Arquivo da tag: diabetes

Diabetes duplo: Quando as características dos dois principais tipos de diabetes se encontram

Se o diabetes tipo MODY é um tipo de diabetes que pode confundir por atingir a faixa etária do diabetes tipo 1 mas não precisa de insulina, e o diabetes tipo LADA pode ocorrer o mesmo por pegar faixa etária mais avançada porém precisar de insulina, mais um tipo conceito surge no espectro da síndrome do diabetes: o diabetes duplo. 

No diabetes duplo, a pessoa inicialmente é diagnosticada como tendo diabetes tipo 1 ou 2, mas ao decorrer do tratamento, as características de outro diabetes vai surgindo. Assim sendo, uma pessoa com diabetes tipo 1 pode desenvolver resistência à insulina que utiliza como tratamento, apesar da resistência à insulina ser uma característica principal do diabetes tipo 2.

Também pode ocorrer num jovem que aparenta na primeira avaliação ser portador de diabetes tipo 2, por ser obeso, porém no sangue podem estar presentes os anticorpos que atacam as células beta, revelando dessa forma que também é portador de diabetes tipo 1.

Acredita-se que a obesidade tenha um papel não só na resistência à insulina, mas também no desencadeamento de autoimunidade nos pacientes que são geneticamente susceptíveis ao diabetes tipo 1. Essa hipótese pode justificar o aumento dos casos de diabetes tipo 1 ao longo dos anos.

Sobre o Diabetes tipo 1 e 2:

Diabetes tipo 1  – é uma doença em que o sistema de defesa do organismo (sistema imune) ataca e destrói as células produtoras de do hormônio insulina (células beta) por meio dos anticorpos. A insulina promove a entrada de glicose da circulante no sangue para as células. Sem essa entrada de glicose na célula, a concentração de glicose aumenta no sangue além dos valores normais (hiperglicemia), o que caracteriza o diabetes. Acomete com maior frequência crianças e adolescentes;

Diabetes tipo 2 – acomete principalmente pessoas numa faixa etária mais avança, acima dos 40 anos. Devido à combinação de obesidade, sedentarismo e fatores genéticos, as células tornam-se resistentes à ação da insulina produzida pelo pâncreas. Os níveis de glicose permanecem elevados no sangue. O pâncreas tenta superar a resistência produzindo mais insulina, o que acaba por levá-lo à exaustão de sua capacidade de produzir esse hormônio após algum tempo.

Modificação de estilo de vida para controle do peso, incluindo dieta e exercícios já sabidamente importantes para prevenção de diabetes tipo 2, podem ser importantes também para prevenção de diabetes tipo 1 em pacientes com diabetes duplo.

Referências

http://www.diabetes.co.uk/double-diabetes.html

Cleland, S. J., Fisher, B. M., Colhoun, H. M., Sattar, N., & Petrie, J. R. (2013). Insulin resistance in type 1 diabetes: what is “double diabetes” and what are the risks? Diabetologia56(7), 1462–1470. http://doi.org/10.1007/s00125-013-2904-2

POZZILLI, P.  et al. Obesity, autoimmunity, and double diabetes in youth. Diabetes Care, v. 34 Suppl 2, p. S166-70, May 2011. ISSN 1935-5548

Glicosúria: açúcar na urina

SINAL DA DESCOMPENSAÇÃO DIABÉTICA OU EFEITO DE NOVA CLASSE DE MEDICAÇÕES?

A produção de urina doce é denominada “glicosúria”. Embora a glicosúria seja reconhecida por décadas como uma característica do diabetes descompensado, a mais nova classe de medicamentos para o tratamento do diabetes tipo 2, os inibidores de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina e canagliflozina) promovem eliminação do excesso de glicose pela urina por diminuir a sua reabsorção pelos rins.

Em condições normais, a glicose é totalmente reabsrvida e nenhuma glicose é observada na urina.

Ausência de glicosúria em condições normais Ausência de glicosúria em condições normais. A glicose é totalmente reabsorvida

Glicoúria por descompensação diabética

Diabetes – vem do grego e significa “sifão”, devido à grande quantidade de urina que é produzida nos quando a doença está descompensada;

Mellitus – vem do latim e significa “doce como mel”, que se refere à urina doce, resultado da eliminação do excesso de glicose do sangue pelos rins;

Portanto, o diabetes significa sifão de mel.

A glicose na urina aparece a grande quantidade de glicose no sangue excede a capacidade de reabsorção renal.

Glicose na urina (glicosúria) no diabetes descompensado Glicose na urina (glicosúria) no diabetes descompensado

Glicosúria e significado de diabetes mellitus

Inibidores do SGLT2

O uso dessas medicações conhecidas como inibidores do SGLT2 tem como efeitos: a diminuição dos níveis de glicose no sangue (glicemia) com o benefício adicional de diminuição da pressão, pois há eliminação também de sódio pela urina (natriurese), e também perda de peso pela eliminação de calorias da glicose excretada.

