Arquivo da categoria: Diabetes e hipoglicemia

São muitos os tipos de diabetes.
O diabetes tipo 2 é o mais comum. Tem uma combinação de resistência insulínica e defeito na secreção. Pode precisar de insulina no início para controlar mais rapidamente ou depois quando o pâncreas já secreta muito pouca insulina. Uma coisa que eu não falei no vídeo, é que o paciente pode ter a glicemia controlada se perder peso e fizer dieta.

Já o diabetes tipo 1 tem defeito na produção de insulina. O organismo produz anticorpos contra o pâncreas. A insulina é necessária desde o diagnóstico.

O diabetes gestacional aparece na gravidez e desaparece no parto. É controlada com dieta e algumas vezes é necessário medicação (insulina, preferencialmente). Tem um risco alto para desenvolver diabetes no futuro.

Nos outros tipos de diabetes, entram os casos de diabetes medicamentoso, neonatal e por síndromes raras. Aqui, destaco dois tipos:

– MODY (do inglês Maturity-Onset Diabetes of the Young ) é um defeito genético no canal de potássio que causa retardo na secreção de insulina. É causado por defeito em um único gene (monogenético) e passa de geração a geração e está presente ao nascimento. Controla bem com o grupo de medicação chamado de sulfonilureias (ex – gliclazida, glimepirida, glibenclamida) em doses baixas;

– LADA (acrônimo do ingles: latent autoimmune diabetes in adults) é um diabetes tipo 1 latente, que começa parecido com o diabetes tipo 2 e depois mostra todas as características de diabetes tipo 1, como necessidade de insulina e autoanticorpos positivos.

Doença Renal do diabetes

Live sobre doença renal do diabetes

Doença Renal do Diabetes e Nefropatia diabética

Há quase duas décadas atrás, a gente nomeava o acometimento do rim pelo diabetes com nefropatia diabética. Como a maioria das complicações do diabetes descompensado, o dano ao rim pode ser assintomático. Considerando esse fato, a gente rastreia, tenta diagnosticar precocemente através do exame de sangue e de urina.

Antigamente, nós víamos só o exame de urina. A lesão do rim pela glicose alta leva a perda de albumina na urina. O exame que vê isso é a albuminúria (geralmente chamada de microalbuminúria). Microalbuminúria positiva era o único sinônimo do dano renal pelo diabetes e a gente chamava a doença de nefropatia diabética. 

Porém, a perda da função renal decorrente do diabetes descompensado pode acontecer mesmo sem a perda de proteína. A partir dessa ciência, o termo sugerido é de Doença Renal do Diabetes.

Como saber se os rins estão funcionando bem?

Como a gente avalia a função do rim? Pelo volume de sangue que é filtrado a cada minuto que passa pelos glomérulos, que são como “peneiras”  que retém o que é importante antes de acabar na urina. Os glomérulos são esses novelos de vasos contidos nos néfrons.

Na prática, a gente usa a dosagem da creatinina, que é uma substância derivada do metabolismo da creatina no músculo. A creatinina é filtrada pelo rim e que não é reabsorvida, diferente da glicose que é totalmente reabsorvida. Quando a função do rim é normal a creatinina tem passe livre na peneira e praticamente a mesma creatinina que passa pelo rim aparece na urina. A creatinina no sangue e na urina não variam muito ao longo do dia. 

Quando a filtração renal do sangue começa a ficar prejudicada, a creatinina começa a se acumular no sangue e diminuir na urina. As peneiras não estão funcionando bem e o sangue começa a ficar com muita creatinina (além de ureia, potássio e muitas outras substâncias tóxicas).

Pelo valor de creatinina no sangue, várias fórmulas estimam essa taxa de filtração glomerular. Geralmente, o valor da fórmula está no rodapé da creatinina como TGFe – taxa de filtração glomerular estimada, que diferencia os valores da normalidade para raça branca, que tem menos músculo e deve ter uma creatinina menor que a raça negra, que é mais musculosa. 

