Arquivo da categoria: Obesidade

A obesidade é uma doença causada pelo excesso de gordura corporal. É uma condição de múltiplas causas e seu tratramento envolve diversos profissionais. Para sua prevenção, necessitamos de políticas públicas amplas, já que a obesidade é considerada uma “epidemia”.

Nessa categoria, você vai encontrar vários artigos sobre o tema de obesidade e doenças correlacionadas.

Artigos mais antigos são periodicamente atualizados.

Boa leitura!

Doença Hepática Gordurosa não-alcoólica: atualizações

Esteatose hepática, esteato-hepatite não-alcoólica, esteato-hepatite não-alcoólica com fibrose, cirrose e finalmente câncer hepático: essa pode ser a possível evolução do acúmulo de gordura no fígado.

A esteatose hepática, mais conhecida como gordura no fígado, está fortemente associada ao sobrepeso e obesidade, ao diabetes e à síndrome metabólica. Atualmente, representa um diagnóstico comum no consultório do endocrinologista e de outros médicos (especialistas ou não), sendo também considerado um problema de saúde pública em várias regiões do globo.

Esse texto foi baseado em dois artigos científicos recentemente publicados em renomadas revistas médicas. O objetivo é dar um rápido panorama – da epidemiologia ao tratamento – da Doença Hepática Gordurosa Não-Alcoólica (DHGNA).

Espectro da doença hepática gordurosa não-alcoólica

A DHGNA inclui um espectro de alterações no tecido hepático que vai desde simples deposição de gordura ao câncer. Mas para dizer que o insulto principal é pela gordura, é necessário excluir outras causas de ao lesão do fígado, tais como o consumo excessivo de álcool, as infecções (principalmente as hepatites virais) e a auto-imunidade .

No espectro da DHGNA temos:

  • Esteatose hepática simples – estágio inicial quando há apenas deposição de gordura. O fígado está gorduroso, mas não está com sinais de inflamação ou fibrose.
  • Estato-hepatite não-alcoólica, também conhecida por NASH (do inglês – Nonalcoholic Steatohepatitis) – há depósito de gordura (esteatose) em mais de 5% do tecido hepático associado a outros achados patológicos nos hepatócitos (células hepáticas), como a degeneração em balão (ou balonamento hepatocelular) e o infiltrado inflamatório.   
  • Cirrose – há fibrose intesnsa e difusa com desenvolvimento de nódulos de hepatócitos;
  • Hepatocarcinoma – crescimento desordenado das células hepáticas decorrente de mutações genéticas. A cirrose é um fator de risco para o hepatocarcionoma.

Não faz muito tempo (eu cheguei a ouvir isso durante a faculdade), dizia-se que a esteatose hepática era uma doença benigna, que não evoluía para cirrose e que médico e paciente não precisavam se preocupar. Hoje, nós sabemos que a gordura no fígado não é tão boazinha assim. De poucas décadas para cá, descobrimos que a esteatose é uma grande vilã: pode evoluir para cirrose, necessidade de transplante e até câncer hepático, além de ser um fator de risco para doença cardiovascular.

A DHGNA pode evoluir para cirrose e câncer

Didaticamente, fala-se que a DHGNA é a doença dos 25% – conforme esquematizado na figura 1 – pois dados estatísticos dos Estados Unidos (1) indicam que:

  • Cerca de 25% de todos os indivíduos adultos têm gordura no fígado (esteatose);
  • Dos pacientes com esteatose, 25% desenvolvem esteato-hepatite (NASH);
  • Dos pacientes que desenvolvem esteato-hepatite, 25% evoluem para cirrose;
  • Finalmente, dos pacientes com cirrose uma porcentagem desconhecida evolui para câncer hepático.
Evolução dos pacientes com doença gordurosa hepática não-alcoólica

No outro artigo de revisão consultado, a evolução descrita é bem parecida (2). Destaque para a possibilidade de regressão da esteato-hepatite para esteatose em cerca de 5% dos pacientes. Na figura 2, observa-se aparência das biópsias hepáticas em cada uma das fases, com aparecimento e acúmulo de tecido fibroso (em verde).

Figura 2. Esquema do espectro da DHGNA e sua possível evolução

Cerca de 80% dos pacientes com estato-hepatite têm sobrepeso ou obesidade, 72% deles têm dislipidemia e 44% receberam o diagnóstico de diabetes tipo 2. Essa frase eu achei muito interessante, a que “a gordura no fígado seria o correspondente hepático da síndrome metabólica, fenômeno que pode ser explicado pela lipotoxicidade causada pelo “transbordamento da gordura” para esse órgão.