Glicosúria por inibição do SGLT2 Glicosúria por inibição do SGLT2

Deve haver muito cuidado dos pacientes com diabetes insulinodependentes quando em uso concomitante dessa classe de medicações. Além do aumento do risco de infecção genital, pode haver um quadro grave chamado cetoacidose diabética euglicêmica.

A conhecimento dessas medicações e seus efeitos adversos é importante para que achados como a glicosúria, antes representada quase exclusivamente pelo diabetes descompensado, seja interpretada como resultado de uma nova ação terapêutica.

Ferritina alta: causas, interpretação e tratamento

Ferritina alta: quando se preocupar?

Temos vistos muitos pacientes com a dosagem da ferritina elevada e de certa forma desesperados para normalizar o exame sem se atentar para causa.

A ferritina hoje está presente muitas vezes na listagem dos exames complementares solicitados como rotineiros por alguns médicos. Por conta do aumento da prevalência de obesidade, síndrome metabólica e diabetes, é muito comum que se observe o aumento dos níveis de ferritina nos exames de sangue na população.

A ferritina é uma proteína que serve como reservatório de moléculas de ferro no organismo. Uma molécula de ferritina guarda cerca de 4500 átomos de ferro.

Ao se deparar com esse exame altarado, há a preocupação de que seja descartada a hemocromatose, que é uma doença (de base genética ou não) que provoca aumento da absorção de ferro pelo intestino. O excesso de ferro se deposita ao longo do tempo em diversos tecidos causando danos em diversos órgãos, tais como: fígado (cirrose), pâncreas (diabetes), coração (arritmias), hipófise, testículos (hipogonadismo masculino), além de escurecimento na pele e problemas nas articulações.

Quando a ferritina está baixa, provavelmente não há excesso de depósito de ferro no organismo, porém, quando está alta, não quer dizer que a pessoa tem problemas com excesso de ferro.

O aumento da ferritina sem excesso de ferro no organismo pode acontecer em até 90% dos casos, ou seja, a grande maioria dos pacientes não apresentam hemocromatose.

Valores de referência

Níveis de ferritina em jejum

Normais:
<200 ng/mL para mulheres na pré menopausa
ou < 300 ng/mL para homens

Limite superior da normalidade
200 – 300 ng/mL para mulheres na pós menopausa

Nos casos de ferritina > 1000 ng/mL: encaminhar para especialista (hematologista ou gastroenterologista). Quadro 1.

O que pode causar tal confusão é que a ferritina também é uma proteína que se eleva em diversas condições como infecções, processos inflamatórios e alguns cânceres.

A obesidade e síndrome metabólica são reconhecidamente doenças que cursam com aumento da atividade inflamatória no organismo, por isso é comum que tais pacientes tenham aumento da ferritina em seus exames.

Causas de ferritina elevada sem sobrecarga de ferro

Comuns

Menos comuns

  • Tireotoxicose (excesso de hormônio tiroidiano)
  • Infarto agudo do miocárdio

Nos casos de ferritina elevada, a avaliação da saturação da transferrina (grau de ocupação de ferro na proteína que o transporta no sangue) deve ser avaliada. Os resultados da saturação da transferrina podem ser assim interpretados:

  • Saturação baixa – pode haver deficiência de ferro no organismo;
  • Saturação normal – não há sobrecarga de ferro no organismo, e pode não ser necessário o encaminhamento para especialista;
  • Saturação alta – um especialista na área (hematologista ou gastroenterologista) deve ser consultado para realizar testes adicionais de sobrecarga de ferro;

A determinação de outros marcadores no sangue, a proteína C reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS), podem ajudar a confirmar que o aumento da ferrtina é secundário a infeção ou inflamação.

ferritina alta Algoritmo de investigação da ferritina alta

Nos casos de ferritina e saturação de transferrina elevados, deve-se considerar a avaliação de um especialista para se descartar hemocromatose ou outras doenças que levam à sobrecarga de ferro no organismo.

É importante destacar que o exame não deve ser solicitado como rotina, a menos que seja para investigação nos casos de anemia ou quando há suspeita clínica de hemocromatose.

Tratamento

O tratamento vai depender da causa. Na maioria dos casos NÃO é necessária sangria. Esse tratamento é reservado para os casos de hemocromatose, que como vimos, é a minoria dos casos. Perda de peso, redução do consumo de álcool e outros tratamento da condição de base devem ser considerados. O importante é que o paciente seja visto como um todo, que se descubra e se trate a causa que leva a alteração do exame e não os números em si. Como foi dito, a ferritina alta é um marcador de uma doença e não a própria doença.

Atualizado em 04/06/18

Referências:

  • KOPERDANOVA, M.; CULLIS, J. O. Interpreting raised serum ferritin levels. BMJ, v. 351, p. h3692, Aug 2015. ISSN 1756-1833
  • https://www.niddk.nih.gov/health-information/liver-disease/hemochromatosis
  • https://www.cdc.gov/nchs/ppt/icd9/att2_berglund_sep09.pdf
  • http://www.racgp.org.au/…/2012/dec…/elevated-serum-ferritin/