Algumas vezes, é necessário medir de forma mais direta essa filtração e pode ser solicitado o clearance de creatinina. Clearance é uma palavra inglesa que quer dizer limpeza, depuração.  O clearance de creatinina é o volume de sangue que é limpo dessa substância (e de outras, por “tabela”) por cada minuto.  Esse exame é feito através da urina de 24h, onde se dosa a creatinina urinária e compara com a creatinina do sangue, considerando o volume da urina nesse período. Quanto mais creatinina no sangue e menos creatinina na urina, se conclui que a limpeza do sangue no geral está ruim. Esse método de avaliação é menos utilizado hoje em dia, apenas quando as fórmulas não são tão adequadas para avaliar, como por exemplo, paciente que tem muita ou pouca massa magra e, portanto, uma creatinina maior ou menor que a população geral.

O valor de normalidade da função renal pelo clearance de creatinina e estimado pela taxa de filtração é maior que 90ml/1,73m2 de sangue ou mais limpos por minuto, normalizados pela superfície corporal, raça, idade e sexo. 

Albuminúria

As “peneiras” que são os glomérulos dos néfrons podem deixar escapar proteínas. Quando os poros do glomérulo ficam menos seletivos, mas a quantidade de sangue filtrada é suficiente para deixar o sangue “limpo” de toxinas a gente diz que há uma lesão renal; A função renal é avaliada pelo ritmo de filtração glomerular estimado pela creatinina do sangue. A perda de albumina é quase sinônimo de doença renal do diabetes.

Como pode ser assintomática, para detecção da doença renal do diabetes, é solicitado a pesquisa de albuminúria ou microalbuminúria na urina.

Antes, esse exame era solicitado em urina de 24h. Hoje, se pede apenas em amostra de urina isolada. Importante aqui acrescentar que a análise da microalbuminúria em amostra isolada deve ser feita considerando a sua relação com a creatinina na mesma amostra. Alguns laboratórios já fazem essa relação, para outros, deve-se solicitar junto a dosagem de creatinina em amostra isolada e fazer o cálculo. O resultado é dado em mg de albumina por g de creatinina.

Se o exame vier alterado, ele deve ser repetido com intervalo de 3 a 6 meses e devemos considerar o resultado se duas em três amostras vierem alteradas.

Alguns pacientes podem se queixar de urina espumosa se a quantidade de proteína perdida é muito intensa.

O rastreamento da doença renal do diabetes deve ser feito ao diagnóstico do diabetes tipo 2 e após 5 anos do diabetes tipo 1 com dosagem de albumina na urina isolada (microalbuminúria) e creatinina no sangue para avaliar a taxa de filtração glomerular.

Classificação da Doença Renal do Diabetes

Combinando a taxa de filtração glomerular com a perda de proteína, temos a classificação da Doença Renal do Diabetes em vários estágios, conforme tabela abaixo. Juntando a classificação da função e lesão renal (TFG + albuminúria) temos o prognóstico (risco futuro) do paciente precisar diálise ou transplante, também chamados de terapia substitutiva.

Quando procurar um nefrologista?

A resposta é: quando a taxa de filtração glomerular estiver abaixo de 60ml/min. abaixo desse valor, há mais alterações do equilíbrio dos minerais e de outras substâncias no sangue que o nefrologista vê com detalhes. Se quiser saber mais, eu sugiro dar uma olhada na live que eu fiz com uma nefrologista (link acima).

Existem outras situações em que o nefrologista pode ser envolvido de forma mais precoce, geralmente quando se suspeita de outra doença renal que não provocada pelo diabetes. As situações são as seguintes:

  • Proteinúria em pacientes com diabetes tipo 1 com menos de cinco anos do diagnóstico
  • Início abrupto ou proteinúria que progride rapidamente
  • Queda rápida da taxa de filtração glomerular (> 4ml/min/ano)
  • Sedimento urinário alterado (células, bactérias, etc.)
  • Manifestações clínicas de outras doenças sistêmicas (exemplo – lúpus eritematoso sistêmico)
  • Ausência de retinopatia ou neuropatia diabética (as complicações crônicas geralmente andam juntas)
  • Queda rápida da TGFe, acima de 30%, após o início de inibidores da enzima conversora ou do receptor de angiotensina II (vide tratamento)

Tratamento da doença renal do diabetes

Para prevenir a doença renal do diabetes, a gente bate mais uma vez na tecla da mudança de estilo de vida, tais como dieta, atividade física, cessar o tabagismo etc. Além disso, é fundamental que se controle bem o diabetes, a pressão e as gorduras no sangue. Quando o rim não funciona bem, as doses das medicações devem ser revistas. Esse ajuste está detalhado na publicação sobre doença renal da Sociedade Brasileira de Diabetes (1).

