se a Lp(a) confere risco para doenças cardiovasculares é o valor de 120nmol/L (aproximadamente 50mg/dL).

A Diretriz Brasileira de Dislipidemia 2025 recomenda a dosagem rotineira de Lp(a) pelo menos uma vez na vida, quando disponível, para auxiliar na avaliação do risco cardiovascular e tratamento, com certeza da evidência científica em nível moderado.

Como as concentrações da Lp(a) são determinadas geneticamente, uma vez dosada, não precisa ficar redosando. Algumas Sociedades médicas recomendam dosar a Lp(a) pelo menos uma vez na vida.

Tratamento da LP(a) aumentada

O que dá um nó na cabeça é quando se fala de tratamento. Os estudos de intervenção dietética demostraram que a dieta pobre em gordura e rica em carboidrato resulta em maiores níveis de Lp(a) que rica em gordura e pobre em carboidrato. O impacto clínico dessas alterações ainda precisa ser estabelecido.

Os efeitos do tratamento com estatina, que é a primeira linha de tratamento para a hipercolesterolemia, sobre a Lp(a) ainda permanece controverso. Como detalhado na Tabela 1, o a administração de estatina aumentou os níveis de Lp(a) após 12 semanas de tratamento. O impacto clínico do resultado das dietas e das estatinas também ainda precisa ser esclarecido.

 Utilização clínicaEfeito
Estatinas  Redução do colesterolEfeitos inconsistentes em vários estudos, com aumento em 20% dos níveis médios de Lp(a)
Niacina  Hipolipemiante  12% de redução nos níveis de Lp(a)
Estrógeno/progestágeno  Terapia hormonal  ~15% de redução nos níveis da Lp(a). A magnitude da redução dos níveis de Lp(a) é maior dependendo dos níveis da molécula no basal. Quanto maior o nível, maior a redução
AspirinaAntiplaquetário20% de redução nos níveis de Lp(a)
Fibratos  HipolipemianteNenhum efeito na redução nos níveis da Lp(a)
EzetimibaHipolipemianteNenhum efeito na redução nos níveis da Lp(a)
PelacarsenTratamento em desenvolvimento para redução da Lp(a)Redução dos níveis de Lp(a) em até 92% em esquema de múltiplas doses
Tabela 1. Medicações, utilização clínica e impacto nos níveis de Lp(a)

O que não tem muito remédio, remediado está? No que se refere à Lp(a), a gente remedia outras coisas que já conhecemos e que aumentam o risco cardiovascular, como o controle intensivo do colesterol (redução do colesterol ruim) e dos outros fatores de risco clássicos para doença cardiovascular, incluindo mudança de estilo de vida.

Tem algo novo? Sim!

Estudos em indivíduos saudáveis com Lp(a) > 75nmol/L (~30mg/dL) mostram a que o medicamento Pelacarsen reduziu substancialmente os níveis dessa lipoproteína ( de 66 a 92%). Essa medicação consiste em um oligonucleotídeo antisense que inibe a formação do RNA mensageiro do gene da apo(a).  As pesquisas clínicas já estão avançadas e é possível que tenhamos aprovação dessa medicação em breve.

Considerações finais

No dia a dia, a Lp(a) não precisa estar na solicitação de exames do médico, já os outros “colesteróis” e triglicérides, sim. Ela deve ser lembrada, entretanto, nas pessoas que tenham tido algum problema cardiovascular que não seja justificado pelos fatores de risco clássicos, que tanto falamos: diabetes, hipertensão, tabagismo, obesidade, sedentarismo etc. Pode ser considerada também nos pacientes com hipercolesterolemia familiar.

O tratamento da Lp(a) elevada, por enquanto, deve ser direcionado ao que a gente já conhece e usa até a chegada de novas medicações.

Esse tema do colesterol eu gosto muito e tem vários posts aqui no blog sobre esse assunto na categoria de “metabolismo das gorduras – lípides”. Não deixa de visitar os outros posts.

