Esse é um assunto muito importante, já bastante falado pelos endocrinologistas, mas não deixaria de comentar sobre ele aqui no blog. Quando dosar e repor testosterona na mulher?
Nos nossos consultórios, é super frequente que chegue uma mulher dizendo que tem problema de testosterona baixa. Se ela não está na menopausa, a testosterona baixa não é um problema médico, aos olhos do endocrinologista. Se ela já entrou na menopausa e está sofrendo com redução da libido, podemos ponderar o uso da testosterona se, e somente se, não houver contraindicação ao seu uso.
Os níveis de testosterona nas mulheres vão reduzindo ao longo da vida reprodutiva, mas os seus valores permanecem relativamente estáveis até os 65 anos de idade. Se essa sobrevida da testosterona é uma vantagem, ainda não está bem definido na literatura científica.
Quando dosar testosterona na mulher?
Os endocrinologistas se preocupam apenas se a testosterona está alta (e não baixa), como já comentado. Em mulheres com queixa de excesso de pelo, acne, queda de cabelo, que são sinais de excesso de testosterona, muito frequentes na Síndrome dos Ovários Policísticos, na Hiperplasia Adrenal Congênita e outros problemas que têm aumento dos “hormônios masculinos”, dosamos a testosterona no sangue.
Mulheres sem queixas e sem sinais de excesso de hormônio masculino, a testosterona não deve ser dosada. Entretanto, chegam a nós resultados de dosagens de testosterona em mulheres que não têm queixas compatíveis com excesso desse hormônio, solicitados por outros colegas médicos. Se a testosterona está “baixa” temos ainda que ponderar que a medida laboratorial da testosterona tem suas dificuldades.
Como aqui nesse blog chegam muitos colegas da área de saúde, vale a pena comentar sobre essa limitação técnica a da dosagem da testosterona em níveis mais baixos, como acontece nas mulheres.
Métodos laboratoriais para determinação da testosterona
Nos métodos baseados em imunoensaio, quando temos a dosagem com a utilização de anticorpos, pode haver uma falta de especificidade e de precisão em valores mais baixos de testosterona, ou seja, um outro esteroide pode ser medido no lugar da testosterona, já que são moléculas muito parecidas.
Os imunoensaios para a testosterona foram padronizados principalmente para homens e eles não têm uma boa sensibilidade quando a dosagem de testosterona é baixa. Sabendo disso, alguns laboratórios colocam como referência da testosterona para mulheres “até x”, como na Figura 1. Isso quer dizer que abaixo disso é normal, mas não determinam um limite inferior para o valor de referência.

Esse obstáculo da falta de especificidade seria superado com a separação das diferentes moléculas de forma mais precisa por sua massa no método laboratorial chamado de espectrometria acoplada à cromatografia, considerado como “padrão-ouro”. Infelizmente, não temos essa última metodologia amplamente disponível nos laboratórios comerciais. O que se analisa são os esteroides por imunoensaio e, portanto, sujeito a erros de leitura.
A figura abaixo mostra as diferentes técnicas para determinação dos hormônios esteroides: os imunoensaios, espectrometria de massa e a cromatografia líquida em tandem.

Avaliação clínica, transtorno do desejo sexual hipoativo e reposição de testosterona na mulher
A testosterona é tida por muitos como um hormônio de vitalidade e nas mulheres com queixa de falta de energia, desejo sexual. Sendo assim, a “testosterona baixa” é sempre uma culpada por essas queixas.
Se temos uma mulher em fase reprodutiva (menacme) com queixa de falta de libido sexual, muito antes de pensar na testosterona, é necessário avaliar se não há outros interferentes que possam prejudicar o desejo sexual como: distúrbios hormonais, como aumento da prolactina, problemas psicológicos e de relacionamento com parceiro(a), efeito colateral de medicações como alguns antidepressivos, estilo de vida inadequado etc.
Vale a pena lembrar que uma das causas comuns de “testosterona baixa” fora da menopausa é a pílula combinada (anticoncepcional oral). A pílula combinada sabidamente reduz a testosterona livre por aumento da SHBG, como já vimos em outro post nesse blog.
Nas mulheres na pós-menopausa com queixa de redução da libido, temos que ver se elas têm o que se chama transtorno desejo sexual hipoativo (TDSH). Da mesma forma, antes de pensar na reposição da testosterona, podemos avaliar se não há doenças crônicas e uso de medicações que possam reduzir a libido, como fazemos com as mulheres em fase reprodutiva.
Na menopausa, caso haja outros sintomas dessa fase, como fogachos, ressecamento vaginal e não haja contraindicação à terapia hormonal estrogênica, a reposição de estradiol associada ou não à progesterona já pode resolver várias questões, inclusive da libido sexual. Esse tratamento, mesmo sem a testosterona, pode melhorar a qualidade de vida, a qualidade do sono, a lubrificação vaginal e, como consequência, o desejo e ato sexual ficam mais satisfatórios.
