Desmame e síndrome de retirada do corticoide

Se tem uma coisa que é difícil para fazer na endocrinologia é o desmame de corticoide. Tem que ter muito engajamento do paciente e sincronia com o médico para retirar o corticoide que estava sendo utilizado de forma prolongada, além de boas doses de paciência.

O paciente pode sentir o baque da redução do corticoide, mesmo quando a dose não chegou ao mínimo ou foi suspensa. O que pode acontecer é a chamada Síndrome de Retirada do Corticoide, que aqui eu vou deixar com letras maiúsculas para dar a devida atenção que ela merece. É como se fosse uma abstinência do corticoide.

Síndrome de Retirada do Corticoide

Síndrome de retirada do corticoide pode acontecer durante o desmame da dose e representa uma dependência do paciente a doses suprafisiológicas de glicocorticoide. Essa dependência pode ser física ou também emocional.

A fisiopatologia é multifatorial e parece mediada pela supressão do CRH, sistema dopaminérgico e noradrenérgico central, diminuição dos peptídeos relacionados a pro-opiomelanocortina devido à supressão crônica do eixo e aumento de citocinas e prostaglandinas.

Pacientes que estão desmamando o corticoide podem se sentir mal mesmo com doses suprafisiológicas (> 5mg de prednisona ou equivalente), mas menores que sua dose usual.

Sintomas podem incluir anorexia, náusea, vômitos, febre baixa, queda da pressão ao levantar-se (hipotensão postural) e sintomas psiquiátricos (principalmente depressão, ansiedade e ataques de pânico). Esses sintomas se sobrepõem com os da insuficiência adrenal propriamente dita, por isso que a Síndrome de Retirada não é bem reconhecida entre médicos e pacientes.

Recomendações para o desmame de corticoide

Para evitar a Síndrome de Retirada do Corticoide e a Insuficiência Adrenal, o desmame deve ser lento. Os pacientes devem ser educados para os sintomas e manejo da Síndrome de Retirada de Corticoide e da Insuficiência Adrenal induzida por corticoide.

Regras para o Dia de Doença da Insuficiência Adrenal

Como a adrenal não responde mais às situações de maiores demandas, o paciente tem que fazer por ela aumentando a dose de corticoide que esteja utilizando. A esse tipo de ajuste chamamos “regra do dia de doença” e válido principalmente para pacientes com risco muito alto ou alto de desenvolverem a crise adrenal.

Regra 1 – dobrar ou triplicar a dose de glicocorticoide oral durante uma doença que necessite repouso (ficar de cama) e/ou antibióticos ou febre (>38°C) até a recuperação. Dobrar ou triplicar a dose no dia de algum procedimento cirúrgico que não necessite jejum (ex: procedimentos com anestesia local ou extração dentária).

Regra 2 – Injetar corticoide quando não for possível usar a via oral (ex-gastroenterite/vômitos), durante uma doença grave, após trauma maior e se o paciente estiver confuso, torporoso ou inconsciente; na preparação para cirurgia com anestesia geral, durante jejum prolongado (ex-preparação para colonoscopia) e no início de uma crise adrenal.

Para regra 2, existem kits para serem administrados de forma domiciliar pelos pacientes ou familiares para evitar uma ida ao pronto-socorro. No Brasil, essa iniciativa é capitaneada pela Associação Brasileira Addisonina – ABA.
Se não houver disponibilidade do kit para uso em casa, o corticoide endovenoso deve ser feito no ambiente hospitalar.

Carta de Orientação para Pacientes com Insuficência Adrenal

Os médicos devem oferecer carta ou cartão de identificação com orientações para o tratamento de crise adrenal para os pacientes. Essa carta ou um cartão de identificação com as mesmas orientações devem ser carregadas pelos pacientes com qualquer tipo de insuficência adrenal e naqueles que usam corticoide e tenham muito alto ou alto risco de desenvolver insuficiência adrenal se houver descontinuação do corticoide.

Para saber quem são os pacientes de muito alto risco, alto e risco moderado dá uma olhada no post anterior.