Espero que tenham gostado, um abraço e até a próxima!

Referências

  1. Di Fusco SA, Arca M, Scicchitano P, Alonzo A, Perone F, Gulizia MM, Gabrielli D, Oliva F, Imperoli G, Colivicchi F. Lipoprotein(a): a risk factor for atherosclerosis and an emerging therapeutic target. Heart. 2022 Dec 13;109(1):18-25. doi: 10.1136/heartjnl-2021-320708. PMID: 35288443.
  2. Hu J, Lei H, Liu L, Xu D. Lipoprotein(a), a Lethal Player in Calcific Aortic Valve Disease. Front Cell Dev Biol. 2022 Jan 27;10:812368. doi: 10.3389/fcell.2022.812368. PMID: 35155427; PMCID: PMC8830536.
  3. RACHED, F. H.; MINAME, M. H.; ROCHA, V. Z.; ZIMERMAN, A. et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v.122, n. 9, p. –, DOI: 10.36660/abc.20250640. Disponível em: https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-dislipidemias-e-prevencao-da-aterosclerose-2025/.

Posts relacionados

Obrigada por ter chegado até aqui!

Se você gostou da leitura, não deixe curtir e de compartilhar o conteúdo.

Para receber em primeira mão as publicações, você pode se inscrever no blog ou me acompanhar pelas redes sociais. Os links estão no rodapé dessa página.

Espero ver você mais vezes!

Um forte abraço,

Suzana

O botão de doação abaixo é uma forma voluntária de contribuir para manutenção e aprimoramento do trabalho desse blog.

Lipases lipoproteica e hormônio-sensível: semelhanças, diferenças e aspectos clínicos

As lipases são moléculas que atuam quebrando as gorduras. O efeito mais estudado e conhecido delas é sobre os triglicérides. Nesse texto, falarei da ação das lipases lipoproteica e hormônio-sensível, as doenças associadas às disfunções dessas enzimas e algumas medicações novas e antigas para tratamento do aumento dos triglicérides no sangue.

Lipases – aspectos gerais

A lipase pancreática quebra as gorduras dos alimentos para elas entrarem na circulação como ácidos graxos e colesterol livre. As gorduras devem estar esterificadas novamente para serem transportadas ou armazenadas no tecido adiposo.

O que significa isso gordura esterificada? Um éster é uma estrutura molecular de R-COOR’ (tem exemplos mais abaixo). Os ésteres mais comuns no organismo são os triglicérides – triéster de glicerina. O colesterol também precisa ser esterificado para circular no sangue. Essas reações são feitas pelas enzimas do grupo aciltransferases. Mas, vamos às lipases, que fazem exatamente o contrário disso.

As lipases quebram essas ligações ésteres e liberam na circulação os ácidos graxos e colesterol livres ou não esterificados. Essas formas são as utilizadas como matéria prima para serem consumidos como fonte energética ou estocadas como uma poupança de energia, no caso dos triglicérides; e servirem de matéria-prima para reações intracelulares como a formação do hormônios esteróides, no caso do colesterol.

Existem várias lipases de interesse da endocrinologia. Destacam-se duas, que veremos com detalhes a seguir.

Lipase lipoproteica

Após a alimentação, a lipase lipoproteica entra em ação para quebrar os triglicérides. Essa enzima está na superfície dos vasos sanguíneos do tecido adiposo e muscular.

A lipase lipoproteica capta os triglicérides das lipoproteínas que estão passando por aqueles tecidos e quebra as ligações ésteres, liberando glicerol e ácidos graxos livres, para que eles entrem nos tecidos periféricos ou extra-hepáticos para que sejam utilizados ou armazenados.

A lipase lipoproteica está mais ativa na fase pós-alimentar, estimulada pela insulina, que está alta nessa fase. O objetivo é recarregar o corpo de energia e armazenar alguma também.

