Arquivo da categoria: Paratireoides

Essa categoria contém um post de introdução e posts relacionados às doenças da paratireoide ou que influeem na produção do hormônio PTH.

Efeitos do lítio sobre tireoide, paratireoide, peso e rim

Revisto em 8 de junho de 2024

Além do psiquiatra, o lítio tem especial interesse também ao clínico e ao endocrinologista, pois entre os potenciais efeitos adversos estão a interferência com o sistema endócrino: tireoide, paratireoide; metabólico: ganho de peso; função renal e diabetes insipidus.

O lítio tem sido utilizado para transtornos do humor, incluindo mania, depressão bipolar ou unipolar e como profilaxia de transtorno bipolar, demonstrando redução do risco de suicídio e mortalidade a curto prazo. Como droga antiga e barata, além do crescente interesse na promoção de novas drogas, novos estudos com essa medicação são limitados. É uma medicação tem uma janela terapêutica estreita, isto é, a dose terapêutica é próxima à toxica, levando a necessidade de monitorar seus níveis séricos e além de outros parâmetros laboratoriais. Apesar disso, o lítio é uma das drogas mais efetivas ao longo prazo no tratamento do transtorno de humor.

Os riscos e os benefícios das medicações devem ser sempre pesados pelo médico e discutidos com o paciente. Não só o lítio, mas novas drogas têm mostrado preocupação no perfil de segurança (perfil de efeitos adversos) pelo aumento da síndrome metabólica, notadamente com o uso da olanzapina.

Esse post traz um resumo dos principais achados de um artigo de revisão sistemática e metanálise, que triou quase 6000 estudos sobre o lítio, incluindo 385 estudos para análise. No final, há uma recomendação prática sobre o manejo dos pacientes antes e durante a terapia com lítio no tocante ao manejo clínico (1).

LÍTIO E TIREOIDE

O lítio é um metal alcalino que pode atingir altas concentrações na célula tiroidiana. Em humanos, a administração de lítio pode inibir a captação de iodo pela tiroide por um mecanismo de competição. Ademais, pode haver alterações na síntese (inibição do acoplamento de iodotirosina e alteração na estrutura da tireoglobulina) e secreção dos hormônios tiroidianos. Há referências também a aumento de doenças autoimunes da tiroide em uso de lítio(3).

Para que a produção do hormônio tiroidiano seja adequada, há um elevação do hormônio tireoestimulante (TSH), caracterizando o hipotireoidismo, nesse caso, induzido pelo lítio. O aumento do TSH pode estimular o crescimento da tiroide e resultar em bócio.

O risco de hipotireoidismo aumenta em cerca de seis vezes em pacientes recebendo lítio.
Embora não seja uma recomendação formal de tratar pacientes com hipotireoidismo induzido pelo lítio, o tratamento deve ser considerado se houver alterações de humor importantes. A conversa entre endocrinologista ou clínico e psiquiatra é essencial para decidir sobre a reposição com hormônio tiroidiano.

O hipertiroidismo pode ocorrer com uso prolongado de lítio, embora o risco é bem menor que em relação ao desenvolvimento de hipotireoidismo.

O hipertiroidismo induzido por lítio é caracterizada por tireoidite transitória e indolor, que pode ser por um efeito tóxico sobre a glândula. Outras formas de tireoidite também já observadas em pacientes em uso de lítio. Há ainda a possibilidade é que o hipertireoidismo seja decorrente de um processo autoimune, desencadeando a Doença de Graves (3).

LÍTIO E PARATIROIDE

As paratireoides são quatro glândulas do tamanho de uma ervilha, localizados junto à tiroide e estão relacionadas ao metabolismo do cálcio (Fig 1). A regulação da paratireoide é realizada principalmente pelos níveis de cálcio e vitamina D como um modelo regulação de glândula endócrina independente.

hipoparatirodismo

Hiperparatiroidismo primário é frequente em pacientes recebendo lítio: risco absoluto de 10% versus 1% observado na população geral.

Um dos mecanismos prováveis é a inativação do receptor sensível ao cálcio e interferência de mecanismos intracelulares de sinalização, como na Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar. Com isso, o cálcio deixa de ativar o seu receptor na paratiroide e não exercer o feedback negativo na secreção de PTH.  A paratireoide, dessa forma, entende essa falta de estimulação do receptor como uma diminuição dos níveis de cálcio sanguíneos e, como compensação, aumenta a secreção do hormônio paratireoidiano (PTH), levando a um aumento nos níveis de cálcio circulantes e um quadro de hiperparatireoidismo primário (por problemas na glândula).