As medicações próprias para essa complicação, são os inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) quando a albuminúria está presente, mesmo em pacientes com pressão arterial normal.

Os inibidores da enzima  conversora (IECA) OU os bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) são largamente utilizados para controle da pressão e são as medicações de escolha para pacientes diabéticos hipertensos. Não se recomenda associar essas duas classes de medicação. 

A ativação contínua do SRAA leva ao aumento da resistência nos vasos do rim e da periferia, aumentando a constrição dos vasos das arteríolas renais e aumentando a pressão dentro do glomérulo. Aumenta ainda o estresse oxidativo, levando à disfunção endotelial e leva a proliferação de células mesangiais. O bloqueio desse sistema leva à vasodilatação da arteríola eferente e redução da pressão no glomérulo.

Como exemplos dos IECAs temos os “pris”, como o enalapril, captopril, lisinopril etc. Já dos BRA, temos “sartanas” a losartana, olmesartana, valsartana etc.

Novas medicações para doença renal do diabetes

Inibidores do co-transportador sódio-glicose (Isglt2)

Quando o iSGLT2 inibe a reabsorção de sódio no túbulo contorcido proximal, sobra mais sódio no túbulo distal. Esse aumento é sentido pela mácula densa e, por sua proximidade com a arteríola aferente, faz com que ela se contraia e diminua a pressão dentro do glomérulo. A esse processo, chamamos de tubuloglomerular feedback

A pressão aumentada dentro do glomérulo é uma das primeiras alterações que ocorrem na nefropatia diabética. Despressurizando o glomérulo, há redução da progressão da doença renal no diabetes. É por isso também que o iSGLT2 podem aumentar temporariamente a creatinina e reduzir a taxa de filtração glomerular a curto prazo, mas a longo prazo, ela protege contra o declínio da função renal, como já provado em vários estudos clínicos.

Finerinone

Na doença renal do diabetes há um hiperaldosteronismo relativo. A aldosterona tem efeitos pró-inflamatórios além dos efeitos classicamente descritos sobre o equilíbrio hidroeletrolítico. Como a aldosterona, a finerinone pode aumentar o potássio, mas  a incidência desse problema é menor.

Outra medicação vem se mostrando promissora em reduzir a progressão da doença renal no diabetes e os eventos cardiovasculares a ela associados. A medicação é o finerinone, que é um antagonista não esteroidal mineralocorticoide que bloqueia a ação da aldosterona, via final do SRAA. Ela faz o efeito semelhante ao esteroide espironolactona.

Essa medicação é utilizada sobre as medicações clássicas (IECA e BRA) que inibem o sistema renina-angiotensina-aldosterona já descritos anteriormente.

Considerações finais

A doença renal do diabetes, junto com a hipertensão, é uma das principais causas que levam ao paciente para diálise ou transplante (terapias substitutivas). Pode ser assintomática e o endocrinologista deve fazer a detecção precoce dessa complicação tão comum em pacientes com diabetes.

A prevenção é mesmo com foco nos fatores de risco para evitar esse problema. Depois, só conseguimos atuar para frear a progressão da doença. Nesse tema, novas drogas surgem no cenário para minimizar a avanço da doença e os eventos cardiovasculares associados.