Figura 1. Ação da lipase lipoproteica, que é estimulada pela insulina no período pós-prandial

A gente conhece mais o efeito da lipase lipoproteica tomando como modelo a doença em que vemos deficiência dela: síndrome da quilomicronemia familial. Essa doença é rara, com frequência estimada por 1 a 2 pessoas por milhão e que tem uma medicação supernova no mercado.

Antes que vocês achem estranho o termo “familial”, é aquele que (o familial é que é relacionado a parente, o termo “familiar” se refere ao nos é conhecido), mas vou usar a palavra familiar para não soar estranho, ou seja, “familiar” para ser soar familiar para vocês, com o perdão do trocadilho.

Na síndrome de quilomicronemia familiar, por falta da ação da lipase lipoproteica, os triglicérides são extremamente altos no sangue, frequentemente excedem 1.000 mg/dL, e eles extrapolam para os tecidos, como pele causando os xantomas eruptivos, nas vísceras causam aumento do fígado.

Aqui no blog, eu já falei sobre gordura ectópica, que é a gordura fora do lugar que a gente vê na síndrome metabólica e diabetes tipo 2, mas essa síndrome da quilomicronemia familiar é um caso extremo.  O sangue tem aspecto leitoso de tanta gordura e que dá até para ser visto nas veias da retina (lipemia retinalis). A principal complicação é pancreatite de repetição.

Figura 2. Sangue de um paciente com hipertrigliceridemia grave. Fonte – Wikipedia

Vamos falar de novidades?

O medicamento volanesorsena é uma medicação biológica que age interrompendo a fabricação do apoproteína apo CIII, que fez parte do quilomícron e da VLDL. E o que faz essa molécula?

A função do apo CIII é mais bem ilustrada nas síndromes que têm hipertrigliceridemia, como a síndrome de quilomicronemia familiar. Essas síndromes são associadas ao aumento da expressão da apo CIII. Há duas explicações plausíveis: (1) que a apo CIII iniba a lipoproteína lipase ou (2) impeça a remoção das partículas ricas em triglicérides da circulação.

Como a volanesorsena inibe a fabricação de apo CIII, reduziria a circulação dos quilomícrons e VLDLs. Essa medicação é indicada quando dieta, atividade física e medicações usualmente utilizadas para o aumento dos triglicérides não são capazes de controlar a doença. A medicação é injetável e utilizada semanalmente.

As medicações frequentemente utilizadas na nossa prática para reduzir os níveis dos triglicérides são chamadas de fibratos. O mais comum é que utilizemos essa classe de medicação nas doenças poligênicas do nosso dia a dia, como o diabetes tipo 2 e obesidade, em que pode haver aumento preferencial dos triglicérides e ainda na dislipidemia mista, quando temos conjuntamente um aumento do colesterol. Quando as duas gorduras estão aumentadas, podemos associar fibratos com as estatinas.

Os fibratos são utilizados como droga de escolha nas síndromes genéticas, como na síndrome de quilomicronemia familiar – da qual falamos há pouco – e na hipertrigliceridemia primária, na disbetaliproteinemia tipo III e hiperlipidemia combinada familiar. Essas doenças são muito mais raras.

Como modo de ação, os fibratos ativam fatores de transcrição da família do receptor ativado por proliferadores de peroxissoma ou PPAR, do inglês peroxisome proliferator-activated receptors. Eles agem no PPAR-alfa. Entre outras coisas, as fibratos ativam a lipase lipoproteica e reduzem a produção de apo CIII, reduzindo os triglicérides.  

Lipase hormônio-sensível

No sangue, a gente já viu a ação da lipase lipoproteica. No tecido gorduroso, o quem se destaca é a lipase hormônio-sensível. No jejum ou nas situações de luta e fuga, o organismo precisa de energia, e uma das fontes é a gordura estocada no tecido adiposo. Entra em cena a LHS, quebrando os triglicérides e liberando ácidos graxos livres na circulação.