Na América do Sul, estima-se que a doença gordurosa não-alcoólica do fígado afete 30% da população. Em vário países, ela já ganhou o primeiro lugar na indicação de transplantes de fígado em mulheres e espera-se que ultrapasse a cirrose hepática alcoólica em homens.

Como a DHGNA é diagnosticada?

Médicos generalistas e nós, endocrinologistas, fazemos uma avaliação inicial do acomentimento hepático como parte do rastreamento de complicações do sobrepeso e obesidade.Nos casos mais graves de gordura no fígado ou quando há alguma dúvida quanto diagnóstico e tratamento, o médico hepatologista deve ser incluído na avaliação e trataemento. Consideramos a história clínica, sinais e sintomas e solicitamos exames complementares.

História clínica

Para dizer que a é doença “não-alcoólica”, é preciso que a pessoa tenha um histórico de consumo de álcool que não ultrapasse duas doses por dia para mulheres e três doses para os homens. Uma dose de álcool seria o correspondente 30 ml de bebida destilada ou 120 ml de vinho ou 360 ml de cerveja.

Sinais e sintomas

Na maioria das vezes, a esteatose ou esteato-hepatite é uma doença assintomática. A descoberta é feita após o resultado de exames de imagem, principalmente ultrassonografia de abdome.

A estato-hepatite (NASH) é também assintomática ou se apresenta com sintomas leves, como uma dor abdominal inespecífica ou fadiga. Se o paciente não tem cirrose, o exame físico pode demonstrar apenas aumento da circunferência abdominal por aumento de gordura visceral.

Exames de sangue e de imagem (caso o paciente já não o tenha) são solicitados complementar a investigação da doença hepática. Vamos ver alguns deles com mais detalhes.

Exames laboratoriais

Dos exames de sangue, as transaminases são os marcadores sempre solicitados para auxiliar na avaliação do dano da gordura ao fígado. As transaminases são representadas pelas:

  • Transaminase Glutâmico Oxalacética (TGO), também conhecida por aspartato aminotransferase (AST);
  • Transaminase Glutâmico Pirúvica (TGP), também conhecida por alanina aminotransferase (ALT).

Por convenção, os estudos sobre o tema incluem pacientes suspeitos para esteato-hepatite aqueles que tenham aumento das suas transaminases em 1,5 vezes o limite superior da normalidade. Por exemplo, se o normal da TGP para um determinado método é até 40 U/L, o valor considerado como sugestivo de esteato-hepatite é um número igual ou superior a 60U/L.

Se utilizarmos esse corte de transaminases mencionado acima para rastreamento de DHGNA, conseguimos detectar corretamente apenas 72% dos doentes (sensibilidade), com cerca de  28% de resultados falso-negativos, e só em 51% dos indivíduos saudáveis teríamos valores normais de transaminases (especificidade) ou seja, há 49% de resultados falso-positivos. Em outras palavras, valores normais de transaminases não excluem o diagnóstico de esteato-hepatite.

Ademais, o grau de aumento das transaminases não se correlaciona com o diagnóstico de esteato-hepatite, grau de fibrose ou de inflamação. O aumento da TGP é geralmente correlacionado com resistência insulínica e grau de gordura no fígado em pacientes com esteato-hepatite. A relação TGO/TGP (ou AST/ALT) é utilizada como uma pista para a causa da doença hepática. Na DHGNA, há aumento semelhante da TGO e da TGP, resultando uma relação entre TGP/TGO = 1.

A dosagem de albumina, das plaquetas e de alguns índices de coagulação sanguínea podem ser solicitados para avaliar a gravidade da doença. Esses marcadores podem ser utilizados em modelos matemáticos, juntamente com dados clínicos do paciente, para estimar o grau de fibrose no fígado.

Como é preciso excluir outras doenças, sorologias para hepatites virais devem ser sempre solicitadas. Marcadores séricos para excluir hepatite auto-imune, além marcadores de doenças hepáticas mais raras podem ser necessários.  

Exames de imagem

A ultrassonografia é o método de imagem mais difundido, fácil e barato para quando se há suspeita de esteatose. Não é de fácil realização em indivíduos muito obesos e a interpretação depende do médico que a faz. A ultrassonografia é comumente realizada em pacientes com sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica com ou sem diabetes para avaliação de DHGNA. É o exame solicitado na investigação inicial.