O uso prolongado do lítio pode levar a um aumento expressivo da paratireoide e ser necessária retirada cirúrgica da glândula. Há casos descritos de reversão do hiperparatireoidismo com suspensão da droga e uso de medicações miméticas ao cálcio (cinacalcet).

Até 25% dos pacientes podem ter alterações em tireoide e paratireoides.

LÍTIO E GANHO DE PESO

O ganho de peso foi avaliado num total de 14 estudos randomizados, comparando lítio com placebo ou outras medicações. O ganho de peso que foi considerado significativo foi um aumento maior que 7% do peso anterior à terapia com lítio. O lítio aumentou em quase duas vezes o risco para ganho de peso em relação ao placebo, porém o risco foi 70% menor quando comparou-se o lítio à olanzapina.

Vários mecanismos podem explicar a ligação de lítio e ganho de peso: sua propriedade semelhante a insulina em aumentar a captação de glicose, aumento da sede, estimulação dos centros hipotalâmicos do apetite, e a indução de hipotireoidismo. O lítio pode afetar neurotransmissores, mas em menor grau que a olanzapina, por exemplo, que inibe os receptores de histamina e serotonina no cérebro.

LÍTIO E RIM

Há dois potenciais efeitos desse metal sobre o rim:

1. Redução da função renal

O funcionamento dos rins pode ser reduzido pelo uso de lítio, embora essa diminuição não seja importante na maioria dos pacientes, porém é o efeito mais temido por médicos e pacientes.

Uma das medidas de avaliação da função renal é medida pela taxa de filtração do sangue pelos glomérulos. Existem várias fórmulas para avaliar essa taxa de filtração glomerular (TFG): medida diretamente através de exames de urina ou de forma estimada por fórmulas que podem ser  obtidas através de calculadoras e aplicativos para celular. Uma taxa de filtração de 90ml por minuto é considerada normal. A taxa de filtração glomerular também diminui de forma fisiológica com a idade.

O risco de toxicidade renal com lítio (especificamente de doença renal em fase terminal) é muito baixa (0,53% comparado a 0,2% na população geral).

O mecanismo para o dano para os glomérulos ainda não é totalmente conhecido.

2. Diabetes insipidus nefrogênico (resistência ao avp)

Sintomas do diabetes são poliúria (excesso de diurese) e polidipsia (sede intensa).

Diferente do diabetes mellitus, cuja palavra significa sifão de mel devido à característica da urina doce (glicosúria), o diabetes insipidus não tem relação com a excreção de glicose pelo rim.

O diabetes insipidus decorre por falhas na secreção de regulação de hormônios do hipotálamo (diabetes insipidus central) ou por alterações na concentração de urina pelo rim (diabetes insipidus nefrogênico).

Cerca de 180 litros de sangue é filtrado nos glomérulos, mas menos de 2 litros de desse filtrado é eliminado na urina. Esse trabalho de reabsorção da maioria de compostos vitais e água é realizado pelos túbulos e ductos coletores, tornando a urina mais concentrada que o sangue. A falha na reabsorção de água aumenta a diurese e torna a urina menos concentrada.

Em uso de lítio, a capacidade de concentração da urina é reduzida em até 15%. A poliúria decorrente dessa alteração pode ser um fator limitante para o tratamento.

O mecanismo potencial está relacionado com a inibição de uma via ligada de sinalização intracelular que é ativada pelo hormônio antidiurético.

A poliúria é revertida com a suspensão do lítio ou tratada, curiosamente, com diurético amilorida.

Orientações gerais para terapia com lítio

Antes da terapia 

• Discutir os riscos e benefícios do tratamento com o paciente
• Avaliação clínica, incluindo peso


• Dosagens laboratoriais:
-Dosagem de TSH, T4 livre – avaliação de função tireoidiana)
-Dosagem de cálcio sérico
-Avaliação da função renal (creatinina e cálculo da TFG)


• Orientações sobre contracepção, já que ainda não está esclarecido o risco de malformações fetais*

Alguns autores sugerem realização de USG de tiroide e dosagem de anticorpos antitirioidianos pelo risco de desenvolvimento de bócio e autoimunidade induzidos pelo lítio.