Existe uma ligação bem estabelecida entre as disfunções da lipase hormônio-sensível (LHS) e as doenças metabólicas corriqueiras no nosso meio, como a obesidade e síndrome metabólica, mas também com outras doenças menos conhecidas, como a lipodistrofia, que é uma doença da distribuição do tecido gorduroso no corpo.

Essa enzima também foi relacionada com efeitos não-metabólicos envolvidos no câncer.

Figura 3. Lipase hormônio sensível, que é inibida pela insulina e menos ativa no pós-prandial. Mais ativa no jejum.

A lipase hormônio-sensível leva esse nome pois ela é regulada por vários hormônios: a adrenalina, o glucagon e o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) estimulam a ação da LHS e aceleram a lipólise (lipolítica), e a insulina inibe essa enzima facilitando o depósito de gordura no tecido adiposo (antilipolítica). Ela está mais ativa no jejum, pois o fluxo do gordura é contrário ao pós-prandial.

Figura 4. Ação acilglicerol hidrolase da lipase hormônio-sensível

A segunda atividade da LHS é quebra o colesterol éster e deixá-lo livre para participar do metabolismo intracelular e produção dos hormônios esteroides.

Figura 5. Ação colesteril éster hidrolase da lipase hormônio-sensível

A terceira ação enzimática conhecida da LHS é quebrar o retinil éster e liberar o retinol (vitamina A) e um ácido graxo livre.

Como na natureza, nada se cria, tudo se transforma, a glicose pode se transformar em ácido graxo livre. Esse processo recebe o nome de lipogênese “de novo”. O tecido gorduroso e o fígado têm essa capacidade. Parece que esse mecanismo é importante na gênese da esteatose hepática.

A LHS é importante em outros tecidos, que eu vou citar rapidamente:

– Tecido gorduroso marrom – lipólise (quebra da gordura) e oxidação de ácido graxo (utilização como energia);

  • Músculo esquelético e cardíaco – controle do conteúdo de gordura;

– Secreção de insulina;

– Esteroidogênese adrenal;

– Formação do esperma?

Figura 6. As diversas ações da lipase hormônio-sensível nos diversos sistemas. Adaptado de Recazens e col. (2)

Lipase hormônio-sensível na resistência à insulina e diabetes

A LHS está mais ativa na deficiência de insulina ou quando ela não age bem, como no diabetes tipo 1 descompensado, e nas síndromes com resistência à insulina (deficiência relativa), como a síndrome metabólica e o diabetes tipo 2.

Nessas situações, a insulina que deveria inibir a LHS não faz isso como deveria e mais gordura sai do tecido adiposo para circulação para servir como fonte alternativa de energia na produção de corpos cetônicos, base da cetoacidose diabética. Isso acontece na deficiência absoluta de insulina.

Na deficiência relativa de insulina ou resistência à insulina, há da mesma forma aumento dos triglicérides na circulação não para cetose, mas para outro problema que comentei aqui que é a dislipidemia aterogênica.

No diabetes, os esforços são direcionados para controlar a glicemia e, consequentemente, teremos redução dos triglicérides. Se mesmo com o controle do diabetes, os triglicérides permanecerem altos, pensamos em adicionar os fibratos.

Lipase hormônio-sensível e lipodistrofias

As lipodistrofias são um grupo de doenças da quantidade adiposo subcutâneo, que pode ser em todo corpo (lipodistrofia generalizada) ou em parte dele (lipodistrofia parcial). A gordura que deveria ser estocada sob a pele desvia para as vísceras causando uma resistência insulínica brutal. A lipodistrofia está relacionada à deficiência da lipase hormônio-sensível por defeitos no gene LIPE, sugerindo que essa lipase está também envolvida com o desenvolvimento e manutenção do tecido adiposo além de sua função enzimática.