Referências

  1. Sá J, Canani L, Rangel E, Bauer A, Escott G, Zelmanovitz T, Silveiro S, Bertoluci M. Doença renal do diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). DOI: 10.29327/557753.2022-18, ISBN: 978-65-5941-622-6.
  2. Heerspink HJ, Perkins BA, Fitchett DH, Husain M, Cherney DZ. Sodium Glucose Cotransporter 2 Inhibitors in the Treatment of Diabetes Mellitus: Cardiovascular and Kidney Effects, Potential Mechanisms, and Clinical Applications. Circulation. 2016 Sep 6;134(10):752-72. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.116.021887. Epub 2016 Jul 28. PMID: 27470878. Roscioni SS, Heerspink HJ, de
  3. Zeeuw D. The effect of RAAS blockade on the progression of diabetic nephropathy. Nat Rev Nephrol. 2014 Feb;10(2):77-87. doi: 10.1038/nrneph.2013.251. Epub 2013 Dec 3. Erratum in: Nat Rev Nephrol. 2014 May;10(5):243. PMID: 24296623
  4. DeFronzo RA, Bakris GL. Modifying chronic kidney disease progression with the mineralocorticoid receptor antagonist finerenone in patients with type 2 diabetes. Diabetes Obes Metab. 2022 Jul;24(7):1197-1205. doi: 10.1111/dom.14696. Epub 2022 Apr 18. PMID: 35302284; PMCID: PMC9323420.

 

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Neuropatia diabética

Olhos, rins e nervos: estes são os órgãos afetados pelas complicações microvasculares do diabetes. Os nervos são mais esquecidos em relação aos outros dois. Talvez a complicação mais comum, mas também a mais subdiagnosticada seja a neuropatia diabética.

Dependendo do critério utilizado, mais de 50% dos pacientes com diabetes têm esse tipo de complicação.

Muitas vezes, o paciente é que nos lembra com suas queixas de dor, queimação nos pés que se acentuam à noite, na hora de dormir.  

O diabetes pode afetar um nervo isolado ou vários nervos ao mesmo tempo. Pode afetar ainda o sistema nervoso autonômico ou somático. Há várias classificações na neuropatia, mas esse texto vai se destinar a forma mais comum que é a polineuropatia periférica simétrica diabética, a qual chamaremos apenas de neuropatia diabética.

Fisiopatologia da neuropatia diabética

Imaginem a central de processamento de dados que recebe, analisa e devolve as informações. Essa central de processamento faz isso através de fios encapados. A central de processamento é o sistema nervoso central e os fios são os nervos. O fio pode ser longo, como os que inervam a pontinha do pé.

O dano aos nervos pelo diabetes vai causando uma morte do neurônio de trás para frente (ou de baixo para cima). Dessa forma, as alterações de sensibilidade começam na planta dos pés e das mãos e vão subindo, formando depois uma bota de cano baixo e, em seguida, de cano alto.

Outra peculiaridade é que os nervos sensitivos são afetados antes dos nervos motores, isso porque as fibras finas são afetadas primeiro do que as fibras grossas. As fibras grossas são as que tem a bainha de mielina mais grossa, seria um fio de grosso calibre. Tem ainda as fibras pouco mielinizadas, que seriam fios ainda “encapados”, mas de menor calibre e as fibras finas ou não mielinizadas. Na Figura 1 temos a representação dessas fibras com o tipo de função que elas exercem.

Figura 1. Tipos de fibras nervosas e função que elas exercem. A neuropatia diabética atinge primeiramente as fibras finas. Modificado de Vinik e col (3).

Nos nervos, os nutrientes entram sem barreiras. A hiperglicemia e o aumento das gorduras no sangue saturam as vias intracelulares que metabolizam esses substratos levando ao estresse oxidativo e ao acúmulo de substâncias tóxicas para os nervos. É como se esses fios recebessem uma carga elétrica que eles não conseguem suportar e entram em “curto-circuito”.

O dano aos pequenos vasos (microvascular) que irrigam os nervos pelo diabetes não é considerado como fator principal, mas é um coadjuvante para o desenvolvimento da neuropatia diabética.

A resistência à insulina é um mecanismo mais evidente no diabetes tipo 2. É evidente que o tratamento tem um efeito substancial para o diabetes tipo 1, mas não é da mesma forma para o diabetes tipo 2. Para esse último, a correção dos componentes da síndrome metabólica tem maior impacto sobre o dano neural pela melhora da resistência à insulina.