Durante a terapia

• Testes para avaliação tireoidiana, paratireoidiana e renal (no mínimo: creatinina para cálculo do TGF, TSH e cálcio) devem ser repetidos num intervalo mínimo de 12 meses, mas frequentemente se o paciente tem história familiar de doença endócrina
• Testes devem ser repetidos imediatamente se houver mudança no estado de humor (por exemplo, mania)
• Alterações de efeitos adversos devem ser registrados (incluindo alterações de pele e cabelo)
• Mulheres que gostariam de conceber ou que ficaram grávidas durante o uso de lítio devem ser orientadas que o aumento do risco de malformação congênita é incerto; pacientes e médicos devem discutir o risco-benefício entre potencial dano ao bebê e instabilidade de humor da mãe antes de decidir por suspender a terapia com lítio*.

Dosagem de autoanticorpos contra tireoide (caso tenham sido negativos antes do início da terapia) e realização de ultrassonografia de tiroide podem ser considerados (3).

*Um artigo observacional posterior demonstrou aumento do risco de malformações cardíacas (anomalia de Ebstein) em mulheres em tratamento com lítio. Esse efeito foi considerado de baixa magnitude (4).

Por último, e não menos importante, não se deve esquecer do incentivo e reforço na mudança ou manutenção de hábitos saudáveis relacionadas à alimentação, ingesta de água, atividade física e sono como adjuvante à terapia medicamentosa para o transtorno de humor e minimizar o possível ganho de peso resultante do tratamento medicamentoso.

Referências

1 MCKNIGHT, R. F. et al. Lithium toxicity profile: a systematic review and meta-analysis. Lancet, v. 379, n. 9817, p. 721-8, Feb 2012. ISSN 1474-547X.

2 WELLS, J. E.; CROSS, N. B.; RICHARDSON, A. K. Toxicity profile of lithium. Lancet, v. 379, n. 9834, p. 2338, Jun 2012. ISSN 1474-547X.

3 KIBIRIGE, D.; LUZINDA, K.; SSEKITOLEKO, R. Spectrum of lithium induced thyroid abnormalities: a current perspective. Thyroid Res, v. 6, n. 1, p. 3, Feb 2013. ISSN 1756-6614.

4 PATORNO, E.  et al. Lithium Use in Pregnancy and the Risk of Cardiac Malformations. N Engl J Med, v. 376, n. 23, p. 2245-2254, 06 2017. ISSN 1533-4406

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Hipoparatireoidismo: PTH baixo e cálcio baixo

O que é hipoparatireoidismo?

O hipoparatireoidismo é uma condição na qual há deficiências do hormônio paratireoideano, paratormônio ou PTH, que é produzido pelas glândulas paratireoides.

As paratireoides são quatro glândulas do tamanho de uma ervilha, localizados junto à tiroide. A causa mais comum dessa doença é de longe a cirurgia de retirada da tireoide (tireoidectomia).

Esse post traz um pouco do metabolismo do cálcio, causas, tratamento e complicações do hipoparatireoidismo.

Ação do PTH no metabolismo do cálcio e fósforo

Quando os níveis de cálcio caem, o PTH tenta elevar o cálcio para níveis normais pela sua mobilização a partir do osso, rim e intestinos para dentro da corrente sanguínea.

O cálcio é um mineral estocado nos ossos onde faz parte da sua estrutura e mantem a resistência do osso. É também encontrado em qualquer parte do corpo. Ajuda a contração muscular, e a manutenção do funcionamento normal dos nervos e do cérebro, além de regular o ritmo cardíaco e pressão sanguínea.

O fósforo é um mineral encontrado em todas as células, mas estocado principalmente nos ossos. Ajuda o corpo a usar alimento como energia. Também ajuda no funcionamento adequado dos rins, músculos, coração e nervos.

A vitamina D também participa do metabolismo do cálcio e também regula a produção de PTH. Quando a vitamina D está baixa, há menos absorção de cálcio e consequentemente queda dos níveis de cálcio no sangue, com isso, há maior liberação de PTH. Isso que aconteceria numa pessoa sem hipoparatireoidismo.

O modelo de regulação hormonal do cálcio é um exemplo do modelo de glândula independente, ou seja, está na dependência dos níveis séricos de cálcio e fósforo.

