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Dormir bem previne obesidade e diabetes

IMPORTÂNCIA DE UM BOM SONO

Há alguns anos tem se observado na literatura científica o interesse pela importância de ter se dormir bem para manter boa saúde.

Cada pessoa tem um cronotipo, isto é, períodos específicos do dia que se sentem mais alertas para o trabalho. De acordo com os cronotipos, os indivíduos podem ser: divididos em matutinos, intermediários e vespertinos (1).

Os indivíduos matutinos apresentam preferência por acordar nas primeiras horas da manhã e encontram dificuldades em manterem-se acordados além do seu horário habitual de dormir.

Os indivíduos vespertinos, por outro lado, preferem as horas tardias de ir para cama e acordar especialmente nos finais de semana, apresentam menor tempo de sono durante a semana (devido a compromissos diários) e maior tempo de sono durante os fins de semana (quando compensam o sono semanal perdido).

Recentemente o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos publicou que um terço da população americana não dormem bem (2).

SONO BOM PREVINE DIABETES E OBESIDADE

Na área da endocrinologia, diversos estudos indicam que os indivíduos que dormem menos têm uma maior possibilidade de se tornarem obesos, por conta de um desbalanço nos hormônios que promovem saciedade (leptina) e que aumentam a fome (grelina) (3).

O jet lag social, que traduz a discrepância entre ritmo circadiano próprio e tempo para o sono imposto por obrigações sociais levam a piora nos níveis de colesterol, aumento da insulina de jejum, aumento do peso e circunferência de cintura e maior resistência à insulina (4).

A luz noturna é uma outra vilã para o sono. A luz artificial o brilho azul da tela da televisão, a luz das ruas que passam através da janela, sem se falar da luz emitida pelos computadores, e aparelhos eletrônicos móveis têm sido implicados em aumento da obesidade e diabetes por alterar o ciclo circadiano (5).

Vale a pena então compensar o sono nos fins de semana?

Um estudo publicado na revista Clinical Endocrinology avaliou o efeito do sono compensado nos fins de semana. Os indivíduos que disseram não ter tempo de sono suficiente de segunda a sexta-feira e que compensam dormindo mais nos fins de semana. Os pesquisadores observaram que os participantes que não tinham tempo de sono suficiente durante a semana foram capazes de melhorar sua sensibilidade à insulina quando compensavam o sono por três noites (simulando um fim de semana). A compensação do sono nos fins de semana, entretanto, não devem substituir o esforço de dormir bem também nos dias da semana (6).

Algumas recomendações:

  • Profissionais de saúde devem rotineiramente perguntar sobre o padrão de sono dos pacientes e discutirem problemas de ronco e excesso de sonolência diurna, além de educar sobre a importância do sono para saúde;
  • Os indivíduos devem priorizar terem quantidade de sono suficiente e praticar hábitos de sono saudáveis;
  • Os indivíduos devem considerar minimizar a luz noturna,  retirando televisores e computadores dos quartos e usar cortinas tipo “blackout”.

Por fim, os indivíduos devem considerar o sono como uma prioridade, como é feito para uma boa dieta e atividade física para se manterem saudáveis.

PS. Para saber mais sobre o tema, sugiro a entrevista na Rádio USP sobre o tema de sono e com ótimas dicas no final do áudio.

Referências:

  1. http://blog.sbnec.org.br/2011/03/cronotipos-cronobiologia/
  2. http://www.cdc.gov/media/releases/2016/p0215-enough-sleep.html
  3. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302007000700004
  4. http://press.endocrine.org/doi/full/10.1210/jc.2015-2923
  5. http://press.endocrine.org/doi/pdf/10.1210/er.2013-1051
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25683266

Atividade física previne a progressão para o diabetes independentemente da perda de peso

Em 2002 foi publicado um importante estudo sobre a prevenção de diabetes em indivíduos acima do peso e com pré-diabetes, o estudo DPP (do inglês, Diabetes Prevention Program). Nele, foram comparados três grupos de pacientes: o grupo placebo, um grupo ao qual foi prescrito metformina 850mg duas vezes ao dia, e um terceiro grupo que recebeu aconselhamento contínuo para mudança de estilo de vida, com dieta e atividade física de pelo menos 150min por semana, visando uma perda de 7% do peso inicial e avaliada a progressão de pré-diabetes para diabetes.