A Tomografia Computadorizada também pode ser realizada para diagnóstico esteatose, mas é mais cara que a ultrassonografia e utiliza radiação. A ressonância magnética é o método mais sensível para avaliar a esteatose hepática, mas é um método mais caro que e menos disponível a ultrassonografia. Podem ser solicitados após a ultrassonografia para complementar a investigaçõ da DHGNA.

Biópsia hepática

O diagnóstico de esteato-hepatite não-alcoólica requer biópsia hepática. Mas como a biópsia é um procedimento invasivo, tem riscos consideráveis e ainda não muda muito a estratégia de tratamento, deve ser um procedimento muito bem pensado.

Reserva-se a biópsia para casos em que há dúvida no diagnóstico, estando o paciente de acordo com o procedimento. Geralmente indicada e interpretada pelo médico hepatologista.

Elastografia hepática

Na tentativa de substituir a biópsia hepática, métodos não invasivos para determinar o grau de fibrose vêm sendo cada vez mais utilizados. Como toda metodologia nova, não está amplamente disponível e tem alto custo.

Um dos métodos não invasivos mais validados é elastografia hepática por ultrassonografia, que avalia a rigidez (ou elasticidade) do tecido pela propagação das ondas emitidas. Quanto mais fibrótico o tecido, mas rígido ele é, e mais rapidamente as ondas do ultrassom se propagam. Há também elastografia por ressonância magnética.

Figura 3. ilustração da elastografia hepática por ultrassonografia

O Fibroscan® é um dos aparelhos aprovados para realização da elastografia hepática transitória, detecta corretamente a fibrose avançada em 85% e cirrose em 92% dos pacientes acometidos.

Abaixo, nas figuras 4 e 5, temos uma proposta de investigação diagnóstica pelo artigo de revisão mais recente (2).

Figura 4. Algoritmo de investigação diagnóstica
Figura 5. Figura 4. Algoritmo de investigação diagnóstica (continuação)

Tratamento da gordura no fígado

Ainda não existem tratamentos medicamentosos eficazes para eliminar o acúmulo de gordura no fígado e suas consequências. A vitamina E e a pioglitazona são medicações que mostraram benefício para pacientes com esteatose hepática em estudos desenhados primariamente para outras finalidades, mas ainda não existe uma recomendação universal para utilização  desses compostos.

Existe alguma evidência que a dieta mediterrânea seja benéfica para pacientes com DHGNA. Além disso, aconselha-se limitar o consumo de bebidas ricas em frutose e beber duas doses de café (cafeínado) por dia. O consumo de álcool deve ser cessado ou muito limitado (<1 dose para mulheres e < 2 doses para homens) para não danificar mais ainda o fígado.

Perder peso é necessário!

Mesmo após 30 anos da descrição desta entidade, o tratamento mais eficaz para a esteato-hepatite não-alcoólica é a mudança de estilo de vida, leia-se dieta e atividade física, com o objetivo de perda de peso.

Para pacientes com sobrepeso ou obesidade, a restrição calórica mostrou ser a medida mais eficaz no tratamento da doença gordurosa hepática não-alcoólica.  

A atividade física diminui a quantidade de gordura no fígado independentemente da quantidade de peso perdida.

O objetivo é que a perda de peso seja, pelo menos, de 7 a 10% do peso original. Nessas porcentagens, já se verifica regressão parcial ou total do depósito de gordura nas células hepáticas. Perda de peso superiores a 10% foram relacionados até a quadro de regressão da fibrose em estudos com biópsia hepática.

Nos casos de falha do tratamento não medicamentoso para perda de peso, deve-se considerar o uso de medicações para essa finalidade e também a indicação de cirurgia bariátrica.

Por fim, não podemos esquecer que, na maioria das vezes, a DGHNA é uma comorbidade do sobrepeso e obesidade, diabetes, hipertensão e dislipidemia. Em conjunto, essas doenças aumentam muito o risco de doença cardiovascular. Sempre devemos lembrar de associar o tratamento específico de todos esses componentes, com mudança de estilo de vida e medicações quando bem indicadas.