Considerações para o desmame de corticoide

Para iniciar a redução do glicocorticoide, devemos ter em mente diversas variáveis como:

  • Duração e dose média de glicocorticoide. Até 14 dias de uso de qualquer tipo de corticoide, em geral, não é necessário fazer o desmame.
  • Experiência prévia com desmame do corticoide
  • Status funcional
  • Risco de recaída da doença de base para qual foi prescrita
  • Evitar administração de corticoide à tarde ou à noite

Desmame inicial rápido do corticoide

  • Para pacientes com dose diária média de corticoide de
    • > 40mg de prednisona ou equivalente diário – reduzir a dose de 5 a 10 mg semanalmente até dose de 20mg;
    • De 20 – 40 mg de prednisona ou equivalente diário – reduzir a dose em 5mg semanalmente até dose de 20mg;
    • De 10 – 20mg de prednisona ou equivalente diário – ir para o desmame lento

Desmame lento de corticoide

A intensidade e velocidade da redução da dose deve considerar a gravidade da Síndrome de Retirada de Corticoide

  • Para pacientes que completaram a fase do desmame rápido ou para os que estão em uso de ≤ 20mg de prednisona ou equivalente ao dia:
    • De 10 – 20mg de prednisona ou equivalente diário – reduzir a dose em 1 a 2,5mg semanalmente até dose de 10mg. Se Síndrome de Retirada do Corticoide grave, considerar redução a cada quinzena;  De 5 – 10mg de prednisona ou equivalente diário – reduzir a dose em 1mg semanalmente até dose de 5mg. Se Síndrome de Retirada do Corticoide grave, considerar redução a cada quinzena; 
    • 5mg de prednisona ou equivalente diário* – não reduzir ou parar o corticoide até que a documentação da recuperação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Considere mudar para hidrocortisona 20mg ao dia (15mg pela manhã e 5mg à tarde) se a recuperação do eixo demorar.

* em uma parcela dos pacientes a redução posterior da dose < 5mg de prednisona ou equivalente pode ser considerada para acelerar a recuperação do eixo (4 ou 3mg de prednisona ou equivalente). Aqui no nosso meio, a prednisona pode ser trocada por prednisolona em solução ou gotas para chegar a doses menores que 5mg.

Os testes para avaliar a recuperação do eixo estão também descritos no post anterior.

Quanto tempo dura para o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal se recuperar?

A resposta é de meses a anos. Paciente que tomaram corticoide em altas doses por muito tempo, aqueles com baixo índice de massa corporal e aqueles com aspecto de Síndrome de Cushing podem levar mais tempo para se recuperar. De dois a sete por cento dos pacientes podem nunca recuperar a função adrenal.

Abaixo, uma representação esquemática da recuperação do eixo HHA depois do desmame do corticoide. Após um curto período de tratamento com corticoide, o ACTH é o primeiro a ser secretado, seguido pelo CRH e eventualmente cortisol e os andrógenos adrenais.

Após uma longa exposição,observa-se aumento acentuado e rápido de ACTH, que precede a recuperação da secreção de cortisol. A secreção anormal de cortisol pode durar muito tempo se a atrofia adrenal aconteceu. Os andrógenos adrenais também podem permanecer suprimidos por longo prazo.

Figura 2. Representação esquemática da recuperação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Considerações finais

Mais do que nenhum outro assunto, o desmame de corticoide deve ser realizado de forma extremamente individualizada. Muitas idas e vindas nas tentativas por parte do médico e ainda uma fase de “passar a arrebentação” das fases mais difíceis para o paciente. Com muita informação e paciência, o desmame é possível na maioria dos pacientes, caso não haja recidiva ou recaída da doença de base.

Para os que não tem doença e estão tomando corticoide sem indicação adequada, tenham muito cuidado. Eu não canso de falar da famigerada invenção da fadiga adrenal e falar do grande problema que o uso de corticoide pode causar. O paciente pode ficar realmente dependente do corticoide e sofrer graves crises de abstinência ou retirada dele.  A entrada para o corticoide pode ser tranquila e trazer alívio, mas o desmame pode ser muito trabalhoso.