Após uma média de três anos do início do estudo, nos indivíduos mais jovens, abaixo de 60 anos, a mudança de estilo de vida foi mais eficaz que o uso metformina, que por sua vez foi melhor que o grupo placebo em retardar progressão do pré-diabetes para o diabetes. Já nos indivíduos acima de 60 anos, a mudança de estilo de vida reduziu em 71% o risco da progressão para diabetes, e a administração de metformina mostrou ser uma medida pouco eficaz. Avaliando-se todos os pacientes que fizeram mudança de estilo de vida, o risco para progressão do diabetes reduziu em 58%.

Devido ao sucesso da mudança de estilo de vida, foi oferecido para todos os indivíduos um programa de mudança de estilo de vida e convidados a participar da continuação do estudo DPP, o DPPOS (Diabetes Prevention Program Outcome Study), cujos resultados foram publicados em 2009 e confirmaram a maior eficácia da mudança de estilo de vida quando comparadas a metformina e placebo.

Há poucas semanas, os resultados da observação de uma média de 12 anos desses pacientes foram anunciados durante o Congresso da Associação Americana de Diabetes. Os pesquisadores concluíram que, em todos os grupos de tratamento, a progressão para o diabetes foi menor nos indivíduos que eram fisicamente ativos, especificamente 2% de diminuição no risco, independentemente da perda de peso. O efeito protetor foi mais pronunciado naqueles que eram mais sedentários no início do estudo.

Antes desses resultados, pensava-se apenas que a atividade física tinha benefício apenas no auxílio da perda de peso, entretanto, mostrou-se benéfica por si só na prevenção do diabetes, devendo ser encorajada na prevenção do diabetes, bem como a perda de peso e alimentação saudável.

Referências:

http://www.niddk.nih.gov/about-niddk/research-areas/diabetes/diabetes-prevention-program-dpp/Pages/default.aspx

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3135022/

http://www.diabetes.org/newsroom/press-releases/2016/new-dpp-data-indicates-physical-activity-helps-prevent-type-2-diabetes-independent-of-weight-loss.html

Síndrome dos Ovários Policísticos

Normalmente, mulheres produzem pequenas quantidades de hormônios “masculinos”, chamados andrógenos. Mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) produzem quantidades levemente aumentadas de andrógenos.

A SOP pode afetar de cerca de 6,6% a 21% das mulheres em idade reprodutiva, na dependência do critério diagnóstico utilizado e da população estudada. 

O que é a Síndrome dos Ovários Policísticos?

É uma síndrome (agrupamento) de sinais (achados visíveis) ou sintomas, que tem como achados:
• Ciclos menstruais irregulares ou ausentes por conta de pouca (oligo-ovulação) ou nenhuma ovulação (anovulação)
• Infertilidade
• Ganho de peso (principalmente gordura abdominal)
• Acne
• Excesso de pelos na face e no corpo
• Afinamento de cabelos
• Escurecimento da pele (acantose nigricante)
• Depressão ou ansiedade
• Alterações do sono

Potencias causas da SOP

A exata causa da SOP é desconhecida. O tratamento da SOP pode reduzir o risco de complicações em longo prazo, como diabetes tipo 2 e doenças cardíacas nos pacientes de maior risco.

Resistência à ação da insulina – quando o corpo não consegue usar insulina de forma apropriada (resistência à ação da insulina), há aumento da secreção de insulina para tentar vencer a resistência e fazer a glicose entrar na célula. A SOP está geralmente associada à obesidade, fator de risco para resistência à ação da insulina. Muitas mulheres com SOP tendem a produzir muita insulina que age reduzindo a produção da proteína ligadora dos hormônios sexuais (SHGB), aumentando a fração livre dos hormônios por ela carreados, e estimulando a produção de andrógenos pelos ovários.  

Genética – SOP parece ter uma herança genética. Ter mãe ou irmã com esta condição pode aumentar o risco de também ter a doença.