De 30 a 50% dos pacientes com neuropatia diabética desenvolvem sintomas dolorosos. O mais curioso é que esses sintomas “positivos” são acompanhados por perda de sensibilidade. Os pacientes relatam que ao mesmo tempo que os pés doem, queimam, eles são insensíveis ao toque.

Fatores de risco para a neuropatia diabética

Para quem tem diabetes tipo 1, a hiperglicemia parece ser o principal vilão. Já para quem tem diabetes tipo 2, não só a hiperglicemia, mas os vários componentes da síndrome metabólica, tais como resistência insulínica, obesidade, hipertensão arterial, dislipidemia aterogênica, além do tabagismo, em conjunto, são igualmente importantes. Pessoas altas também tem os nervos periféricos mais suscetíveis.

Classificação da neuropatia diabética

Há vários tipos de classificação, o quadro abaixo é conforme a apresentação clínica

Tabela 1. Classificação da neuropatia diabética de acordo com a apresentação clínica

Neuropatias difusas
Polineuropatia distal simétrica
Neuropatia autonômica (cardiovascular, gastrointestinal, urogenital, sudomotora)
Neuropatia sensitiva aguda (induzida pelo tratamento, caquexia diabética)
Neuropatias focais
Neuropatia cranial isolada (ex. nervos cranianos III, VII, VI, IV)
Neuropatias periféricas isoladas (ex. nervos ulnar, mediano, femoral, peroneal)
Neuropatias por compressão (ex. síndrome do túnel do carpo, neuropatia ulnar)
Outras mononeuropatia (mononeuropatia frênica)
Neuropatias multifocais
Radiculopatias diabéticas (ex. lombossacra, torácica, cervical)

Rastreamento e diagnóstico

Todos os pacientes com diabetes tipo 2 ao diagnóstico e os com diabetes tipo 1 depois de 5 anos de diagnóstico devem ser avaliados para a presença da neuropatia diabética e, depois disso, anualmente se a pesquisa foi negativa.

Há várias ferramentas para o diagnóstico da neuropatia diabética. A Sociedade Brasileira de diabetes recomenda o Escore de comprometimento Neuropático (ECN/NDS) e fala que a simples associação de sintomas neuropáticos com o diabetes não é suficiente para o diagnóstico de neuropatia diabética. Esse escore se baseia na avaliação da sensibilidade vibratória, térmica, dolorosa e dos reflexos nos membros.

O monofilamento 10g é um teste onde se toca a planta dos pés com um tipo de fio de nylon que fornece uma pressão de 10g na ponta. A insensibilidade de alguns pontos examinados é um indício de um pé que tem alto risco para ulcerações. Como teste de rastreio, deve ser utilizado com cuidado, pois a sensibilidade não é de 100%, ou seja, não está alterado em todos os pacientes com neuropatia diabética.

Na prática clínica, muitas vezes a eletroneuromiografia pode ser solicitada. Esse exame deve ser realizado por um profissional treinado e habilitado. Como já comentado, a polineuropatia diabética atinge primeiramente as pequenas fibras que não são testadas por esse exame.

Tem mais uma lista grande de testes menos usuais ou mais invasivos, como a microscopia confocal da córnea e a biópsia de pele para avaliar as fibras finas. Os demais exames são detalhados nos textos-base das referências.

O diagnóstico é de exclusão, o que significa que há de se descartar outras causas.

Metabólico

  • Hipotireoidismo
  • Doença renal

Drogas

Nutricional

  • Deficiência de vitamina B12
  • Excesso de vitamina B6 (piridoxina)
  • Deficiência de tiamina e tocoferol (vitamina E)

Metais pesados

  • Mercúrio
  • Arsênico

Agentes industriais

  • Acrilamida
  • Organofosforados

Infeccioso

  • HIV
  • Hepatite B
  • Doença de Lyme

Doenças sistêmicas

  • Vasculite
  • Paraproteinemia
  • Amiloidose

Doenças inflamatórias

  • Polirradiculoneuropatia inflamatória desmielinizante crônica

Hereditário/genético    

A história clínica pode direcionar para a investigação das causas de neuropatia acima.