Associada à resistência insulínica, o aumento dos triglicérides na lipodistrofia leva ao quadro de pancreatite de repetição, complicação presente na lipodistrofia e em qualquer doença com aumento expressivo de triglicérides. O resultado final de pancreatites repetitivas e resistência à insulina própria da doença é um diabetes de difícil controle com necessidade de doses altas de insulina, além de medicações que melhoram a resitência à esse hormônio.

Nessas síndromes lipodistróficas, utilizamos os fibratos para controle dos triglicérides e podemos associar à insulina os antidiabéticos orais da classe das glitazonas, que ativam o PPAR-gama, melhorando a sensibilidade à insulina com o benefício adicional melhorar o perfil lipídico já que agem em moléculas da mesma família dos fibratos.

Figura 7. Doenças relacionadas às disfunções da lipase hormônio-sensível. Adaptado de Recazens e col. (2)

Considerações finais

Compreender a função de cada lipase é importante para entender as alterações das gorduras no sangue próprias da resistência à insulina, síndrome metabólica e diabetes. Nas síndromes genéticas mais raras que têm aumento dos triglicérides ou alteração da distribuição de gordura no corpo, as lipases também têm um papel fundamental no entendimento do mecanismo dessas doenças e para o desenvolvimento de novas formas de tratamento, como a nova medicação que chegou ao Brasil esse ano.

Referências

  1. Staels B, Dallongeville J, Auwerx J, Schoonjans K, Leitersdorf E, Fruchart JC. Mechanism of action of fibrates on lipid and lipoprotein metabolism. Circulation. 1998 Nov 10;98(19):2088-93. doi: 10.1161/01.cir.98.19.2088. PMID: 9808609.
  2. Recazens E, Mouisel E, Langin D. Hormone-sensitive lipase: sixty years later. Prog Lipid Res. 2021 Apr;82:101084. doi: 10.1016/j.plipres.2020.101084. Epub 2020 Dec 30. PMID: 33387571.
  3. Bulário eletrônico ANVISA –  Waylivra® (Volanesorsena) https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?numeroRegistro=157700003

Obrigada por ter chegado até aqui!

Se você gostou da leitura, não deixe curtir e de compartilhar o conteúdo.

Para receber em primeira mão as publicações, você pode se inscrever no blog ou me acompanhar pelas redes sociais. Os links estão no rodapé dessa página.

Espero ver você mais vezes!

Um forte abraço,

Suzana

O botão de doação abaixo é uma forma voluntária de contribuir para manutenção e aprimoramento do trabalho desse blog.

Posts relacionados

Vídeo no Youtube sobre lipodistrofias

Hipercolesterolemia familial ou familiar – colesterol LDL alto

Imagine alguém com o colesterol ruim alto (o LDL) desde o nascimento…. e que esse colesterol ruim se deposita nas artérias e outros tecidos de forma cumulativa durante toda a vida. Pois bem, todo mundo já sabe que o colesterol ruim alto pode causar infarto, derrame e outros problemas cardiovasculares.  São exatamente esses problemas que acontecem de forma muito precoce em quem tem a doença chamada hipercolesterolemia familiar (HF) não tratada adequadamente.

Nessa doença genética (portanto, hereditária), o colesterol LDL pode chegar a níveis de até 500mg/dL nas suas formas mais graves.

Sabe aquela pessoa que é magra, faz exercício físico regularmente, come tudo saudável e mesmo assim tem colesterol alto? Pode ser que ela tenha a doença hipercolesterolemia familiar e que fazer dieta e exercício não sejam suficientes para controlar o colesterol.

Aqui um parêntese para uma pergunta que me fizeram um outro dia: por que “familial”? Resposta: esse é o termo mais visto nos textos técnicos, usados para situações relativas à família, diferentemente de “familiar” que significa algo que é previamente conhecido, íntimo.

A hipercolesterolemia familial é aquela tem por base a herança genética e se concentra dentro de uma mesma família. Por força do hábito, usarei o termo familiar como sinônimo de familial.