Referências

DIEHL, A. M.; DAY, C. Cause, Pathogenesis, and Treatment of Nonalcoholic Steatohepatitis. N Engl J Med, 377, n. 21, p. 2063-2072, 11 2017.doi: 10.1056/NEJMra1503519

SHEKA, A. C.; ADEYI, O.; THOMPSON, J.; HAMEED, B. et al. Nonalcoholic Steatohepatitis: A Review. JAMA, 323, n. 12, p. 1175-1183, 03 2020. doi: 10.1001/jama.2020.2298

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Suzana

Metabolismo e perda de peso

Vimos num post mais antigo os conceitos de anabolismo e catabolismo. Eles também podem ter um sentido mais amplo do que o consumo e armazenamento das moléculas, podendo se aplicar aos tecidos do corpo. Essa continuação do tema vai abordar principalmente o assunto metabolimo e perda de peso, mas tratarei também de questões sobre dificuldade de ganho de peso.

Metabolismo e perda de peso

Na obesidade, por exemplo, o anabolismo (formação) de tecido gorduroso supera o catabolismo (consumo) do mesmo. O objetivo para o tratamento da obesidade é consumir o tecido adiposo, preservando o tecido muscular.

Metabolismo e sarcopenia

Já para os que desejam ganhar peso, a ideia principal é aumentar o anabolismo (formação) do tecido muscular. Aqui nós não estamos falando do aumento da musculatura por motivos estéticos. Por exemplo, a sarcopenia é uma condição de baixa massa muscular que pode trazer problemas para saúde, principalmente em idosos. Além da boa alimentação, a atividade física também é fundamental para estimular a formação ou minimizar a perda do tecido muscular.

Compontentes do gasto energético diário e como “acelerar o metabolismo” para perda de peso

A gordura é a grande “poupança” energética corporal e vai ser mobilizada quando há necessidade de complementar a quantidade de energia para o metabolismo do corpo. Isso pode ocorrer quando há redução das quantidades de calorias ingeridas na dieta e/ou aumento importante do gasto calórico.

Quando se ouve falar em “aumentar ou acelerar o metabolismo” na obesidade, a ideia principal acelerar a queima do tecido adiposo. O que vai fazer com que isso aconteça é gastar mais calorias do que ingerí-las, fazendo um balanço energético negativo.

Se o metabolismo corporal for aumentado, o processo de emagrecimento será mais rápido. O metabolismo reduzido retarda o processo de emagrecimento.

Para entender melhor como podemos “acelerar o metabolismo” com a finalidade de queimar gordura mais rapidamente, temos que saber de como é composto o gasto metabólico diário.

Gasto metabólico basal

Para manter as funções vitais do corpo (respirar, manter a temperatura corporal, etc), é preciso que seja gasta uma determinada quantidade de calorias. Essa quantidade é chamada gasto metabólico basal, que corresponde a 50 a 70% do gasto energético diário, conforme representado na figura 1.

O gasto metabólico basal sofre influência da quantidade de massa magra, massa gorda, sexo, genética, idade, hormônios e sistema nervoso simpático. A maioria dos componentes não pode ser mudada, mas podemos melhorar a composição corporal.

O gasto metabólico basal corresponde a 50 a 70% do componente energético diário; o efeito termogênico do alimento corresponde a 10% e a atividade física de 20 a 40%
Figura 1. Componentes do gasto energético diário.

A massa magra pode ser estimada pela bioimpedância corporal. Por cálculos matemáticos, considerando idade, sexo, composição corporal, a bioimpedância estima o gasto metabólico basal. Na figura 2, o gasto metabólico estimado foi de 1460 calorias ao dia.

Avaliação do biotipo conforme quantidade de massa magra e gordura corporal. A taxa metabólica basal estimada é de 1460 calorias no exemplo da figura.
Figura 2. Avaliação do biotipo conforme quantidade de massa magra e gordura corporal. BMR – basal metabolic rate – gasto metabólico basal

Termogênese

A termogênese é definida como aumento no gasto metabólico de repouso em resposta a estímulos tais como comida, influências psicológicas (medo ou estresse), exposição ao frio, substâncias químicas e hormônios. Como observado na figura 1, a termogênese alimentar e pela atividade física fazem parte do gasto metabólico diário.

Termogênese alimentar

Cerca de 10% do gasto energético diário corresponde ao termogênese alimentar. O que significa isso? Há alimentos que fazem com que o corpo gaste mais energia para digerí-los. Por exemplo, um alimento rico em proteína requer mais energia para sua digestão que um rico em carboidrato, em outras palavras, é mais “trabalhoso” digerir um bife que uma massa.