Cálcio baixo e fósforo alto no hipoparatireoidismo

O PTH estimula a conversão da 25(OH)D na sua forma ativa – a 1,25(OH)D, também conhecido por calcitriol. Na deficiência de PTH há menor formação de calcitriol e, com isso, menor absorção de cálcio no intestino e menor reabsorção de cálcio pelo rim. O resultado é a queda de cálcio no sangue.

O paratormônio é também considerado um hormônio fosfatúrico. Isso significa que o PTH estimula a eliminação de fósforo pela urina. Embora o PTH estimule a retirada do fósforo no osso, o efeito final dele é redução dos níveis de fósforo.

Apesar da falta do PTH levar também a uma menor absorção intestinal de fósforo, o efeito final da deficiência de PTH é a maior retenção do fósforo. Sendo assim, no hipoparatireoidismo temos aumento do fósforo no sangue.

Causas do hipoparatireoidismo

O hipoparatireoidismo é uma condição rara, com prevalência estimada de 0,25 por 1.000 indivíduos. Estima-se que cerca de 75% de todos os casos de hipoparatieroidismo sejam pós-cirúrgicos.

O hipoparatireoidismo no Brasil é principalmente causado pela destruição das glândulas durante cirurgias de retirada de toda tireoide, cirurgias de garganta ou pescoço.

O hipoparatireoidismo transitório após a cirurgia é comum, e há recuperação da função das glândulas em 6 meses. Após esse período, o hipoparatireoidismo é considerado definitivo. A prevalência de hipoparatireoidismo transitório varia de 3% a 52%, enquanto do hipoparatireoidismo definitivo, varia de 0,4% a 13%. Esses dados são possivelmente subestimados.

O hipoparatireoidismo também pode ser hereditário. Outras causas incluem:

• Doença autoimune (quando o sistema de defesa do organismo ataca as próprias células;
• Radiação na cabeça ou pescoço;
• Baixos níveis de magnésio no sangue.

Sem quantidade suficiente de PTH, os níveis de cálcio no sangue podem cair e os níveis de fósforo podem aumentar, resultando nos quadros agudos e nas complicações a longo prazo.

Sintomas do hipoparatireoidismo

Os sintomas estão relacionados à queda dos níveis de cálcio no sangue, os mais comuns são dormência e formigamentos em face e extremidades, fraqueza muscular, cãibras. Em casos mais graves de hipocalcemia, convulsões, espasmo da laringe. Catarata e calcificações cerebrais também fazem parte do quadro clínico.

No exame físico, a presença do sinais de Trousseau e Chvostek sugerem hipocalcemia. A hipocalcemia crônica pode ser assintomática e descoberta muito tempo depois do início da deficiência de PTH, chegando o diagnóstico ser feito após meses a anos.

Diagnóstico do hipoparatireoidismo

O hipoparatireoidismo deve ser suspeitado na presença de sintomas sugestivos e história de cirurgia ou irradiação cervical prévia.

O diagnóstico é feito pelos exames de sangue, pelo achado de níveis inapropriadamente baixos de PTH, associados a baixos níveis de cálcio no sangue.  O termo inapropriado quer dizer que esperávamos um PTH alto para um determinado nível de cálcio baixo. É possível que se tenha níveis de PTH dentro da referência do método laboratorial.

No gráfico abaixo, se tivermos um cálcio iônico de 1,0nM, seria esperado a secreção máxima de PTH, o que não ocorre no hipoparatireoidismo.

Curva de secreção do PTH em relação ao cálcio sérico. Quanto menor o cálcio, maior seria a secreção de PTH
Figura 2. Ponto de ajuste da secreção de pth conforme o nível de cálcio no sangue

Outros exames comumente solicitados são: albumina (para cálculos de correção do cálcio), fósforo, magnésio, vitamina D e dosagem de cálcio em urina de 24h.

Tratamento do hipoparatireoidismo

O tratamento da hipocalcemia com manifestações agudas (crise hipocalcêmica) é feito com formulações de cálcio na veia no pronto socorro.

O tratamento do hipoparatireoidismo no consultório é realizado através da suplementação de cálcio e vitamina D ativa (calcitriol), tanto para hipoparatireoidismo transitório como permanente. Na grande maioria dos casos, essa terapêutica é eficaz.