Não se pode deixar escapar esse diagnóstico

A hipercolesterolemia familiar afeta 1 em 200 até 1 em 500 pessoas, ou seja, é uma problema bem comum. É uma doença autossômica dominante, o que significa que pelo menos um dos dois genes herdados (um de cada genitor) é defeituoso.

Quando apenas um gene é defeituoso, falamos que o paciente é heterozigoto; quando os dois genes são defeituosos, o paciente é homozigoto para doença e os níveis e as manifestações colesterol alto são mais graves e precoces, podendo levar a infarto até em adolescentes.

O fígado não consegue “limpar” o colesterol ruim do sangue

Na HF, o defeito pode estar em diferentes genes envolvidos no metabolismo do colesterol LDL (colesterol ruim). A grande maioria dos defeitos genéticos estão nos genes que fabricam o receptor de LDL, como descritos no quadro abaixo.

MutaçõesGeneMecanismoFrequência
Receptor de LDLLDLRReceptor é ausente ou tem capacidade reduzida de retirar o LDL da circulação85-90% dos casos
ApoBApoBProblema na ligação do LDL ao receptor5-10% dos casos
Ganho de função do PCSK9PCSK9Aumento dos níveis de PCSK9 que aumentam a degradação do receptor de LDLRaro
Perda de função da proteína adaptadora do receptor do LDLLDLRAP1Redução da internalização do complexo LDL/receptor do LDLRaro
Tabela 1. Tipos de mutação genética que levam à hipercolesterolemia familiar
Figura 2. Metabolismo intracelular do colesterol LDL

O LDL é retirado da circulação principalmente pelo fígado. Dessa forma, problemas no “clareamento” (limpeza) da circulação das partículas de LDL fazem aumentar seus níveis no sangue. Como consequência, o excesso de colesterol se deposita nas paredes das artérias (aterosclerose) até entupir os vasos e impedir a circulação do sangue em áreas nobres como o coração e cérebro, resultando em infarto e derrame, respectivamente.

O LDL é captado pelo fígado e retirado da circulação através do receptor nos hepatócitos. Uma vez que há defeitos nos receptores de LDL, o colesterol LDL fica mais tempo circulando e com maior propabilidade de se depositar nos vasos e demais tecidos
Figura 2. Metabolismo das lipoproteínas e fisiopatologia da hipercolesterolemia familiar

Quando investigar a HF e em quem?

O diagnóstico da hipercolesterolemia familiar é principalmente clínico. Apesar de ser uma doença genética, o exame dos genes não é rotineiramente realizado.

Os achados clínicos que sugerem o diagnóstico de HF são:

  • Doença cardiovascular precoce (homens com menos de 55 anos e mulheres com menos de 60 anos);
  • Sinais físicos de excesso de colesterol (arco senil, xantoma, xantelasma, espessamento de tendões);
  • Dosagem de LDL-colesterol > 190mg/dL em adultos e > 150mg/dL em crianças, após exclusão de outras causas de aumento do LDL(hipotireoidismo, síndrome nefrótica, etc.);
  • Familiar com aumento do colesterol;
  • História na família de doença cardiovascular precoce;

Há 80% de chance de HF na população geral se nos deparamos com dosagem de LDL nos seguintes níveis:

  • >250mg/dL em adultos com > 30 anos;
  • >220mg/dL em adultos dos 20-29 anos;
  • >190 mg/dL em pacientes com menos de 20 anos

Uma vez identificada uma pessoa com hipercolesterolemia familiar, recomenda-se o “rastreamento em cascata”, que consiste em fazer a dosagem do colesterol em parentes do primeiro grau da pessoa acometida. Essa estratégia é diferente do que é adotada para a população geral, na qual se recomenda a medida do LDL nos homens acima de 40 anos e mulheres acima 50 anos ou após a menopausa. 