Referências

  1. Prete A, Bancos I. Glucocorticoid induced adrenal insufficiency. BMJ. 2021 Jul 12;374:n1380. doi: 10.1136/bmj.n1380. Erratum in: BMJ. 2021 Aug 2;374:n1936. PMID: 34253540
  2. Cartilha sobre Insuficiência adrenal da Associação Brasileira Addisoniana – ABA.

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Suzana

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Carta para o meu paciente com fadiga

Se eu pudesse receitar um remédio milagroso, sem contraindicação, para melhorar o seu cansaço persistente, eu prescreveria “TEMPO”.

Uma suplementação de tempo para fazer a atividade física, mais tempo para comer e saborear o alimento sem pressa, mais tempo para dormir, mais tempo para o lazer, para fazer uma terapia, uma meditação, qualquer coisa que faça bem para o seu corpo e para sua mente.

Infelizmente, o tempo não se vende na farmácia e é o recurso mais limitado que temos. Você é quem tem que gerenciar as horas do seu dia, os dias da sua semana. Mas não é aquele gerenciamento chato para aumentar só a sua produtividade no trabalho, isso vai ser consequência do seu bem-estar físico e mental. A sua saúde, o seu estilo de vida tem que estar no topo das prioridades, mesmo que você perca alguns pontos com seu chefe.

Tem gente que não tem muita escolha mesmo e tem que trabalhar o tempo todo para pagar as suas necessidades básicas, como para pagar comida, aluguel, água, luz etc. Tem muita gente no nosso país que sobrevive. Existem outras, que não precisam trabalhar tanto para pagar suas contas do mês. Pode ser que as motivações sejam da ordem da competição no trabalho ou nos estudos, de atingir algo que massageie o ego, de atender a expectativa do outro. Não sei qual é o seu caso, isso a gente conversa na consulta ou eu “pesco” nas entrelinhas.

Não adianta culpar a tireoide ou adrenal pela sua fadiga se os seus exames estão normais. Sim, concordo precisamos buscar algo orgânico para alguma fadiga inexplicada. Entretanto, é muito frequente que eu veja que o problema está no estilo de vida inadequado da pessoa e não nos seus exames.

Se você não é obrigado só a SOBREVIVER dentro do tempo que você tem, ou se sobrevive mesmo sem ser obrigado, pense em VIVER em seu tempo, de verdade, da melhor forma possível.

“Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.”

Você vive ou sobrevive?

Reação idiossincrática e hospitalização por ozempic

Uma jovem foi hospitalizada e estava
usando ozempic, a semaglutida injetável. O curioso foi
que ela não apresentou problemas no pâncreas, como
seria possível e descrito em bula, mas sim uma
hepatite fulminante que a levou para UTI.

A hepatite foi tão fulminante como um raio que cai na
cabeça de alguém. Não só foi algo rápido, como
aleatório. Esse fato me pareceu um caso de uma
reação idiossincrática ou de um fenômeno chamado
idiossincrasia.

“Em medicina o termo denota uma hipersensibilidade
não imunológica para uma substância, sem conexão
com toxicidade farmacológica, ou seja, é um efeito
independente de dose tóxica”, diz o wikipedia.

Essa reação não pode ser prevista e pode acontecer
independente da dose e se ela tenha se automedicado
ou não. Isso quer dizer que pode acontecer com
pessoas façam uso de medicações prescritas pelo
médico.

Como adivinhar se a pessoa vai ter essa reação ao
ozempic ou outra substância? A resposta é não tem
como. A gente reza para que não aconteça com a
gente ou com algum paciente nosso.

Idiossincrasia (do grego ἰδιοσυγκρασία, “temperamento
peculiar”, composto de ἴδιος [“peculiar”] e σύγκρασις
[“mistura”]) é uma característica comportamental ou
estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo.

Essa nóticia deixou muitos pacientes em pânico nos
últimos dias e quem estiver preocupado pelo uso da
medicação, deve procurar seu médico ou consultar um.

Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Doutora em Ciências pela USP, Professora do curso de Medicina da uninove campus Mauá