Tratamento da neuropatia diabética

Há poucos tratamentos que podem modificar o curso da doença além do controle glicêmico. A mudança de estilo de vida, notadamente a atividade física, melhorou índices relacionados à quantidade de fibras finas. Essa melhora foi vista mesmo com redução de peso modesta.

Vários estudos foram desenhados direcionando para a patogênese da neuropatia diabética. Esses estudos mostraram alguma evidência de eficácia, mas de benefício ainda duvidoso nas fases finais do estudo (fase III), Entre as medicações estudadas está o ácido alfa lipoico, ou ácido tioctico, que demonstrou em estudos clínicos melhorar os sintomas na neuropatia diabética. Esse é o composto com mais estudos.

Ainda temos a benfotiamina, que aumentou a concentração de tiamina intracelular e reduziu os produtos avançados de glicação (AGEs) em estudos experimentais. Os óleos ricos em ômega 3 e os inibidores da alfa-redutase também estão nessa lista.

Quando o assunto é dor, já temos mais possibilidades terapêuticas para falar, embora sejam tratamentos direcionados apenas aos sintomas e que não modificam a doença. As classes de medicações mais utilizadas são os anticonvulsivantes e os antidepressivos.

Anticonvulsivantes – são efetivos no tratamento da dor da neuropatia diabética. Temos a pregabalina e a gabapentina como sugestões de tratamento. A gabapentina é mais barata.

Antidepressivos duais – são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina. Exemplos dessas medicações são a duloxetina e a venlafaxina.

Antidepressivos tricíclicos – são medicações mais antigas. Amitriptilina e nortriptilina são exemplos dessa classe de medicação.

Opioides – evitar pelo risco de dependência e por conta das outras alterações hormonais já comentadas em outro post nesse blog.

Figura 2. Algoritmo de tratamento da dor neuropática no diabetes

Considerações finais

A neuropatia diabética é uma complicação subdiagnosticada e fator de risco para amputações de membros inferiores além de piorar bastante a qualidade de vida do paciente. Para prevenir essa complicação é imperativo o controle do diabetes e dos componentes da síndrome metabólica.

Não há ainda opções terapêuticas que modifiquem a doença além do exercício físico. Esse último, não está na farmácia. Da farmácia mesmo, acabamos utilizando as medicações para tratar a dor.

Esse assunto é bastante extenso e aqui eu fiz um recorte de pontos que considero importantes. Nas referências e nos posts e vídeos relacionados, você pode complementar as informações aqui contidas.

Referências

  1. Feldman EL, Callaghan BC, Pop-Busui R, Zochodne DW, Wright DE, Bennett DL, Bril V, Russell JW, Viswanathan V. Diabetic neuropathy. Nat Rev Dis Primers. 2019 Jun 13;5(1):41. doi: 10.1038/s41572-019-0092-1. PMID: 31197153.
  2. Rolim L, Thyssen P, Flumignan R, andrade D, Dib S, Bertoluci M. Diagnóstico e tratamento da neuropatia periférica diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022). DOI: 10.29327/557753.2022-14, ISBN: 978-65-5941-622-6.
  3. Vinik, A., Ullal, J., Parson, H. et al. Diabetic neuropathies: clinical manifestations and current treatment options. Nat Rev Endocrinol 2, 269–281 (2006). https://doi.org/10.1038/ncpendmet0142

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Insulina pode viciar?

Um vício é algo que é difícil uma pessoa livrar e que faz mal para saúde. Mente e corpo ficam dependentes da substância. Temos vários exemplos, como tabaco, álcool, drogas e até algumas medicações. Só que a insulina não faz nada disso e eu vou exemplificar porque as pessoas podem ter medo. Pode não passar de uma infeliz coicidência.

Insulina não vicia!

Se a insulina não veio na hora certa, foi porque a pessoa ficou com medo ou o médico demorou para prescrever. As injeções de insulina não são drogas, são reposições hormonais.

Tem gente que gosta tanto de uma reposição hormonal, de um hormônio bioidêntico. Eis que a insulina humana é um melhor exemplo.

A insulina não vicia, ela é necessária para o corpo.

A insulina não faz mal! Muito pelo contrário, se bem indicada faz um bem danado para evitar complicações do diabetes.

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