Ambos, proteínas e carboidratos, oferecem a mesma quantidade de “caloria bruta” por grama, mas a energia gasta para quebrar a proteína é maior que a para o carboidrato, resultando em menor quantidade de “caloria líquida” da primeira em relação à segunda. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos alimentos ultraprocessados, parte do trabalho já foi feito para digerí-los através das modificações realizadas pela indústria alimentícia. Sabemos que os alimentos ultraprocessados e as bebidas adoçadas são grandes vilões para a saúde.

Efeito da atividade física sobre o metabolismo

A atividades física, seja ela espontânea (a não programada) e também a voluntária (programada), corresponde aos restante 20 a 40% do gasto energético diário. A atividade física é o componente que mais podemos atuar para incrementar o gasto metabólico no dia a dia.

Os exercícios físicos têm efeito positivo sobre a saúde cardiovascular, evitam a progressão do pré-diabetes para o diabetes, controlam do estresse, melhoram do sono e têm tantos outros efeitos benéficos para saúde. Entretanto, é fundamental associar ao exercício uma dieta hipocalórica para perder peso.

Alguns pacientes, às vezes, não notam diferença no seu peso, mas notam redução nas medidas corporais e número de manequim das suas roupas. Esse efeito é resultado da substituição da gordura por músculo, esse último que tem um volume bem menor que o primeiro; ou seja, a gordura ocupa mais espaço que o músculo.

Aumentar ou preservar músculo é fundamental

Mas se você quiser mesmo acelerar seu metabolismo para perda de peso, é fundamental a atividade física para que, a médio e longo prazo haja uma mudança da composição corporal. A mudança desejada é o aumento ou preservação de massa muscular e redução da quantidade de gordura corporal. Algum músculo pode ser perdido no processo de emagrecimento, mas perder o mínimo possível é o que se quer. O músculo consome muito mais calorias para se manter que a gordura, aumentando o gasto metabólico basal.

É fundamental associar exercício físicos aeróbicos e resistidos (exemplo – musculação). Os exercícios resistidos estimulam mais a formação de músculo. Se você perdeu peso e deseja mantê-lo, os exercícios físicos são essenciais.

Para ganhar peso, no fim do dia, você tem que consumir mais energia que seu gasto metabólico total. Já para perder peso, você tem que consumir menos calorias que o seu gasto metabólico diário. Parece simples, mas não quero dizer que seja fácil. Algumas medicações podem ajudar nesse sentido.

Como se mede o metabolismo?

O metabolismo é determinado pela quantidade de oxigênio consumido pelo organismo. Quando essa medida é feita em repouso, temos a medida do metabolismo basal. O principal método de medida do metabolismo é feito pela calorimetria indireta, que avalia o a queima de gordura e carboidrato pela análise do oxigênio consumido e gás carbônico produzido. O exame é realizado por cerca de 30 minutos e esse valor é extrapolado para as 24 horas.

Novamente, a apartir de modelos matemáticos, o metabolismo medido pela calorimetria indireta é comparado com valores de referência para população de mesma idade e sexo. Só assim podemos dizer, com relativa segurança, se o metabolismo da pessoa está abaixo ou acima do esperado e pode estar contribuindo com a obesidade ou dificuldade de ganho de peso.

Mulher realizando o teste de calorimetria indireta
Aparelho de calorimetria indireta

Em linhas gerais

Vimos que o metabolismo sofre influência de diversos fatores, incluindo os hormonais. O balanço energético pode pender para o acúmulo de calorias na obesidade ou para o maior gasto quando há dificuldade de ganho de peso.

Se você quer ganhar peso, tem que fornecer ao organismo matéria prima para formação dos tecidos (carboidratos, gorduras e proteínas). Lembre-se que alguma gordura corporal é necessária para o perfeito funcionamento do organismo, mas seu excesso é prejudicial à saúde.

Se o problema é excesso de peso, o balanço energético tem que ser negativo: você tem que gastar mais calorias do que está consumindo. Logicamente, a qualidade da alimentação é importante. Os alimentos integrais e minimamente processados têm menor quantidade de calorías líquidas em relação às suas versões ultraprocessadas.

A atividade física é recomendável para qualquer pessoa a fim de manter a saúde geral e o bem-estar físico, psicológico e melhorar a qualidade do sono. Para quem quer “acelerar o metabolismo”, a atividade física é fundamental, pois aumenta o gasto calórico diário e pode aumentar ou evitar que o gasto metabólico basal diminua muito com a idade em médio e longo prazo.