Obesidade – mulheres com SOP têm mais risco de ganhar peso em excesso e mulheres que são obesas tem mais risco de terem SOP, há uma relação próxima, mas não absoluta, dessas duas condições.

Ao ultrassom, os ovários aparentam ter muitos pequenos folículos (também chamados cistos) que se arranjam em anel ao redor do ovário. Esses cistos correspondem a óvulos que não completaram seu desenvolvimento e não foram liberados pelo ovário (falha de ovulação ou anovulação). 

A SOP pode estar associada à uma série de problemas, mas nem todos se apresentam em pacientes que têm esse diagnóstico. As complicações podem ser:

-Abortamentos
Diabetes gestacional
-Pré-eclampsia
-Parto prematuro
-Câncer endometrial
-Diabetes tipo 2
-Hipertensão arterial
Síndrome metabólica
Alteração do colesterol e outras gorduras no sangue
-Apneia do sono está presente em até 50% das mulheres com SOP

Diagnóstico

O diagnóstico de SOP deve ser feito mediante a exclusão de outras condições, tais como hiperplasia adrenal congênita (defeito na síntese de hormônios da glândula adrenal), tumores secretores de andrógenos, Síndrome de Cushing (excesso de produção de cortisol), hiperprolactinemia e anovulação hipotalâmica. 

Existem vários critérios diagnósticos para a definir a SOP. O mais aceito é o critério de Rotterdam que considera dois de três critérios: 

  • oligo-ovulação ou anovulação crônica 
  • hiperandrogenemia e/ou hiperandrogenismo
  • achado de aspecto micropolicístico ao ultrassom  – Presença de 12 ou mais folículos com 2 e 9 mm de diâmetro ou aumento do
    volume ovariano (> 10 cm3)

Um critério mais antigo, o do National Institute of Health (NIH), considera a necessidade dos dois primeiros critérios anteriores em conjunto, dispensando o achado ultrassonográfico. 

Ao utilizar o critério do NIH, cerca de 6,6% das mulheres em idade fértil teriam o diagnóstico de SOP. Esse número pula para aproximadamente 21% se for utilizado os critérios do consenso de Rotterdam. Esses números variam também conforme a população estudada.

Critérios diagnósticos para SOP

NIH, 1990 Rotterdam, 2003 Sociedade AE-PCOS, 2006 
Necessário ambos: Dois dos seguintes: Sinais clínicos ou laboratoriais de hiperandrogenismo (necessário) 
Oligo-ovulação ou anovulação Oligo-ovulação ou anovulação E um dos seguintes: 
Sinais clínicos ou laboratoriais de hiperandrogenismo Sinais clínicos ou laboratoriais de hiperandrogenismo Oligo-ovulação ou anovulação 
  Ovários policísticos à ultrassonografia Ovários policísticos à ultrassonografia 

As complicações metabólicas e os potenciais riscos cardiovasculares parecem estar mais associados àquelas mulheres com hiperandrogenismo.  Nem todas as mulheres que têm aspecto de ovários policísiticos ao ultrassom tem a síndrome e nem todas as mulheres que têm a síndrome terão problemas cardiovasculares. Veja mais no post: sobrediagnóstico na SOP

Tratamento

Um estilo de vida saudável, incluindo dieta adequada, atividade física, cessação do tabagismo, controle do peso são fundamentais para todas as mulheres com diagnóstico de SOP. Quando a mudança de estilo de vida não é suficiente, medicações podem são utilizadas para:

-regular o ciclo menstrual
-estimular a ovulação (para as mulheres que desejam engravidar)
-reduzir o excesso de pelos e acne

A Síndrome dos Ovários Policísticos é uma condição mais ou menos dependendo do critério diagnóstico utilizado. Existem diferentes apresentações clínicas, algumas com mais risco de desenvolver complicações metabólicas e cardiovasculares, além das implicações para o sistema reprodutor. Mais estudos são necessários para avaliar quais pacientes são de maior risco para essas desfechos clínicos. 

Referências:

http://www.hormone.org/…/womens-h…/polycystic-ovary-syndrome

http://www.mayoclinic.org/…/…/basics/definition/con-20028841