No rastreamento em cascata, após a descoberta de um caso de hipercolesterolemia familiar, as crianças devem ser investigadas também. A chance de um descendente do primeiro grau de uma pessoa com HF ser afetado com a doença é de 50%.

É preciso descartar outras causas de colesterol LDL alto

Nem todos que têm colesterol muito alto têm HF. Para chegar a esse diagnóstico, deve-se investigar e tratar outras causas potenciais.

Doenças diversas podem causar aumento do colesterol, entre elas estão o hipotireoidismo, o diabetes, a síndrome nefrótica, as doenças hepáticas; ou o uso de medicações como corticoides e diuréticos; o excesso de álcool, a dieta muito pobre em nutrientes e o sedentarismo. O tratamento dessas condições, quando possível, pode reduzir o colesterol sem a necessidade de medicações específicas para baixar o LDL.

Tratamento da Hipercolesterolemia Familiar

Forma heterozigota

Indicando o tratamento e definindo o alvo do LDL na HF

Em pessoas com aumento do colesterol, é comum usarmos calculadoras para estimar o risco que ela tenha um infarto ou outra doença cardiovascular em 10 anos.  A mais conhecida é o escore de Framingham, que vai somando a idade, nível de colesterol, outros fatores de risco para indicar ou não o início da estatina. O fato é que essas calculadoras NÃO servem para serem usadas na hipercolesterolemia familiar, pois geralmente subestimam o risco cardiovascular.

Muitos textos citam que o tratamento deve reduzir LDL mais de 50% do basal, ou seja, se o LDL inicial é igual 220mg/dL, o tratamento deve fazer com que o LDL chegue a < 110mg/dL. Outros, orientam que alvo de LDL < 100mg/dL ou <70mg/dL naqueles pacientes que já têm doença cardiovascular diagnosticada.

Nas crianças, o objetivo do tratamento é LDL< 135mg/dL. Se esse alvo não for atingido com mudança de estilo de vida, as estatinas estão indicadas por volta de 8 a 10 anos de idade nas crianças heterozigotas com hipercolesterolemia familiar.

As estatinas são utilizadas de forma preferencial na hipercolesterolemia familiar. Elas agem inibindo a enzima HMG-CoA redutase, essencial na formação do colesterol. Uma vez bloqueada essa enzima, o colesterol dentro da das células hepáticas diminui, sinalizando para que haja aumento da produção de receptores de LDL pelo fígado a fim de restaurar a quantidade de colesterol dentro da célula hepática.

A maior produção de receptores de LDL pelas estatinas é providencial para aumentar retirada LDL da circulação em qualquer tipo condição, genética ou não, que leva ao aumento de colesterol LDL. Paralelamente ao aumento de captação do LDL, há também redução da produção de VLDL pelo fígado que seria transformado em LDL posteriormente.

As estatinas mais potentes (rosuvastatina e atorvastatina) devem ser utilizadas como medicamentos de primeira escolha.

EstatinaDose (mg)Redução média (%)
Rosuvastatina5-4046-55
Atorvastatina10-8037-51
Sinvastatina5-8026-47
Lovastatina10-8021-40
Pravastatina10-8020-36
Fluvastatina20-8022-35
Pitavastatina1-432-43
Estatinas com suas doses e potência na redução média percentual do LDL

Dobrar a dose de estatina reduz adicionalmente o colesterol em 6 a 7%. Se faltar mais que essa porcentagem para atingir o alvo, o mais adequado é associar uma ou mais medicações, tais como a ezetimiba, os sequestradores de ácidos biliares (colestiramina, colesevalam), os fibratos ou a niacina.

Cessação do tabagismo, controle da hipertensão e diabetes são essenciais para reduzir o risco de aterosclerose. Claro que atividade física, peso saudável são também fundamentais para reduzir o risco de doença cardiovascular.