O objetivo do tratamento é manter o cálcio sérico próximo ao limite inferior do normal e reduzir o fósforo para o limite superior da normalidade.

O uso de medicações que se ligam ao fósforo e não deixam ele ser absorvido (quelantes) podem ser necessários. Dieta pobre em fósforo também pode ser considerada para reduzir os níveis de fósforo no sangue.

Infelizmente, a vitamina D não substitui plenamente a função do PTH. O PTH estimula a reabsorção de cálcio no rim, reduzido o cálcio na urina (hipercalciúria) e aumentando no sangue. Já a vitamina D não tem essa ação e a quantidade de cálcio aumenta na urina, podendo causar calcificação no rim, cálculo renal e insuficiência renal como complicações tardias.

Para corrigir a hipercalciúria durante o tratamento do hipoparatireoidismo, uso de diuréticos tiazídicos podem ser utilizados (hidroclorotiazida 25 a 50mg). A hipercalciúria é definida como cálcio em urina de 24h > 300mg ou 4mg/kg/dia.

Os níveis de magnésio podem reduzir na hipocalcemia e a reposição de magnésio pode ser necessária para ajudar na correção do cálcio.

Nos casos mais graves de hipoparatireoidismo definitivo, em que o tratamento com cálcio e vitamina D não são suficientes, a administração injetável por via subcutânea de uma nova forma de PTH recombinante (PHT-RT) foi eficaz em normalizar os níveis de cálcio. Essa nova formulação foi aprovada nos Estados Unidos pela agência reguladora (FDA). Ela é idêntica ao PTH produzido no organismo, com 84 aminoácidos na sua estrutura, mas no ano passado houve um recall do mercado dessa medicação pelos seu fabricante.

Em agosto de 2024, o FDA aprovou a palopegteriparatide, um análogo do PTH (1-34) longa duração sob o nome de Yorvipath, originalmente nomeado como Transcon PTH.

Paratireoides e estrutura molecular do PTH som seus 84 aminoácidos
Paratireoides e estrutura molecular do PTH com seus 84 aminoácidos

A teriparatida é um medicamento que contêm apenas os primeiros 34 aminoácidos: PTHrh (1-34). Seria natural pensar nessa medicação para o tratamento do hipoparatireoidismo, mas ela foi testada e liberada para uso apenas nos casos graves de osteoporose.

Complicações crônicas

As complicações crônicas podem ser decorrentes da progressão da doença ou do tratamento do tratamento.

Elas acontecem por desbalanço do cálcio e fósforo. A combinação do cálcio e fósforo podem causar calcificações extraesqueléticas em diversos órgãos.

As manifestações podem ser

  • Renais: cálculo renal, calcificação do tecido renal (nefrocalcinose) e insuficiência renal;
  • Cardiovasculares: como infarto, derrame e arritmias;
  • Oculares: (catarata); 
  • neuropsiquiátricas: calcificações cerebrais, convulsões e sintomas como fadiga, dificuldade de concentração, depressão; musculoesqueléticas:
  • Musculoesqueléticas: fraturas vertebrais pela pouca remodelação óssea, embora os pacientes tenham aumento da densidade mineral óssea na densitometria.

Considerações finais

O hipoparatireoidismo é uma doença principalmente resultante de cirurgias de retirada da tireoide. O tratamento básico trata os efeitos da deficiência hormonal, e ainda a reposição do hormônio recombinante tem seus riscos e carece de mais tempo para demostrar sua eficácia. Apesar de haver poucas estatísticas sobre a prevalência dessa doença, há possivelmente um aumento do número de casos devido disseminação substancial do rastreamento de câncer de tireoide, e consequentemente, de cirurgias de tireoidectomia.

O rastreamento de câncer de tireoide é bem discutível, justamente pelo risco de complicações pós cirúrgicas. Esse questionamento sobre a validade de rastreamento precoce é objeto de um post nesse blog. O sobrediagnóstico (overdiagnosis) e sobretratamento (overtreatment) não são inofensivos, e o hipoparatireoidismo é um bom exemplo desses dois fenômenos tão atuais.

Referência

Diagnóstico e tratamento do hipoparatireoidismo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) 2018.

Importância do controle do fósforo no hipoparatireoidismo
Vídeo sobre hipoparatireoidismo
Publicação do Instagram
Síndrome de Fahr – calcificação intracerebral

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