Se mesmo com terapia hormonal estrogênica adequada, caso a mulher na pós-menopausa atenda aos critérios de TDSH, podemos pensar na terapia com testosterona associada ao tratamento hormonal padrão.
O TDSH é uma redução ou ausência de desejo ou motivação para a atividade sexual. E quais são esses critérios para o transtorno do desejo sexual hipoativo?
- Redução ou ausência de desejo sexual (pensamentos ou fantasias);
- Redução ou ausência de responder a sinais e estimulação eróticos;
- Incapacidade de manter o desejo ou interesse na atividade sexual quando já iniciada.
Esses sintomas devem ser persistentes, durarem mais de seis meses, e devem causar sofrimento significativo para mulher. Esse último ponto em negrito é realmente de destaque, pois seria a condição para se pensar em repor testosterona. Se a mulher tem redução do desejo sexual e não está mal por conta disso, está “de boa”, a testosterona não é indicada.
Passadas todas as etapas de avaliação de fatores interferentes, terapia hormonal estrogênica adequada, se o diagnóstico de TDSH for feito, a terapia com testosterona pode ser indicada.
Como fazer a prescrição e acompanhamento do uso da testosterona em mulheres
O problema agora é que aqui no Brasil não temos formulações de testosterona em baixas doses, considerando que a dose recomendada para início de tratamento de mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo é de apenas 300μg de testosterona ao dia por via transdérmica em adesivo.
Já que não temos produtos com essa dose, temos que solicitar que a paciente obtenha o hormônio na farmácia de manipulação. No nosso meio, o mais comum é que a testosterona seja manipulada em gel, que pode ter uma absorção e biodisponibilidade variável. Na Tabela 1 temos uma sugestão de formulação da testosterona.
| Dose | Veículo | Absorção | Exemplo de prescrição |
| Testosterona base 1-5 mg | Veículo de alta performance (Pentravan® ) | 50% a 63% | Testosterona base 2,0 mg Pentravan® q.s.p……1,0 ml |
| Veículo alcóolico | 9% a 14% | Testosterona base 5,0 mg veículo alcóolico q.s.p…1,0 ml |
Os implantes de testosterona não são recomendados para essa finalidade.
É aconselhável que se tenha uma dosagem de testosterona antes do início da terapia e depois de 3 a 4 semanas após seu início para ajuste de dose. Uma vez a dose mínima necessária para melhora dos sintomas seja atingida, deve-se reavaliar os níveis de testosterona após 3 meses.
Não há estudos que comprovem a segurança da testosterona em longo prazo. Por isso, o tratamento deve ser sempre realizado com um acompanhamento cuidadoso.
Considerações finais
Os endocrinologistas não se cansam de falar que não se dosa testosterona na mulher, apenas se houver suspeita que esse hormônio esteja alto, que não se deve usar testosterona para fins estéticos e de desempenho em qualquer área da vida, que não se pode usar terapia hormonal se há alguma contraindicação, que não há libido que dê conta se a pessoa não tem um estilo de vida adequado, que a terapia hormonal indiscriminada traz muitos riscos à saúde.
Mesmo com todo o empenho da especialidade em disseminar os pontos acima, encontramos muitas mulheres com queixa de libido baixa ou mesmo só de “testosterona baixa”, fruto da propaganda ilusória da terapia hormonal como elixir para todos os males, como ela é vendida nas redes sociais e por médicos inescrupulosos.
Esse texto foi para reforçar o que nós já falamos extensivamente por nós e entre nós em congressos científicos e nas redes sociais, mas que ainda não temos certeza se essas informações estão disseminadas.
A informação que deve ficar é que a única indicação de terapia com testosterona é para mulheres na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo que esteja lhe causando sofrimento, desde que ela não tenha contraindicação.
Agradecimento especial à Monica de Oliveira, minha amiga e colega endocrinologista, pelas sugestões e revisão desse texto.
Referências
- Davis SR, Baber R, Panay N, Bitzer J, Perez SC, Islam RM, Kaunitz AM, Kingsberg SA, Lambrinoudaki I, Liu J, Parish SJ, Pinkerton J, Rymer J, Simon JA, Vignozzi L, Wierman ME. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019 Oct 1;104(10):4660-4666. doi: 10.1210/jc.2019-01603. PMID: 31498871; PMCID: PMC6821450.
- Rossi, C.; Cicalini, I.; Verrocchio, S.; Di Dalmazi, G.; Federici, L.; Bucci, I. The Potential of Steroid Profiling by Mass Spectrometry in the Management of Adrenocortical Carcinoma. Biomedicines 2020, 8, 314. https://doi.org/10.3390/biomedicines8090314
- Lara LADS, Pereira JML, de Paula SRC, de Oliveira FFL, Cunha AM, Lerner T, Villar Y, Antoniassi GPR, Benetti-Pinto CL. Challenges of prescribing testosterone for sexual dysfunction in women: Number 7 – 2024. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024 Jul 26;46:e-FPS07. doi: 10.61622/rbgo/2024FPS07. PMID: 39176198; PMCID: PMC11341187.
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