Um aviso importante para as mulheres com hipercolesterolemia familiar em idade fértil é que devem usar algum método contraceptivo enquanto estiverem em uso de medicação para redução do colesterol. Caso planejem engravidar, devem parar o tratamento para a hipercolesterolemia (principalmente estatina) um mês antes da suspensão do método contraceptivo.

Forma homozigota

Os pacientes homozigotos para HF devem ser encaminhados para centros especializados ou hospitais universitários. Um procedimento mais especializado como aférese das gorduras no sangue pode ser necessário associado às medicações antigas e novas utilizadas para a forma heterozigota.

Na aférese terapêutica, uma certa quantidade de partículas de LDL colesterol é retirada do plasma através de máquinas e o sangue mais “limpo” dessas partículas é novamente devolvido para o paciente. Em casos extremos, até transplante de fígado pode ser indicado.

Novas medicações

Inibidores da PCSK9

A proteína PCSK9 (do inglês, proprotein convertase subtilisin-kexin type 9) ajuda na degradação do receptor do LDL no fígado. Portanto, inibir essa proteína manteria o receptor de LDL ativo por mais tempo. Vimos na primeira tabela que mutações que aumentam a função da PCSK9 é uma causa rara de hipercolesterolemia familiar.

Mirando esse alvo terapêutico, foram desenvolvidos anticorpos contra a PCSK9. O evolocumabe e o alirocumabe são representantes dessa classe de medicações e aprovados no Brasil para hipercolesterolemia familiar entre outras indicações. Seu uso é subcutâneo e a dose pode ser a cada duas semanas ou mensalmente, dependendo da dose.

Como toda medicação nova e biológica, os inibidores do PCSK9 são bastante caros. Essa classe de medicação deve ser utilizada apenas em pacientes que não atingiram o alvo terapêutico com as doses máximas toleradas das medicações usuais ou que tenham intolerância às estatinas.

Considerações finais

A hipercolesterolemia familial ou familiar é sem dúvida uma doença em que o rastreamento e tratamento agressivo fazem a maior diferença. O que é um pouco diferente do que já foi comentado, por exemplo, sobre rastrear nódulo de tireoide. Na HF fazer mais é importante.

Falar sobre esse tema me afeta, pois tenho uma relação bem pessoal com o tema. Meu pai morreu precocemente aos 59 anos por um provável infarto fulminante. Nunca fui gordinha e nem sedentária, mas descobri o colesterol alto, nos níveis sugestivos de HF, por volta dos 25 anos enquanto estava na residência médica. Dieta rigorosa, exercício, exclusão de outras causas de colesterol alto… nada resolveu para baixar o meu colesterol! Portanto, tenho essa doença da hipercolesterolemia familiar e fui verificar na minha grande família que tem alguns irmãos afetados. Hoje e para sempre as estatinas são minhas companheiras e dou graças pela descoberta delas.

Referências

  1. Raal FJ, Hovingh GK, Catapano AL. Familial hypercholesterolemia treatments: Guidelines and new therapies. Atherosclerosis. 2018;277:483-492. doi:10.1016/j.atherosclerosis.2018.06.859
  2. Bouhairie VE, Goldberg AC. Familial Hypercholesterolemia. Endocrinol Metab Clin North Am. 2016;45(1):1-16. doi:10.1016/j.ecl.2015.09.001
  3. Turgeon RD, Barry AR, Pearson GJ. Familial hypercholesterolemia: Review of diagnosis, screening, and treatment. Can Fam Physician. 2016;62(1):32-37.

Posts relacionados

Obrigada por ter chegado até aqui!

Se você gostou da leitura, não deixe curtir e de compartilhar o conteúdo.

Para receber em primeira mão as publicações, você pode se inscrever no blog ou me acompanhar pelas redes sociais. Os links estão no rodapé dessa página.

Espero ver você mais vezes!

Um forte abraço,

Suzana

O botão de doação abaixo é uma forma voluntária de contribuir para manutenção e aprimoramento do trabalho desse blog.