As doenças hormonais não são a principal causa de dificuldade de ganhar peso ou de obesidade, o estilo de vida e a genética pesam muito. Entretanto, se houver mais outros sinais e sintomas que possam sugerir uma doença hormonal por trás ou grande dificuldade em atingir seus objetivos em relação ao seu peso, uma consulta ao endocrinologista pode lhe ajudar. O especialista tem como avaliar se está tudo em ordem como os seus hormônios e traçar um plano terapêutico alinhado com as suas preferências e objetivos.

Referências

E. Ravussin, B.A. Swinburn, Pathophysiology of obesity.The Lancet, Volume 340, Issue 8816,1992, https://doi.org/10.1016/0140-6736(92)91480-V. (artigo científico em inglês)

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Suzana

Lorcasserina (Belviq) e risco de câncer

Um novo medicamento para o tratamento da obesidade sempre é recebido com grande entusiasmo. O tratamento da obesidade é um grande desafio, principalmente para manutenção do peso perdido. Dieta e atividade física são o alicerce do tratamento e as medicações são indicadas quando essas duas estratégias conjuntas não atingem o objetivo desejado.

No Brasil, a novidade para obesidade é a lorcasserina, encontrada nas farmácias também sob o de Belviq. Aprovada desde 2016, chegou ao mercado só no ano passado, mas nesse pouquíssimo tempo já sofreu um grande golpe: análises recentes de um estudo desenhado para avaliar a segurança cardiovascular do medicamento (CAMMELLIA-TIMI) encontrou uma correlação possível do Belviq com risco de câncer.

Essa potencial correlação já tinha sido veiculada por um canal popular de notícias, mas o tema teve alguns desdobramentos recentes. Ontem, dia 13 de fevereiro de 2020, a agência regulatória dos Estados Unidos – FDA – lançou um alerta, atualizado hoje, no qual descreve “até o momento, a causa de câncer é incerta, e não podemos concluir que a lorcasserina contribui para o risco de câncer”.

O estudo CAMMELLIA foi conduzido em 12.000 pacientes por pelo menos 5 anos. Vários tipos de câncer foram relatados, ocorrendo com mais frequência no grupo da lorcasserina, incluindo câncer pancreático, colorretal e de pulmão. A diferença dos casos de câncer foi pequena entre os grupos: no da lorcasserina foram relatados 470 casos (7,7% dos pacientes) de câncer versus 423 no grupo placebo (7,1%). A diferença absoluta e relativa foi pequena, mas…

O FDA recomendou ao médicos que considerem o risco-benefício quando decidir continuar o tratamento e aos pacientes para conversarem com seus médicos para tomarem a melhor decisão sobre o tratamento com a medicação.

A farmacêutica que distribui o medicamento enviou um comunicado para os médicos que está em contato com a Anvisa para alinhar conduta no território brasileiro e suspendeu a comercialização e distribuição do medicamento em todo território nacional.

Carta aos médicos

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia recomendam que os médicos entrem em contato com os pacientes para descontinuar a medicação.

Posicionamento das entidades médicas

Antes de entrar no desespero, devemos entender o que nem sempre uma correlação significa uma relação causa-efeito. Nesse episódio da lorcasserina, devemos lembrar que:

(1) o estudo que verificou esse desbalanço do número de pessoas com câncer entre os grupos do estudo (droga x placebo) foi desenhado para outro propósito, o de segurança cardiovascular;

(2) um estudo específico para avaliar o risco de câncer deve ser desenhado e desenvolvido com um número suficiente (geralmente grande) de pacientes para responder à pergunta se o Belviq está associado ao risco de câncer ou não.

A própria agência americana diz que ainda não se chegou a uma conclusão definitiva e ponderou esses pontos acima listados. Aguardamos ainda o posicionamento da Anvisa.

A obesidade, sim, já é reconhecida como um fator de risco para diversos tipos de câncer, com uma plausibilidade biológica, ou seja, com mecanismos biológicos relacionados já bem descritos. Além disso, a perda de peso parece estar associada à redução do risco de câncer. Nessa luta contra a obesidade vale a pena escolher bem as armas.

Se você estiver usando essa medicação, converse com seu médico e juntos tomem decisões compartilhadas de maneira slow.

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